{"id":2446,"date":"2018-10-16T18:54:22","date_gmt":"2018-10-16T18:54:22","guid":{"rendered":"https:\/\/pos-graduacao.uepb.edu.br\/ppgli\/?page_id=2446"},"modified":"2018-10-24T13:28:43","modified_gmt":"2018-10-24T13:28:43","slug":"seminario-discente-2018","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/pos-graduacao.uepb.edu.br\/ppgli\/seminario-discente-2018\/","title":{"rendered":"Semin\u00e1rio Discente 2018"},"content":{"rendered":"<p>Resumos Mestrado<\/p>\n<p>[wptabs mode=&#8221;horizontal&#8221; type=&#8221;accordion&#8221;]<br \/>\n[wptabtitle] <strong>Alexis Ouellet-Simard<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><strong>Uma interpreta\u00e7\u00e3o do Mito de S\u00edsifo \u00e0 luz do Bhagavad-G\u012bt\u0101<\/strong><\/p>\n<p>Mestrando:\u00a0Alexis Ouellet-Simard<br \/>\nOrientador: Professor Dr. Eli Brand\u00e3o da Silva<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nNo presente projeto de mestrado, partimos de algumas pesquisas que revelam uma<br \/>\nliga\u00e7\u00e3o entre a filosofia de Albert Camus e o tratado teol\u00f3gico-filos\u00f3fico hindu Bhagavad-G\u012bt\u0101<br \/>\n(BG). A partir dessas pesquisas, investigaremos a possibilidade de fazermos uma hermen\u00eautica<br \/>\ndo Mito de S\u00edsifo (MS) utilizando como background alguns conceitos desenvolvidos no BG.<br \/>\nConsiderando-se a influ\u00eancia da filosofia indiana no trabalho de Camus, parece-nos<br \/>\nplaus\u00edvel e relevante essa liga\u00e7\u00e3o entre Camus e o BG. De fato, Camus havia lido a BG em<br \/>\n1931 sob a orienta\u00e7\u00e3o de Jean Grenier, ele pr\u00f3prio um grande conhecedor da filosofia indiana.<br \/>\nAl\u00e9m disso, os pensadores ocidentais que influenciaram muito Camus foram eles mesmos<br \/>\ninfluenciados pela filosofia indiana, dentre os quais, podemos citar Plotino, Santo Agostinho e<br \/>\nNietzsche. Dessa forma, podemos notar influ\u00eancias diretas e indiretas dessa filosofia nos<br \/>\nescritos de Camus.<br \/>\nA partir disso, para realizar nossa pesquisa, dividiremos nosso trabalho em tr\u00eas<br \/>\ncap\u00edtulos. O primeiro cap\u00edtulo abordar\u00e1 alguns aspectos da vida e da obra de Camus, o segundo<br \/>\nabordara o BG e o \u00faltimo ser\u00e1 a interpreta\u00e7\u00e3o do MS \u00e0 luz do BG, conforme elencaremos<br \/>\nabaixo.<\/p>\n<p><strong>Cap\u00edtulo 1 \u2013 Albert Camus<\/strong><br \/>\n<em>1.1 Biografia<\/em><br \/>\nComo Camus teoriza a partir de experi\u00eancias da vida, uma breve apresenta\u00e7\u00e3o de sua<br \/>\nbiografia nos ser\u00e1 \u00fatil para entender seu trabalho. N\u00f3s, portanto, apresentaremos aqui que<br \/>\nCamus vem de uma fam\u00edlia pobre na Arg\u00e9lia, que seu pai morreu na guerra quando ele tinha 1<br \/>\nano de idade e que Camus sofria de tuberculose. Apesar das condi\u00e7\u00f5es de vida aparentemente<br \/>\ndif\u00edceis, parece que Camus nunca deixou de apreciar as belas e simples coisas da vida. Al\u00e9m<br \/>\ndisso, podemos perceber que a Segunda Guerra Mundial teve um efeito significativo em seu<br \/>\ntrabalho. De fato, quando Camus chegou \u00e0 cena liter\u00e1ria de Paris no final da d\u00e9cada de 1930,<br \/>\nhavia uma atmosfera de tortura, tormento, desencantamento, desespero, medo e frustra\u00e7\u00e3o. A<br \/>\nliteratura da \u00e9poca reflete essa atmosfera sombria (Chandra, 1995).<br \/>\nTamb\u00e9m notamos que durante toda a sua vida ele estava muito preocupado com<br \/>\nquest\u00f5es de justi\u00e7a. Por exemplo, ele era muito tocado pelos conflitos armados de seu tempo e<br \/>\nse envolveu para tentar denunciar as injusti\u00e7as, entre outras coisas, atrav\u00e9s de seu trabalho como<br \/>\nescritor e atrav\u00e9s de reportagens jornal\u00edsticas. Finalmente, notamos que ele gostava da medita\u00e7\u00e3o e dos retiros em diferentes centros religiosos e espirituais. Dessa forma, ele explorou<br \/>\ndiferentes religi\u00f5es sem, entretanto, seguir nenhum dogma.<\/p>\n<p><em>1.2 A Obra de Camus<\/em><br \/>\nTr\u00eas ideias fortes dominam o trabalho de Camus: o absurdo da condi\u00e7\u00e3o humana, a<br \/>\ninevitabilidade da morte e uma constante busca rebelde pela felicidade (Chandra, 1995).<br \/>\nTamb\u00e9m notamos que quest\u00f5es atuais est\u00e3o na origem de todos seus livros. De fato, seu trabalho<br \/>\n\u00e9 caracterizado pelo fato de que todas essas cria\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias lidam com quest\u00f5es importantes<br \/>\ncomo, por exemplo, suic\u00eddio, culpa, inoc\u00eancia, justi\u00e7a, julgamento, dever &#8230;<\/p>\n<p><em>1.3 O Mito do S\u00edsifo<\/em><br \/>\nO Mito de S\u00edsifo foi publicado no come\u00e7o da Segunda Guerra Mundial. \u00c9 nesse ensaio<br \/>\nque Camus introduz sua filosofia do absurdo. Sucintamente falando, o ensaio come\u00e7a com a<br \/>\ndeclara\u00e7\u00e3o de que \u201cs\u00f3 existe um problema filos\u00f3fico realmente s\u00e9rio: \u00e9 o suic\u00eddio. Julgar se a<br \/>\nvida vale ou n\u00e3o vale a pena ser vivida \u00e9 responder \u00e0 quest\u00e3o fundamental da filosofia\u201d<br \/>\n(CAMUS, 1989). O MS procura descrever a sensa\u00e7\u00e3o indescrit\u00edvel do absurdo em nossas vidas.<br \/>\nS\u00edsifo, por ter desafiado os deuses foi capturado e recebeu sua puni\u00e7\u00e3o. Por toda a<br \/>\neternidade ele seria condenado a empurrar uma pedra do sop\u00e9 de uma montanha at\u00e9 o seu cimo.<br \/>\nAo finalizar essa subida, a pedra rolaria para baixo e ele teria que come\u00e7ar tudo outra vez,<br \/>\nrepetidamente. Nessa repeti\u00e7\u00e3o sem sentido, vemos a apresenta\u00e7\u00e3o da figura do her\u00f3i absurdo,<br \/>\nvisto que mesmo reconhecendo a falta de sentido no que se faz, ele continua executando sua<br \/>\ntarefa di\u00e1ria. A condi\u00e7\u00e3o do absurdo descrita nesse ensaio baseia-se principalmente na ideia de<br \/>\nque uma grande parte da nossa vida se fundamenta na esperan\u00e7a do futuro, quando, de fato esse<br \/>\namanh\u00e3 nos aproxima constantemente da morte.<\/p>\n<p><strong>Cap\u00edtulo 2 &#8211; Bhagavad-G\u012bt\u0101<\/strong><br \/>\nO BG, que pode ser traduzido como &#8220;A Can\u00e7\u00e3o de Deus&#8221;, \u00e9 um dos textos fundamentais<br \/>\nda filosofia indiana. \u00c9 um poema filos\u00f3fico de grande profundidade que trata de quest\u00f5es<br \/>\nteol\u00f3gicas e filos\u00f3ficas. Devido \u00e0 sua grande influ\u00eancia, \u00e9 por vezes chamada de \u201cB\u00edblia hindu\u201d,<br \/>\ncuja estrutura est\u00e1 organizada em 18 cap\u00edtulos que cont\u00eam 700 versos. Este texto aborda<br \/>\nquest\u00f5es centrais sobre a condi\u00e7\u00e3o humana, quais sejam: Quem somos n\u00f3s? Por que sofremos?<br \/>\nExiste uma vida ap\u00f3s a morte? Como podemos nos tornar e permanecer felizes?<br \/>\nA narrativa consiste em um di\u00e1logo entre Arjuna e Krishna. O guerreiro Arjuna<br \/>\nencontra-se em um dilema moral aparentemente insol\u00favel e pede ajuda ao seu primo, amigo e cocheiro Krishna, a fim de encontrar uma solu\u00e7\u00e3o. Arjuna est\u00e1 no campo de batalha de<br \/>\nKuruksetra na \u00cdndia, vivendo uma situa\u00e7\u00e3o na qual a guerra fratricida \u00e9 iminente. Por direito, o<br \/>\ntrono pertence a Arjuna e seus irm\u00e3os, mas devido a gan\u00e2ncia de seus primos que se recusaram<br \/>\na deixar o trono, a guerra se fez necess\u00e1ria. Antes do in\u00edcio da guerra, Arjuna pede a Krishna<br \/>\nque o leve ao meio onde os dois ex\u00e9rcitos encontram-se em posi\u00e7\u00e3o de combate. Ao ver de<br \/>\nambos os lados seus entes queridos, professores, amigos e tantos outros guerreiros, aos quais<br \/>\nlhes tinham imensa admira\u00e7\u00e3o e estima, Arjuna, consciente do massacre que estava prestes a<br \/>\nacontecer, decide renunciar \u00e0 guerra. Assim, em resposta \u00e0 ang\u00fastia apresentada por Arjuna,<br \/>\nKrishna pronuncia o Bhagavad-G\u012bt\u0101 para ajud\u00e1-lo a emergir do que pode parecer, \u00e0 primeira<br \/>\nvista, um dilema moral insol\u00favel.<\/p>\n<p><strong>Cap\u00edtulo 3 &#8211; Interpreta\u00e7\u00e3o do Mito de S\u00edsifo \u00e0 luz do Bhagavad-G\u012bt\u0101<\/strong><br \/>\nA fim de fazermos uma interpreta\u00e7\u00e3o do Mito de S\u00edsifo considerando alguns conceitos<br \/>\npertinentes ao BG achamos apropriado fazer uma divis\u00e3o do mito em cinco partes como se<br \/>\nsegue.<\/p>\n<p><em>3.1 A subida<\/em><br \/>\nAo analisarmos a subida de S\u00edsifo empurrando a pedra at\u00e9 o cimo da montanha,<br \/>\nencontramos a alus\u00e3o ao esfor\u00e7o, ao trabalho repetitivo, que a inexor\u00e1vel a\u00e7\u00e3o do tempo ir\u00e1 por<br \/>\ncabo de todo trabalho realizado. Por\u00e9m, nessa subida, ele est\u00e1 t\u00e3o compenetrado na execu\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sua tarefa, t\u00e3o identificado com a sua pedra que n\u00e3o tem tempo para refletir sobre a descida<br \/>\nque ser\u00e1 inevit\u00e1vel uma vez que o objetivo da subida seja cumprido. Inicialmente, podemos<br \/>\nressaltar a presen\u00e7a de alguns elementos tais como a a\u00e7\u00e3o, a execu\u00e7\u00e3o de seu dever prescrito, o<br \/>\nsofrimento decorrente de todo esfor\u00e7o empreendido na execu\u00e7\u00e3o de seu dever. Nesse n\u00edvel, \u00e9<br \/>\nposs\u00edvel tra\u00e7ar paralelos interessantes com as dificuldades de Arjuna em participar da guerra<br \/>\nfratricida. O discurso de Krishna para Arjuna tamb\u00e9m poderia ser endere\u00e7ado a S\u00edsifo.<\/p>\n<p><em>3.2 A descida<\/em><br \/>\nUma vez que o cume \u00e9 atingido e a pedra rola montanha abaixo, S\u00edsifo come\u00e7a a sua<br \/>\ndescida. \u00c9 nessa descida que ele, n\u00e3o mais imerso no esfor\u00e7o da subida, fica consciente, ou tem<br \/>\no tempo de refletir sobre sua condi\u00e7\u00e3o. \u00c9 nessa hora de consci\u00eancia da imperman\u00eancia de seu<br \/>\ntrabalho que ele realiza o absurdo. De acordo com Camus \u00e9 a consci\u00eancia da imperman\u00eancia de<br \/>\nseu trabalho que corr\u00f3i a esperan\u00e7a de ser bem-sucedido, pois qual seria o sucesso atrelado ao<br \/>\nseu trabalho uma vez que t\u00e3o logo ele realize a tarefa de transportar sua pedra at\u00e9 o alto, logo<br \/>\nse inicia a descida?<br \/>\nNesse contexto, tamb\u00e9m encontramos no BG a reflex\u00e3o sobre imperman\u00eancia das<br \/>\ncoisas, sobre o estado de inconsci\u00eancia decorrente da ilus\u00e3o ou maya que aprisiona o homem<br \/>\nna mesma condi\u00e7\u00e3o de inconsci\u00eancia vivida por S\u00edsifo no momento de sua subida.<\/p>\n<p><em>3.3 O absurdo<\/em><br \/>\nUm dos paradoxos essenciais que encontramos na filosofia de Camus concerne a sua<br \/>\nno\u00e7\u00e3o do absurdo (Aronson, 2017), para ele, a filosofia come\u00e7a com a quest\u00e3o sobre o sentido<br \/>\nda exist\u00eancia. Nessa perspectiva, qual seria o sentido da exist\u00eancia para S\u00edsifo na sua condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde condenado a repetir eternamente a mesma tarefa? Assim o paradoxo se configura pelo<br \/>\nabsurdo de se buscar respostas para essas quest\u00f5es primordiais e a impossibilidade de se<br \/>\nencontrar essas respostas. Nesse sentido, percebemos uma analogia com o personagem Arjuna<br \/>\nno BG, o qual se encontrava em seu paradoxo existencial sobre qual o sentido, ou qual bem<br \/>\ndecorreria da morte de muitos daqueles presentes na guerra. Entretanto, ap\u00f3s as instru\u00e7\u00f5es de<br \/>\nKrishna, as quais descortinaram-lhe o v\u00e9u das ilus\u00f5es, ele, como o guerreiro que era, escolhe<br \/>\nexecutar seu dever consciente de que nada pode durar e, de fato, n\u00e3o existe vit\u00f3ria final.<\/p>\n<p><em>3.4 O desapego<\/em><br \/>\nUma vez que S\u00edsifo se torna consciente da sua situa\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica, da constata\u00e7\u00e3o de que<br \/>\nn\u00e3o existe verdadeiramente um sucesso final na sua tarefa realizada, como conviver com a sua<br \/>\nrealidade? \u00c9 poss\u00edvel imaginar S\u00edsifo feliz quando ele se desapega da ideia de sucesso final, ou<br \/>\nseja, quando ele se desapega do resultado de suas a\u00e7\u00f5es. Analogamente, somente quando Arjuna<br \/>\ndesapega-se do sucesso ou do fracasso decorrente de suas a\u00e7\u00f5es ele consegue encontrar a paz<br \/>\nde esp\u00edrito na execu\u00e7\u00e3o dos seus deveres de guerreiro.<\/p>\n<p><em>3.5 A felicidade<\/em><br \/>\nEncontramos em S\u00edsifo a possibilidade de vivermos com a certeza de um destino<br \/>\nesmagador, sem a resigna\u00e7\u00e3o que deveria acompanhar esse fato. A resigna\u00e7\u00e3o seria vista como<br \/>\numa tend\u00eancia \u00e0 ina\u00e7\u00e3o. \u00c9 fato que todos n\u00f3s iremos morrer, mas essa realidade n\u00e3o nos priva<br \/>\nde agirmos cotidianamente executando as tarefas que precisam ser executadas. Talvez, a<br \/>\naceita\u00e7\u00e3o das coisas como elas s\u00e3o, seja um elemento indispens\u00e1vel para sairmos das ilus\u00f5es,<br \/>\nou para termos os momentos de consci\u00eancia tal qual S\u00edsifo na sua descida, e, exatamente nesses<br \/>\nmomentos de lucidez, por mais tr\u00e1gico que possa parecer, \u00e9 quando nos apropriamos da nossa<br \/>\ncondi\u00e7\u00e3o humana na qual cada perspectiva do que vivemos vai constituindo nosso mundo.<br \/>\nDiante dessa possibilidade de se pensar a felicidade a despeito do absurdo e do tr\u00e1gico que<br \/>\npermeiam a vida, investigaremos que tipo de felicidade \u00e9 essa de acordo com os tipos de<br \/>\nfelicidade descritos no BG.<\/p>\n<p><strong>5. Refer\u00eancias<\/strong><br \/>\nARONSON, Ronald. \u201cAlbert Camus\u201d. In The Stanford Encyclopedia of Philosophy,<br \/>\norganizado por Edward N. Zalta. Metaphysics Research Lab, Stanford University, 2017.<br \/>\nhttps:\/\/plato.stanford.edu\/archives\/sum2017\/entries\/camus\/.<br \/>\nBAISHANSKI, Jacqueline. L\u2019orient dans la pens\u00e9e du jeune Camus: L\u2019\u00e9tranger, un nouvel<br \/>\n\u00e9vangile. Vol. 56. Lettres Modernes Minard, 2002.<br \/>\nBHAWUK, Dharm. Spirituality and Indian Psychology: Lessons from the Bhagavad-G\u012bt\u0101.<br \/>\nInternational and Cultural Psychology. New York: Springer, 2011.<br \/>\nBOVE, Laurent. Albert Camus, de la Transfiguration: Pour Une Exp\u00e9rimentation. Paris:<br \/>\nPublications de la Sorbonne, 2014.<br \/>\nBRUNEL, Pierre, e Aeneas BASTIAN. Sisyphe\u202f: Figures &amp; Mythes. Monaco: Editions du<br \/>\nRocher, 2004.<br \/>\nCAMUS, Albert. Caligula. Paris: GALLIMARD, 1993.<br \/>\n\u2014\u2014\u2014. Le mythe de Sisyphe. Editions Gallimard, 2016.<br \/>\n\u2014\u2014\u2014. O Mito de S\u00edsifo. Tradu\u00e7\u00e3o e Apresenta\u00e7\u00e3o de Mauro Gama, Editora Guanabara,<br \/>\n1989.<br \/>\n\u2014\u2014\u2014. L\u2019\u00e9tranger. Ernst Klett Sprachen, 2005.<br \/>\n\u2014\u2014\u2014. L\u2019homme r\u00e9volt\u00e9. Editions Gallimard, 2016.<br \/>\nCAMUS, Albert, e Raymond GAY-CROSIER. Carnets I, II, III: Mai 1935 &#8211; d\u00e9cembre 1959.<br \/>\nPlace of publication not identified: Folio, 2013.<br \/>\nCHANDRA, Sharad. Albert Camus et l\u2019Inde. Paris: BALLAND, 1995.<br \/>\nCROCHET, Monique. Les mythes dans l\u2019oeuvre de Camus. \u00c9dition universitaires, 1973.<br \/>\nSILVESTRE, Ricardo Sousa, e Ithamar THEODOR (Organizadores). Filosofia e Teologia da<br \/>\nBhagavad-G\u00edt\u00e3. Hindu\u00edsmo e Vaishnavismo de Caitanya. Edi\u00e7\u00e3o: 1a<br \/>\n. Juru\u00e1, 2015.<br \/>\nGASSIN, Jean. L\u2019univers symbolique d\u2019Albert Camus. Vol. 6. Librairie Minard, 1981.<br \/>\nGRENIER, Jean. Albert Camus: Souvenirs. Editions Gallimard, 1968.<br \/>\n6<br \/>\nHERBERT, Jean. R\u00e9flexions sur la Bhagavad-G\u00eet\u00e2. Nouv. \u00e9d.. Spiritualit\u00e9s vivantes\u202f; 127.<br \/>\nParis: Albin Michel, 1994.<br \/>\nKING, Adele, org. Camus\u2019s L\u2019Etranger: Fifty Years On. 1st ed. 1992 \u00e9dition. Place of<br \/>\npublication not identified: Palgrave Macmillan, 1992.<br \/>\nLAKOFF, George, e Mark JOHNSON. Les m\u00e9taphores dans la vie quotidienne. Paris:<br \/>\nEditions de Minuit, 1986.<br \/>\nNADKARNI, M. V. Bhagavad-G\u012bt\u0101 for the Modern Reader: History, Interpretations and<br \/>\nPhilosophy. London: Routledge, Taylor &amp; Francis Group, 2017.<br \/>\nNGUYEN-VAN-HUY, Pierre. La Metaphysique du bonheur chez Albert Camus.-Neuchatel:<br \/>\nLa Baconniere (1962). XVII, 248 S. 8\u00b0. Langages, 1962.<br \/>\nSWAMI, A. C. Bhaktivedanta. Bhagavad-G\u012bt\u0101. New edition \u00e9dition. Los Angeles:<br \/>\nBhaktivedanta Book Trust, 2001.<br \/>\nTHEODOR, Ithamar. Exploring the Bhagavad-G\u012bt\u0101: Philosophy, Structure and Meaning.<br \/>\nFarnham, Surrey, England\u202f; Burlington, VT: Routledge, 2010. [\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<strong>Ana Luisa Barbosa de Melo<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Desvelando os desejos sexuais de personagens trans: a configura\u00e7\u00e3o do desejo da travesti Amara Moira e do trans-masculino Jo\u00e3o W. Nery<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aluna: Ana Luisa Barbosa de Melo<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Resumo para o semin\u00e1rio discente<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A presente pesquisa ter\u00e1 como corpus de an\u00e1lise duas obras liter\u00e1rias intituladas de: Se eu fosse puta, da autora travesti Amara Moira, bem como a obra Viagem Solit\u00e1ria: Mem\u00f3rias de um transexual trinta anos depois, escrita pelo transexual masculino Jo\u00e3o W. Nery. Estas obras tratam-se de autobiografias sobre as viv\u00eancias dos personagens, cujos g\u00eanero e sexualidade fogem da regra imposta pelos modelos heteronormativos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De acordo com Bento (2008) a heterossexualidade \u00e9 percebida como um regime de poder, uma vez que cada corpo rec\u00e9m-nascido \u00e9 inscrito em constantes opera\u00e7\u00f5es de repeti\u00e7\u00e3o e de recita\u00e7\u00e3o dos c\u00f3digos investidos como naturais. Sendo assim, o corpo sexuado e a suposta ideia de complementaridade natural ganha inteligibilidade por meio da heterossexualidade. Percebemos assim que a heterossexualidade \u00e9 percebida como uma verdade absoluta, uma vez que suas pr\u00e1ticas e discursos pautados no modelo heterossexual s\u00e3o percebidos de maneira naturalizada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"> Desta forma, nossa pesquisa pretende analisar dois personagens que n\u00e3o condizem com modelos heteronormativos, sendo estes subversivos as normas de g\u00eanero e de sexualidade, por meio da an\u00e1lise do comportamento das pr\u00e1ticas sexuais vivenciadas pelos personagens Jo\u00e3o W. Nery e Amara Moira. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O objetivo geral da presente pesquisa consiste em analisar a seguinte hip\u00f3tese: tendo em vista as mudan\u00e7as realizadas no corpo da travesti Amara Moira e no corpo do transhomem Jo\u00e3o W. Nery, tais sujeitos ainda permanecem como indiv\u00edduos masculinos e femininos de acordo com seu sexo biol\u00f3gico. Para tanto, responderemos os seguintes questionamentos: Para que serve a genit\u00e1lia sexual dos personagens na execu\u00e7\u00e3o do ato sexual? De que forma estes personagens utilizam partes do seu corpo a fim de substituir seu \u00f3rg\u00e3o sexual? Existe orgasmo na rela\u00e7\u00e3o sexual de sujeitos travestis e transexuais? Sendo assim, deveremos considerar quest\u00f5es que envolvem o processo da constru\u00e7\u00e3o do desejo destes personagens, atentando-se para o fato da exist\u00eancia da padroniza\u00e7\u00e3o destes desejos por meio dos moldes heterossexuais. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"> \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A heterossexualiza\u00e7\u00e3o do desejo requer e institui a produ\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00f5es discriminadas e assim\u00e9tricas entre \u201cfeminino\u201d e \u201c masculino\u201d, em que estes s\u00e3o compreendidos como atributos expressivos de \u201cmacho\u201d e de \u201cf\u00eamea\u201d. A matriz cultural por meio da qual por meio da qual a identidade de g\u00eanero se torna intelig\u00edvel exige que certos tipos de \u201cidentidade\u201d n\u00e3o possam existir-isto \u00e9, aqueles em que o g\u00eanero n\u00e3o decorre do \u201csexo\u201d nem do \u201cg\u00eanero\u201d. (Butler, 2016, p.44) <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Neste sentido, iremos buscar compreender se essa matriz cultural realmente ir\u00e1 influenciar na sexualidade do transexual masculino e da travesti, transcendendo a quest\u00e3o dos binarismos impostos pelos modelos normatizados pelo modelo sexual heteronormativo: macho x f\u00eamea, entretanto \u00e9 importante salientarmos que \u201c os corpos pensados fora do binarismo biol\u00f3gico sempre retornam a base primeira: porque essas discuss\u00f5es n\u00e3o pendem para mat\u00e9ria em que se realizam os sujeitos, mas para o desejo\u201d (Silva, 2014, p.157). Neste sentido, percebemos que por mais que existam distintas performances sexuais nenhuma delas conseguiu de fato abstrair a forma biol\u00f3gica e bin\u00e1ria do sujeito homem ou mulher, com p\u00eanis ou vagina. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na nossa presente pesquisa utilizaremos o arcabou\u00e7o te\u00f3rico sobre a constru\u00e7\u00e3o do g\u00eanero a partir de uma perspectiva queer, sendo assim, utilizaremos Butler (2016) a fim de compreendermos a constru\u00e7\u00e3o do g\u00eanero dos sujeitos transexuais e travestis, sendo estes os personagens escolhidos na referida an\u00e1lise. A maioria das teorias feministas entende o sexo como subst\u00e2ncia, como aquilo que \u00e9 id\u00eantico a si mesmo, e o g\u00eanero enquanto &#8220;atributo&#8221; de pessoa. Entrementes, Butler (idem) defende que o g\u00eanero configuraria um fen\u00f4meno inconstante e contextual, n\u00e3o podendo denotar um ser substantivo, mas ser \u201cum ponto relativo de converg\u00eancia entre conjuntos espec\u00edficos de rela\u00e7\u00f5es, cultural e historicamente convergentes&#8221; (BUTLER, 2016, p. 29). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Neste sentido, percebemos que Butler percebe o g\u00eanero como algo que est\u00e1 fora das constru\u00e7\u00f5es bin\u00e1rias (macho x f\u00eamea), desnaturalizando assim a interpreta\u00e7\u00e3o dos g\u00eaneros por meio de uma premissa cultural que nos imp\u00f5em modelos pr\u00e9-estabelecidos de sermos homens e mulheres em um determinado corpus social. Entretanto, nossa pesquisa pretende desconstruir tal arcabou\u00e7o te\u00f3rico, refletindo sobre o fato de n\u00e3o conseguirmos fugir das constru\u00e7\u00f5es de g\u00eanero embasadas na dicotomia (macho x f\u00eamea). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De acordo com Silva (2014) o sexo encontrado, com o qual nascemos, n\u00e3o passa de dois: ou P\u00eanis, ou vagina, ou seja, por mais que tentemos fugir dessa dualidade, na-para constru\u00e7\u00e3o dos corpos, os sujeitos tender\u00e3o a subjetivar-se como homens ou mulheres, o personagem Jo\u00e3o W. Nery subjetiva-se como um sujeito pertencente ao sexo masculino, mesmo tendo nascido com uma vagina, enquanto que Amara Moira subjetiva-se como um sujeito pertencente ao sexo feminino, mesmo tendo nascido com um p\u00eanis. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Entretanto, nas rela\u00e7\u00f5es sexuais, na presente pesquisa pretendemos demonstrar que os personagens selecionados (Amara Moira e Jo\u00e3o W. Nery) ao praticarem o ato sexual comportam-se de acordo com o seu sexo biol\u00f3gico, mesmo que para isso os mesmos tenham que utilizar recursos diferenciados para-na substitui\u00e7\u00e3o de suas genit\u00e1lias a fim de proporcionarem prazer para seus companheiros, nem sempre atingindo sua pr\u00f3pria satisfa\u00e7\u00e3o sexual. Al\u00e9m da quest\u00e3o do g\u00eanero, analisaremos teoricamente caracter\u00edsticas importantes que dizem respeito ao transexual e ao travesti.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"> De acordo com Butler (2016) as express\u00f5es transexualidade, travestilidade, transg\u00eanero s\u00e3o express\u00f5es identit\u00e1rias que revelam diverg\u00eancias com as normas de g\u00eanero, tendo em vista que est\u00e3o fundadas no dimorfismo, na heterossexualidade e nas idealiza\u00e7\u00f5es. Neste sentido, as normas de g\u00eanero ser\u00e3o definidas a partir do que \u00e9 considerado como \u201creal\u201d, delimitando assim o campo no qual se pode conferir humanidade aos corpos. \u00a0De acordo com Bento (2008) a transexualidade \u00e9 percebida como uma experi\u00eancia identit\u00e1ria, caracterizada pelo conflito existente com as normas de g\u00eanero, sendo esta uma caracter\u00edstica comum ao comportamento do travesti.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> \u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O travesti erotizou o mundo. N\u00e3o s\u00f3 as pessoas se livraram de suas inibi\u00e7\u00f5es como tamb\u00e9m podiam experimentar, hipoteticamente pelo menos, um novo corpo e seus prazeres. A troca de roupa era tamb\u00e9m uma troca de desejos. O resultado era uma fuga do \u2018natural\u2019 \u2013 de tudo o que fosse culturalmente preordenado \u2013 para novos dom\u00ednios da desordem voluptuosa (CASTLE, 1999, p. 201). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tendo em vista que as narrativas das obras selecionadas se tratam de autobiografias, analisaremos a constru\u00e7\u00e3o das subjetividades destas personagens por meio da compreens\u00e3o das escritas de si. Os estudos latino americanos frente as escritas de si, se preocuparam com essa quest\u00e3o de perceber o conceito de autofic\u00e7\u00e3o, com os estudos de Diana Klinger (2007), tal autora afirma que: <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nosso objetivo \u00e9 articular a escrita com uma no\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da subjetividade, isto \u00e9, um sujeito n\u00e3o essencial, incompleto e suscet\u00edvel de autocria\u00e7\u00e3o, a autofic\u00e7\u00e3o tal qual a definiremos aqui surge em sintonia com o narcisismo da sociedade midi\u00e1tica contempor\u00e2nea, mas, ao mesmo tempo, produz uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre ele. (KLINGER,2007<\/span><span style=\"font-weight: 400\">) \u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Notamos por meio do trecho acima citado que a escrita autoficcional \u00e9 um produto da era p\u00f3s-moderna, na qual os sujeitos escritores est\u00e3o perpassados por um cen\u00e1rio cultural cheio de ambiguidades, fragmenta\u00e7\u00e3o, incertezas e inseguran\u00e7as, desta forma o sujeito \u00e9 impelido em contar toda a \u201cverdade\u201d devido essas limita\u00e7\u00f5es que envolvem o seu processo criativo cheio de incertezas sobre os fatos que foram vivenciados dentro do processo da escrita. Desta forma, a autofic\u00e7\u00e3o seria um tipo de autobiografia dos tempos p\u00f3s-modernos, sendo assim analisaremos as personagens em quest\u00e3o tomando por base suas representa\u00e7\u00f5es auto ficcionais.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BENTO, Berenice. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O que \u00e9 Transexualidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. 1 ed. S\u00e3o Paulo: brasiliense, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_______, Berenice. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A reinven\u00e7\u00e3o do Corpo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: sexualidade e g\u00eanero na experi\u00eancia transexual. Rio de Janeiro: Garamond, 2006. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BUTLER, Judith. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Problemas de g\u00eanero: feminismo e subvers\u00e3o da identidade. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Tradu\u00e7\u00e3o de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. 2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CASTLE, T. A cultura do Travesti: sexualidade e baile de m\u00e1scaras na Inglaterra do s\u00e9culo XVIII. In: Rousseau G. S. et al (orgs.). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Submundos do sexo no Iluminismo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">KLINGER, Diana<\/span><b>. <\/b><i><span style=\"font-weight: 400\">Escritas de si, escritas do outro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. O retorno do autor e a virada etnogr\u00e1fica. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SILVA, Ant\u00f4nio de P\u00e1dua Dias da et al. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Interfaces<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: G\u00eanero, discurso, linguagens. S\u00e3o Paulo: Scortecci, 2014.315p.<\/span> [\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<strong>Anna Paula Aires de Souza<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>ESTRAT\u00c9GIAS DE REFERENCIALIDADE E ESPETACULARIZA\u00c7\u00c3O EM RICARDO LISIAS, JACQUES FUX, MARIO BELLATIN E DANIEL LINK<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anna Paula Aires de Souza \u2013 <\/span><a href=\"mailto:paulaaires1@gmail.com\"><span style=\"font-weight: 400\">paulaaires1@gmail.com<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> &#8211; Mestrado<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Orientador: Prof. Dr. Wanderlan da Silva Alves<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A pesquisa que ora apresentamos pauta-se num <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">corpus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de an\u00e1lise constitu\u00eddo por quatro narrativas da literatura contempor\u00e2nea latino-americana que evidenciam a presen\u00e7a de artif\u00edcios \u2013 as escritas de si, o apagamento das fronteiras entre fic\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">versus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> realidade e\/ou entre os pr\u00f3prios g\u00eaneros escriturais, a espetaculariza\u00e7\u00e3o posta na figura do autor, a fluidez e\/ou indefini\u00e7\u00e3o das formas liter\u00e1rias, etc. \u2013 que, apesar de n\u00e3o serem necessariamente recentes no universo liter\u00e1rio, se intensificam e se ressignificam na literatura recente. \u00a0Para tanto, nosso <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">corpus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de pesquisa est\u00e1 constitu\u00eddo de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">La ansiedade: uma novela trash <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(2004), do argentino Daniel Link, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Shiki Nagaoka: una nariz de ficci\u00f3n (<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">2005), do mexicano Mario Bellatin, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Div\u00f3rcio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2013), do brasileiro Ricardo L\u00edsias e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Meshug\u00e1: um romance sobre a loucura <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(2016), do brasileiro Jacques Fux.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">La<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400\">ansiedad<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e9 uma narrativa constru\u00edda a partir da rela\u00e7\u00e3o entre Manuel Spitz e Michel Gabineau. H\u00e1 no decorrer do romance um predom\u00ednio do virtual que se estabelece na constru\u00e7\u00e3o narrativa pelo uso de e-mails, conversas em chats e interven\u00e7\u00f5es de textos te\u00f3ricos (que aparecem retirados de seu contexto original e inseridos em e-mails). Desse modo, o pr\u00f3prio formato do livro aponta para aspectos experimentais, na medida em que inova em sua forma de narrar \u2013 devemos considerar que sua publica\u00e7\u00e3o ocorreu em 2004, momento em que estavam emergindo as primeiras redes sociais e o pr\u00f3prio uso da internet estava se popularizando, na Am\u00e9rica Latina. Na capa do livro, um homem nu em pixels aparece exposta, j\u00e1 em di\u00e1logo com o relato desenvolvido na narrativa, inscrito nos chats er\u00f3ticos. Essa exposi\u00e7\u00e3o sinaliza para v\u00e1rios aspectos: a tecnologia presente na forma de narrar, a ambiguidade das refer\u00eancias identit\u00e1rias nas rela\u00e7\u00f5es virtuais no relato, como por exemplo a constante mudan\u00e7a de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">nickname<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> do principal personagem, etc. No dossi\u00ea de imprensa que funciona como um pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o, em que o primeiro questionamento respondido ao autor, sobre se <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">La ansiedade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e9 o romance \u00e9 de um cr\u00edtico e quais as rela\u00e7\u00f5es que se estabelecem entre cr\u00edtica e fic\u00e7\u00e3o. A resposta de Link, por sua vez, nos faz refletir acerca das rela\u00e7\u00f5es entre autor\/cr\u00edtico presentes nos processos dieg\u00e9ticos contempor\u00e2neos presentes na narrativa. Figueiredo (2015), ao citar Bakhtin, afirma que \u00e9 cada vez mais comum o autor se pronunciar e comentar suas pr\u00f3prias narrativas em nosso mundo midiatizado, todavia ressalva que ele &#8211; o autor &#8211; n\u00e3o \u00e9 o detentor de todos os sentidos presentes em sua produ\u00e7\u00e3o narrativa. Contudo, essas apari\u00e7\u00f5es cada vez mais constantes do autor apontam para um tra\u00e7o t\u00edpico nas literaturas contempor\u00e2neas: o retorno do autor que se afirma por meio da prolifera\u00e7\u00e3o das escritas de si. \u201cBarthes postula que uma pesquisa sobre o sujeito pode passar por v\u00e1rias fases e acaba por concluir que finalmente o sujeito volta, n\u00e3o como ilus\u00e3o, mas como fic\u00e7\u00e3o, o que aproxima mais da concep\u00e7\u00e3o do sujeito da autofic\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea\u201d (FIGUEIREDO, 2015, p. 62). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No caso de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Shiki Nagaoka: una nariz de ficci\u00f3n<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Bellatin ficcionaliza para inventar a vida de seu suposto autor favorito. Shiki Nagaoka, personagem principal, tem como caracter\u00edstica marcante o nariz cujo tamanho \u00e9 descomunal. Esse nariz movimenta o enredo, pois est\u00e1 interligado \u00e0 sua expuls\u00e3o de casa, a sua vida num convento, as suas rela\u00e7\u00f5es amorosas e tamb\u00e9m ao seu interesse pela fotografia e pela literatura. N\u00e3o deixa de apontar, tamb\u00e9m, para a rela\u00e7\u00e3o obl\u00edqua de Bellatin com a defici\u00eancia f\u00edsica e seus v\u00ednculos com sua pr\u00e1tica como escritor. Segundo o narrador, Shiki Nagaoka tornou-se refer\u00eancia no que diz respeito \u00e0 fotografia para autores como Arguedas e Rulfo e para estudiosos que buscam entender a capacidade narrativa da fotografia evidenciada pelo misterioso escritor. Todavia, as fotografias presentes em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Shiki Nagaoka<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> n\u00e3o funcionam como material documental, e sim como artif\u00edcio art\u00edstico, problematizando a fun\u00e7\u00e3o testemunhal da fotografia. Mario Bellatin usa a cria\u00e7\u00e3o de sua personagem para trabalhar com sua pr\u00f3pria din\u00e2mica narrativa experimental. \u201cAparentemente foto e palavra marcou profundamente gera\u00e7\u00f5es de artistas, que viram na proposta de Shiki Nagaoka um novo m\u00e9todo narrativo [&#8230;] Seria ent\u00e3o poss\u00edvel pensar que a fotografia narrativa proposta pelo personagem de fic\u00e7\u00e3o de Bellatin \u00e9 uma dessas passagens da literatura que a Escola Din\u00e2mica de Escritores busca impulsionar\u201d. (BRIZUELA, 2014, p. 24). Logo, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Shiki Nagaoka<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> constitui-se como uma narrativa pseudobiogr\u00e1fica que pode ser entendida \u201ccomo busca atrav\u00e9s da fotografia e tamb\u00e9m de outros meios, de outro modo de escrita\u201d (BRIZUELA, 2014, p.16). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Div\u00f3rcio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, por sua vez, L\u00edsias brinca a todo o momento com o jogo fic\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">versus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> realidade. Narrado em primeira pessoa e com um narrador cujo nome coincide com o do autor, o romance baseia-se no jogo de refer\u00eancias ao seu div\u00f3rcio e a um suposto di\u00e1rio de sua esposa, cuja descoberta \u00e9 o motivo da separa\u00e7\u00e3o. \u201cCasei com um homem que n\u00e3o viveu. O Ricardo ficou trancado dentro de um quarto lendo a vida toda\u201d (L\u00cdSIAS, 2013, p.15). Para tanto, al\u00e9m da quebra do pacto ficcional \u2013 estabelecido com os leitores em escritas autobiogr\u00e1ficas ou ficcionais \u2013 o autor expande sua narrativa para as redes sociais pessoais, para as entrevistas que concede propiciando ao leitor uma nova experi\u00eancia liter\u00e1ria em conson\u00e2ncia com o que \u00e9 exterior ao livro como objeto est\u00e9tico. Esses textos \u201cexteriores\u201d lan\u00e7ados pelo autor antes e depois da publica\u00e7\u00e3o do livro, \u201cfazem parte de forma integral n\u00e3o s\u00f3 do alcance e do tom da frui\u00e7\u00e3o\/leitura, mas da forma da pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o do livro enquanto obra ou, ainda mais, em rela\u00e7\u00e3o ao estatuto ficcional dos trechos do di\u00e1rio encontrados no livro\u201d (VIEIRA, 2017, p.188).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">J\u00e1 em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Meshug\u00e1<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> o narrador recria biografias de personagens famosos mundialmente e de origem judia, intercalados com inconceb\u00edveis justificativas para a suposta loucura judaica. Atrav\u00e9s da narra\u00e7\u00e3o da \u201cbiografia\u201d dessas personagens ele faz refer\u00eancia a si pr\u00f3prio, incursionando no universo da autofic\u00e7\u00e3o e da autorrefer\u00eancia, visto que sua origem judaica e tamb\u00e9m a dificuldade de escrever sobre esse trauma emergem no seu relato.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Por sua vez, ainda que se intitule um romance sobre a loucura, configura-se por meio de uma classifica\u00e7\u00e3o porosa que foge do que \u00e9 reconhecido como sendo a forma liter\u00e1ria do romance. Considerando que seus elementos constitutivos, apesar de tratarem de um tema geral que \u00e9 a loucura judaica, utilizam-se de personagens, hist\u00f3rias que se articulam como um \u201cmosaico de hist\u00f3rias\u201d (GARRAMU\u00d1O, 2014), a narrativa d\u00e1 voz a v\u00e1rias personagens da cultura judaica, por meio de um narrador tamb\u00e9m judeu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dessa forma, dada a profus\u00e3o de textos que s\u00e3o vinculados, nessas narrativas, e \u00e0 pr\u00f3pria figura dos autores, torna-se restrito l\u00ea-los apenas como reflexos do produto acabado que \u00e9 o livro. Dessa forma, seria interessante pensar as textualidades que constituem tais narrativas como um campo expandido do relato contempor\u00e2neo, que n\u00e3o se restringe aos elementos mais imediatamente postos no plano dieg\u00e9tico, mas est\u00e3o dispersos tamb\u00e9m como elementos que se integram \u00e0 pr\u00f3pria corporalidade da obra \u2013 como, por exemplo, blogs, entrevistas, fotografias, chats, e-mails, etc. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para tanto, nos questionamos acerca da espetaculariza\u00e7\u00e3o, da autoexposi\u00e7\u00e3o e da autorrefer\u00eancia como elementos e recursos escriturais que promovem o espessamento narrativo dos textos em quest\u00e3o. Dessa forma, nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 mapear, por meio das quatro narrativas em quest\u00e3o, pr\u00e1ticas liter\u00e1rias comuns na Literatura contempor\u00e2nea latino-americana que problematizam as fronteiras entre fic\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">versus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> realidade e das formas do pr\u00f3prio g\u00eanero narrativo e a espetaculariza\u00e7\u00e3o da figura do autor. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nosso objetivo geral \u00e9 analisar como as quest\u00f5es de refer\u00eancia, autorrefer\u00eancia, auto exposi\u00e7\u00e3o e espetaculariza\u00e7\u00e3o atuam como via para uma reflex\u00e3o acerca da constru\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria literatura no presente, no que diz respeito \u00e0s narrativas que s\u00e3o o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">corpus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de nossa an\u00e1lise, e do modo como a interposi\u00e7\u00e3o dos diversos meios de comunica\u00e7\u00e3o v\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 interferindo nos processos de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria como tamb\u00e9m determinam e\/ou problematizam os meios como a literatura vem sendo feita em nossa \u00e9poca. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sendo assim, buscamos organizar nossa pesquisa em tr\u00eas cap\u00edtulos. No primeiro cap\u00edtulo ser\u00e3o discutidos aspectos acerca das no\u00e7\u00f5es de referencialidade, autorreferencialidade e seus desdobramentos dentro das narrativas. Dialogamos ent\u00e3o com autores como Brizuela (2014), Figueiredo (2015), Klinger (2006), entre outros, que nos fazem refletir acerca da figura do autor e pensar nas possibilidades referenciais dentro das narrativas e seus consequentes usos contempor\u00e2neos. Logo, no decorrer de nossas leituras tanto te\u00f3ricas como as pr\u00f3prias leituras liter\u00e1rias, podemos constatar alguns tipos de refer\u00eancia presentes e importantes na constru\u00e7\u00e3o narrativa dos textos, tais como refer\u00eancias par\u00f3dicas, que apontam para fora do texto \u2013 tanto como intertextualidade com outros textos, quanto de modo a estender a pr\u00f3pria narrativa para fora do livro \u2013, autorrefer\u00eancias, entre outras. Essas quest\u00f5es referenciais aparecem, por sua vez, atreladas \u00e0 necessidade de espetacularizar e\/ou evidenciar a figura do autor, para p\u00f4r em d\u00favida o pacto de fic\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">versus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> realidade estabelecido nas escritas de si (autobiogr\u00e1ficas ou autoficcionais) e resignificar outros textos que est\u00e3o como sobrepostos, nas narrativas. A autorrefer\u00eancia, por sua vez, \u00e9 um tra\u00e7o frequente nas literaturas contempor\u00e2neas, apesar de ser um recurso que n\u00e3o \u00e9 novo no campo liter\u00e1rio. Logo, a autorreferencialidade se p\u00f5e em um lugar de limites entre o que \u00e9 considerado ou n\u00e3o literatura, o que Ludmer (2010) afirma ser o \u201catravessar fronteiras\u201d, isto \u00e9, estar simultaneamente dentro e fora do que se entende por liter\u00e1rio. A autora evidencia que a literatura contempor\u00e2nea ultrapassa as fronteiras do livro como objeto f\u00edsico, al\u00e9m de superar categorias de classifica\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que n\u00e3o mais conseguem abarcar essas novas no\u00e7\u00f5es. Para tanto, a autorreferencialidade aparece como um desses procedimentos fronteiri\u00e7os frequentes na literatura contempor\u00e2nea. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No segundo cap\u00edtulo temos por intuito discutir os processos de espetaculariza\u00e7\u00e3o da figura do autor, considerando que no cap\u00edtulo anterior as no\u00e7\u00f5es referenciais j\u00e1 apontam para esse aspecto que se sobressai dentro do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">corpus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> analisado. O espet\u00e1culo aparece, portanto, como um aspecto paradoxalmente positivo, ao menos na perspectiva que perpassa a opini\u00e3o p\u00fablica e a da pr\u00f3pria figura de escritor. Dessa forma, o espet\u00e1culo liga-se ao desejo do autor de autoevidenciar-se, como que fazendo uma teatraliza\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria imagem. Assim, as no\u00e7\u00f5es norteadoras do espet\u00e1culo apareceriam hipoteticamente como cr\u00edtica potencializada (e nem sempre consciente) dos limites para a subjetividade decorrente da aproxima\u00e7\u00e3o com as m\u00eddias sociais \u2013 formando, tamb\u00e9m, um campo liter\u00e1rio que se expande para fora dos limites do livro \u2013 e como aquilo que se oferece aos olhos dos demais como uma representa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ainda no que diz respeito aos livros e consequentemente seus autores, as refer\u00eancias tamb\u00e9m se manifestam na espetaculariza\u00e7\u00e3o da vida e da imagem dos autores, o que \u00e9 uma caracter\u00edstica do contempor\u00e2neo. Dessa forma, para Laddaga (2007), alguns autores que comp\u00f5em o cen\u00e1rio da literatura contempor\u00e2nea como, por exemplo, \u00e9 o caso de Bellatin, trabalham com seus escritos utilizando-se de recursos perform\u00e1ticos. Para tanto, al\u00e9m de criarem \u201cespet\u00e1culos de realidade\u201d, esses autores se colocam como figuras tamb\u00e9m centrais em suas obras (MELO, 2015). Dessa maneira, o emprego de refer\u00eancias que fa\u00e7am men\u00e7\u00e3o a si pr\u00f3prio (o autor) podem ser lidas como sintomas de um processo mais amplo de espetaculariza\u00e7\u00e3o (SCHOLHAMMER, 2011).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por fim, no terceiro cap\u00edtulo discutiremos o conceito de campo expandido a partir das rela\u00e7\u00f5es estabelecidas nos cap\u00edtulos anteriores, pretendendo analisar como os elementos tanto internos como extratextuais se integram possibilitando o processo de expans\u00e3o do campo liter\u00e1rio das narrativas estudadas. Dessa forma, entendemos como campo expandido uma literatura que incorpora em sua linguagem &#8211; relacionada a outros tipos de discurso &#8211; a ideia de instabilidade constitutiva, por meio da incorpora\u00e7\u00e3o de blogs, e-mails, relatos autobiogr\u00e1ficos, fotografias, entre outros dentro do campo liter\u00e1rio. (GARRAMU\u00d1O, 2009; KRAUSS, 2008). Destacamos que o car\u00e1ter expandido adquire propor\u00e7\u00f5es porosas na literatura contempor\u00e2nea que, por sua vez, dispersam-se para al\u00e9m das p\u00e1ginas do pr\u00f3prio livro, tornando-se objetos de arte inespec\u00edficos. Essa inespecificidade provocada pelo espessamento de limites entre o liter\u00e1rio e o que dialoga com ele \u00e9 concebida nas narrativas objetos de nosso estudo a partir de aspectos que ser\u00e3o tratados nos cap\u00edtulos anteriores, tais como: as no\u00e7\u00f5es de refer\u00eancia, a espetaculariza\u00e7\u00e3o do autor, a hibridiza\u00e7\u00e3o de fronteiras, etc.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BELLATIN, M. Shiki Nagaoka: una nariz de ficci\u00f3n. In: BELLATIN, M. \u00a0<\/span><b>Obra Reunida<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. M\u00e9xico: Alfaguara, 2005.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BRIZUELA, N. <\/span><b>Depois da fotografia<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: uma literatura fora de si. S\u00e3o Paulo: Rocco, 2014.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">FIGUEIREDO, E. <\/span><b>Em torno de Roland Barthes:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> da \u201cmorte do autor\u201d ao nascimento do leitor e a volta do autor. Santa Maria: PPGL, 2015<\/span><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">FUX, J.<\/span><b> Meshug\u00e1<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: um romance sobre a loucura. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">GARRAMU\u00d1O, F. <\/span><b>Frutos estranhos:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> sobre a inespecificidade na est\u00e9tica contempor\u00e2nea. Trad. Carlos Nogu\u00e9. Rio de Janeiro: Rocco, 2014. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">____________. La literatura en un campo expandido: y la indisciplina del comparatismo. <\/span><b>Cadernos de Estudos Culturais<\/b><span style=\"font-weight: 400\">, Campo Grande, v.1, p.101-111, jul.\/dez.2009. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">KLINGER, D.I. <\/span><b>Escritas de si e escritas do outro. Auto-fic\u00e7\u00e3o e etnografia na literatura latino-americana contempor\u00e2nea<\/b><i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> 2006.205f. Tese (Doutorado em Letras)- Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">KRAUSS, R. A escultura no campo ampliado. <\/span><b>Arte &amp; Ensaios<\/b><span style=\"font-weight: 400\">, Rio de Janeiro, n.17, p.128-137, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">LADDAGA, R. <\/span><b>Espect\u00e1culos de realidad: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">ensayo sobre la narrativa latinoamericana de las \u00faltimas dos d\u00e9cadas. Rosario: Beatriz Viterbo, 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">LINK, D. <\/span><b>La ansiedade:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> novela trash. Buenos Aires: El cuenco de plata, 2004.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">L\u00cdSIAS, R. <\/span><b>Div\u00f3rcio<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">LUDMER, Josefina. Las Literaturas p\u00f3s-aut\u00f4nomas. <\/span><b>Sopro<\/b><span style=\"font-weight: 400\">, Desterro, v. 20, p.1-4, jan. 2010.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> Dispon\u00edvel<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> em: &lt;http:\/\/www.culturaebarbarie.org\/sopro\/n20.pdf&gt;. Acesso em: 25 ago. 2018.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MELO, A. M. <\/span><b>O narrador e o giro caleidosc\u00f3pio da galeria da flores de Mario Bellatin<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 2015. 105f. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Estudos Liter\u00e1rios)- Universidade do Estado do Mato Grosso, Tangar\u00e1 da Serra, 2015.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SCHOLLHAMMER, K. E. <\/span><b>Fic\u00e7\u00e3o brasileira contempor\u00e2nea<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">VIEIRA, W. Pacto com o diabo: Div\u00f3rcio, de Ricardo L\u00edsias, como manual para compreender a autofic\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. Estudos de Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea, Bras\u00edlia, n. 51, <\/span><span style=\"font-weight: 400\">p. 182-204,<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> mai.\/ago. 2017. Dispon\u00edvel em: &lt;<\/span><a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1590\/2316-4018519\"><span style=\"font-weight: 400\">http:\/\/dx.doi.org\/10.1590\/2316-4018519<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">&gt;. Acesso em: 25 ago. 2018.<\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle] <b>Ana Paula dos Santos Claudino de Macena<\/b>\u00a0[\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>SUBVERS\u00c3O DA EST\u00c9TICA BARROCA E MARGINALIZA\u00c7\u00c3O <\/b><b><i>CRIOLLA<\/i><\/b><b> DA CIDADE LETRADA: O PERUANO JUAN DEL VALLE Y CAVIEDES E O BRASILEIRO GREG\u00d3RIO DE MATOS<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ana Paula dos Santos Claudino de Macena<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> (Mestranda \/UEPB\/PPGLI)<\/span><\/p>\n<p><b>Prof\u00aa Dr\u00aa Rosilda Alves Bezerra<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> (Orientadora \/ UEPB \/PPGLI)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>RESUMO<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O Barroco, trazido pelos intelectuais da pen\u00ednsula para a Am\u00e9rica Latina, j\u00e1 se caracterizava como um movimento est\u00e9tico-liter\u00e1rio menor pelos classicistas e, ao ser transplantado, tamb\u00e9m se subcategoriza valorativamente, entre uma Europa originadora e a col\u00f4nia <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">criolla<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de insuficiente erudi\u00e7\u00e3o. Contudo, discorreremos que essa transplanta\u00e7\u00e3o oferecer\u00e1 outro matiz ao movimento que, adotado pelos escritores americanos, naturalmente se distinguir\u00e1 e se distanciar\u00e1 das origens, consequentemente ocupando uma zona marginal por destoar do c\u00e2none vigente. Logo, visamos recortar e caracterizar como se desenvolveu o Barroco das Am\u00e9ricas e em como a cidade letrada \u2013 mais uma das instancias do poderio colonizador \u2013 durante s\u00e9culos tentou amuralhar e manter fora desses muros escritores e intelectuais <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">criollos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de not\u00f3ria erudi\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o da arte escritur\u00e1ria. Para tanto foram tomados como base exemplificadora os poetas Greg\u00f3rio de Matos, da col\u00f4nia portuguesa, e Juan Del Valle y Caviedes, da col\u00f4nia espanhola no vice-reino do Peru, figuras altamente representativas desse contexto.<\/span><\/p>\n<p><b>PALAVRAS-CHAVE:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Barroco, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Criollo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Cidade Letrada, Subvers\u00e3o, Marginaliza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> &#8211; Parte dos estudos relacionados \u00e0 est\u00e9tica barroca apresenta pouca precis\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos dados e informa\u00e7\u00f5es que os comp\u00f5em. Essa peculiaridade os investigadores atribuem \u00e0s prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de registro escrito dessa \u00e9poca ao que se podem agregar outros fatores sociais que cerceavam e selecionavam essas produ\u00e7\u00f5es de acordo com os seus par\u00e2metros. Como exemplos de conservadores da ortodoxia da palavra escrita, podemos<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">citar a figura da Igreja que estabelecia e impunha seus padr\u00f5es religiosos e morais, as autoridades locais que precisavam manter a ordem e os bons costumes e tamb\u00e9m a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">cidade letrada <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(RAMA, 2010; MAZ\u00cdN 2008; ROSE, 2008), grupo seleto e estabelecido de intelectuais que detinham n\u00e3o apenas o dom\u00ednio do saber, mas tamb\u00e9m a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">autoriza\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> para exercer a escritura como pr\u00e1tica intelectual. (RAMA, 2010). Atendo-se a essas estruturas sociais, que acrisolavam o exerc\u00edcio intelectual nas cidades da Am\u00e9rica do s\u00e9culo XVII e que, ao reclamar esse posto regulador, acabavam relegando aos intelectuais latino-americanos uma zona marginal dentro desse c\u00edrculo erudito que constitu\u00edam, aqui ser\u00e3o tomados como base referencial de an\u00e1lise os seguintes poetas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">criollos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: o peruano Juan Del Valle y Caviedes e o brasileiro Greg\u00f3rio de Matos. Esses, de not\u00f3ria erudi\u00e7\u00e3o, desenvolveram vasta obra de cunho liter\u00e1rio, atendendo \u00e0s regras impostas e vigentes que, sem elas, um membro da sociedade n\u00e3o poderia ser caracterizado como intelectual. Essa escolha parte do fato de que, apesar de serem frutos de distintas col\u00f4nias e colonizadores, ainda assim apresentam peculiaridades comuns \u00e0 figura do erudito <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">criollo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de seu tempo. Ou seja, dentro de suas diferen\u00e7as, ser\u00e1 justamente encontrado o ponto de contato que os caracterizar\u00e1 como figuras marginais que, de maneira intencional ou n\u00e3o, acabaram por subverter o g\u00eanero liter\u00e1rio Barroco, corrente na \u00e9poca em que viveram. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>JUSTIFICATIVA &#8211; <\/b><span style=\"font-weight: 400\">A an\u00e1lise da produ\u00e7\u00e3o de poetas como Greg\u00f3rio de Matos e Juan Del Valle y Caviedes, significaria a possibilidade de mais uma revis\u00e3o de suas obras, contextos sociais e condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, com vistas a corroborar a necessidade de, como coloca Zanetti (1996), desconstruir vis\u00f5es alicer\u00e7adas na perspectiva atual que insistem em colocar esses poetas num lugar menor. Esses, quase sempre quando citados, o s\u00e3o apenas por seu car\u00e1ter primitivista, objetivos etnogr\u00e1ficos ou mesmo folcl\u00f3ricos. Todavia, a amplia\u00e7\u00e3o das discuss\u00f5es de cr\u00edticos, historiadores e soci\u00f3logos da contemporaneidade converte em pensamento mister a reconsidera\u00e7\u00e3o e recupera\u00e7\u00e3o desses estudos, permitindo articular de forma diferente o passado social, cultural e liter\u00e1rio, sem apenas submet\u00ea-lo a simples sucess\u00e3o de das correntes liter\u00e1rias europeias, como nos faz lembrar Zanetti (1996). Ou seja, essa necessidade de revisita\u00e7\u00e3o, possivelmente nos ajudar\u00e1 a colaborar a compor respostas a questionamentos sobre a valida\u00e7\u00e3o de um barroco latino-americano e sua identidade nacional, tomando como base exemplificadora dois poetas\/intelectuais que lograram o intento de pintar, denunciar e burlar as leis cerceadoras de uma cidade letrada que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">sequestrava <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">o idioma e<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">o distanciava das pessoas comuns. Essa op\u00e7\u00e3o, entretanto, legou \u00e0s suas obras um lugar de enclausuramento e solid\u00e3o, como aponta Paz (2013), mas que, ao prescindirem do audit\u00f3rio da sua \u00e9poca, podemos afirmar com seguran\u00e7a, conseguiram algo mais al\u00e9m de seu tempo: alcan\u00e7aram uma comunica\u00e7\u00e3o que \u00e9 mais alta, a da posteridade. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>REFERENCIAL TE\u00d3RICO &#8211; <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Para conceituar e caracterizar os primeiros grupos de intelectuais que lograram se organizar e consolidar durante o \u00faltimo ter\u00e7o do s\u00e9culo XVI (RAMA, p. 36), foi tomado como base o termo cunhado e problematizado por \u00c1ngel Rama: a cidade letrada. Essa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">cidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, al\u00e9m de representar uma elite escritur\u00e1ria erudita, representou tamb\u00e9m mais um espa\u00e7o de imposi\u00e7\u00e3o do colonizador europeu na Am\u00e9rica, ou seja, o espa\u00e7o dos signos. E este lugar, ao instituir-se, legitimava tamb\u00e9m a autoridade desses <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">servidores intelectuais que manejavam a pluma<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, como define Rama, em um claro intento de controle, que, ao quitar do nativo o poder da palavra, o mantinha em uma esfera de submiss\u00e3o, de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">assujeitamento<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> social. Consoante com essa perspectiva, \u00d3scar Maz\u00edn (2008), faz uso de um termo equivalente \u2013 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">gente de saber<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u2013, para tamb\u00e9m caracterizar esses doutos barrocos das col\u00f4nias. E essas duas terminologias, de Rama e de Maz\u00edn, para mais al\u00e9m de unicamente definir um c\u00edrculo restrito de doutos, tra\u00e7a um perfil contextualizador da sociedade que o abriga, convertendo-se de suma import\u00e2ncia para a composi\u00e7\u00e3o dessa investiga\u00e7\u00e3o. Atendo-se ao contexto mais espec\u00edfico da col\u00f4nia americana lusa, Melo e Souza (2008, 2009) igualmente trata da quest\u00e3o apontando o t\u00e9rmino <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">letrados lusobrasileiros<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, inclusive, como o mais adequado, baseando-se na concep\u00e7\u00e3o moderna do termo (ALTAMIRANO, 2008). A autora tra\u00e7a tamb\u00e9m as principais diferen\u00e7as e matizes do barroco brasileiro ao estabelecer-se, permitindo o vislumbre de duas est\u00e9ticas dentro de uma mesma. Em um plano mais relacionado com a cosmovis\u00e3o do intelectual <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">criollo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u2013 no tocante \u00e0 vida na col\u00f4nia, restri\u00e7\u00f5es, rela\u00e7\u00f5es, pap\u00e9is e atua\u00e7\u00e3o social \u2013 Foram considerados aportes de te\u00f3ricos como os de Yvancos e Sanch\u00e9z (2000), que teoriza quest\u00f5es do c\u00e2none espanhol no contexto americano, Bosi (1992) e Coutinho (1997,1983) para problematizar os processos e percursos da literatura barroca brasileira e do autor Greg\u00f3rio de Matos, tamb\u00e9m Zanetti (1993), que insiste na necessidade de revis\u00e3o das produ\u00e7\u00f5es <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">criollas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, entre outros autores, que discorrem sobre a oclus\u00e3o intelectual imposta pelos conquistadores europeus, as barreiras fixadas e os preconceitos dos quais esses intelectuais precisaram enfrentar para alcan\u00e7arem um tipo de legitima\u00e7\u00e3o para suas obras e com isso obterem a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">gra\u00e7a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de v\u00ea-las publicadas. Essa discuss\u00e3o ser\u00e1 ainda corroborada com os estudos de Jacques Lafaye (2004) y Quijano (2000) que tratam sobre a quest\u00e3o dos processos de marginaliza\u00e7\u00e3o e eurocentrismo na Am\u00e9rica Latina, passando tamb\u00e9m por algumas discuss\u00f5es desde uma perspectiva mais contempor\u00e2nea. H\u00e1 ainda aportes de Walter Mignolo, que problematiza quest\u00f5es como as diferen\u00e7as entre coloniza\u00e7\u00e3o e colonialidade, por exemplo. Por fim, como base contextualizadora, foram tomados escritos de Reedy (1984), bi\u00f3grafo de Juan Del Valle y Caviedes, e tamb\u00e9m artigos cient\u00edficos relacionados, em especial o de Zafferano (2010) e S\u00e1nchez (1940), versando sobre a marginalidade de sua poesia. J\u00e1 para analisar as circunst\u00e2ncias sociais de Greg\u00f3rio de Matos, foi revisada a obra biogr\u00e1fica do autor realizada por Peres (2000), Ana Miranda (2014), Hansen (2010) e Afr\u00e2nio Coutinho (1983,1997). <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>METODOLOGIA &#8211; <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Ser\u00e1 realizada, primeiramente, uma revis\u00e3o dos estudos j\u00e1 realizados que versem sobre a tem\u00e1tica abordada, sempre objetivando reunir, analisar e unir os dados elencados de acordo com nossos objetivos. Em seguida propor uma caracteriza\u00e7\u00e3o contextual da manifesta\u00e7\u00e3o do barroco colonial peruano e brasileiro. Sequencialmente, recortar a cidade\/sociedade letrada e as inst\u00e2ncias sociais restritivas das pr\u00e1ticas de escritura e, consequentemente, as poss\u00edveis causas da marginaliza\u00e7\u00e3o de Juan Del Valle y Caviedes e Greg\u00f3rio de Matos. Por fim, seria posta em evid\u00eancia a relev\u00e2ncia do trabalho intelectual desses poetas ratificando a import\u00e2ncia da an\u00e1lise, estudos e revis\u00e3o tem\u00e1tica relacionada a esse per\u00edodo est\u00e9tico-liter\u00e1rio e seus poetas produtores. Isso salientando a imprescindibilidade da desconstru\u00e7\u00e3o e combate das, ainda presentes, concep\u00e7\u00f5es que p\u00f5em a um lado o esp\u00edrito ideol\u00f3gico do homem dessa \u00e9poca e, sob as luzes da nossa contemporaneidade, analisam de maneira diminuidora, limitante e mesmo pejorativa esses letrados, contribuindo assim, de maneira consciente ou n\u00e3o, com a continuidade da marginaliza\u00e7\u00e3o a eles infligida.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>CONCLUS\u00c3O<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> \u2013 Logo, revisar essas produ\u00e7\u00f5es, seria uma possibilidade, entre outras, de revis\u00e3o de um sedimento te\u00f3rico inferiorizador que repousa sobre as obras desses poetas. E esse objetivo se norteia pelo fato de grande parte das obras <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">criollas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> que, ao serem marcadas pelo estigma da inferioridade e menor qualidade,<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">permaneceram durante longo per\u00edodo legadas ao ocultamento quase total. Igualmente, \u00e9 interessante ressaltar que n\u00e3o ser\u00e1 esta a exclusiva causa da omiss\u00e3o dessas figuras do c\u00e2none liter\u00e1rio de seu tempo, pois, dadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, dist\u00e2ncias e dificuldades de mobilidade, dispendiosos custos, necessidade de influ\u00eancia e relev\u00e2ncia social \u2013 fatores essenciais para a impress\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o de livros \u2013, dentre outros aspectos, tamb\u00e9m precisar\u00e3o ser vistos como relevantes para que os ditos autores fossem considerados inapropriados (HANSEN, 1969). \u00c9 importante considerar ainda que a literatura, como corrobora Coutinho (1997) e Filho (1998), nasce barroca, pelas m\u00e3os barrocas dos jesu\u00edtas \u2013 no contexto latino-americano \u2013 logo, n\u00e3o apresenta abismais diferen\u00e7as. E isso se dever\u00e1, entre outras raz\u00f5es, ao fato de que ainda n\u00e3o se podiam precisar fronteiras sob o conceito definido pela atualidade e, principalmente, por esta est\u00e9tica ser corrente tanto em Portugal como na Espanha, somando-se ainda o fato n\u00e3o desprez\u00edvel de que Portugal esteve sob o dom\u00ednio espanhol (1581-1640). Entretanto, ressaltamos que seria bastante equivocado considerar que o Barroco tenha se manifestado de maneira uniforme. Antes de tudo, \u00e9 preciso considerar que ao transplantar um movimento art\u00edstico-liter\u00e1rio esse, inexoravelmente, passar\u00e1 a desenvolver e assumir matizes pr\u00f3prios, inclusive, por necessitar ser deglutido, sob o conceito oswaldiano de antropofagia, para que ocorra a apropria\u00e7\u00e3o da idiossincrasia est\u00e9tica por parte dos nativos. Octavio Paz corrobora essa ideia ao afirmar que a arte se nutre sempre da linguagem social e que essa linguagem \u00e9, sobretudo, uma vis\u00e3o do mundo.<\/span><\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ALTAMIRANO, Carlos. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Historia de los Intelectuales en Am\u00e9rica Latina<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Katz Editores, Buenos Aires, I, p. 53 \u2013 118, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BOSI, Alfredo. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Dial\u00e9tica da Coloniza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Companhia das Letras, S\u00e3o Paulo, 1992.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">COUTINHO, Afr\u00e2nio. O Barroco. IN: COUTINHO, Afr\u00e2nio (org.) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Literatura no Brasil:<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Era Barroca\/ Era Neocl\u00e1ssica. S\u00e3o Paulo: Global Editora, 1997, v. 2, p. 4-41.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">HANSEN, Jo\u00e3o Adolfo. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A s\u00e1tira e o engenho:<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Greg\u00f3rio de Matos e a Bahia do s\u00e9culo XVII. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1969.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">LAFAYE, Jacques. A Literatura e a Vida Intelectual na Am\u00e9rica Colonial. IN: BETHELL, Leslie (org.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Am\u00e9rica Latina Colonial.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> v. II. S\u00e3o Paulo: EDUSP, 1998, p.595-635. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MIGNOLO, Walter. La colonialidad a lo largo y a lo ancho: el hemisferio occidental en el horizonte colonial de la modernidad. IN: LANDER, Edgardo (org.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">La colonialidad del saber<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: eurocentrismo e ciencias sociales. Perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: CLACSO, 2000, p. 55-85.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">QUIJANO, An\u00edbal. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Colonialidad del poder, eurocentrismo e Am\u00e9rica Latina.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> CLACSO, Buenos Aires: Biblioteca Virtual de Ciencias Sociales de America Latina y el Caribe, 2000, p.201- 246. Dispon\u00edvel en: <\/span><a href=\"http:\/\/bibliotecavirtual.clacso.org.ar\/ar\/libros\/lander\/dussel.rtf\"><span style=\"font-weight: 400\">http:\/\/bibliotecavirtual.clacso.org.ar\/ar\/libros\/lander\/quijano.rtf<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">REEDY, Daniel. \u201cPr\u00f3logo\u201d, \u201cI. Semblanza del poeta\u201d, \u201cII. Introducci\u00f3n cr\u00edtica\u201d,\u201cIII. Noticia bibliogr\u00e1fica\u201d In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Obra completa de Juan del Valle y Caviedes<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Caracas, Biblioteca Ayacucho, n\u00b0 107.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">S\u00c1NCHEZ, Luis Alberto. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Un Vill\u00f3n Criollo.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Revista Iberoamericana, v. II<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">n<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00b0 <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">3, p. 79-86. 1940.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SPINA, Segismundo. Greg\u00f3rio de Matos. IN: COUTINHO, Afr\u00e2nio (org.) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Literatura no Brasil<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: Era Barroca\/ Era Neocl\u00e1ssica. S\u00e3o Paulo: Global Editora, 1997, v. 2, p. 114-125.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">VALLE Y CAVIEDES, Juan del. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Obra Completa. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Caracas: Biblioteca Ayacucho, 1984.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">YVANCOS, Jos\u00e9 Maria; S\u00c1NCHEZ, Rosa Mar\u00eda Arada. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Teor\u00eda del c\u00e1non y literatura espa\u00f1ola<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Madrid: C\u00e1tedra, 2000. ISBN 978-84-376-1786-2. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ZAFFERANO, Daniel Sebasti\u00e1n. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Juan del Valle y Caviedes y la Ciudad Escrituraria.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Posibles Causas de una Marginaci\u00f3n<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Hologram\u00e1tica, Buenos Aires, v. II, n\u00ba 21, p. 175-203. <\/span><span style=\"font-weight: 400\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400\">jun.\/nov. 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ZANETTI, Susana. Perfiles del Letrado Hispanoamericano del Siglo XVII. In: UNIVERSIDAD DE NAVARRA. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Actas del III Congreso de la Asociaci\u00f3n Siglo de Oro.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Toulouse: Studia Aurea, 1996. I, p. 215 \u2013 224.<\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<span style=\"font-weight: 400\"><strong>Ayanne Larissa Almeida de Souza<\/strong>\u00a0<\/span>[\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>POR UMA HERMEN\u00caUTICA DA DISCURSIVIDADE:\u00a0<\/b><b>O COMPADRITO E AS PO\u00c9TICAS DO TR\u00c1GICO\u00a0<\/b><b>NO TANGO-CAN\u00c7\u00c3O (1917-1945)<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"> Discente: Ayanne Larissa Almeida de Souza<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Orientador: Eli Brand\u00e3o da Silva<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Linha de Pesquisa: Literatura e Hermen\u00eautica<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>1 INTRODU\u00c7\u00c3O<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No campo da literatura, a problem\u00e1tica em torno do tr\u00e1gico talvez tenha sido a inst\u00e2ncia que mais esfor\u00e7os demandou por uma defini\u00e7\u00e3o ao longo dos s\u00e9culos. A pr\u00f3pria palavra trag\u00e9dia, como salienta Eagleton (2013), pode designar uma obra de arte, um evento da vida real ou uma vis\u00e3o de mundo\/estrutura de sentimento. Desde de Arist\u00f3teles, a trag\u00e9dia mostra-se como o campo que mais se aproxima dos sentimentos humanos dos nossos dias, pois em uma \u00e9poca de crises e quebra de valores, de renova\u00e7\u00e3o e revolu\u00e7\u00e3o, h\u00e1 sempre a necessidade humana de se buscar o tr\u00e1gico. Segundo Raymond Williams (2002), nos \u00faltimos cento e cinquenta anos fez-se um esfor\u00e7o imenso por tentar sintetizar o que viria a ser o tr\u00e1gico a fim de que esta ess\u00eancia \u00fanica fosse transmitida como absoluta. Entretanto, sabemos que n\u00e3o h\u00e1 uma ess\u00eancia suprema, pois o tr\u00e1gico, como conceito e por isso mesmo hist\u00f3rico, ir\u00e1 se modificar de acordo com a \u00e9poca e com a sociedade na qual aporte, isso porque as pr\u00f3prias produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias renegam sistematiza\u00e7\u00f5es padronizadas e \u00e9 perigoso tecer determinadas caracter\u00edsticas e especific\u00e1-las como sendo pr\u00f3prias do tr\u00e1gico. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A partir do sentimento tr\u00e1gico, que est\u00e1 arraigado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o existencial humana, ainda que esta n\u00e3o seja tr\u00e1gica por si mesma, mas pode ser vivenciada de maneira tr\u00e1gica, podemos compreender o fen\u00f4meno tr\u00e1gico na modernidade e em que medida pode ser ele vivenciado dentro das narrativas do tango rio-platense. Atrav\u00e9s da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">voz<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> do tango, o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">compadrito<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, o eu-l\u00edrico masculino que diz, e n\u00e3o s\u00f3 isso, possui um tom espec\u00edfico para diz\u00ea-lo, buscaremos compreender como o tr\u00e1gico existencial ligado ao fracasso amoroso, o elemento feminino emergindo como elemento tr\u00e1gico, se apresenta ao <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ethos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> do cancioneiro e como a tragicidade \u00e9 constru\u00edda nas narrativas do tango, observando o ideal de entona\u00e7\u00e3o do cancioneiro, acompanhando seu lugar de enuncia\u00e7\u00e3o, seu c\u00f3digo lingu\u00edstico, seu <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ethos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, como salienta Maingueneau (2006). Analisaremos o car\u00e1ter e a corporalidade, que \u00e9 o conjunto dos tra\u00e7os psicol\u00f3gicos e corporais, tais como o tom empregado, as express\u00f5es utilizadas, assim como a indument\u00e1ria, o comportamento, o estere\u00f3tipo que o interlocutor atribui \u00e0 imagem do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">compadrito<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Buscamos compreender a partir do cancioneiro do tango e das estruturas de sentimento de sua \u00e9poca, estas marcas que atravessam uma dada cultura, no caso a argentina, em uma determinada \u00e9poca e espa\u00e7o geogr\u00e1fico, para apreendermos esse cancioneiro, que n\u00e3o \u00e9 uma presen\u00e7a plenamente acabada e est\u00e1tica, mas din\u00e2mica e induzida pelo destinat\u00e1rio como fruto de sua interpreta\u00e7\u00e3o, a fim de identificarmos essas caracter\u00edsticas espec\u00edficas do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ethos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> tanguero e entendermos que tais caracteres espec\u00edficos fazem men\u00e7\u00e3o aos fundamentos do discurso tr\u00e1gico do tango. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para fazer-se entender a constru\u00e7\u00e3o do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ethos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> do cancioneiro do tango, o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">compadrito<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e da pr\u00f3pria figura feminina, a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">milonguera<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, perfazemos, no primeiro cap\u00edtulo, finalizado, a trajet\u00f3ria hist\u00f3rico-social do tango, desde as suas primeiras efervesc\u00eancias por volta de 1870, at\u00e9 tornar-se o ritmo mais executado do mundo nas d\u00e9cadas de 30, 40 e 50. Salientamos a import\u00e2ncia dos imigrantes europeus e dos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">gauchos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> dos pampas argentinos, as duas figuras que desembocar\u00e3o no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ethos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> do compadrito. Apresentamos as rela\u00e7\u00f5es e os problemas sociais dentre os quais emerge o tango e suas figuras arquet\u00edpicas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No segundo cap\u00edtulo, tamb\u00e9m finalizado, dividido em tr\u00eas t\u00f3picos, dissertamos sobre a etimologia da palavra tango, problematizando como este fen\u00f4meno cultural, que traz sobre si uma dupla carga de mist\u00e9rio, sua denomina\u00e7\u00e3o e sua origem, passou a ser conhecido popularmente por <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">tango<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Analisamos, no segundo t\u00f3pico, o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ethos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> do cancioneiro do tango, salientando seu lugar <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">parat\u00f3pico<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de fala e apresentando a figura da mulher fatal como a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">embreagem<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400\">parat\u00f3pica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> deste cancioneiro, a fonte do sofrimento e a culpada pela ru\u00edna do sistema patriarcal. No terceiro t\u00f3pico, propusemos uma discuss\u00e3o te\u00f3rica sobre o conceito de estrutura de sentimento, de Raymond Williams, salientando a impossibilidade de se desvincular o individual do social e vice e versa, apontando que a trag\u00e9dia e o tr\u00e1gico s\u00e3o conven\u00e7\u00f5es e estruturas institucionais de um determinado espa\u00e7o-tempo e, como tal, em constante processo de transforma\u00e7\u00e3o. A partir deste pensamento, de uma sociologia da cultura, apontamos a nostalgia, melancolia, a degrada\u00e7\u00e3o f\u00edsica e moral das figuras do tango, homem e mulher, a autodestrui\u00e7\u00e3o (pelo \u00e1lcool e pelo suic\u00eddio) e o feminic\u00eddio como pontos tr\u00e1gicos dentro do discurso do cancioneiro do tango, uma vez sendo estes pontos uma condi\u00e7\u00e3o geral das rela\u00e7\u00f5es sociais do espa\u00e7o-tempo do qual emerge o tango enquanto fen\u00f4meno sociocultural. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como afirma Gobello (1999), o tango nasceu dentro dos lupanares rio-platenses, no submundo das grandes cidades de Buenos Aires e Montevideo, que receberam ondas imensas de imigrantes europeus que, mesclados aos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">gauchos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> que tamb\u00e9m acorriam aos centros urbanos em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, formaram uma realidade multicultural, diversificada e conflitante no qual se desenvolveu o ritmo que se transformou em uma express\u00e3o das sociedades da bacia do Prata, encontrando sua miss\u00e3o na exalta\u00e7\u00e3o do fracasso. Blanchot (1969, p.357 apud SARRAZAC, 2013, p.11) afirma que o sujeito comum, tal como o cancioneiro do tango, v\u00ea a vida em tons de cinza e, por isso mesmo, a trivialidade do dia-a-dia far\u00e1 emergir esse tr\u00e1gico singular na modernidade. O<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">quotidiano, \u201ca trivialidade que retarda e que recai, a vida residual que enche nossas lixeiras e nossos cemit\u00e9rios, dejetos e detritos\u201d, essa banalidade \u00e9 tamb\u00e9m o que h\u00e1 de mais importante, j\u00e1 que ela remete \u00e0 exist\u00eancia em sua espontaneidade pr\u00f3pria e, assim reconhecida, no momento em que \u00e9 vivida, desfaz-se de toda especula\u00e7\u00e3o, talvez de toda a coer\u00eancia, de toda regularidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 o que Sarrazac (2013, p.12) denomina de \u201cdrama da vida\u201d, uma mudan\u00e7a profunda que se traduz na amplitude da trag\u00e9dia, abarcando n\u00e3o mais um dia fat\u00eddico, mas toda uma exist\u00eancia, toda a cr\u00f4nica de uma vida, da sua cad\u00eancia intr\u00ednseca constitu\u00edda de saltos, interrup\u00e7\u00f5es, fragmenta\u00e7\u00f5es, repeti\u00e7\u00f5es, etc. A pr\u00f3pria exist\u00eancia cotidiana do cancioneiro do Tango tornar-se-\u00e1 o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">drama da vida<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, a trag\u00e9dia, a pr\u00f3pria exist\u00eancia em seu desejo de vingan\u00e7a contra o cancioneiro. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para Raymond Williams (1992), a arte mostra as rela\u00e7\u00f5es sociais evidentes, portanto, no que diz respeito ao tango, devemos nos perguntar quais fen\u00f4menos sociais est\u00e3o se tornando evidentes atrav\u00e9s deste fen\u00f4meno espec\u00edfico. Para Williams (1992), n\u00e3o se pode separar as rela\u00e7\u00f5es sociais evidentes das pr\u00e1ticas art\u00edsticas. Deste modo, os pressupostos fundamentais do tango enquanto literatura, m\u00fasica e espet\u00e1culo c\u00eanico est\u00e3o diretamente unidos \u00e0s quest\u00f5es socioculturais hist\u00f3ricas que permitiram que estas mesmas pr\u00e1ticas sociais se formalizassem esteticamente em uma a\u00e7\u00e3o art\u00edstica que enquadrar\u00edamos dentro do g\u00eanero tr\u00e1gico do melodrama.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ivete Huppets (2000) afirma que o melodrama substituir\u00e1 o tr\u00e1gico no s\u00e9culo XIX, a partir da corrente rom\u00e2ntica e ser\u00e1 marcado pelo excesso de sentimentalismo, embate entre dois blocos antag\u00f4nicos: o bem e o mal, o v\u00edcio e a virtude, cen\u00e1rios l\u00fagubres que impactam o p\u00fablico e trata os conflitos sentimentais para o centro do espet\u00e1culo. Todas estas caracter\u00edsticas dizem respeito ao tango, inclusive cronologicamente, uma vez que o mesmo emerge em Buenos Aires por volta de 1870. \u00a0O tr\u00e1gico enquanto melodrama finaliza com o indiv\u00edduo humano nu e desamparado em meio \u00e0 r\u00e1faga passional e tempestuosa que ele mesmo desencadeara. Tanto o mal quanto o bem s\u00e3o punidos, mas o primeiro o \u00e9 por castigo \u00e0s a\u00e7\u00f5es vis, o segundo por deixar-se arrastar aos abismos pelo primeiro. Desse ponto de vista, podemos considerar o tango como sendo o mundo no qual o sujeito se v\u00ea frustrado por outros sujeitos, assim como tamb\u00e9m pela pr\u00f3pria sociedade na qual est\u00e1 imerso, que desiludem as necessidades e desejos mais profundos deste indiv\u00edduo, desejos e necessidades tais que incluem a destrui\u00e7\u00e3o de tudo e de si mesmo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Isso deve-se pelo fato de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel existir, tal como afirma Williams (2002), uma cis\u00e3o absoluta entre rela\u00e7\u00f5es sociais evidentes, condi\u00e7\u00f5es imediatas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">sine qua non<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de uma manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica e aquelas rela\u00e7\u00f5es j\u00e1 incorporadas \u00e0s pr\u00e1ticas culturais, tais como as articula\u00e7\u00f5es formais particulares da manifesta\u00e7\u00e3o, pois estas s\u00e3o sociais e formais ao mesmo tempo. Essa estrutura de sentimento que se convenciona a uma determinada \u00e9poca n\u00e3o pode ser subtra\u00edda do desenvolvimento social de maneira geral nem tampouco reduzida a uma condi\u00e7\u00e3o meramente local. Como demonstra Williams (1992, p.151), as varia\u00e7\u00f5es e evolu\u00e7\u00f5es internas no que diz respeito \u00e0s estruturas de sentimento das muitas e variadas \u00e9pocas \u00e9 exatamente essa \u201carticula\u00e7\u00e3o culturalmente espec\u00edfica das rela\u00e7\u00f5es din\u00e2micas entre o excepcional e o comum, o singular e o coletivo\u201d e essa articula\u00e7\u00e3o \u201ccruza com outras formas de discurso e com a hist\u00f3ria pr\u00e1tica de uma sociedade sob as press\u00f5es de uma transi\u00e7\u00e3o da maior import\u00e2ncia\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No terceiro cap\u00edtulo, ainda em fase de finaliza\u00e7\u00e3o, demonstramos, topicamente, os tra\u00e7os tr\u00e1gicos\/melodram\u00e1ticos dentro da tem\u00e1tica do fracasso amoroso, quais sejam a nostalgia, a melancolia, a degrada\u00e7\u00e3o humana, o alcoolismo, o suic\u00eddio e o assassinato. A associa\u00e7\u00e3o entre amor e destrui\u00e7\u00e3o dentro do tango, uma associa\u00e7\u00e3o profunda, torna-se universal em todas as letras dos tangos-can\u00e7\u00e3o. A tristeza torna-se o sentimento inerente ao tango que, no dizer de Gobello (1999), n\u00e3o foi feito para cantar o que se tem ou o que se conquista, mas o que se perdeu, o que foi embora.<\/span><\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">EAGLETON, Terry. <\/span><b>Doce Viol\u00eancia \u2013 <\/b><span style=\"font-weight: 400\">A ideia do Tr\u00e1gico. Tradu\u00e7\u00e3o de Alzira Allegro. S\u00e3o Paulo: Editora UNESP, 2013.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">GOBELLO, Jos\u00e9. <\/span><b>Breve historia cr\u00edtica del tango<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Buenos Aires: Corregidor, 1999.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">HUPPETS, Ivete. <\/span><b>Melodrama<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> \u2013 O g\u00eanero e sua perman\u00eancia. S\u00e3o Paulo: Ateli\u00ea Editorial, 2000.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MAINGUENEAU, Dominique. <\/span><b>Ethos Discursivo<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Adail Sobral. S\u00e3o Paulo: Contexto, 2006.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SARRAZAC, Jean-Pierre. <\/span><b>Sete observa\u00e7\u00f5es sobre a possibilidade de um tr\u00e1gico moderno <\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u2013 que poderia ser um tr\u00e1gico (do) cotidiano. Tradu\u00e7\u00e3o de Lara Biasoli Moler. Pit\u00e1goras 500, v. 4. Abr. 2013.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">WILLIAMS, Raymond. <\/span><b>Cultura<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de L\u00f3lio L. de Oliveira. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">___________________. <\/span><b>Trag\u00e9dia Moderna<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Betina Bischof. S\u00e3o Paulo: Cosac &amp; Naify, 2002. <\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<strong>Bruno Santos Melo<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><strong>O TRABALHO IMATERIAL COMO POT\u00caNCIA MOLECULAR NA PRODU\u00c7\u00c3O LITER\u00c1RIA DE MARIA VAL\u00c9RIA REZENDE: O REDESENHO DO PERSONAGEM SECUND\u00c1RIO NA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPOR\u00c2NEA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Bruno Santos Melo \u2013 bsantosletras@gmail,com<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dr. Luciano Barbosa Justino (Orientador)- lucianobjustino@hotmail.com<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A literatura contempor\u00e2nea, sobretudo em \u00e2mbito nacional, tem se apresentado como um importante meio de representa\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o de grupos minorit\u00e1rios (mulheres, gays, negros, pobres, velhos), tendo como condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o importantes transforma\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas, pol\u00edticas, dentre outras. Assim, tendo em vista o constante processo de silenciamento e subalterniza\u00e7\u00e3o enfrentado por estes grupos, a express\u00e3o por meio do exerc\u00edcio com a linguagem se configura enquanto linhas de fuga (DELEUZE; PARNET, 1998) para a constru\u00e7\u00e3o de subjetividades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O sujeito contempor\u00e2neo, situado em uma sociedade marcadamente fragmentada e sol\u00favel (BAUMAN, 2001), carrega consigo quest\u00f5es que v\u00e3o de encontro a dogmas, valores e imposi\u00e7\u00f5es, pois ao passo que empreende a constru\u00e7\u00e3o e destina\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria exist\u00eancia, vivencia uma constante busca por si, resultando em um ser que experiencia um verdadeiro caos, tendo em vista a solubilidade das representa\u00e7\u00f5es do real frente a este contexto de multiplicidade e heterogeneidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Estudos como o de Dalcastagn\u00e8 (2005), Schollhamer (2009), Justino (2017), dentre outros, corroboram para a percep\u00e7\u00e3o acerca dos novos tra\u00e7os que a literatura contempor\u00e2nea vem assumindo. Neste movimento de ressignifica\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma perspectiva de democratiza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os, dos discursos e da pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o de subjetividade em um vi\u00e9s de possibilidade de cria\u00e7\u00e3o, se contrapondo \u00e0 ideia de imposi\u00e7\u00e3o ou mesmo essencialismo. No entanto, ainda h\u00e1 a predomin\u00e2ncia de um grupo seleto nas narrativas contempor\u00e2neas, a saber um p\u00fablico composto por \u201chomens brancos, sem defici\u00eancias, adultos, heterossexuais, urbanos, de classe m\u00e9dia&#8230;\u201d (DALCASTAGN\u00c8, 2005, p. 15), de modo que se faz necess\u00e1ria uma maior visibilidade dos sujeitos marginalizados que foram\/s\u00e3o durante um extenso tempo invisibilizados, bem como de suas vozes, que vem assumindo a enuncia\u00e7\u00e3o e o pr\u00f3prio protagonismo em muitas obras da atual produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria brasileira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Diante disso, a problem\u00e1tica que norteia esta pesquisa busca debru\u00e7ar-se sobre questionamentos como: Qual \u00e9 o lugar que os personagens perif\u00e9ricos assumem na narrativa romanesca <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Quarenta Dias (2014)<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e como s\u00e3o representados e se representam? De que forma a produ\u00e7\u00e3o imaterial empreendida pelos secund\u00e1rios corrobora para o desenrolar da trama? O personagem secund\u00e1rio, caracterizado muitas vezes como \u201cmenos importantes na hist\u00f3ria\u201d (GANCHO, 2002), assume novos tra\u00e7os na literatura contempor\u00e2nea?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A escritora paraibana Maria Val\u00e9ria Rezende tem se apresentado como uma poderosa voz na literatura de autoria feminina, sobretudo por ceder o protagonismo de suas obras aos marginalizados e invisibilizados de uma sociedade que tende a estigmatizar \u00e0queles que fogem aos padr\u00f5es delimitados e embasados em valores machistas e patriarcais. Diante disto, faz-se necess\u00e1ria uma literatura que resista a s\u00e9culos de preconceito e exclus\u00e3o e que d\u00ea voz a estes sujeitos, que tiveram seus direitos subtra\u00eddos ou mesmo negados, oportunizando-lhes, dessa forma, o protagonismo e o empoderamento de suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quarenta dias, obra elencada como enfoque para o trabalho a ser desenvolvido, narra a hist\u00f3ria de Alice, uma professora de franc\u00eas aposentada que leva uma vida pacata e tranquila na cidade de Jo\u00e3o Pessoa, na Para\u00edba. A estabilidade vivenciada at\u00e9 ent\u00e3o se desmorona com a chegada da filha, Norinha, \u00e0 sua casa, no intuito de convenc\u00ea-la a se mudar para Porto Alegre devido ao seu desejo de tornar-se m\u00e3e. Embora resista, Alice cede aos anseios e chantagens da filha e vai para o Sul. Ao chegar, recebe um telefonema de uma amiga que perdeu o contato com o filho ap\u00f3s a ida dele a trabalho para a regi\u00e3o. A personagem, por sua vez, empreende uma busca pelo filho perdido e, a partir disso, os principais fatos da narrativa se desenrolam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A quest\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma outra perspectiva pertinente nos estudos liter\u00e1rios, por\u00e9m, a literatura contempor\u00e2nea brasileira reflete a exist\u00eancia de in\u00fameros grupos que historicamente foram marginalizados, o que ocasiona a necessidade n\u00e3o apenas da ideia de representa\u00e7\u00e3o, a partir do olhar externo do outro, mas sim da car\u00eancia de representatividade destes na literatura (DALCASTAGN\u00c8, 2005), que se d\u00e1 por meio da produ\u00e7\u00e3o discursiva e subjetiva, corroborando para a emancipa\u00e7\u00e3o e visibiliza\u00e7\u00e3o destes sujeitos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Neste entremeio de representa\u00e7\u00f5es e representatividades, os personagens secund\u00e1rios apresentam-se n\u00e3o mais apenas enquanto meros \u201ccabedais\u201d para promo\u00e7\u00e3o do personagem protagonista. Afinal, <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">a pr\u00f3pria exist\u00eancia do personagem secund\u00e1rio est\u00e1 associada ao pressuposto de que ele n\u00e3o produz trabalho de valor, serve apenas de cen\u00e1rio, de pano de fundo, de mola, para os virtuoses e as virtudes do narrador e de seu protagonista. (JUSTINO, 2017, p.7) <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Partindo desse pressuposto, faz-se necess\u00e1rio repensar os valores imbu\u00eddos aos personagens secund\u00e1rios, atribuindo-lhes significa\u00e7\u00f5es para al\u00e9m da ideia de inferioriza\u00e7\u00e3o, enxergando-os enquanto figuras dotadas de extrema import\u00e2ncia para o desenvolver das narrativas, como \u201caqueles que definem a grandeza das obras, que lhes d\u00e3o densidade liter\u00e1ria, po\u00e9tica, pol\u00edtica, humana\u201d (JUSTINO, 2017, p. 4). Praticamente ainda s\u00e3o inexistentes os estudos que observam a ressignifica\u00e7\u00e3o do personagem secund\u00e1rio, fato compreens\u00edvel, tendo em vista s\u00e9culos de uma cr\u00edtica liter\u00e1ria pautada na supervaloriza\u00e7\u00e3o do protagonista em detrimento ao secund\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A literatura, neste contexto de contemporaneidade, configura-se enquanto uma via de m\u00e3o dupla, pois, ao passo que representa o real, o atribui novas significa\u00e7\u00f5es. Assim, delineia um importante passo no processo de representatividade de negros, de gays, de velhos, de mulheres, dentre outros, ao passo que desestabiliza moldes preconceituosos, patriarcais, mis\u00f3ginos, nos quais a literatura, por s\u00e9culos, foi forjada. Tendo em vista as estruturas de poder que o discurso \u00e9 capaz de perpetuar, a oportunidade de express\u00e3o aut\u00f4noma, sem a necessidade de media\u00e7\u00e3o pela voz do outro, promove o principal meio para a constitui\u00e7\u00e3o da subjetividade, bem como de uma coletividade, afinal, \u201c[&#8230;] o discurso n\u00e3o \u00e9 simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de domina\u00e7\u00e3o, mas aquilo porque, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar.\u201d (FOUCALT, 2014, p. 10).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dessa maneira, em um primeiro momento, como objetivo geral, delimitamos estudar o redesenho do conceito de personagem secund\u00e1rio na literatura contempor\u00e2nea a partir da obra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Quarenta Dias (2014)<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de Maria Val\u00e9ria Rezende. Como espec\u00edficos, destacamos discutir o conceito de personagem secund\u00e1rio convencionado pela cr\u00edtica liter\u00e1ria; evidenciar o trabalho imaterial empreendido pelos personagens secund\u00e1rios, bem como a representa\u00e7\u00e3o destes no romance de Maria Val\u00e9ria Rezende e refletir acerca da import\u00e2ncia do personagem secund\u00e1rio para o desenrolar da narrativa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No entanto, frente \u00e0s discuss\u00f5es empreendidas na disciplina \u201cDialogismo e filosofia do Intercultural\u201d, no corrente semestre, algumas modifica\u00e7\u00f5es foram pensadas para o projeto, a fim de atribuir-lhe um maior dimensionamento te\u00f3rico e cr\u00edtico. Diante das problematiza\u00e7\u00f5es conceituais postas na perspectiva filosofia deleuze-guattariana, observamos que seria relevante agregar alguns destes conceitos ao projeto a fim de desenvolv\u00ea-los na produ\u00e7\u00e3o da disserta\u00e7\u00e3o em di\u00e1logo com o texto liter\u00e1rio. Assim, interessa-nos pensar a ideia do trabalho imaterial dos personagens secund\u00e1rios como uma pot\u00eancia molecular, por meio postulados te\u00f3ricos de Deleuze e Guattari (1995, 1996) e Guattari (1980, 1992).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A partir desta modifica\u00e7\u00e3o, achamos por bem tamb\u00e9m expandir o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">corpus <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">de an\u00e1lise, observando a manifesta\u00e7\u00e3o do trabalho imaterial como potencial molecular do personagem secund\u00e1rio em tr\u00eas contos, de tr\u00eas distintos livros de Maria Val\u00e9ria Rezende. Este, o segundo momento da disserta\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 antecedido por uma discuss\u00e3o a n\u00edvel te\u00f3rico acerca da primeiriza\u00e7\u00e3o dos segundos frente a diversos anos de uma cr\u00edtica liter\u00e1ria pautada nos personagens protagonistas. No terceiro e \u00faltimo momento, objetivamos evidenciar como os perif\u00e9ricos atuam e agenciam a trama de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Quarenta dias <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(2014), \u00e0 luz das discuss\u00f5es te\u00f3ricas ent\u00e3o realizadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A fim de observar o movimento empreendido pelos secund\u00e1rios tamb\u00e9m na produ\u00e7\u00e3o cont\u00edstica da escritora selecionamos tr\u00eas narrativas. A primeira, \u201cE se fosse\u201d, da antologia <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A face serena (2018),<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> narra a hist\u00f3ria de Aldinho, um garoto que tem a sua sexualidade questionada por apresentar alguns medos, fato que o leva a se submeter a uma situa\u00e7\u00e3o extrema frente a um determinado personagem para demonstrar a sua masculinidade. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A segunda narrativa, \u201cO mundo visto do alto\u201d, presente na colet\u00e2nea <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hist\u00f3rias daqui e d\u2019acol\u00e1 (2012)<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, retrata a chegada de uma mo\u00e7a do Rio de Janeiro a uma cidade do interior, fato que desperta a aten\u00e7\u00e3o de Tatuzinho, rapaz que mora no local e logo se apaixona pelos modos de ser da jovem, que se diferenciava das outras da cidade por seus trejeitos, gestos, beleza e modo distinto de falar. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No terceiro conto, \u201cSagui\u201d, presente no livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Modo de apanhar p\u00e1ssaros \u00e0 m\u00e3o (2006)<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, nos deparamos com a hist\u00f3ria de Irene e seu filho, um personagem que tamb\u00e9m se faz presente em outras narrativas para al\u00e9m do livro em quest\u00e3o, como no romance <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O voo da guar\u00e1 vermelha (2005) <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ouro dentro da cabe\u00e7a (2012)<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Neste conto, observamos as justificativas para melhor compreender os comportamentos e a constru\u00e7\u00e3o da subjetividade do menino, que passou a morar com a av\u00f3 devido \u00e0 vida de prostitui\u00e7\u00e3o que Irene leva. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De acordo com as especificidades da proposta, escolhemos como modalidade a pesquisa a bibliogr\u00e1fica qualitativa, em que nos interessa &#8220;mais o processo do que simplesmente os resultados ou produtos&#8221;, como ressaltam <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Bogdan e Biklen (1994<\/span><span style=\"font-weight: 400\">, p. 38). A pesquisa baseia-se no plano dos significados, das rela\u00e7\u00f5es, das intera\u00e7\u00f5es, em dados que n\u00e3o podem ser quantificados, conforme destaca Minayo (2001).<\/span><\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BAUMAN, Zygmunt. <\/span><b>Tempos l\u00edquidos. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Tradu\u00e7\u00e3o: Carlos Aberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BOGDAN, Roberto C.; BIKLEN, Sari Knopp.\u00a0<\/span><b>Investiga\u00e7\u00e3o qualitativa em educa\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/b><span style=\"font-weight: 400\">Porto: Porto Editora, 1994.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DALCASTAGN\u00c8, Regina. <\/span><b>Personagens do romance brasileiro contempor\u00e2neo: 1990-2004. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Estudos de Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea, n. 26. Bras\u00edlia, julho-dezembro de 2005, p. 13-71. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/repositorio.unb.br\/bitstream\/10482\/7380\/1\/ARTIGO _Personagem Romance Brasileiro.pdf&gt; Acesso em: 06\/10\/2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DELEUZE, Gilles. e GUATTARI, F\u00e9lix. <\/span><b>Mil plat\u00f4s<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: capitalismo e esquizofrenia (Vol. 01). Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">____________. \u00a0<\/span><b>Mil plat\u00f4s<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: capitalismo e esquizofrenia (Vol. 03). Rio de Janeiro: Editora 34, 1996.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. <\/span><b>Di\u00e1logos<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o: Eloisa Ara\u00fajo Ribeiro. S\u00e3o Paulo: 1998.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">FOUCALT, Michel. <\/span><b>A ordem do discurso. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">24\u00aa Ed. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2014.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">GANCHO, Ca\u0302ndida Vilares. <\/span><b>Como analisar narrativas<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Editora \u00c1tica, 2002.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">GUATTARI, F\u00e9lix. <\/span><b>Caosmose<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: um novo paradigma est\u00e9tico.S\u00e3o Paulo: Editora 34, 1992.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________________. <\/span><b>Revolu\u00e7\u00e3o molecular<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: pulsa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do desejo. S\u00e3o Paulo: Editora Brasiliense, 1980.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">JUSTINO, Luciano B. <\/span><b>A cr\u00edtica diante do trabalho imaterial. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0Revista Brasileira de Literatura Comparada, n. 29, v. 18, p. 1-19, 2017. Dispon\u00edvel em &lt;revista.abralic.org.br\/index.php\/revista\/article\/download\/402\/394&gt;. Acesso em 27 de setembro de 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">LAZZARATO, Maurizio; NEGRI, Ant\u00f4nio. <\/span><b>Trabalho imaterial: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">formas de vida e produ\u00e7\u00e3o de subjetividade. Trad. M\u00f4nica Jesus. Rio de Janeiro: DP&amp;A, 2001.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MINAYO, Maria Cec\u00edlia de Souza (org.). <\/span><b>Pesquisa Social. Teoria, m\u00e9todo e criatividade<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 18 ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 2001.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">REZENDE, Maria Val\u00e9ria. <\/span><b>A face serena<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Guaratinguet\u00e1: Penalux, 2018.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________, Maria Val\u00e9ria. <\/span><b>Hist\u00f3rias daqui e d&#8217;acol\u00e1<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2012. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________, Maria Val\u00e9ria. <\/span><b>Modo de apanhar p\u00e1ssaros \u00e0 m\u00e3o. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">S\u00e3o Paulo: Objetiva, 2006<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________, Maria Val\u00e9ria. <\/span><b>Ouro dentro da cabe\u00e7a<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________, Maria Val\u00e9ria. <\/span><b>O voo da guar\u00e1 vermelha<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________, Maria Val\u00e9ria. <\/span><b>Quarenta dias. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SCHOLLHAMMER, Erik. <\/span><b>Fic\u00e7\u00e3o brasileira contempor\u00e2nea.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2009.<\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<strong>Erick Ferreira Cabral\u00a0<\/strong>[\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>A RELEITURA DOS MITOS GREGOS NO CINEMA DE HOLLYWOOD<\/b><\/p>\n<p><b>ERICK FERREIRA CABRAL<\/b><\/p>\n<p><b>LINHA DE PESQUISA: LITERATURA E HERMEN\u00caUTICA<\/b><\/p>\n<p><b>ORIENTADOR:\u00a0<\/b><b>Gilvan de Melo Santos<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>RESUMO<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As descri\u00e7\u00f5es tradicionais das origens do mundo atrav\u00e9s de relatos os mais diversos, tanto quanto s\u00e3o diversos os povos espalhados pelo planeta, foram substitu\u00eddas, em boa parte do mundo ocidental, pela teoria de Darwin, que passou a ser tida como oficial, sendo ensinada \u00e0s crian\u00e7as desde cedo nas escolas. O consenso em torno desta teoria traz impl\u00edcita a ideia de uma supera\u00e7\u00e3o das vis\u00f5es anteriores, levando \u00e0 no\u00e7\u00e3o de ser ela a \u00fanica vis\u00e3o verdadeira do conjunto da vida. N\u00e3o obstante, a vida, como nos lembra Barthes (2007), nos aparece como um total indiscern\u00edvel de estruturas e formas, mas \u00e9 apropriada pelo saber cient\u00edfico no sentido de afastar o que nela h\u00e1 de inef\u00e1vel, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 resigna\u00e7\u00e3o com o escasso conhecimento sobre o todo vivida pelos antigos. Tal conhecimento se consolidava, muitas vezes, atrav\u00e9s de relatos orais, os quais nos chegam hoje em dia sob o nome de mitos. Estes podiam tratar das cosmogonias (explica\u00e7\u00e3o da origem das coisas), de relatos de her\u00f3is, entre outros. Hoje, tais relatos tendem a ser vistos como inver\u00eddicos e fantasiosos (ARMSTRONG, 2005), e o conhecimento que trazem n\u00e3o tem mais validade do que teria uma mera hist\u00f3ria de ninar crian\u00e7as, de modo que o pr\u00f3prio termo \u2018mito\u2019 tornou-se sin\u00f4nimo de mentira, de inverdade, acep\u00e7\u00e3o esta que, conforme veremos no presenta trabalho, configura-se bastante limitada em face do vasto conjunto de significados que este termo conota. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em se tratando de mitologia, tomando o ponto de vista da cultura ocidental, \u00e9 not\u00e1vel o legado deixado pela mitologia grega, da qual boa parte dos relatos nos foram herdados e permanecem sendo constantemente recontados, principalmente por parte do cinema. Apesar de haver toda uma riqueza material e visual encontradas nas artes pl\u00e1sticas, \u00e9 no teatro e na literatura que encontramos uma maior gama e detalhamento de como seriam estas narrativas mitol\u00f3gicas (GRIMAL, 2013). No que respeita ao teatro, o Ocidente muito deve aos autores gregos, dentre os quais destacamos nomes como \u00c9squilo, Eur\u00edpides e Arist\u00f3fanes. Na Literatura, encontramos nomes como Hes\u00edodo, S\u00f3focles e Homero, sendo este \u00faltimo o mais not\u00e1vel, cujas duas obras principais, a Il\u00edada e a Odiss\u00e9ia, deixaram profundas marcas na literatura ocidental e t\u00eam suas hist\u00f3rias contadas at\u00e9 a atualidade. Ambas tiveram uma releitura no cinema: a primeira, mais antiga, atrav\u00e9s do filme \u2018Helena de Tr\u00f3ia\u2019, de 1956, e a outra, mais recente, atrav\u00e9s do filme \u2018Tr\u00f3ia\u2019, de 2004; a segunda, por meio do filme \u2018Ulisses\u2019, de 1954, e de uma miniss\u00e9rie produzida pela NBC, \u2018A Odiss\u00e9ia\u2019, de 1997. Essas releituras s\u00e3o de uma import\u00e2ncia not\u00e1vel, visto que, conforme j\u00e1 mencionado, os relatos mitol\u00f3gicos perderam a for\u00e7a enquanto explica\u00e7\u00f5es da realidade, mas sobrevivem sob nova configura\u00e7\u00e3o. \u00c9 precisamente a nova \u2018roupagem\u2019 desses relatos que achamos por bem investigar, analisando o que ainda sobrevive dos mitos antigos, o que h\u00e1 de novo e o que se perdeu. Abordaremos a tradu\u00e7\u00e3o intersemi\u00f3tica (PLAZA, 2003) do mito por parte do cinema, dada a dimens\u00e3o que este alcan\u00e7a enquanto forma de arte. Metz (1972, p. 16) nos d\u00e1 uma ideia desta dimens\u00e3o, ao lembrar da \u201cimpress\u00e3o da realidade vivida pelo espectador diante do filme. Mais do que o romance, mais do que a pe\u00e7a de teatro, mais do que o quadro do pintor figurativo, o filme nos d\u00e1 o sentimento de estarmos assistindo diretamente a um espet\u00e1culo quase real.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"> Devido \u00e0 sua import\u00e2ncia na cultura Ocidental, \u00e9 no \u00e2mbito da mitologia grega que ser\u00e1 feito nosso estudo. Tendo em vista a imensid\u00e3o destas narrativas mitol\u00f3gicas e suas diversas fontes, varia\u00e7\u00f5es e formatos, achamos por bem analisar nelas aquilo que h\u00e1 de est\u00e1vel, que possa ser encontrado num mesmo formato e num mesmo autor. Homero sintetizou e estabilizou bem diversos desses relatos na antiguidade. Al\u00e9m disso, suas duas grandes obras foram devidamente revisitadas pelo cinema, facilitando a leitura delas sob esses dois meios, a saber, a poesia e o meio cinematogr\u00e1fico. Visto serem duas obras de grande porteSer\u00e1, portanto, a obra de Homero, Odisseia, nosso objeto de estudo. Com ela iremos comparar as duas adapta\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas (Ulisses, 1954, dire\u00e7\u00e3o de Mario Camerini, e A Odiss\u00e9ia, 1997, dire\u00e7\u00e3o de Andrey Konchalovsky). Da poesia hom\u00e9rica em Odisseia iremos extrair seu n\u00facleo duro, seu mitema, conceito estabelecido por Gilbert Durand no livro \u201cMito, S\u00edmbolo e Mitodologia\u201d (1982). Feito isso, analisaremos as duas obras cinematogr\u00e1ficas supracitadas e nelas iremos abordar a perman\u00eancia ou aus\u00eancia desses mitemas e, a partir da\u00ed, a constata\u00e7\u00e3o do que se perdeu e do que se ganhou nessa adapta\u00e7\u00e3o de uma mesma hist\u00f3ria.<\/span>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle] <strong>Fabr\u00edcio Batista de Sousa<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><strong>AS RELA\u00c7\u00d5ES L\u00c9SBICAS E SUAS PRODU\u00c7\u00d5ES DE SENTIDOS NO JOGO<\/strong><br \/>\n<strong>\u00c9ROTICO DOS CORPOS EM AZUL \u00c9 A COR MAIS QUENTE<\/strong><\/p>\n<p>Fabr\u00edcio Batista de Sousa (UEPB)<br \/>\nOrientador: Ant\u00f4nio de P\u00e1dua<\/p>\n<p>Diversos fatores est\u00e3o imbricados quando discutimos quest\u00f5es de g\u00eanero dentro dos<br \/>\nestudos culturais. S\u00e3o quest\u00f5es cientificas, sociol\u00f3gicas, religiosas, pol\u00edticas e in\u00fameras<br \/>\noutras que concernem discuss\u00f5es em torno do g\u00eanero. Segundo Zolin (2004), desde o<br \/>\ns\u00e9culo XX, com o desenvolvimento do pensamento feminista, a mulher vem sendo<br \/>\nevidenciada como objeto de estudo, sobretudo no \u00e2mbito da literatura. O sujeito mulher<br \/>\n\u00e9 historicamente marcada pela subordina\u00e7\u00e3o aos referidos paradigmas da sociedade<br \/>\npatriarcal, bem como pela domina\u00e7\u00e3o a obedecer aos estere\u00f3tipos marcados pelo<br \/>\ng\u00eanero, e que por muitas vezes s\u00e3o sujeitadas ao desejo masculino. Portanto, se os<br \/>\ndesejos sexuais das mulheres heterossexuais j\u00e1 s\u00e3o permeados de repres\u00e1lias, isso tudo<br \/>\nse torna mais grave quando as mulheres n\u00e3o s\u00e3o heterossexuais.<br \/>\nAs l\u00e9sbicas s\u00e3o oprimidas e marginalizadas no meio social, possuem uma dupla<br \/>\nrepres\u00e1lia que didaticamente pode ser entendida por \u201cser mulher\u201d e sentir atra\u00e7\u00e3o\/desejo<br \/>\npelo mesmo g\u00eanero Elas impelem uma forte carga cultural regada de preconceitos e<br \/>\ndiscrimina\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 sua sexualidade. Na literatura, tamb\u00e9m existe um forte<br \/>\nesquecimento para com as l\u00e9sbicas e suas representa\u00e7\u00f5es, por vezes, elas s\u00e3o<br \/>\nestereotipadas e marginalizadas. As rela\u00e7\u00f5es entre l\u00e9sbicas em sua maioria s\u00e3o<br \/>\nsilenciadas pela m\u00eddia, e por vezes, suas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o super sexualizas pelo olhar<br \/>\nmasculino.<br \/>\nTemos o romance gr\u00e1fico (graphic novel) como um fen\u00f4meno advindo das hist\u00f3rias<br \/>\nem quadrinhos (HQ), que surgiu no fim da d\u00e9cada de 1970, e atualmente vem ganhando<br \/>\nespa\u00e7o no meio liter\u00e1rio com uma alta qualidade est\u00e9tica e tem\u00e1ticas atuais. A tem\u00e1tica<br \/>\nda lesbianidade est\u00e1 sendo trazida \u00e0 tona por v\u00e1ri@s cartunistas que por meio de suas<br \/>\npersonagens visibilizam a exist\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es afetivo-sexuais, fazendo com que o<br \/>\nromance gr\u00e1fico seja uma forte ferramenta para discuss\u00f5es das sexualidades.<br \/>\nOutra ferramenta importante \u00e9 o cinema, que atualmente vem discutindo v\u00e1rias<br \/>\npr\u00e1ticas de discrimina\u00e7\u00f5es e repress\u00f5es gays\/l\u00e9sbicas. L\u00f3gico que existem certas<br \/>\nprodu\u00e7\u00f5es que correm o risco de fixar estere\u00f3tipos de gays e l\u00e9sbicas como sujeitos<br \/>\nvitimados pela sociedade e por vezes suas rela\u00e7\u00f5es sexuais s\u00e3o invisibilizadas, o que<br \/>\nn\u00e3o acontece com as rela\u00e7\u00f5es heterossexuais. No entanto, por outro lado, s\u00e3o filmes que<br \/>\npodem favorecer a autoestima, representando-os como agentes din\u00e2micos nos processos<br \/>\nde luta, liberta\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o social, o que faz o sucesso do cinema mundialmente.<br \/>\nO cinema instiga o desejo, o mundo dos afetos, sensa\u00e7\u00f5es e sentimentos, e atua<br \/>\nsobre a libido, o erotismo, a sensualidade, influindo na rela\u00e7\u00e3o entre os homens e os<br \/>\nseus objetos de desejo. De acordo com Paiva (2007), o olhar \u00e9 uma forma de possuir e<br \/>\nas telas aproximam os espectadores do corpo, pele, olhos, boca, dentes e m\u00fasculos dos<br \/>\nhomens e mulheres do cinema. Uma vez que \u00e0s estrelas do cinema \u00e9 conferida uma<br \/>\nbeleza f\u00edsica extraordin\u00e1ria, elas podem arrebatar os sentidos dos espectadores,<br \/>\nestimulando a ilus\u00e3o desses serem correspondidos em suas paix\u00f5es voyeuristas pelas<br \/>\ncriaturas mitol\u00f3gicas projetadas nas telas.<br \/>\nDessa forma, temos como corpus de an\u00e1lise dois suportes de linguagem: o<br \/>\nromance gr\u00e1fico (graphic novel) \u201cazul \u00e9 a cor mais quente\u201d (Le Bleu est une couleur<br \/>\nchaude, original em franc\u00eas, 2010) de autoria de Julie Maroh e a vers\u00e3o<br \/>\ncinematogr\u00e1fica, com a mesma nomea\u00e7\u00e3o dirigida por Abdellatif Kechiche (La vie<br \/>\nd&#8217;Ad\u00e8le no original franc\u00eas, 2013).<br \/>\nTemos como objetivo geral analisar e problematizar a rela\u00e7\u00e3o lesboer\u00f3tica das<br \/>\npersonagens principais em ambos suportes de linguagem, com o prop\u00f3sito de perceber<br \/>\ncomo os corpos das mulheres l\u00e9sbicas est\u00e3o dispostos e s\u00e3o configuradas para<br \/>\n(des)silenciar os prazeres corporais, bem como identificar quais suas produ\u00e7\u00f5es de<br \/>\nsentidos no jogo er\u00f3tico dos corpos, tendo em vista que, o romace gr\u00e1fico \u00e9 de autoria<br \/>\nfeminina e a produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica \u00e9 de autoria masculina. Para isso,<br \/>\nresponderemos os seguintes questionamentos: O fator de g\u00eanero mudaria o olhar para a<br \/>\nrepresenta\u00e7\u00e3o das lesbianidades e seus corpos, de que forma? Como as mulheres<br \/>\nl\u00e9sbicas est\u00e3o subjetivadas nos suportes? Como os corpos foram (re)configurados como<br \/>\nprodu\u00e7\u00e3o de sentido? Mesmo com as aproxima\u00e7\u00f5es e distanciamentos entre os dois<br \/>\nsuportes de linguagem, em que medida os corpos das mulheres l\u00e9sbicas s\u00e3o erotizados?<br \/>\nComo seus corpos resistem e usufruem do prazer?<br \/>\nPartimos do pressuposto de que as rela\u00e7\u00f5es sexuais entre l\u00e9sbicas ainda s\u00e3o<br \/>\nbastante feitichadas pelo olhar masculino, principalmente na ind\u00fastria pornogr\u00e1fica,<br \/>\nassim, concedendo a l\u00f3gica do regime heterossexual, machista, faloc\u00eantrico, mis\u00f3gino e<br \/>\nhomof\u00f3bico. Segundo Wittig (1992) a sociedade heteronormativa interpreta a cultura<br \/>\ncomo totalizante, ou seja, existe um heterossexismo que n\u00e3o enxerga para al\u00e9m das suas<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es sexuais bin\u00e1rias. Dessa maneira, as l\u00e9sbicas s\u00e3o colocadas no jogo de poder de<br \/>\numa heteronormatividade, em que as pr\u00e1ticas lesbo\u00e9roticas, na maioria das vezes,<br \/>\nservem para satisfazer os prazeres do sexo masculino.<br \/>\nTemos a m\u00eddia como uma ferramenta que consegue fomentar, influenciar e<br \/>\nconstruir dentro de um imagin\u00e1rio social uma s\u00e9rie de estere\u00f3tipos prejudiciais \u00e0s<br \/>\nl\u00e9sbicas. \u00c9 preciso pensar e problematizar como as representa\u00e7\u00f5es das lesbianidades<br \/>\nfomentam tais discursos, na medida em que, normalizam tais condutas desses sujeitos, e<br \/>\npor outro lado, pensar que, algumas representa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m desconstroem a ideia<br \/>\nsexualizada da mulher l\u00e9sbica, pois de fato, existe um p\u00fablico de mulheres que pelo<br \/>\nprocesso de verossimilhan\u00e7a apontam para um realismo problematizado atrav\u00e9s dos<br \/>\nsujeitos ficcionais das obras.<br \/>\nDesse modo, atrav\u00e9s das rela\u00e7\u00f5es intersemi\u00f3ticas, investigaremos as<br \/>\ntransposi\u00e7\u00f5es de m\u00eddia e cultura do romance gr\u00e1fico para vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica, com<br \/>\nintuito de discutir como os discursos e pr\u00e1ticas operam sobre a constru\u00e7\u00e3o do corpo das<br \/>\nl\u00e9sbicas, visto que, cada representa\u00e7\u00e3o do corpo seja atrav\u00e9s de desenho, fotografia,<br \/>\ncinematografia se constr\u00f3i dentro de uma atmosfera que cont\u00e9m uma ideia a ser<br \/>\ntransmitida em um espa\u00e7o de comunica\u00e7\u00e3o e significa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAmbos suportes contam a hist\u00f3ria de amor entre duas pessoas do mesmo g\u00eanero<br \/>\nfeminino, assim, proporcionando discuss\u00f5es sobre os desafios internos e externos da<br \/>\nsexualidade, tendo como intuito quebrar tabus e trazer \u00e0 tona a discuss\u00e3o das<br \/>\nlesbianidades. A hist\u00f3ria em quadrinhos de Julie Maroh inicia-se com Emma, uma<br \/>\njovem pintora e homossexual, que lamenta a morte de sua ex-namorada Cl\u00e9mentine. Ao<br \/>\nreceber da fam\u00edlia de Cl\u00e9mentine di\u00e1rios pessoais, acaba por descobrir a verdadeira<br \/>\nintensidade dos sentimentos de sua ex- namorada, mesmo ap\u00f3s o rompimento da<br \/>\nrela\u00e7\u00e3o. A vida de Cl\u00e9mentine vai sendo contada atrav\u00e9s de suas viv\u00eancias e<br \/>\ndepoimentos, dos textos escritos nos di\u00e1rios, com trechos que pontuam momentoschave<br \/>\nda hist\u00f3ria, principalmente o da descoberta da sua sexualidade.<br \/>\nNa vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica dirigida por Abdellatif Kechiche (2013), a<br \/>\npersonagem Cl\u00e9mentine tem seu nome mudado para Ad\u00e8le, fazendo rela\u00e7\u00e3o com o<br \/>\nmesmo nome da atriz que a interpreta, Ad\u00e8le Exarchopoulo. O filme se diferencia em<br \/>\nmuitos aspectos da proposta por Maroh (2010) no romance gr\u00e1fico, desde a forma de<br \/>\ntransmitir os sentimentos e a intimidade das personagens, at\u00e9 o pr\u00f3prio conte\u00fado linear<br \/>\ne desfecho da hist\u00f3ria \u00e9 modificado. A nossa an\u00e1lise tende de perceber o contexto<br \/>\nhist\u00f3rico-social da obra e de sua tradu\u00e7\u00e3o audiovisual, assim, levando em considera\u00e7\u00e3o<br \/>\nque o trabalho est\u00e1 sendo traduzido para um sistema de signos diferente e que, portanto,<br \/>\ndeve apresentar novas estrat\u00e9gias de representa\u00e7\u00f5es. Dick (1990), nos diz que a<br \/>\nfidelidade em tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, portanto temos essa vis\u00e3o de que \u00e9 um trabalho<br \/>\npara novos contextos culturais e temporais.<br \/>\nA nossa an\u00e1lise ter\u00e1 como base os estudos de corpo, g\u00eanero e sexualidades, no<br \/>\ntocante das lesbianidades e teorias da tradu\u00e7\u00e3o intersemi\u00f3tica A partir dos resultados<br \/>\nobtidos, esta pesquisa pretende propor discuss\u00f5es consistentes que contribuam para o<br \/>\nentendimento do processo tradut\u00f3rio audiovisual, bem como para a cr\u00edtica das rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nde g\u00eanero e representa\u00e7\u00f5es das lesbianidades em ambos suportes.<br \/>\nO aporte te\u00f3rico-cr\u00edtico utilizado para an\u00e1lises conta com os princ\u00edpios te\u00f3ricos<br \/>\nde: Barbieri (2017), Eisner (2001) e Mccloud (2005) que trabalham com hist\u00f3ria em<br \/>\nquadrinhos e narrativas gr\u00e1ficas; Mott (1987), Wittig (2009), Butler (2003), Wolff<br \/>\n(2011) Sedgwick (2007), Gallotti (2005) Xavier (2007) com discuss\u00f5es em torno do<br \/>\ncorpo, g\u00eanero e das lesbianidades; Eco (1996) e Plaza (2003), essenciais para a<br \/>\ncompress\u00e3o e discuss\u00f5es sobre os processos de tradu\u00e7\u00f5es, sobretudo intersemi\u00f3tica.<br \/>\nPortanto, como categorias de an\u00e1lise, temos: I) estudos sobre o corpo II) estudos de<br \/>\ng\u00eanero e sexualidades; III) romance gr\u00e1fico (graphic novel), os formatos: a) obra<br \/>\noriginal, b) obra traduzida e c) adapta\u00e7\u00e3o f\u00edlmica; IV) rela\u00e7\u00e3o ente literatura e cinema<br \/>\nV) tradu\u00e7\u00e3o intersemi\u00f3tica.<br \/>\nPretendemos concluir a disserta\u00e7\u00e3o no segundo per\u00edodo de 2019. No momento, a<br \/>\npresente pesquisa encontra-se em andamento atrav\u00e9s das leituras te\u00f3ricas que servir\u00e3o<br \/>\nde base para an\u00e1lises, bem como a escrita do primeiro cap\u00edtulo (te\u00f3rico), que tem como<br \/>\nobjetivo trazer discuss\u00f5es sobre o romance gr\u00e1fico (graphic novel) e sua diferen\u00e7a com<br \/>\nhist\u00f3ria em quadrinhos (HQ); sobre corpo; sobre as lesbianidades; sobre como as<br \/>\nmulheres l\u00e9sbicas foram\/est\u00e3o representadas no cinema e sobre tradu\u00e7\u00e3o intersemi\u00f3tica.<br \/>\nO segundo cap\u00edtulo ser\u00e1 destinado \u00e0 an\u00e1lise comparativa do romance gr\u00e1fico com o<br \/>\nfilme, com o intuito de perceber suas aproxima\u00e7\u00f5es e distanciamentos em torno do<br \/>\nenredo e das representa\u00e7\u00f5es das personagens. O terceiro cap\u00edtulo trar\u00e1 como foco a<br \/>\nproblematiza\u00e7\u00e3o da tem\u00e1tica, suas produ\u00e7\u00f5es de sentido, tentando compreender como as<br \/>\nt\u00e9cnicas e configura\u00e7\u00f5es se materializam nas subjetividades das personagens do<br \/>\nromance gr\u00e1fico para o cinema.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><br \/>\nBARBIERI, Daniele. As Linguagens dos Quadrinhos. S\u00e3o Paulo: Peir\u00f3polis, 2017.<br \/>\nBUTLER, Judith. Problemas de g\u00eanero: feminismo e subvers\u00e3o da identidade. Rio de<br \/>\nJaneiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. 2003<br \/>\nEISNER, Will. Quadrinhos e Arte Sequencial. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001.<br \/>\nECO, U. Tratado Geral de Semi\u00f3tica. 2\u00aa ed. S\u00e3o Paulo Perspectiva, 1996.<br \/>\nGALOTTI, Alicia. Kama-sutra l\u00e9sbico, para viver a sexualidade em liberdade.<br \/>\nPlaneta, 2005.<br \/>\nMCCLOUD, Scott. Desvendando os Quadrinhos. S\u00e3o Paulo: Makron Books, 2005.<br \/>\nMOTT, Luiz R. B.O lesbianismo no Brasil. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.<br \/>\nPLAZA, J. Tradu\u00e7\u00e3o Intersemi\u00f3tica. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1987<br \/>\nSEDGWICK, E. K. A epistemologia do arm\u00e1rio. Campinas-SP, Cadernos Pagu, n. 28,<br \/>\njan.\/jun., 19-54, 2007<br \/>\nVI\u00d1UALES, Olga. Lesbofobia. Barcelona: Bellaterra, 2002.<br \/>\nWITTIG, Monique. The Straight Mind: and other essays. Boston: Beacon Press,<br \/>\n1992.<br \/>\nXAVIER, El\u00f3ida. Que corpo \u00e9 esse?. O corpo no imagin\u00e1rio feminino. Florian\u00f3polis.<br \/>\nEd. Mulheres, 2007.<br \/>\n[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle] <strong>Heloisa Costa Rigon<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><strong>Clorinda Matto de Turner: a literatura como den\u00fancia dos conflitos pol\u00edticos e sociais no Peru<\/strong><\/p>\n<p>Discente: Heloisa Costa Rigon<\/p>\n<p>Orientadora: Dra. Francisca Zuleide Duarte<\/p>\n<p>O presente trabalho tem como objetivo apresentar o que foi elaborado na pesquisa intitulada \u201cClorinda Matto de Turner: a literatura como den\u00fancia dos conflitos pol\u00edticos e sociais do Peru\u201d a partir do in\u00edcio do ano letivo de 2018 at\u00e9 o momento e os estudos que ainda ser\u00e3o desenvolvidos at\u00e9 o processo de qualifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>EST\u00c1GIO ATUAL DA PESQUISA <\/strong><\/p>\n<p>Iniciamos a pesquisa analisando as conflu\u00eancias de temas das disciplinas cursadas no primeiro semestre do programa (2018.1) e de trabalhos apresentados e publicados em eventos acad\u00eamicos neste mesmo per\u00edodo. As leituras e o processo de escrita focaram-se em tr\u00eas ramos: a quest\u00e3o agr\u00e1ria e o \u201cproblema do \u00edndio\u201d no Peru no final do s\u00e9culo XIX com base em Cornejo-Polar (2003), Galastri (2017), Mari\u00e1tegui (2007; 2010); o ativismo intelectual etnogr\u00e1fico de Clorinda Matto (1852-1909) em prol das mulheres ind\u00edgenas, a sua participa\u00e7\u00e3o ativa no grupo feminista peruano na \u00e9pocaque envolvia outras escritoras, e as consequ\u00eancias que ela sofreu pela opress\u00e3o do Estado e da Igreja a partir da teoria de Cornejo-Polar (2003), Denegri (2017), Klinger (2006), M\u00e1rtinez Hoyos (2010), Mel\u00e9ndez (1998), Spivak (2006), Torres de Calder\u00f3n (2006); por fim, sobre a pesquisa em literatura hispano-americana. Com exce\u00e7\u00e3o deste \u00faltimo ponto, que est\u00e1 relacionado ao trabalho como um todo, os demais fazem parte do desenvolvimento da disserta\u00e7\u00e3o. A saber: Para compreender o contexto pol\u00edtico-social em que se encontrava o pa\u00eds andino no \u00faltimo trimestre de 1800, acreditamos ser oportuno analisar a situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria enfrentada pela comunidade ind\u00edgena. Al\u00e9m de o tema estar presente na obra objeto de an\u00e1lise Aves sin nido (1889), o envolvimento da autora na luta por melhores condi\u00e7\u00f5es dos \u00edndios lhe rendeu cr\u00edticas com base em contradi\u00e7\u00f5es entre sua milit\u00e2ncia e sua vida privada. Este estudo foi desenvolvido em formato de artigo para a disciplina T\u00f3picos especiais: Ecocr\u00edtica e somente porque a rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, \u00e9tnica e social da terra e do \u00edndio est\u00e1 presente nos estudos que envolvem o ativismo ambiental atrav\u00e9s da literatura. No entanto, o trabalho n\u00e3o seguir\u00e1 por esse caminho, como j\u00e1 foi dito, foi a concilia\u00e7\u00e3o entre o tema da pesquisa e da disciplina mencionada. Na concord\u00e2ncia com a disciplina Literatura, Mem\u00f3ria e Testemunho, o trabalho final foi focado no ativismo intelectual de Clorinda e as consequ\u00eancias que ela sofreu &#8211; incluindo o ex\u00edlio e seu processo de escrita durante tal per\u00edodo. Tamb\u00e9m analisamos o papel da etnografia em Aves sin nido (1889) entre dois aspectos, o \u201cobservador participante\u201d e a \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o de segunda m\u00e3o\u201d. O primeiro est\u00e1 relacionado a vida ativa de Clorinda no campo, sua viv\u00eancia lhe d\u00e1 credibilidade ao falar pelo \u00edndio. O segundo ponto faz refer\u00eancia ao fato de ela ser uma mulher intelectual branca falando pelas mulheres camponesas ind\u00edgenas, explorando a legitimidade da voz que representa outra classe social. No momento presente, o estudo da pesquisa est\u00e1 caminhando para a milit\u00e2ncia do feminismo no Peru praticada pela escritora peruana e demais companheiras liter\u00e1rias. Neste ponto, tamb\u00e9m abordaremos a utiliza\u00e7\u00e3o da literatura como fonte de den\u00fancia ao referir-se do abuso sexual que as ind\u00edgenas peruanas eram submetidas pelo clero identificado na obra Aves sin nido (1889). Todo esse movimento foi significativo na sociedade peruana e latino-americana marcando uma \u00e9poca. Este estudo ser\u00e1 apresentado no I Congreso Internacional Clorinda Matto de Turner compondo o GT El alegato de Matto y las escritoras del \u00faltimo tercio de XIX contra la violencia de g\u00e9nero y a favor de la defensa de los derechos humanos que ir\u00e1 ocorrer em Cusco (Peru) nos dias 06 a 08 de novembro do presente ano.<\/p>\n<p><strong>ESTUDOS A SEREM DESENVOLVIDOS <\/strong><\/p>\n<p>Dentro do que foi planejado no projeto de pesquisa, al\u00e9m de aprimorar os assuntos j\u00e1 apresentados, os pontos que ainda ser\u00e3o desenvolvidos s\u00e3o:<\/p>\n<p>\uf0b7 A rela\u00e7\u00e3o da literatura com a sociedade &#8211; ao levar em conta a repercuss\u00e3o que causou a publica\u00e7\u00e3o de Aves sin nido (1889) no Pa\u00eds;<\/p>\n<p>\uf0b7 Sobre a literatura peruana no final do s\u00e9culo XIX, mais espec\u00edfico sobre a literatura indigenista e sua obra pioneira Aves sin nido (1889);<\/p>\n<p>\uf0b7 O contexto da literatura de autoria feminina peruana e hispano-americana na \u00e9poca de Clorinda Matto.<\/p>\n<p><strong>METODOLOGIA E FUNDAMENTA\u00c7\u00c3O TE\u00d3RICA <\/strong><\/p>\n<p>Os estudos ser\u00e3o desenvolvidos primeiramente com pesquisas acerca dos aspectos hist\u00f3rico-sociais do Peru no recorte do s\u00e9culo XIX, mais precisamente em sua segunda metade, e a compreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre literatura e sociedade. Para estas investiga\u00e7\u00f5es, ser\u00e3o utilizadas as obras de Mari\u00e1tegui (2007), Candido (2006), Spivak (2010) e o artigo de Ivete Walty e Maria Zilda Cury (2013). Logo, a elabora\u00e7\u00e3o das considera\u00e7\u00f5es sobre o contexto social exposto na literatura peruana do per\u00edodo decimon\u00f3nico, com \u00eanfase no g\u00eanero novela indigenista e mais espec\u00edfico na obra de Clorinda Matto, teremos como base os textos de \u00c1lvarez (2013) e de Vel\u00e1zquez Castro (2010). No que se refere \u00e0 literatura de autoria feminina, abordaremos a \u00f3tica de Wang\u00fcemert (1998) e Pizarro (2004, 2006) para a Am\u00e9rica Latina e de Denegri (1996) para o pa\u00eds andino. Para as vertentes cultivadas pela autora peruana e a posi\u00e7\u00e3o de sua obra, encontraremos informa\u00e7\u00f5es nos escritos de Manrique (1989), Ward (2001) e Cornejo Polar (2003).<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS <\/strong><\/p>\n<p>AGUIAR, J. D. N. 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Department of Modern Languages. The Florida State University. Florida. 2006<br \/>\nVEL\u00c1ZQUEZ CASTRO, Marcel. Los or\u00edgenes de la novela en el Per\u00fa: paratextos y recepci\u00f3n cr\u00edtica (1828-1879). Revista Iberoamericana. v. 10, n. 37, p.75-10, 2010. Dispon\u00edvel em: https:\/\/journals.iai.spkberlin.de\/index.php\/iberoamericana\/article\/view\/722 Acesso em 15 ago. 2016 WANG\u00cbRMET, Mar\u00eda Caballero. La mujer em la literatura hispano-americana. In:______. Femenino plural: la mujer en la literatura. Pamplona: EUNISA, 1998. p. 29- 56<br \/>\nWARD, Thomas. Rumbos hacia una teor\u00eda peruana de la literatura: sociedad y letras en Matto, Cabello y Gonz\u00e1les Prada. Bulletin of Hispanica Studies. v. 76, n. 01, p. 89-101, 2001. Dispon\u00edvel em: http:\/\/red.pucp.edu.pe\/riel\/biblioteca\/rumbos-hacia-una-teoriaperuana-de-la-literatura-sociedad-y-letras-en-matto-cabello-y-gonzales-prada\/ Acesso em: 15 ago. 2016<br \/>\nZOLIN, Lucia Osana. Cr\u00edtica feminista: os estudos de g\u00eanero e a literatura. In: BONNICI, T; ZOLIN, L.O. Teoria liter\u00e1ria: abordagens hist\u00f3ricas e tend\u00eancias contempor\u00e2neas. Maring\u00e1: Eduem, 2009<\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<strong>Isabele Carla dos Santos Lins<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>UMA AN\u00c1LISE SOBRE A SITUA\u00c7\u00c3O DA MULHER MO\u00c7AMBICANA NA OBRA <\/b><b><i>ALEGRE CANTO DA PERDIZ<\/i><\/b><b>, DE PAULINA CHIZIANE<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mestranda: Isabele Carla dos Santos Lins<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Orientadora: Francisca Zuleide Duarte de Souza<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"> Paulina Chiziane, escritora de origem rural, nascida em Manjacaze, Mo\u00e7ambique, aborda temas, como a den\u00fancia da sofrida vida dos africanos, os efeitos causados pela coloniza\u00e7\u00e3o, a dupla marginaliza\u00e7\u00e3o da mulher e os agravantes da guerra civil, acontecida no p\u00f3s-independ\u00eancia. Autora de romances, como: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Balada de amor ao vento<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1990), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ventos do Apocalipse<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1999), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O S\u00e9timo Juramento<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2000) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Niketche \u2013 Uma hist\u00f3ria de amor e poligamia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2002) e o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Alegre Canto da Perdiz<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2008), ela \u00e9 uma das vozes mais importantes na atual literatura mo\u00e7ambicana. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Chiziane, pertence a gera\u00e7\u00e3o de escritores que surgiram ap\u00f3s a emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Foi a primeira romancista do seu tempo. Ela utiliza em seus romances a oralidade, recuperando sua tradi\u00e7\u00e3o em suas hist\u00f3rias, que de acordo com Bonnici (2012), essa recupera\u00e7\u00e3o nas literatura africana \u00e9 feita a partir da oratura. Diante disso, a Paulina em uma entrevista, alega que suas narrativas s\u00e3o hist\u00f3rias, que tem muito a ver com a oralidade (LEITE, 2003 apud in <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Grande reportagem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, 2002).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A escrita da Paulina Chiziane \u00e9 p\u00f3s-colonial, visto que ela publica seu primeiro livro, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Balada de amor ao vento<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, em 1990, ap\u00f3s a emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O termo p\u00f3s-colonial, segundo Ashcroft, Griffiths e Tiffins (1991) \u00e9 usado para descrever uma cultura que foi influenciada pelo processo imperial desde a coloniza\u00e7\u00e3o at\u00e9 os dias atuais (BONNICI, 2012). A partir desse conceito, entendemos que a literatura p\u00f3s-colonial \u201cpode ser entendida como toda a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria dos povos colonizados pelas pot\u00eancias europeias entre os s\u00e9culos 15 e 21.\u201d (BONNICI, 2012, p. 19). \u00a0Com isso, no per\u00edodo p\u00f3s-independ\u00eancia, as literaturas africanas de l\u00edngua portuguesa \u201cencontram maneiras pr\u00f3prias de dialogar com as \u2018tradi\u00e7\u00f5es\u2019\u201d (LEITE, 2003). Nesse processo, muitos escritores, como a Paulina, come\u00e7aram a ter maior visibilidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outro fator de extrema import\u00eancia na escrita de Paulina, \u00e9 o fato de como ela aborda a mulher em suas obras. \u00c9 not\u00f3rio que a personagem feminina em suas narrativas tem o um teor essencial para a conta\u00e7\u00e3o das hist\u00f3rias do seu povo, utilizando a imagem da mulher africana para mostrar como o processo de coloniza\u00e7\u00e3o teve um papel central na viv\u00eancia, na cultura e na tradi\u00e7\u00e3o do povo mo\u00e7ambicano. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na maioria dos seus textos, \u00e9 poss\u00edvel ver uma constru\u00e7\u00e3o da mulher no decorrer das obras. Algumas delas rompem com o ideal de mulher fr\u00e1gil, submissa ao homem, virginal. Em seus textos, tomam um<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">papel de uma mulher forte; de uma mulher que precisa fazer de tudo para sustentar suas fam\u00edlias; de uma mulher que anda na fronteira do bem e do mal; de uma mulher ambiciosa. No entanto, \u00e9 mostrado tamb\u00e9m como a mulher se porta numa cultura dominada por homens, em que ela tem o papel de ser submissa: esposa e cuidadora dos filhos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A patir disso, o<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> corpus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> escolhido \u00e9 o livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Alegre canto da perdiz<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2008), que aborda a hist\u00f3ria de uma fam\u00edlia que viveu no per\u00edodo colonial em Mo\u00e7ambique. Delfina, uma das personagens, \u00e9 casada com um negro, por\u00e9m n\u00e3o se contenta com a vida que o marido pode dar. Ent\u00e3o vai \u00e0 procura de um branco, para conseguir uma vida melhor. Uma mulher ambiciosa, usada pela m\u00e3e para conseguir sustento para fam\u00edlia com a venda do seu corpo, cresce escutando que ela s\u00f3 teria uma vida melhor, diante desse processo de coloniza\u00e7\u00e3o, se tivesse um filho mulato. Ela ultrapassa limites, vende tamb\u00e9m uma das suas filhas, por ambi\u00e7\u00e3o. Sendo assim, as intemp\u00e9ries do processo colonial s\u00e3o expostas. Essa fam\u00edlia viveu em tempos obscuros, isso influenciou no seu modo de viver.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sendo assim, a tem\u00e1tica da venda do corpo foi um fator importante para o processo de escolha do objetivo geral da disserta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 analisar a situa\u00e7\u00e3o da mulher mo\u00e7ambicana na obra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Alegre canto da Perdiz<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Para isso, discutiremos sobre a import\u00e2ncia do corpo e da voz feminina na obra; faremos uma reflex\u00e3o sobre g\u00eanero e analisaremos a condi\u00e7\u00e3o social da mulher no meio em que vive. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Logo a problem\u00e1tica sobre a condi\u00e7\u00e3o dessa mulher, leva-nos a perguntar como a coloniza\u00e7\u00e3o teve efeito no modo de viv\u00eancia das personagens femininas na obra? E algumas de nossas hip\u00f3teses, \u00e9 que o per\u00edodo colonial degradou a forma de viver do povo mo\u00e7ambicano, rompeu com sua cultura, seus princ\u00edpios, fazendo com que essas personagens se submetessem a certas situa\u00e7\u00f5es indignas. Tornando-se assimiladas e marganalizadas tanto pelo colonizador, quanto pelos homens presente em sua fam\u00edlia. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em rela\u00e7\u00e3o a metodologia, ser\u00e1 usado um estudo qualitativo-descritivo (MOREIRA; CALEFFE, 2006), visto que pretendemos entender a situa\u00e7\u00e3o marginalizada das personagens mulheres no romance. Para o desenvolvimento desta, est\u00e1 sendo colhido bibliografias para servir de aporte te\u00f3rico para nossas discuss\u00f5es. O objeto de an\u00e1lise est\u00e1 sendo esmiu\u00e7ado e estudado, a partir dos objetivos espec\u00edficos, buscando atender o resultados esperados. O pr\u00f3ximo passo ser\u00e1 a escrita dos cap\u00edtulos que constituem nosso referencial te\u00f3rico. Logo depois, a produ\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise do objeto de pesquisa de acordo com o objetivo geral e os espec\u00edficos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No que diz respeito ao fundamentos te\u00f3ricos, usaremos o livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Eu, mulher&#8230; por uma nova vis\u00e3o de mundo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2013), da escritora Paulina Chiziane, assim como algumas entrevistas dadas por ela, como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cSer escritora \u00e9 uma ousadia!!!\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2002), para compreendermos a situa\u00e7\u00e3o da mulher no romance <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Alegre canto da perdiz<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2008). Para al\u00e9m disso, discutiremos sobre a import\u00e2ncia do corpo e da voz feminina presente na obra, como instrumento de transforma\u00e7\u00e3o da imagem da mulher mo\u00e7ambicana, utilizando autores como: Mata e Padilha (2007), Chabal (2008) e Bahule (2013). Desse modo, como iremos discutir a problem\u00e1tica da mulher duplamente submissa e subalterna, nos ateremos, tamb\u00e9m, \u00a0as quest\u00f5es de g\u00eanero, usando Butler (2003), Hollanda (1994), Beauvoir (1980) e Spivak (2010). Finalizando, para abordamos o contexto p\u00f3s-colonial, nos apoiaremos em Bonnici (2012), Mata (2007) e Leite (2003).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BAHULE, C<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">. Literatura feminina, literatura de purifica\u00e7\u00e3o: o processo de ascese da mulher na trilogia de Paulina Chiziane.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Maputo: Ndjira, 2013.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BONNICI, T. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O p\u00f3s-colonialismo e a literatura:<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> estrat\u00e9gias de leitura. Maring\u00e1: Eduem, 2012. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BUTLER, J. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Problemas de g\u00eanero: feminismo e subvers\u00e3o da identidade.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Tradu\u00e7\u00e3o de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2003.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CHABAL, P. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Vozes Mo\u00e7ambicanas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: Literatura e Nacionalidade. Lisboa: Veja, 1994.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CHIZIANE, P. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O alegre canto da perdiz<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Editorial Caminho, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. \u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ser escritora \u00e9 uma ousadia!!!\u201d.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Entrevista ao Maderazinco. Revista Liter\u00e1ria Mo\u00e7ambicana, [http:www.maderazinco.tropical.co.mz], 2002.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">COSTA, P<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">. Assimila\u00e7\u00e3o, identidade e mem\u00f3ria na obra O alegre canto da perdiz, de Paulina Chiziane.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> 2013. 85f. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado) \u2013 Universidade Federal de Bras\u00edlia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">HOLLANDA, Helo\u00edsa Buarque de (Org). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tend\u00eancias e impasses: o feminismo como cr\u00edtica da cultura.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Rio de Janeiro: Rocco, 1994.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">LEITE, A. M. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Literaturas africanas e formula\u00e7\u00f5es p\u00f3s-coloniais.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Maputo: Imprensa Universit\u00e1ria, 2003. 214 p. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MATA, I.; PADILHA, L. C. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A mulher em \u00c1frica:<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Vozes de uma margem sempre presente. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es Colibri, 2007. 584 p.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MATA, I. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A literatura africana e a cr\u00edtica p\u00f3s-colonial<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: reconvers\u00f5es. Luanda: Editorial Nzila, 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MOREIRA, H.; CALEFFE, L.G. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Metodologia da pesquisa para o professor pesquisador.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Rio de Janeiro: DP&amp;A, 2006.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SILVA, R. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mem\u00f3ria e hist\u00f3ria na obra O alegre canto da perdiz de Paulina Chiziane.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> 2014. 103f. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado) &#8211; Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Minas Gerais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BEAUVOIR, S. de. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O segundo sexo.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SPIVAK, G. C. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Pode o subalterno falar?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">VIEIRA, P. de A.<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Epit\u00e1fio para Lu\u00edsa e Irene: prostitui\u00e7\u00e3o, solid\u00e3o e morte no romance brasileiro. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">2016. 196f. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado) \u2013 Universidade Estadual da Para\u00edba.<\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<b>Itamara Patricia de Souza Almeida<\/b> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>LITERATURA E NEGRITUDE: A POEXIST\u00caNCIA NA LITERATURA MARGINAL\/PERIF\u00c9RICA DE MARIANA F\u00c9LIX E MEL DUARTE<\/b><\/p>\n<p><b>Itamara Patricia de Souza Almeida<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> (Mestranda \/UEPB \/ PPGLI) <\/span><\/p>\n<p><b>Prof\u00aa Dr\u00aa Rosilda Alves Bezerra<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> (Orientadora \/ UEPB \/PPGLI)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>RESUMO<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Inseridas no que vem sendo denominado, pelos pr\u00f3prios escritores e escritoras, de literatura marginal\/perif\u00e9rica, logo uma literatura que traz em seu fazer um posicionamento pol\u00edtico-ideol\u00f3gico declarado, Mariana Felix e Mel Duarte s\u00e3o moradoras de periferias da cidade de S\u00e3o Paulo, trazem em suas publica\u00e7\u00f5es a rela\u00e7\u00e3o com o cotidiano, as experi\u00eancias vividas pela sua condi\u00e7\u00e3o social de classe, g\u00eanero e ra\u00e7a\/etnia, aquilo que Concei\u00e7\u00e3o Evaristo (2006) denomina de \u201cescreviv\u00eancia\u201d e que aqui parafraseando a Evaristo, chamamos de \u201cpoexist\u00eancia\u201d. Neste sentido, pretendemos com essa pesquisa <\/span><span style=\"font-weight: 400\">investigar a produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica das escritoras negras Mariana F\u00e9lix e Mel Duarte, levando em considera\u00e7\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es entre os lugares \u00e9tnicos, sociais e de g\u00eanero das poetas e o di\u00e1logo que eles estabelecem entre a literatura marginal\/perif\u00e9rica e a literatura afro-brasileira, a partir das representa\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias coletivas e individuais calcadas na ancestralidade negra presentes em suas obras, <\/span><span style=\"font-weight: 400\">entendendo, como Duarte (2007) quanto a literatura afro-brasileira, que a mesma possui <\/span><span style=\"font-weight: 400\">tem\u00e1tica, autoria, ponto de vista, linguagem e p\u00fablico leitor.<\/span><\/p>\n<p><b>Palavras-chaves:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Literatura marginal\/perif\u00e9rica. Literatura afro-brasileira. Mariana Felix. Mel Duarte.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cSou preta e escritora!\u201d recita uma mulher negra, de aproximadamente 30 anos de idade, moradora da Zona Leste do estado de S\u00e3o Paulo e que h\u00e1 mais de quatro anos produz poesias nos saraus e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">slams<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> das periferias do seu estado. Seu nome \u00e9 Mariana Felix, escritora perif\u00e9rica e professora da rede p\u00fablica. Ao mesmo<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> tempo<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">que outra <\/span><span style=\"font-weight: 400\">bradava<\/span><span style=\"font-weight: 400\">, na FLIP<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> em 2016: \u201cSou filha da luta, da puta\/ A mesma que aduba esse solo f\u00e9rtil\/ A mesma que te pariu\u201d. A<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> autora<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> desse trecho chama-se Mel Duarte, mulher negra, paulistana, poeta e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">rapper,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> ganhadora do campeonato mundial de poesia no Rio de Janeiro em 2016 mesmo ano em que lan\u00e7a seu segundo livro intitulado: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Negra, nua e crua<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. A produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de ambas, <\/span><span style=\"font-weight: 400\">compreendidas aqui como o encontro entre a po\u00e9tica e a vida: poexist\u00eancia,<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">bem como os aspectos sociais, \u00e9tnicos, de g\u00eanero, de classes e <\/span><span style=\"font-weight: 400\">os contextos de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o dos seus textos dar\u00e3o os contornos<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> deste trabalho<\/span><span style=\"font-weight: 400\">,<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">ou seja, s\u00e3o o \u201cobjeto\u201d de estudo desta proposta de pesquisa. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Contemporaneamente estamos vivenciando nas periferias do Brasil um movimento liter\u00e1rio em ascend\u00eancia da cultura negra que est\u00e1 inscrito na dimens\u00e3o dos debates em torno das pol\u00edticas culturais e afirmativas que possibilitaram, nos \u00faltimos anos, ao menos, colocar na centralidade do debate pol\u00edtico brasileiro a quest\u00e3o do negro, da ancestralidade como elementos importantes para forma\u00e7\u00e3o de nossa cultura e de nossa identidade nacional.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m disso, vale reconhecer que a busca por outros referencias de representa\u00e7\u00f5es coletivas e individuais de nossas identidades, como as mem\u00f3rias e ra\u00edzes nos nossos antepassados escravizados e ind\u00edgenas <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0s\u00f3 foi poss\u00edvel em um contexto de novos paradigmas do pensamento contempor\u00e2neo, n\u00e3o apenas na literatura, mas na sociedade, e, nesse ponto, a \u201cvirada lingu\u00edstica\u201d decorrente do pensamento p\u00f3s-estruturalista, nos anos 1960, deu abertura para o desenvolvimento de outras formas de pensar o texto liter\u00e1rio, sua autoria, produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e leitura, a partir dos Estudos Culturais contempor\u00e2neos, da cr\u00edtica p\u00f3s-colonial, dos debates feministas e das teorias cr\u00edticas raciais, que t\u00eam dado grandes contribui\u00e7\u00f5es para expandirmos nossa percep\u00e7\u00e3o sobre o conceito de literatura.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> Assim, a necessidade de investigar a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, feita por mulheres negras, denominada de literatura marginal\/perif\u00e9rica, aproximada com a literatura afro-brasileira, e o que esta literatura diz sobre as condi\u00e7\u00f5es sociais, de classe, ra\u00e7a\/etnia e g\u00eanero das duas escritoras escolhidas aqui: Mariana Felix e Mel Duarte, se inscrevem como elementos centrais da motiva\u00e7\u00e3o da pesquisa e da contribui\u00e7\u00e3o que pode trazer para os estudos liter\u00e1rios dentro de uma dimens\u00e3o da literatura que se aproxima dos sujeitos e que, transpondo os muros da academia, dar\u00e3o a esta o tom do multicolorido com o qual se pinta o povo e com o qual se deve pintar a universidade, buscando responder quest\u00f5es como: quais s\u00e3o as representa\u00e7\u00f5es que fazem de si, enquanto mulheres negras, escritoras e perif\u00e9ricas? o que condicionantes territoriais, culturais, de ra\u00e7a\/etnia, de classe social dizem sobre a constru\u00e7\u00e3o de identidades individuais e coletivas? e mais, como essas quest\u00f5es, da ordem do g\u00eanero, da ra\u00e7a\/etnia, da classe social, atravessam e tomam lugar na po\u00e9tica das duas autoras? o que esse texto liter\u00e1rio contempor\u00e2neo, que emerge de sujeitas marginais, que narra os cotidianos da periferia e seus indiv\u00edduos\/coletivos, nos convoca a pensar sobre novos modos de conceber a literatura? como duas jovens poetas perif\u00e9ricas negras e suas produ\u00e7\u00f5es podem ampliar o escopo de investiga\u00e7\u00f5es no campo da cr\u00edtica liter\u00e1ria atual, dos Estudos Liter\u00e1rios em di\u00e1logo com agendas interculturais na contemporaneidade? Portanto, destacamos a literatura marginal\/perif\u00e9rica diante da multiplicidade dos conceitos e defini\u00e7\u00f5es de literaturas para constru\u00e7\u00e3o deste projeto de pesquisa, evidenciando seu car\u00e1ter \u00e9tnico, de g\u00eanero e de classe em di\u00e1logo com a literatura afro-brasileira, respeitando a defini\u00e7\u00e3o de literatura marginal\/perif\u00e9rica dadas pelos sujeitos que a produzem, mas com a compreens\u00e3o de que esta possui todos os elementos que a configuram como literatura afro-brasileira: tem\u00e1tica, autoria, ponto de vista, linguagem e p\u00fablico leitor (DUARTE, 2007).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>METODOLOGIA<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esta pesquisa, por ser de cunho bibliogr\u00e1fico e de natureza interpretativa, logo se trata de uma pesquisa qualitativa. Configura-se nos estudos dos aspectos tem\u00e1ticos das obras selecionadas das duas autoras em quest\u00e3o: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mania<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">V\u00edcio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> ambos de Mariana Felix publicados em 2016 e 2017 respectivamente e o livro mais recente da escritora Mel Duarte: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Negra, Nua, Crua <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">publicado em 2016<\/span><span style=\"font-weight: 400\">, compondo assim o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">corpus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> deste trabalho. Pretendemos investigar a produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica das escritoras, buscando compreender as rela\u00e7\u00f5es entre os lugares \u00e9tnicos, sociais e de g\u00eanero (1). O di\u00e1logo esses textos estabelecem entre literatura marginal\/perif\u00e9rica e a literatura afro-brasileira no contexto de produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neo, a partir das representa\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias coletivas e individuais calcadas na ancestralidade negra presentes em suas obras (2). Pensar\/problematizar o territ\u00f3rio (favela) como um territ\u00f3rio <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">multicultural <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">e das negocia\u00e7\u00f5es, nem sempre justas, das diferen\u00e7as e identidades (HALL, 2006) e quais as tens\u00f5es que implicam na composi\u00e7\u00e3o dos textos no que diz respeito ao modo de organiza\u00e7\u00e3o coletiva com s\u00edmbolos pr\u00f3prios desses lugares (3). Por fim, refletir sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a oralidade e escrita muito recorrente na produ\u00e7\u00e3o da Literatura marginal\/perif\u00e9rica. At\u00e9 o presente momento demos prioridade no cumprimento dos cr\u00e9ditos, leituras das bibliografias, fazer as rela\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias dentro das disciplinas com a nossa proposta de pesquisa nos trabalhos finais exigidos nas disciplinas. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>FUNDAMENTA\u00c7\u00c3O TE\u00d3RICA<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">B<\/span><span style=\"font-weight: 400\">uscaremos nos pressupostos te\u00f3ricos problematizar sobre a forma\u00e7\u00e3o da literatura brasileira (CANDIDO, 2006:2011) e (BOSI, 2005),<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">no que diz respeito, mais especificamente a forma\u00e7\u00e3o da literatura nacional. Uma cr\u00edtica liter\u00e1ria imbricada com a abordagem hist\u00f3rica e materialista (<\/span><span style=\"font-weight: 400\">EAGLETON, 2006:2011), (BENJAMIN, 1989; 1994) por compreendermos como Eagleton (2011) que as obras liter\u00e1rias n\u00e3o partem apenas do imagin\u00e1rio do autor e sim que fazem parte de modos de interpretar o mundo, pois \u00e9 o ser social que determina a consci\u00eancia e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Tamb\u00e9m elencamos algumas produ\u00e7\u00f5es que tratam especificamente da literatura marginal\/perif\u00e9rica e afro-brasileira: (HOLLANDA, 1992), (FERREIRA, 1981), (BALBINO, 2016), (DUARTE, 2007), (NASCIMENTO, 2006) e (VIEIRA, 2015), (TENNINA, 2017). E evidentemente um aporte te\u00f3rico pensando uma cr\u00edtica liter\u00e1ria aproximada dos Estudos Culturais, P\u00f3s-modernos e P\u00f3s-coloniais tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o com a literatura, negritude e g\u00eanero: <\/span><span style=\"font-weight: 400\">(BONNICCI, 2000)<\/span><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><span style=\"font-weight: 400\">(HALL, 2006), (CANCLINI, 2008), (SPIVAK, 2010), (SANSONE, 2004), (EVARISTO, 2007), (DAVIS, 2016), (SAFFIOTI, 2013; 2015), (SOUZA, 2005). \u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">Ciente de que ainda estamos no in\u00edcio da pesquisa \u00e9 importante ressaltar que h\u00e1 limita\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que buscaremos dar conta nos pr\u00f3ximos per\u00edodos no tocante \u00e0s dimens\u00f5es epistemol\u00f3gicas e te\u00f3ricas que mover\u00e3o a pesquisa, \u00e9 preciso ainda pontuar a intens\u00e3o de <\/span><span style=\"font-weight: 400\">aproximar a literatura marginal\/perif\u00e9rica da literatura afro-brasileira, considerando que o conceito de literatura marginal\/perif\u00e9rica ainda \u00e9 um conceito em constru\u00e7\u00e3o e ainda h\u00e1 pouca produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica acerca do tema. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS <\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BALBINO, J\u00e9ssica. <\/span><b>Pelas margens<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: vozes femininas na literatura perif\u00e9rica, 2016. 358 p\u00e1gs. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Jornalismo &#8211; Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica e Cultural). Universidade Estadual de Campinas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BERND, Zil\u00e1. <\/span><b>O que \u00e9 negritude<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Editora Brasiliense: Cole\u00e7\u00e3o primeiros passos, n\u00ba 209.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BONNICI, Thomas. <\/span><b>O p\u00f3s-colonialismo e a literatura: estrat\u00e9gias de leitura<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Maring\u00e1: Eduem, 2000<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CANCLINI, Nestor Garcia. <\/span><b>Culturas h\u00edbridas: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">estrat\u00e9gias para entrar e sair da modernidade. S\u00e3o Paulo: EDUSP, 2008 <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CANDIDO, Antonio. <\/span><b>V\u00e1rios escritos<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 5\u00aa ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CANDIDO, Antonio. <\/span><b>Literatura e sociedade<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 9\u00aa ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"http:\/\/www.fecra.edu.br\/admin\/arquivos\/Antonio_Candido_-_Literatura_e_Sociedade.pdf\"><span style=\"font-weight: 400\">http:\/\/www.fecra.edu.br\/admin\/arquivos\/Antonio_Candido_-_Literatura_e_Sociedade.pdf<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. Acessado em 15 de ago. 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DAVIS, \u00c2ngela. <\/span><b>Mulheres, ra\u00e7a e classe. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">1\u00aa ed. Trad. Heci Regina Candiani. S\u00e3o Paulo: Boi tempo, 2016. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DUARTE, Mel. <\/span><b>Negra, nua, crua. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">S\u00e3o Paulo: Ijumaa, 2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DUARTE, Eduardo De Assis. Literatura afro-brasileira<\/span> <i><span style=\"font-weight: 400\">In<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: AFOLABI, Niyi; BARBOSA, M\u00e1rcio; RIBEIRO, Esmeralda (Orgs.) <\/span><b>A mente afro-brasileira.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> TrentonNJ, EUA\/ Asmara, Eritr\u00e9ia: \u00c1frica World Press, 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">EVARISTO, Concei\u00e7\u00e3o. <\/span><b>Literatura negra<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: CEAP, 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">EAGLETON, Terry. <\/span><b>Depois da teoria: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">um olhar sobre os estudos culturais e o p\u00f3s-modernismo. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2005.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">EAGLETON, Terry. <\/span><b>Teoria da literatura: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">uma introdu\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2006.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">EAGLETON, Terry. <\/span><b>Marxismo e cr\u00edtica liter\u00e1ria<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: editora unesp, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">FELIX, Mariana. <\/span><b>Mania<\/b><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">S\u00e3o Paulo: Conecta Brasil, 2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">FELIX, Mariana. <\/span><b>V\u00edcio<\/b><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">1\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00e3o do autor, 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">HALL, Stuart. <\/span><b>Da di\u00e1spora:<\/b> <span style=\"font-weight: 400\">identidades e media\u00e7\u00f5es culturais. Org. Liv Sovik. Trad. Adelaine La Guardia Resende &#8230; [et al]. Belo Horizonte: UFMG, 2006.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">HOLLANDA, Heloisa Buarque. Tend\u00eancias e impasses: o feminismo como cr\u00edtica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MATTELART, Armand, NEVEU, \u00c9rik. <\/span><b>Introdu\u00e7\u00e3o aos estudos culturais<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Par\u00e1bolas editorial, 2004. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NASCIMENTO, \u00c9rica Pe\u00e7anha. <\/span><b>Literatura marginal:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> os escritores de periferia entram em cena. S\u00e3o Paulo, 2006. 211 p\u00e1gs. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Antropologia Social). Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SAFFIOTI, Heleieth. <\/span><b>A mulher na sociedade de classes<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 3\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2013. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SAFFIOTI, Heleieth. <\/span><b>G\u00eanero patriarcado viol\u00eancia<\/b><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">2\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2015.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SANSONE, Livio. <\/span><b>Negritude sem etnicidade<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: o local e o global nas rela\u00e7\u00f5es raciais e na produ\u00e7\u00e3o cultural negra do Brasil. Trad. Vera Ribeiro. Salvador: Edufba, 2004.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SANTOS, Gislene Aparecida dos. <\/span><b>A inven\u00e7\u00e3o do ser negro:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> um percurso nas ideias que naturalizaram a inferioridade dos negros. S\u00e3o Paulo: Educ\/Fapesp; Rio de Janeiro: Pallas, 2005. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SPIVAK, Gayatri Chakravorty. <\/span><b>O subalterno pode falar. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Trad. Maria Helena Ribeiro da Cunha e Maria Cec\u00edlia Queiroz Moraes Pinto. Belo Horizonte: UFMG, 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">TENNINA, L\u00facia. <\/span><b>Cuidado com os poetas:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> literatura e periferia na cidade de S\u00e3o Paulo. Porto Alegre: Zouk, 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">VIEIRA, Aline Dayques. <\/span><b>O clarim dos marginalizados:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> temas sobre a literatura marginal\/perif\u00e9rica. 1\u00aa ed. Curitiba: Appris, 2015.<\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<span style=\"font-weight: 400\"><strong>Jailma da Costa Ferreira<\/strong>\u00a0<\/span>[\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>AUTOFIC\u00c7\u00c3O, MEM\u00d3RIA E PO\u00c9TICAS CONTEMPOR\u00c2NEAS<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Jailma da Costa Ferreira<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Mestranda \u2013 jailma.jdf@gmail.com<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dr. Luciano Barbosa Justino<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Orientador &#8211; lucianobjustino@hotmail.com<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nos estudos liter\u00e1rios contempor\u00e2neos, encontramos in\u00fameras discuss\u00f5es acerca da autobiografia e da autofic\u00e7\u00e3o no texto narrativo. Percebe-se, contudo, uma quase inexist\u00eancia das discuss\u00f5es sobre a autofic\u00e7\u00e3o na poesia. Segundo Diana Klinger, na autofic\u00e7\u00e3o \u201co escritor n\u00e3o tem como prioridade contar sua vida, mas elaborar um texto art\u00edstico, no qual sua vida \u00e9 uma mat\u00e9ria contingente\u201d (KLINGER, 2007, p. 39). Nesse sentido, podemos afirmar que a poesia, assim como o texto narrativo, pode ser tamb\u00e9m autoficcional, ao considerarmos a autofic\u00e7\u00e3o n\u00e3o como um novo g\u00eanero, mas como um dispositivo (NASCIMENTO, 2017).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Contudo, a fim de melhor especificar esta concep\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante compreendermos que a autofic\u00e7\u00e3o distingue-se da autobiografia, e isso \u00e9 identificado \u201cpelo papel que concedem ao <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">eu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: suporte da inven\u00e7\u00e3o para a fic\u00e7\u00e3o e fonte da experi\u00eancia a transmitir, para a autobiografia\u201d (KLINGER, 2007, p. 42). \u00a0Embora possa partir da experi\u00eancia autobiogr\u00e1fica, a literatura (e leia-se tamb\u00e9m a poesia) \u201ctransborda, ela \u00e9 pot\u00eancia da linguagem, ela \u00e9 o incontrol\u00e1vel\u201d (MARTINS, 2014, p. 96), \u00e9 a vida inventada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nessa perspectiva, entendemos a poesia como uma escrita cujo eu est\u00e1 ininterruptamente em movimento, isto \u00e9, a poesia realiza um movimento para fora do eu (JUSTINO, 2018)<\/span><span style=\"font-weight: 400\">; esse eu, que est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o, \u00e9 fragmentado, \u00e9 \u201cum sujeito n\u00e3o essencial, incompleto e suscet\u00edvel de autocria\u00e7\u00e3o\u201d (KLINGER, 2007, p. 44). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Isto posto, podemos dizer que o eu po\u00e9tico, nas poesias a serem estudadas, n\u00e3o se limita ao testemunho, ao espa\u00e7o autobiogr\u00e1fico, mas agencia v\u00e1rias singularidades, especialmente aquelas que est\u00e3o \u00e0 margem. Dessa forma, a poesia contempor\u00e2nea \u00e9 um ato pol\u00edtico que contesta e discute os espa\u00e7os ocupados pelas minorias. A produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, das escritoras brasileiras contempor\u00e2neas, n\u00e3o \u00e9 a poesia de um eu, mas dos muitos, sobretudo, dos exclu\u00eddos; \u00e9 um agenciamento de multiplicidades, as quais \u201cs\u00f3 podem ser definidas pelo fora: pela linha abstrata, linha de fuga ou de desterritorializa\u00e7\u00e3o\u201d (DELUZE; GUATTARI, 1995, p. 25).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dessa forma, as poetas realizam, atrav\u00e9s de seus textos, movimentos de desterritorializa\u00e7\u00e3o e reterritorializa\u00e7\u00e3o (DELUZE; GUATTARI, 1995) do eu po\u00e9tico, tendo em vista que este eu n\u00e3o se relaciona apenas com o uno, pois \u00e9 ressignificado e reinserido para al\u00e9m da zona de estratifica\u00e7\u00e3o, indo ao encontro do outro, do diferente, a partir da alteridade. Diante disso, gostar\u00edamos de pensar a poesia contempor\u00e2nea como um lugar de conflu\u00eancia de muitas subjetividades, sendo constitu\u00edda por um processo de intersubjetividade, ao consideramos que a dic\u00e7\u00e3o po\u00e9tica \u00e9 um encontro de muitos \u2018eus\u2019, do eu e do n\u00f3s, do eu e do ele, do eu e dos outros, nesse sentido, o eu dar lugar ao ele, como veremos na escrita po\u00e9tica de Cora Coralina, Ana Cristina C\u00e9sar, Alice Ruiz, Josely Vianna e Mar\u00edlia Garcia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Diante disto, pretendemos investigar a poesia de autoria feminina, a fim de dar visibilidade \u00e0 literatura feita por mulheres. Ademais, tamb\u00e9m \u00e9 nosso intuito notabilizar o estudo do texto po\u00e9tico, tendo em vista que, no contexto das produ\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, a poesia \u00e9 um g\u00eanero postergado pela Academia. Para tanto, pretendemos estudar a poesia das escritoras supracitadas, a fim de obtermos um panorama mais abrangente acerca da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria contempor\u00e2nea de autoria feminina no que diz respeito aos movimentos do eu po\u00e9tico nessas produ\u00e7\u00f5es. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desta maneira, nosso objetivo geral \u00e9 investigar como a autofic\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria est\u00e3o circunscritas na poesia de escritoras brasileiras contempor\u00e2neas; e, nossos objetivos espec\u00edficos se delimitam em: apresentar como a escrita da mulher tem se situado na literatura e na sociedade; dar maior visibilidade \u00e0 escrita liter\u00e1ria das mulheres que est\u00e3o fora do c\u00e2none; evidenciar os (des)caminhos da experi\u00eancia biogr\u00e1fica ficcionalizada na composi\u00e7\u00e3o do texto po\u00e9tico, os movimentos para fora do eu; discutir como a mem\u00f3ria atrela \u00e0 autofic\u00e7\u00e3o contribui para a produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sendo assim, Cora Coralina puxa o fio que conduz este estudo, pois, a partir de sua poesia, percebe-se que o eu po\u00e9tico, mesmo dotado ainda de uma subjetividade, j\u00e1 aponta os movimentos para fora desse eu que h\u00e1 de se espraiar na poesia contempor\u00e2nea. Concomitante a esta abordagem, emparelha-se a poesia das demais poetas, cujas produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias h\u00e3o de contrapor ainda mais a ideia de um eu cercado de si mesmo, de uma identidade, de uma profiss\u00e3o, de uma fam\u00edlia etc.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 por meio da rela\u00e7\u00e3o intersubjetiva que a mem\u00f3ria vai sendo agenciada na poesia dessas escritoras, pois, como afirma Halbwachs (2006, p. 30), \u201cjamais estamos s\u00f3s. [&#8230;] porque sempre levamos conosco e em n\u00f3s certa quantidade de pessoas\u201d. Isto posto, percebemos que, na poesia das escritoras que comp\u00f5em o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">corpus <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">de an\u00e1lise deste trabalho, a mem\u00f3ria \u201cguarda<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">do passado apenas o que lhe possa ser \u00fatil para criar um elo entre o presente e o passado\u201d (SEIXAS, 2004, p. 40). Conforme Halbwachs (2006, p. 32), \u201ca algumas lembran\u00e7as reais se junta uma compacta massa de lembran\u00e7as fict\u00edcias\u201d, e \u00e9 desse compacto de lembran\u00e7as que se caracteriza a mem\u00f3ria na escrita das poetas mencionadas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dito isto,<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">o problema configurado por esta pesquisa delimita-se \u00e0s seguintes quest\u00f5es: a) Como a autoficc\u00e7\u00e3o \u00e9 agenciada na poesia brasileira contempor\u00e2nea? b) Como a mem\u00f3ria contribui para a cria\u00e7\u00e3o autoficcional na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de poetas brasileiras? c) Como se constitui o eu po\u00e9tico a partir da autoficcionaliza\u00e7\u00e3o e dos movimentos para fora do eu? <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No tocante ao procedimento metodol\u00f3gico, nossa pesquisa caracteriza-se como bibliogr\u00e1fica, a qual \u00e9 realizada atrav\u00e9s do levantamento de refer\u00eancias te\u00f3ricas j\u00e1 analisadas e publicadas, como: livros, artigos cient\u00edficos, teses e disserta\u00e7\u00f5es (FONSECA, 2002). Quanto \u00e0 abordagem, caracteriza-se como qualitativa, a qual pode ser compreendida \u201ccomo uma sequ\u00eancia de atividades, que envolve a redu\u00e7\u00e3o dos dados, a categoriza\u00e7\u00e3o desses dados, sua interpreta\u00e7\u00e3o e a reda\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio\u201d (GIL 2002, p. 133). Em rela\u00e7\u00e3o aos objetivos, define-se como explicativa, pois busca identificar, nos textos a serem analisados, determinados fatores que contribuem para a ocorr\u00eancia de certos aspectos (GIL, 2002). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desta feita, nosso estudo se desenvolver\u00e1 em tr\u00eas momentos: no primeiro, pretendemos problematizar a concep\u00e7\u00e3o do eu na poesia, a partir de uma (re)leitura da teoria e cr\u00edtica liter\u00e1ria de Julio Cort\u00e1zar (1999), Alfredo Bosi (2000), Afr\u00e2nio Coutinho (2008), entre outros, em contraponto aos estudos de Florencia Garramu\u00f1o (2016), Silvio Mattoni (2016), Annita Costa Malufe (2011), Alfonso Berardinelli (2007), entre outros. Atrelada a essa problematiza\u00e7\u00e3o discutiremos como o eu po\u00e9tico foi\/\u00e9 estudado na poesia de Cora Coralina, a fim de problematizarmos que a sua poesia n\u00e3o se restringe \u00e0 autobiografia, mas que tamb\u00e9m a autofic\u00e7\u00e3o \u00e9 parte constituinte de seus textos, bem como a mem\u00f3ria, que na velhice \u00e9 atualizada em mat\u00e9ria para a sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Contudo, vale ressaltar que as suas mem\u00f3rias n\u00e3o s\u00e3o apenas lembran\u00e7as do passado, pois estas se atualizam no presente com finalidade de cria\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No segundo momento, tencionamos mostrar, a partir da poesia de Ana Cristina C\u00e9sar e de Alice Ruiz que os movimentos para fora do eu v\u00e3o se intensificando cada vez mais na poesia contempor\u00e2nea, assinalando, com isso, a intersubjetividade disposta no texto dessas poetas. A autofic\u00e7\u00e3o \u00e9, a nosso ver, ainda mais evidente, a mem\u00f3ria do presente \u00e9 mat\u00e9ria contingente para essa autoficcionaliza\u00e7\u00e3o. No terceiro momento, abordaremos a poesia de Mar\u00edlia Garcia e Josely Vianna, evidenciando que suas produ\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o mais atreladas, necessariamente, a uma subjetividade, isto \u00e9, a um eu, pois este eu est\u00e1 em movimento para fora. H\u00e1, portanto, \u201co esvaziamento do lugar do sujeito para fazer dele um lugar hospitaleiro\u201d (GARRAMU\u00d1O, 2016, p. 12). O sujeito \u2013 eu \u2013 deixa de ser o centro do discurso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em suma, a nosso ver, a autofic\u00e7\u00e3o, bem como os movimentos para fora do eu, acontecem de formas diferentes na poesia das escritoras que comp\u00f5e o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">corpus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de an\u00e1lise deste trabalho. Ressaltamos, contudo, que o estudo empreendido acerca da poesia de Cora Coralina j\u00e1 \u00e9 parte consolidada de nossa pesquisa. Todavia, para o desenvolvimento futuro da pesquisa ainda n\u00e3o se definiu a perman\u00eancia das demais poetas; por ora, a an\u00e1lise de suas poesias como parte constituinte deste trabalho ainda \u00e9 para n\u00f3s mat\u00e9ria de indecidibilidade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BERARDINELLI, A. <\/span><b>Da poesia \u00e0 prosa. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Trad.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Maur\u00edcio Santana Dias. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BOSI, A. <\/span><b>O ser e o tempo da poesia<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 2000.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CORT\u00c1ZAR, J. <\/span><b>Obra cr\u00edtica.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Vol. 2. Trad. Paulina Wacht; Ari Roitman. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1999.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DELEUZE, Gilles; GUATTARI, F\u00e9lix. <\/span><b>Mil plat\u00f4s. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Vol. 1. Trad. Ana L\u00facia de Oliveira, Aur\u00e9lio Guerra Neto, C\u00e9lia Pinto Costa. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 1995.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">FONSECA, J. J. S. <\/span><b>Metodologia da pesquisa cient\u00edfica<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Apostila do curso de especializa\u00e7\u00e3o em comunidades virtuais de aprendizagem \u2013 Inform\u00e1tica educativa. Universidade Estadual do Cear\u00e1, Cear\u00e1, 2002.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">GARRAMU\u00d1O, F. A poesia contempor\u00e2nea como confim. In: SCRAMIM, S.; SISCAR, M.; PUCHEU, A. (Org.). <\/span><b>Linhas de fuga: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">poesia, modernidade, contemporaneidade. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 2016, p. 11-17.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">GIL, A. C. <\/span><b>Como elaborar projetos de pesquisa. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">4. ed . S\u00e3o Paulo: Atlas, 2002.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">HALBWACHS, M. <\/span><b>A mem\u00f3ria coletiva. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Trad. Beatriz Sidou. S\u00e3o Paulo: Centauro, 2006.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">JUSTINO, L. B. <\/span><b>A cr\u00edtica diante do trabalho imaterial. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0Revista Brasileira de Literatura Comparada, n. 29, v. 18, p. 1-19, 2017. Dispon\u00edvel em &lt;revista.abralic.org.br\/index.php\/revista\/article\/download\/402\/394&gt; \u00a0Acesso em 27 de setembro de 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">JUSTINO, L. B. <\/span><b>A pol\u00edtica da voz de Stella do Patroc\u00ednio. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">2018. (Artigo a ser publicado).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">KLINGER, D. <\/span><b>Escritas de si, escritas do outro: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">o retorno do autor e a virada etnogr\u00e1fica. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MALUFE, A. C. <\/span><b>Po\u00e9ticas da iman\u00eancia: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Ana Cristina C\u00e9sar e Marcos Siscar. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MARTINS, A. F. <\/span><b>AUTOFIC\u00c7\u00d5ES: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">do conceito te\u00f3rico \u00e0 pr\u00e1tica na literatura brasileira contempor\u00e2nea.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">2014. 261 f. Tese (Doutorado) \u2013 Faculdade de Letras, PUCRS. Porto Alegre, 2014.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MATTONI, S. Retorno ao rascunho. Anota\u00e7\u00f5es sobre Ponge. In: SCRAMIM, S.; SISCAR, M.; PUCHEU, A. (Org.). <\/span><b>Linhas de fuga: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">poesia, modernidade, contemporaneidade. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 2016, p. 31-40.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SEIXAS, J. A. Percursos de mem\u00f3rias em terras de hist\u00f3ria: problem\u00e1ticas atuais. In: BRESCIANI, S. NAXARA, M. <\/span><b>Mem\u00f3ria e (Res) sentimento: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">indaga\u00e7\u00f5es sobre uma quest\u00e3o sens\u00edvel. Campinas: Unicamp, 2004.<\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<strong>Jean de Medeiros Azevedo<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>UMA CARTOGRAFIA DA LOUCURA: A SUBVERS\u00c3O DO COMPORTAMENTO NORMATIVO, DA EXCENTRICIDADE E DA EXCLUS\u00c3O DO JUDEU EM <\/b><b><i>MESHUG\u00c1<\/i><\/b><b>, DE JACQUES FUX<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Jean de Medeiros Azevedo \u2013 <\/span><a href=\"mailto:jeanletras@bol.com.br\"><span style=\"font-weight: 400\">jeanletras@bol.com.br<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> \u2013 Mestrado<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Orienta\u00e7\u00e3o: Prof. Dr. Wanderlan da Silva Alves<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>RESUMO <\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Conceituar a loucura ou a figura do louco implica necessariamente analisar a rede de discursos envolvida nesta formula\u00e7\u00e3o conceitual. Para al\u00e9m de uma discuss\u00e3o te\u00f3rica, construir uma cartografia sobre os loucos na literatura \u00e9 pens\u00e1-los como objeto de um estudo social e cultural de um grupo marginalizado. Assim, vista como objeto social e da cultura, a loucura \u00e9 constitu\u00edda por uma teia discursiva que circula socialmente em rela\u00e7\u00e3o aos efeitos de sentido do ser louco e da especificidade da loucura. De muitas maneiras diferentes, em cada \u00e9poca e contexto, a loucura, como fen\u00f4meno humano, tem sido conceituada e entendida. As no\u00e7\u00f5es e ideias acerca da normalidade e da anormalidade sofrem mudan\u00e7as e servem de fundamento para express\u00f5es da loucura na literatura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Constitu\u00eddo por s\u00edmbolos e representa\u00e7\u00f5es, o discurso sobre a loucura revela valores culturais, sociais e hist\u00f3ricos de uma sociedade, estigma que ultrapassa as fronteiras da linguagem ou da conduta do indiv\u00edduo. Historicamente, em um discurso social dominante, o louco \u00e9 visto no meio social como exc\u00eantrico, portador de elementos de desregramento ou comportamento transgressivo, em suma, o desvio que amea\u00e7a, que traz mal-estar para a sociedade (SILVA, 2008).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O discurso liter\u00e1rio, por ser um espa\u00e7o e fonte de representa\u00e7\u00f5es, contradi\u00e7\u00f5es e tens\u00f5es, torna-se uma arena discursiva de constru\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es, passando a local de express\u00e3o do fen\u00f4meno da loucura e possibilitando uma compreens\u00e3o do louco como identidade social, considerado como sujeito da diferen\u00e7a, aquele que fica fora da rotulagem social ocidental do organizado, coerente e ordeiro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O ato liter\u00e1rio, que n\u00e3o se mant\u00e9m dentro das fronteiras que a sociedade imp\u00f5e, ao tratar de fatos humanos, sociais e hist\u00f3ricos, experimenta o mundo atrav\u00e9s da est\u00e9tica. Sendo assim, a loucura e os seus representantes se tornam <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">corpus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de relevante interesse por funcionar como uma contra-linguagem, questionando leis e valores que apontam crises e aporias na realidade s\u00f3cio-hist\u00f3rica e conduzindo o leitor pela cr\u00edtica e reflex\u00e3o, indicando o desconforto social, o preconceito e mesmo a finalidade do conceito de loucura ao longo da hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desta forma, a loucura passa a ser o caminho para a constru\u00e7\u00e3o de sentidos de uma determinada realidade sociocultural. O louco passa a caracterizar-se como o outro, aquele ser que, geralmente, \u00e9 percebido e representado na literatura e na realidade como o exclu\u00eddo, desvozeado e sem lugar pr\u00f3prio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tendo como eixo de an\u00e1lise <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Meshug\u00e1: Um Romance Sobre a Loucura<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2016), de Jacques Fux, esta pesquisa se prop\u00f5e a desenvolver um estudo sobre a tem\u00e1tica da loucura nesta obra da literatura contempor\u00e2nea brasileira. Jacques Fux, por meio de sua escrita, acaba desvelando aspectos particulares da constru\u00e7\u00e3o da loucura associada historicamente \u00e0 figura do judeu, galgando novos debates, num estar-sendo-feito que escapa \u00e0s verdades incontest\u00e1veis de nossa \u00e9poca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Meshug\u00e1<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, cujo termo significa \u201clouco\u201d ou a \u201cloucura dos loucos\u201d em hebraico, a narrativa cria imagens de personagens que, embora de pa\u00edses e \u00e9pocas diferentes e vivendo suas experi\u00eancias em espa\u00e7os diversos, sejam eles, dom\u00e9sticos, acad\u00eamicos, pol\u00edticos, exp\u00f5em na narrativa liter\u00e1ria os conflitos causados pela instabilidade emocional vivenciada sob a forma da loucura suposta em sua condi\u00e7\u00e3o judaica. Mineiro de Belo Horizonte, o autor, judeu, assim como seu narrador, cria seus personagens explorando suas mem\u00f3rias, fazendo uso de diversas vozes, deixando a cargo de quem l\u00ea a responsabilidade de decifrar as refer\u00eancias. Explora temas de car\u00e1ter subjetivo, em que as m\u00faltiplas vozes narrativas apresentam prismas dos pontos de vista.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">U<\/span><span style=\"font-weight: 400\">ma outra marca de sua escrita \u00e9 a presen\u00e7a da terceira pessoa, que esconde um narrador em primeira pessoa e um olhar sobre o outro culturalmente afastado. A escrita de si e a escrita do outro e suas formas de comunica\u00e7\u00f5es s\u00e3o recursos constitutivos de sua narrativa, j\u00e1 que, por vezes, o narrador apresent<\/span><span style=\"font-weight: 400\">a v\u00e1rios tra\u00e7os da biografia do autor e demonstra interesse e<\/span><span style=\"font-weight: 400\">m figuras marginais da sociedade. O narrador em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Meshug\u00e1<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> ocupa-se em relatar e (re)apresentar outridades, neste caso, o judeu (louco), articulando uma rela\u00e7\u00e3o entre o escritor e o outro, mas tamb\u00e9m o escritor judeu como o outro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Meshug\u00e1<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, o narrador quer desvelar o tema da loucura judaica por acreditar que a neurose e a loucura do juda\u00edsmo, na verdade, n\u00e3o s\u00e3o nada mais do que constru\u00e7\u00f5es discursivas disseminadas historicamente. A<\/span><span style=\"font-weight: 400\">lternando cap\u00edtulos narrativos que reinventam a biografia de judeus reais e cap\u00edtulos ensa\u00edsticos sobre teorias pseudocient\u00edficas e antissemitas populares de diversas \u00e9<\/span><span style=\"font-weight: 400\">pocas, <\/span><span style=\"font-weight: 400\">que afirmavam que os judeus seriam mais propensos a doen\u00e7as mentais que outros povos, o narrador reconta ir\u00f4nica e sarcasticamente a hist\u00f3ria de personalidades judaicas aventurando-se o tempo todo em percursos que n\u00e3o delimitam o que \u00e9 real e o<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> que \u00e9 ficcional, nem o que \u00e9, de fato, loucura ou drama da vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esta escrita revela um ponto de vista qu<\/span><span style=\"font-weight: 400\">e demonstra querer n\u00e3o se envolver com as viv\u00eancias de Sarah Kofman, a influente fil\u00f3sofa e escritora que n\u00e3o conseguiu lidar com seus conflitos de pertencimento a origem judaica; com Otto Weininger, e sua saga de n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio culminando no fim precoce de sua vida, por ser homossexual e judeu; com Daniel Burros, o judeu membro fundador do Partido Nazista Americano e membro da Ku Kalux Klan; ou Ron Jeremy ator de filmes porn\u00f4s que, embora fosse cultuado e louvado pelos seus atributos, figura como um indiv\u00edduo abjeto, a ser mantido longe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por\u00e9m, o narrador se descobre diante da impossibilidade de manter dist\u00e2ncias entre si e a outridade do judeu louco, se entrela\u00e7ando com a hist\u00f3ria das personagens que tenta apresentar, e acaba por enlouquecer junto com eles, ou melhor, por ver-se, tamb\u00e9m, nessa condi\u00e7\u00e3o de outro judeu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outro ponto da narrativa que intencionamos desnudar s\u00e3o os inv\u00f3lucros conceituais acerca do insano em suas rela\u00e7\u00f5es com o er\u00f3tico, o \u00f3dio e o \u00f3dio de si, que, juntos da loucura, acabam por construir imagens que colaboram para a forma\u00e7\u00e3o de subjetividades n\u00e3o enclausuradas; s\u00e3o diferentes hist\u00f3rias que convergir\u00e3o na ideia do judeu louco, o &#8221;meshug\u00e1&#8221; que encontraram e tiveram de enfrentar em algum momento de suas vida<\/span><span style=\"font-weight: 400\">s.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Partindo destas quest\u00f5es, a obra se apresenta como uma pertinente composi\u00e7\u00e3o para se pensar e discutir quest\u00f5es relativas \u00e0 loucura e suas conven\u00e7\u00f5es, para os estudos de suas representa\u00e7\u00f5es e do louco, ora destacando um, ora destacando o outro ou mesmo fazendo uso do maquin\u00e1rio cient\u00edfico e suas verdades e descortinando o discurso social hegem\u00f4nico que escolhe quem s\u00e3o os marginalizados e divergentes. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Meshug\u00e1<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e9 uma narrativa que permite a visibilidade de ideologias e seus confrontamentos, que veem a loucura como fuga da subjetividade determinada, que sobrepujam a autoproclamada neutralidade da ci\u00eancia, abrindo margem para refletir a forma como a loucura, no juda\u00edsmo, foi tratada pela ci\u00eancia no decorrer dos s\u00e9culos e acabou sendo considerada como algo intr\u00ednseco ao judeu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desta forma, entendemos que os discursos sobre a loucura e sobre seus sujeitos s\u00e3o reiterados socialmente, ou seja, uma doen\u00e7a que n\u00e3o afeta apenas o indiv\u00edduo no meio privado e individual, reflete no social como uma anomia, revelando o sujeito desorientado, desvinculado do padr\u00e3o do grupo social dominante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por fim, concebemos que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Meshug\u00e1<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> constr\u00f3i uma cartografia da loucura e do louco nos diferentes fragmentos que comp\u00f5em a narrativa, quando trata de judeus que negaram suas ra\u00edzes, fam\u00edlia, cultura e que, negando a si mesmos, acabaram por depositar suas inquieta\u00e7\u00f5es, raivas, perdas e exclus\u00f5es em escapismos diversos como forma de tentar fugir de seus pr\u00f3prios vazios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sabendo disso, pretendemos nesta pesquisa entender a maneira como o discurso liter\u00e1rio se apropria da figura do louco e da loucura instaurando outras discursividades, compreendendo como as diversas pr\u00e1ticas sociais, valores culturais e experi\u00eancias subjetivas aparecem como elemento de constru\u00e7\u00e3o do texto e da narrativa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A partir deste objetivo inicial, as discuss\u00f5es te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas sobre a obra estar\u00e3o organizadas em tr\u00eas cap\u00edtulos que organizam e sistematizam o trabalho para chegarmos aos nossos objetivos subjacentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No cap\u00edtulo 1, para demonstrar que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Meshug\u00e1<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> problematiza o pertencimento desconstruindo hierarquias atrav\u00e9s de sua est\u00e9tica caracterizada por fronteiras dilu\u00eddas e de natureza h\u00edbrida, possibilitando efeitos de sentido que interessam pela problematiza\u00e7\u00e3o a respeito de quest\u00f5es existenciais e conflitos sociais, faremos uso do conceito de \u201crealidadefic\u00e7\u00e3o\u201d, de Ludmer (2010). Este conceito contribui para pensar como a obra \u201cfabrica um presente\u201d num regime de visibilidade midi\u00e1tica onde os meios de comunica\u00e7\u00e3o visual redefinem o papel da literatura e da leitura. Por exemplo, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Meshug\u00e1<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> como escritura da realidade atual reinventa o passado, cujo sentido se d\u00e1 sem met\u00e1foras, atrav\u00e9s de biografias que d\u00e3o um testemunho como \u201cprova do presente\u201d em oposi\u00e7\u00e3o ao \u201cregistro realista do que passou\u201d. Utilizaremos tamb\u00e9m o conceito de \u201carte inespec\u00edfica\u201d, de Garramu\u00f1o (2014) para pensar a constru\u00e7\u00e3o da narrativa atrav\u00e9s do cruzamento de g\u00eaneros como o relato hist\u00f3rico, a biografia e o ensaio, criando uma estrutura de \u201cromance sobre a loucura\u201d de maneira n\u00e3o convencional, o que motiva uma multiplicidade de sentidos e interpreta\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, ocupando novos lugares, tanto do ponto de vista est\u00e9tico quanto discursivo, e possibilitando um sem-n\u00famero de interpreta\u00e7\u00f5es e conte\u00fados num di\u00e1logo que afeta o espectador, transformando-o em coautor ao se apropriar, retransmitir e reconstruir a obra no processo art\u00edstico a partir de provoca\u00e7\u00f5es do autor. Tamb\u00e9m traremos o conceito de \u201cformas corais\u201d, de Sussekind (2013), para pensar acerca da ideia de que o tensionamento entre g\u00eaneros diversos possibilitam que da voz do autor, do narrador, das personagens emerja uma literatura m\u00faltipla e indefin\u00edvel, que questiona ao mesmo tempo a hist\u00f3ria e a literatura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No cap\u00edtulo 2, para entender como o fazer narrativo de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Meshug\u00e1<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> critica o institucional legitimado ao recontar a Hist\u00f3ria de seus personagens, faremos uso do conceito de \u201cmetafic\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica\u201d, de Hutcheon (1991). Este conceito, segundo a autora, \u00e9 uma estrat\u00e9gia narrativa que, atrav\u00e9s da apropria\u00e7\u00e3o de fatos e\/ou personagens hist\u00f3ricos, traz de forma simult\u00e2nea uma autorreflexidade meditativa junto a uma reflex\u00e3o cr\u00edtica do fato hist\u00f3rico problematizado na fic\u00e7\u00e3o. Sendo assim, entendemos que este \u00e9 um caminho para que possamos observar como esta escolha narratol\u00f3gica corrobora o processo de compreens\u00e3o da forma como as figuras do louco e da loucura estabelecem di\u00e1logos e, assim, relevam como a sociedade os v\u00ea e como ela se desenvolve na narrativa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Este percurso te\u00f3rico se torna essencial para compreens\u00e3o do projeto narratol\u00f3gico dessa narrativa, pois Fux subverte as biografias dos personagens substituindo a vis\u00e3o \u201cincensur\u00e1vel\u201d e legitimada de cada um deles (fil\u00f3sofa, enxadrista, cineasta, matem\u00e1tico) por uma vis\u00e3o que revela o \u201clouco\u201d em cada celebridade (gay, suicida, antissemita), trazendo um processo de desnaturaliza\u00e7\u00e3o destes comportamentos desviantes que se orientam fora do institucionalizado, o que provoca um tensionamento da norma, que reage geralmente com formas de repress\u00e3o violentas, elementos que o autor utiliza para criticar os princ\u00edpios de organiza\u00e7\u00e3o e classifica\u00e7\u00e3o do conhecimento e, em consequ\u00eancia, dos indiv\u00edduos, no meio social.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Finalmente, o cap\u00edtulo 3 pretende mobilizar os conceitos discutidos nos dois primeiros cap\u00edtulos, para mostrar como eles se mobilizam e se aplicam na obra e potencializam a reflex\u00e3o que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Meshug\u00e1<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> realiza atrav\u00e9s de uma constru\u00e7\u00e3o est\u00e9tico-narrativa que possibilita que personagens exc\u00eantricos se apropriem do discurso hist\u00f3rico para provocar uma reflex\u00e3o acerca dos processos de naturaliza\u00e7\u00e3o dos discursos que normalizam e normatizam os seus corpos e sua vida social.<\/span><\/p>\n<p><b>PALAVRAS-CHAVE<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: Literatura contempor\u00e2nea. Literatura brasileira. Loucura. Judeu. Jacques Fux.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">FUX, Jacques. <\/span><b>Meshug\u00e1<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: um romance sobre a loucura. Rio de Janeiro, Jos\u00e9 Olympio, 2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">GARRAMU\u00d1O, Florencia. <\/span><b>Frutos estranhos<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: sobre a inespecificidade na est\u00e9tica contempor\u00e2nea. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">HUTCHEON, Linda. <\/span><b>Po\u00e9tica do p\u00f3s-modernismo<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Imago, 1991.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">LUDMER, Josefina. Las Literaturas p\u00f3s-aut\u00f4nomas. <\/span><b>Sopro<\/b><span style=\"font-weight: 400\">, Desterro, v. 20, p.1-4, jan. 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">S<\/span><span style=\"font-weight: 400\">ILVA, <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Gislene Maria Barral Lima Felipe da. <\/span><b>Olhando sobre o muro<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: representa\u00e7\u00f5es de loucos na literatura brasileira contempor\u00e2nea. 2008. 219 f. Tese (Doutorado em Literatura e Pr\u00e1ticas Sociais) &#8211; Universidade de Bras\u00edlia, Bras\u00edlia, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SUSSEKIND, Flora. Objetos verbais n\u00e3o-identificados. <\/span><b>Jornal O Globo<\/b><span style=\"font-weight: 400\">, Rio de Janeiro, 21 set. 2013. Prosa &amp; Verso. Dispon\u00edvel em: &lt; http:\/\/oglobo.globo.com\/blogs\/prosa\/posts\/2013\/09\/21\/objetos-verbais- nao-identificados-um-ensaio-de-flora-sussekind-510390.asp&gt;. Acesso em: 20 set. 2018.<\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle] <b>Joseane dos Santos Costa<\/b> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>ECOS DA NEGRITUDE: MULHER E MATERNIDADE NA LITERATURA AFRICANA E AFRO-BRASILEIRA<\/b><\/p>\n<p><b>Joseane dos Santos Costa<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> (Mestranda\/UEPB\/PPGLI)\u00a0<\/span><a href=\"mailto:zeane.jo@hotmail.com\"><span style=\"font-weight: 400\">zeane.jo@hotmail.com<\/span><\/a><\/p>\n<p><b>Prof\u00aa Dr\u00aa Rosilda Alves Bezerra<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> (Orientadora\/UEPB\/PPGLI)\u00a0<\/span><a href=\"mailto:Rosildaalvesuepb@yahoo.com.br\"><span style=\"font-weight: 400\">Rosildaalvesuepb@yahoo.com.br<\/span><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No contexto dos estudos acerca da literatura africana, muitas vezes nos deparamos com a realidade cultural de v\u00e1rios povos, atrav\u00e9s de situa\u00e7\u00f5es que nos fazem pensar o quanto existe verossimilhan\u00e7a entre fic\u00e7\u00e3o e realidade. S\u00e3o muitos os estere\u00f3tipos que circundam as mulheres em todo o mundo. Na \u00cdndia, por exemplo, elas dificilmente podem sair de casa sem uma companhia masculina, sem algu\u00e9m para proteg\u00ea-las<\/span><span style=\"font-weight: 400\">. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">No Brasil imperial a mulher era tratada como um bibel\u00f4, um ser para ser protegido e mimado, mas a quem n\u00e3o deveriam se levar em considera\u00e7\u00e3o as suas ideias. Para Nascimento (2008, p. 21), a mulher no Brasil \u201cpassa a ter certa import\u00e2ncia na ordem burguesa porque \u00e9 ela que gera e educa os filhos que ser\u00e3o os cidad\u00e3os do futuro. Portanto, a grande miss\u00e3o da mulher era casar e ter filhos. Por este motivo, elas se tornam alvo de uma pol\u00edtica sexual que visa controlar o seu comportamento e sua vida\u201d. Ou seja, a mulher deve ser valorizada por sua condi\u00e7\u00e3o de maternidade. Por essa raz\u00e3o, buscamos caminhos eficazes, que propiciem, uma discuss\u00e3o acerca das rela\u00e7\u00f5es entre literatura africana \/afro-brasileira e maternidade. Acreditamos que, para tanto \u00e9 preciso refletir sobre os v\u00e1rios fatores inerentes ao processo de constru\u00e7\u00e3o de identidade do ser m\u00e3e, dentre os quais, destacamos a forte influ\u00eancia do discurso patriarcal nas culturas africanas, o lugar de fala subalternizado da mulher negra, culminando em um silenciamento compuls\u00f3rio que torna ser feminino uma v\u00edtima do sistema, tendo em vista que a linguagem \u00e9 um mecanismo de manuten\u00e7\u00e3o de poder (RIBEIRO, 2018). Movidos por estas inquieta\u00e7\u00f5es, pretende-se, neste trabalho, analisar a representa\u00e7\u00e3o da maternidade \u00a0na obra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">As alegrias da Maternidade <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(2017) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">da escritora nigeriana Buchi Emecheta, pois a mesma nos apresenta atrav\u00e9s de suas personagens, mulheres determinadas, fortes, por\u00e9m submissas ao sistema patriarcal, nos levando a compreender que em um mundo marcado por diferen\u00e7as sociais, econ\u00f4micas, filos\u00f3ficas, o sujeito feminino \u00e9 fortemente marcado pelos discursos e situa\u00e7\u00f5es que lhes s\u00e3o impostas. Nesse sentido, embora se ajuste \u00e0s situa\u00e7\u00f5es e contextos distintos, entrando em discuss\u00e3o, assim, o que Hall (2014) denomina identidade fragmentada. Segundo ele, seria o indiv\u00edduo composto n\u00e3o de uma \u00fanica, mas de v\u00e1rias identidades, algumas s\u00e3o mais resilientes, a maternidade ao que parece \u00e9 uma delas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>JUSTIFICATIVA<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Conforme revelado no t\u00edtulo do projeto em quest\u00e3o, consideramos a tem\u00e1tica da maternidade vivenciada pela mulher nas sociedades africanas, como um tema concomitantemente antiqu\u00edssimo e contempor\u00e2neo, presente na humanidade desde os seus prim\u00f3rdios e deveras n\u00e3o muito diferente da realidade brasileira; e, mais do que discutir esta tem\u00e1tica, pretendemos situar a literatura como um lugar de resist\u00eancia da mulher, que funciona como uma forma de sua voz se fazer ouvir: eis a relev\u00e2ncia social do problema a ser investigado. Em se tratando de motiva\u00e7\u00f5es pessoais, o interesse por essa tem\u00e1tica me foi despertado ainda durante a minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, quando alguns colegas, principalmente as meninas diziam se envergonhar de serem negras e afirmavam que se tivessem oportunidade escolheriam ter nascido brancas, assim como a percep\u00e7\u00e3o dos problemas enfrentados por meus pais, ambos negros, sem ter tido o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Tais experi\u00eancias, aliadas \u00e0 leitura de contos e romances que tratavam de quest\u00f5es de identidade cultural, bem como de aspectos da tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cultural dos negros no Brasil, avivaram-me o interesse de estudar um pouco mais profundamente a tem\u00e1tica em quest\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>OBJETIVOS<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desta maneira, analisaremos o romance e o conto supracitado, considerando a leitura liter\u00e1ria um instrumento favor\u00e1vel para o rompimento de estere\u00f3tipos que circundam a mulher negra africana e afro-brasileira. Incitamos assim, pesquisas voltadas para a literatura africana, enfocando-se nas contribui\u00e7\u00f5es que esta pode oferecer no levante \u00e0 abordagem de quest\u00f5es raciais e culturais. Promover, ainda, o estudo e discuss\u00e3o da literatura\/cultura africana e afro-brasileira (conforme Lei Federal 10.639) enquanto um espa\u00e7o importante para trocas interculturais; nesse sentido, promoveremos uma reflex\u00e3o acerca das compet\u00eancias socioculturais atrav\u00e9s da leitura das referidas obras.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>METODOLOGIA<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esta investiga\u00e7\u00e3o trata-se de uma pesquisa de cunho bibliogr\u00e1fico e interpretativista, alocada no paradigma das pesquisas descritivistas (GIL, 2008), tendo como objeto de estudo a obra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">As alegrias da Maternidade de Buchi Emecheta e o conto Za\u00edta esqueceu de guardar os brinquedos\u201d de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">O desenvolvimento desta pesquisa se desenvolver\u00e1 em etapas, das quais no primeiro cap\u00edtulo: estudaremos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">a maternidade e imposi\u00e7\u00e3o: a import\u00e2ncia do ser m\u00e3e na cultura nigeriana<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Logo em seguida, em um segundo cap\u00edtulo: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Buchi Emecheta e Concei\u00e7\u00e3o Evaristo: maternidade negra e viol\u00eancia em discuss\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, apresentamos reflex\u00f5es acerca dos poss\u00edveis caminhos para uma constru\u00e7\u00e3o da identidade negra, a partir da leitura das obras em estudo. E por fim, abordaremos a representa\u00e7\u00e3o da personagem matriarca no romance \u201cAs alegrias da maternidade\u201d, levando em considera\u00e7\u00e3o os pressupostos te\u00f3ricos apresentados, bem como as representa\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, tendo como t\u00edtulo: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Maternidade uma rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e3es e filhos: uma an\u00e1lise da personagem protagonista Nhu Ego<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>FUNDAMENTA\u00c7\u00c3O TE\u00d3RICA<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim sendo, na sociedade nigeriana, onde v\u00e1rias religi\u00f5es coexistem, devido as diferen\u00e7as regionais e \u00e9tnicas, duas se sobressaem, saber: o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">igbo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">iorub\u00e1<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. De uma forma geral a maioria dessas religi\u00f5es tendem a negar, \u00e0 mulher, um espa\u00e7o de igualdade em rela\u00e7\u00e3o ao homem, desta maneira, escritoras nigerianas encontraram na literatura, uma sa\u00edda para suas vozes serem ouvidas e est\u00e3o conseguindo denunciar o processo de marginaliza\u00e7\u00e3o pelo qual passam \u2013 infelizmente, at\u00e9 os dias de hoje. Enquanto no Brasil, al\u00e9m do problema da subordina\u00e7\u00e3o das mulheres em rela\u00e7\u00e3o ao homem, as autoras de literatura afro-brasileira enfrentam um racismo estrutural, pois em nosso pa\u00eds vivemos o mito da democracia racial, vendemos para o exterior um estere\u00f3tipo de pa\u00eds que ama o seu povo miscigenado, que por consequ\u00eancia respeita e abarca todas as culturas, religi\u00f5es e costumes, mas na verdade, o que predomina aqui \u00e9 um esquecimento estrat\u00e9gico por parte das grandes m\u00eddias, e da burguesia que por agregarem valores negativos a tudo o que se diferencia do modelo branco, europeu, termina por contribuir pra aumentar o abismo social vivenciado pelos negros, e consequentemente a ra\u00e7a se torna um problema a mais na luta das mulheres por sua independ\u00eancia. Diante disso, situamos a escritora nigeriana Chinua Achebe e a brasileira Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, como porta vozes das mulheres de seus respectivos pa\u00edses, diante do silenciamento que lhes foi condicionado. Temos, pois, como pergunta norteadora de nossa pesquisa: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Como o romance \u201cAs alegrias da Maternidade\u201d, da escritora nigeriana Buchi Emecheta, e o conto \u201cZa\u00edta esqueceu de guardar os brinquedos\u201d da escritora Concei\u00e7\u00e3o Evaristo pode contribuir para o rompimento de estere\u00f3tipos que circundam a cultura e literatura africana e afro-brasileira? <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Teremos como embasamento te\u00f3rico, discuss\u00f5es sobre as identidades fragmentadas (BAUMAN, 2005) bem como as identidades no contexto p\u00f3s-colonialista (HALL, 2001), o encarceramento e o lugar de fala da mulher negra (RIBEIRO, 2018), dentre outros.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS <\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esta pesquisa ser\u00e1 desenvolvida de forma que do in\u00edcio at\u00e9 o \u00faltimo m\u00eas de vig\u00eancia, procederemos \u00e0s pesquisas bibliogr\u00e1ficas dos fundamentos te\u00f3ricos que sustentam as reflex\u00f5es a respeito da problem\u00e1tica em quest\u00e3o. Pretendemos constatar assim de qual maneira a literatura africana influencia na constru\u00e7\u00e3o das identidades de diferentes sujeitos, sobretudo no que se refere a mulheres negras que buscam reconhecimento na sociedade na qual est\u00e3o situadas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ALMEIDA, Silvio. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O que \u00e9: racismo estrutural? <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Belo Horizonte: Letramento,2018.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BAUMAN, Zygmunt. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Identidade.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Rio de Janeiro: Zahar, 2005.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BORGES, Juliana. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O que \u00e9: encarceramento em massa?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Belo Horizonte: Letramento, 2018. (Cole\u00e7\u00e3o Feminismos Plurais).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BERTH, Joice. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O que \u00e9 empoderamento<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Belo Horizonte: Editora Letramentos, 2018. (Cole\u00e7\u00e3o Feminismos Plurais).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CARVALHAL, T\u00e2nia. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Literatura comparada<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. 4. ed. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 2006.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DAVIS, Angela. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mulheres, cultura e pol\u00edtica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Heci Regina Candiani. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DAVIS, Angela. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mulheres, ra\u00e7a e classe.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Tradu\u00e7\u00e3o de Heci Regina Candiani. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DAVIS, Angela. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A liberdade \u00e9 uma luta constante. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Tradu\u00e7\u00e3o de Heci Regina Candiani. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2018.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">EMECHETA, Buchi. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">As alegrias da maternidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Porto Alegre: Dubliense, 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">EVARISTO, Concei\u00e7\u00e3o. Maria. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Olhos d\u00b4\u00e1gua.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Rio de Janeiro: Pallas, 2016. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">FANON, Frantz. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Pele negra, m\u00e1scaras brancas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o Renato da Silveira. EDUFBA, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">GIL, Antonio Carlos. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Como elaborar projetos de pesquisa.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> 4. ed. S\u00e3o Paulo: Atlas, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">HALL, Stuart. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A identidade cultural na p\u00f3s-modernidade.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Rio de Janeiro: DP&amp;A, 2014.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NASCIMENTO, Uelba Alexandre do. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O Doce Veneno da Noite<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: prostitui\u00e7\u00e3o em Campina Grande (1930-1950). Campina Grande: EDUFCG, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">PERROT, Michelle. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Minha histo\u0301ria das mulheres. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Trad. A\u0302ngela M.S. Corre\u0302a. Sa\u0303o Paulo: Ed. Contexto, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RIBEIRO, Djamila. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O que \u00e9 lugar de fala<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Belo Horizonte: Editora Letramentos, 2017. (Cole\u00e7\u00e3o Feminismos Plurais).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SANTOS, Li\u0301gia Pereira dos. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mulher e viole\u0302ncia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">:<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">histo\u0301rias do corpo negado<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Campina Grande: EDUEP, 2008. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SOUZA, F. Z. D. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Dissimular para sobreviver<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: estrat\u00e9gias de resist\u00eancias<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Revista Abril<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Baixada Fluminense, v. 5, n. 10, 2013.<\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle] <strong>Lays Honorio Teixeira<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><strong>\u201cA CARA DO POVO DO JEITO QUE ELA \u00c9\u201d: O NACIONAL-POPULAR NA<\/strong><br \/>\n<strong>PE\u00c7A PARAIB\u00ca-A-BA, DE PAULO PONTES (1967\/1968)<\/strong><\/p>\n<p>Lays Honorio Teixeira<br \/>\nOrientador: Dr. Di\u00f3genes Andr\u00e9 Vieira Maciel<\/p>\n<p>[INTRODU\u00c7\u00c3O] Paulo Pontes (1940\/1976) foi um teatr\u00f3logo campinense que atuou<br \/>\nno cen\u00e1rio regional e nacional, notadamente entre as d\u00e9cadas de 1960 e 1970, em meio<br \/>\nao contexto hist\u00f3rico e pol\u00edtico da ditadura civil-militar. Essa pesquisa d\u00e1 continuidade<br \/>\na um projeto de trazer visibilidade para o autor em sua terra natal, iniciado em um<br \/>\ntrabalho de conclus\u00e3o de curso (TEIXEIRA, 2016), em que se discutiu como o<br \/>\nteatr\u00f3logo tece cr\u00edticas ao regime civil-militar, \u00e0 situa\u00e7\u00e3o social do brasileiro e ao, assim<br \/>\nchamado, \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d, do governo M\u00e9dici, atrav\u00e9s da pe\u00e7a Dr. Fausto da<br \/>\nSilva.<br \/>\n[CORPUS DA PESQUISA] Na pesquisa atual, nos propomos a analisar-interpretar o<br \/>\ntexto dramat\u00fargico Para\u00ed-b\u00ea-a-b\u00e1, estreado nos palcos no Rio de Janeiro e, depois,<br \/>\napresentado na Para\u00edba, em in\u00edcios do ano de 1968, com o grupo do Teatro de Arena da<br \/>\nPara\u00edba, sob dire\u00e7\u00e3o de Elp\u00eddio Navarro e Rubens Teixeira. Neste texto se faz um<br \/>\nresgate hist\u00f3rico da m\u00fasica, da poesia, da economia, da literatura, de epis\u00f3dios<br \/>\nmarcantes da hist\u00f3ria do estado e de personalidades locais ao reunir esses dados em seu<br \/>\nenredo. Na pe\u00e7a, est\u00e3o presentes, atrav\u00e9s dos seus textos (ou s\u00e3o mencionados como<br \/>\npersonagens), os escritores Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida, Oscar de Castro, Jos\u00e9 Lins do<br \/>\nRego, o cordelista Leandro Gomes de Barros, o intelectual Hor\u00e1cio de Almeida, o padre<br \/>\nFrancisco Pereira,os poetas Manoel Jos\u00e9 de Lima e Augusto dos Anjos, os cantores Luiz<br \/>\nGonzaga e Jackson do Pandeiro, o compositor Jo\u00e3o do Vale, e os pol\u00edticos Jo\u00e3o<br \/>\nAgripino Filho e Jo\u00e3o Pessoa al\u00e9m de Euclides da Cunha. Tamb\u00e9m aparecem<br \/>\npronunciamentos pol\u00edticos e dados econ\u00f4micos. Sua forma de escrita tem ra\u00edzes no<br \/>\nr\u00e1dio e no jornal, \u00e1reas nas quais Paulo Pontes atuava antes do teatro e onde iniciou seu<br \/>\ncontato com o p\u00fablico. Essas viv\u00eancias em trabalhos anteriores fizeram com que suas<br \/>\npe\u00e7as apresentassem a principal caracter\u00edstica de colocar o povo no palco. Em sua<br \/>\nmaioria, seus personagens constituem representa\u00e7\u00f5es do real: s\u00e3o problemas, situa\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndi\u00e1logos e conflitos que, quando n\u00e3o transcritos integralmente, tem inspira\u00e7\u00e3o em<br \/>\nsitua\u00e7\u00f5es que realmente ocorreram.<br \/>\n[OBJETIVOS] Propomos uma discuss\u00e3o com o objetivo de problematizar como as<br \/>\npr\u00e1ticas culturais e sociais presentes na pe\u00e7a Parai-b\u00ea-a-b\u00e1 constroem representa\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo paraibano naquele contexto hist\u00f3rico e est\u00e9tico (1967\/1968). Para tanto, procuramos<br \/>\natingir, ainda, os seguintes objetivos espec\u00edficos: (a) problematizar como a falta de<br \/>\nindividualidade dos personagens constitui uma reflex\u00e3o em torno da passagem do plano<br \/>\nindividual para o social; (b) identificar as concep\u00e7\u00f5es do nacional-popular na pe\u00e7a,<br \/>\nenquanto um projeto est\u00e9tico-pol\u00edtico da cena nacional, atrav\u00e9s da busca pela<br \/>\naproxima\u00e7\u00e3o do p\u00fablico com o teatro, seja como objeto da representa\u00e7\u00e3o, seja como<br \/>\nplateia; (c) analisar o discurso representativo do homem paraibano no pref\u00e1cio da pe\u00e7a e<br \/>\nem textos jornal\u00edsticos locais, tendo em vista a possibilidade de se construir a hist\u00f3ria<br \/>\ndesse espet\u00e1culo. Assim, o objetivo geral procura problematizar como a pe\u00e7a Parai-b\u00ea-<br \/>\na-b\u00e1, escrita e encenada durante o per\u00edodo da ditadura civil-militar, constr\u00f3i poss\u00edveis<br \/>\nrepresenta\u00e7\u00f5es do homem paraibano, levando em considera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1 um<br \/>\ndistanciamento entre o texto e o contexto no qual est\u00e1 inserido. Para tanto, elencamos os<br \/>\nobjetivos para responder \u00e0s seguintes quest\u00f5es-problema: \u201cDe que maneira Paulo<br \/>\nPontes consegue colocar o povo no palco?\u201d, \u201cQue elementos ele elencou para construir<br \/>\nessa representa\u00e7\u00e3o?\u201d, \u201cQue caracter\u00edsticas aparecem na pe\u00e7a com o objetivo de causar<br \/>\nidentifica\u00e7\u00e3o no p\u00fablico?\u201d \u2013 entre outras que poder\u00e3o surgir no decorrer da pesquisa<br \/>\ncom o objetivo de problematizar como essa representa\u00e7\u00e3o \u00e9 feita.<br \/>\n[PROCEDIMENTOS TE\u00d3RICO-METODOL\u00d3GICOS] Pontes, ao problematizar a<br \/>\nnecessidade de uma pe\u00e7a sobre a Para\u00edba, entendendo a dist\u00e2ncia que havia entre o<br \/>\np\u00fablico e o teatro, elege o homem paraibano como objeto de an\u00e1lise, uma vez que, para<br \/>\no autor, a dicotomia entre os temas apresentados nos espet\u00e1culos e a realidade da<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o era um dos fatores para a perman\u00eancia dessa dist\u00e2ncia. Essa dicotomia, ainda<br \/>\nque n\u00e3o seja assim nomeada por ele, \u00e9 um reflexo, de uma vertente do movimento de<br \/>\npopulariza\u00e7\u00e3o do teatro, conforme um projeto de atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do teatro brasileiro,<br \/>\natrelado a intelectuais comunistas, que se afina \u00e0s formula\u00e7\u00f5es de uma organiza\u00e7\u00e3o da<br \/>\ncultura nacional-popular, conforme proposta por Antonio Gramsci e adaptado ao<br \/>\ncen\u00e1rio nacional. N\u00e3o se pode olvidar que a situa\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o do teatro \u00e9<br \/>\nef\u00eamera, restando aos pesquisadores contar a sua hist\u00f3ria a partir do que foi<br \/>\ndocumentado. A pe\u00e7a \u00e9 uma fonte documental e atrav\u00e9s das fontes \u00e9 poss\u00edvel construir<br \/>\numa narrativa acerca desse epis\u00f3dio da hist\u00f3ria local do teatro paraibano. Dessa<br \/>\nmaneira, nossa metodologia parte da an\u00e1lise do texto teatral e de fontes documentais,<br \/>\nsendo, por isso, definida como uma pesquisa documental (BRAND\u00c3O apud MACIEL,<br \/>\n2016). Brand\u00e3o (2001) faz uma divis\u00e3o das fontes em graus: as fontes prim\u00e1rias de<br \/>\nprimeiro grau s\u00e3o as fontes internas, pr\u00f3ximas ao espet\u00e1culo: nessa pesquisa a fonte<br \/>\nprim\u00e1ria \u00e9 a pe\u00e7a documental; e as fontes prim\u00e1rias de segundo graus s\u00e3o aquelas<br \/>\nexternas ao processo de ensaio e apresenta\u00e7\u00e3o, aqui sendo os textos jornal\u00edsticos e<br \/>\nhistoriogr\u00e1ficos a cerca da pe\u00e7a. O cuidado com as fontes se deve ao contexto \u00e0s quais<br \/>\nforam produzidas, atentando para necessidade de constituir uma hist\u00f3ria do espet\u00e1culo,<br \/>\nque seja anal\u00edtica e cr\u00edtica quanto \u00e0s fontes utilizadas.<br \/>\n[DISCUSS\u00c3O] O documento da pe\u00e7a ao qual tivemos acesso apresenta, um pref\u00e1cio de<br \/>\nautoria de Paulo Pontes, constituindo uma parte importante da elabora\u00e7\u00e3o do texto, pois,<br \/>\natrav\u00e9s dele, os autores passavam suas inten\u00e7\u00f5es sobre os textos, tecendo coment\u00e1rios e<br \/>\nobserva\u00e7\u00f5es. Com o t\u00edtulo \u201cPor que um espet\u00e1culo sobre a Para\u00edba?\u201d, Pontes elenca dois<br \/>\nimpasses centrais que norteiam o processo de escrita da sua pe\u00e7a. O primeiro deles \u00e9<br \/>\numa constata\u00e7\u00e3o: o p\u00fablico n\u00e3o vai ao teatro. O segundo \u00e9 uma indaga\u00e7\u00e3o: como<br \/>\nrealizar um espet\u00e1culo de teatro, com n\u00edvel capaz de interessar o p\u00fablico, em um Estado<br \/>\nque n\u00e3o h\u00e1 tradi\u00e7\u00e3o teatral? Partindo dessas premissas, Pontes detecta que h\u00e1 um c\u00edrculo<br \/>\nvicioso no qual as pessoas n\u00e3o v\u00e3o ao teatro porque o espet\u00e1culo n\u00e3o \u00e9 bom, e o n\u00edvel<br \/>\ndo espet\u00e1culo n\u00e3o melhora porque n\u00e3o h\u00e1 prest\u00edgio do p\u00fablico. Diante dessa situa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nele se prop\u00f5e a resolv\u00ea-los, pelo menos para essa pe\u00e7a, ao eleger o homem paraibano<br \/>\ncomo tema central, visando criar, al\u00e9m de uma identifica\u00e7\u00e3o do p\u00fablico com o tema<br \/>\ncentral da pe\u00e7a, uma representa\u00e7\u00e3o desse homem paraibano, de modo que levasse a<br \/>\nplateia a refletir sobre sua condi\u00e7\u00e3o enquanto povo. Desse modo, nossos objetivos est\u00e3o<br \/>\nvoltados a entender como o autor realizou essas poss\u00edveis representa\u00e7\u00f5es do paraibano.<br \/>\nNo primeiro cap\u00edtulo se voltar\u00e1 a problematizar como a falta de individualidade dos<br \/>\npersonagens constitui uma an\u00e1lise do plano individual para o social, o que ocorrer\u00e1<br \/>\natrav\u00e9s da an\u00e1lise da t\u00e9cnica da colagem de textos enquanto forma de representa\u00e7\u00e3o da<br \/>\nm\u00faltipla identidade paraibana. Quando Paulo Pontes se prop\u00f5e a utilizar trechos de<br \/>\ndiferentes escritores nordestinos, em sua maioria paraibanos, com o objetivo de retratar<br \/>\no homem local, ele utiliza diversos personagens que n\u00e3o apresentam identifica\u00e7\u00e3o no<br \/>\ntexto, sendo referidos por \u201cAtor 1, Ator 2\u201d, mas que refletem nas suas pr\u00e1ticas o povo,<br \/>\nsendo essa individualidade uma caracter\u00edstica da modernidade, reflexo das rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nsociais que s\u00e3o percebida no teatro. Deste modo, utilizaremos a contribui\u00e7\u00e3o de<br \/>\nRaymond Williams (1992) entendendo a forma enquanto modelo de<br \/>\nconstru\u00e7\u00e3o\/elabora\u00e7\u00e3o do teatro. No segundo cap\u00edtulo, identificaremos as concep\u00e7\u00f5es do<br \/>\nnacional-popular na pe\u00e7a atrav\u00e9s da aproxima\u00e7\u00e3o do p\u00fablico com o teatro, observando<br \/>\ncomo a pe\u00e7a e o autor estavam inseridos dentro de um projeto nacional de valoriza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmodifica\u00e7\u00e3o e identifica\u00e7\u00e3o do teatro com o p\u00fablico atrav\u00e9s das quest\u00f5es sociais,<br \/>\npol\u00edticas e locais focando na representa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, normalmente pouco<br \/>\nvisibilizada nos textos teatrais. Por fim, no terceiro cap\u00edtulo, analisaremos o discurso<br \/>\nrepresentativo do homem paraibano no pref\u00e1cio da pe\u00e7a e em textos jornal\u00edsticos locais.<br \/>\nNo pref\u00e1cio da pe\u00e7a, o autor comenta sobre a necessidade dessa representa\u00e7\u00e3o no<br \/>\n\u00e2mbito das artes, principalmente por que no estado n\u00e3o h\u00e1 um costume de frequentar o<br \/>\nteatro. Al\u00e9m de apresentar os problemas, Pontes ainda elenca as poss\u00edveis causas para<br \/>\nele, sugerindo a identifica\u00e7\u00e3o do conte\u00fado apresentado em cena com a plateia como<br \/>\numa resposta vi\u00e1vel a esses impasses. Utilizaremos as contribui\u00e7\u00f5es de Chartier (1988)<br \/>\npara problematizar como as pr\u00e1ticas e representa\u00e7\u00f5es se d\u00e3o no contexto da pe\u00e7a. A<br \/>\nutiliza\u00e7\u00e3o de cr\u00edticas jornal\u00edsticas nesse cap\u00edtulo tem como finalidade perceber se,<br \/>\natrav\u00e9s de relatos sobre a pe\u00e7a, o autor conseguiu alcan\u00e7ar seu objetivo inicial de levar o<br \/>\np\u00fablico paraibano para o teatro. Diante disso, \u00e9 necess\u00e1rio lembrar que ainda n\u00e3o h\u00e1<br \/>\numa pesquisa que aborde exclusivamente essa pe\u00e7a na nossa perspectiva: entendendo<br \/>\nsua import\u00e2ncia como marco no teatro paraibano (baseado nos relatos sobre o n\u00famero<br \/>\nde espectadores que foram assistir) e por ressaltar aquilo que o pr\u00f3prio autor<br \/>\nconsiderava ser o que de maior valor a Para\u00edba tem, que \u00e9 o paraibano.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>BRAND\u00c3O. T\u00e2nia. Ora, direis ouvir estrelas: historiografia e hist\u00f3ria do teatro<br \/>\nbrasileiro. <strong>Sala Preta<\/strong>, S\u00e3o Paulo, ano 1, v. 1, p. 199-217, 2001.<br \/>\nCHARTIER, Roger. <strong>A hist\u00f3ria cultural:<\/strong> entre pr\u00e1ticas e representa\u00e7\u00f5es. \u2013 Rio de<br \/>\nJaneiro: Editora Bertrand Brasil, 1988.<br \/>\nMACIEL, Di\u00f3genes Andr\u00e9 Vieira (Org.) <strong>Dramaturgia, teatro e outros di\u00e1logos<\/strong><br \/>\n<strong>(inter)culturais<\/strong> \u2013 Campina Grande: EDUEPB, 20016.<br \/>\nMACIEL, Di\u00f3genes Andr\u00e9 Vieira. <strong>Ensaios do nacional-popular no teatro brasileiro<\/strong><br \/>\n<strong>moderno<\/strong>. \u2013 Jo\u00e3o Pessoa: Editora Universit\u00e1ria\/UFPB, 2004<br \/>\nPONTES, Paulo. <strong>Para\u00ed-b\u00ea-a-b\u00e1.<\/strong> Jo\u00e3o Pessoa: [Propan], [ca. 1968].<br \/>\nTEIXEIRA, L. H. <strong>Dr. Fausto da Silva e o milagre econ\u00f4mico:<\/strong> identidade,<br \/>\nsubdesenvolvimento e escassez na obra de Paulo Pontes. Monografia. Campina Grande:<br \/>\nUniversidade Federal de Campina Grande, 2016.<br \/>\nWILLIAMS, Raymond. <strong>Cultura.<\/strong> Tradu\u00e7\u00e3o de L\u00f3lio L. de Oliveira. 2\u00aa. ed. Rio de<br \/>\nJaneiro: Paz e Terra, 1992.<\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]<b>Leandro Rodrigues de Souza Azevedo<\/b> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>REPRESENTA\u00c7\u00d5ES DE MASCULINIDADES EM RUBEM FONSECA<\/b><\/p>\n<p>Leandro Rodrigues de Souza Azevedo (PPGLI \u2013 UEPB)<\/p>\n<p>Orientador: Prof. Dr. Ant\u00f4nio de P\u00e1dua<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os contos do escritor mineiro Rubem Fonseca comp\u00f5em, de modo geral, um vasto campo para pesquisas, pois o autor problematiza as configura\u00e7\u00f5es de personagens, em especial, masculinos que se caracterizam como sujeitos agressivos. Suas narrativas s\u00e3o velozes e sofisticadamente cosmopolitas, cheias de viol\u00eancia, erotismo, irrever\u00eancia. Diante disso, faz-se conveniente analisar as representa\u00e7\u00f5es de discursos masculinos, para entendermos como se constr\u00f3i as mais diversas identidades do sujeito masculino na obra de Rubem Fonseca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sabemos que os conceitos de g\u00eanero, na maior parte das sociedades, est\u00e3o alicer\u00e7ados nas caracter\u00edsticas inerentes da linguagem. \u00a0Tomando como ponto de partida esta linguagem associada ao estilo de Rubem Fonseca de narrar, faz-se necess\u00e1rio investigarmos na sua obra as poss\u00edveis causas socioculturais e ideol\u00f3gicas que legitimam a constru\u00e7\u00e3o de identidades masculinas, realizada por a\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas marcadas por uma linguagem contundente, precisa e predominantemente marcadas pela oralidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O procedimento metodol\u00f3gico de Spitzer (1949), conforme citado por Ara\u00fajo (2013, p. 105) possibilita realizar uma an\u00e1lise estil\u00edstica e psicol\u00f3gica que elastece o conceito de estilo de um determinado escritor e enfoca em algum procedimento lingu\u00edstico que chame a aten\u00e7\u00e3o do estilista, sobretudo pela recorr\u00eancia, e o explora insistentemente para que, posteriormente, extrapole-o em dire\u00e7\u00e3o a algo mais global. Pensando nesse procedimento de Spitzer (idem) surge a inquieta\u00e7\u00e3o: de que maneira a recorr\u00eancia de elementos lingu\u00edstico-estil\u00edsticas como um estilo narrativo direto, cru, ausente de adjetivos e descri\u00e7\u00f5es e presen\u00e7a de di\u00e1logos marcados pelo de uso palavr\u00f5es proferidos por indiv\u00edduos masculinos na pele de advogados, escritores ou detetives, e marcada pela viol\u00eancia em suas mais diversas manifesta\u00e7\u00f5es presentes na cont\u00edstica de Rubem Fonseca contribui para as constru\u00e7\u00f5es\/representa\u00e7\u00f5es das identidades masculinas?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nessa perspectiva, nossa pesquisa visa analisar a obra de Jos\u00e9 Rubem Fonseca, escritor mineiro nascido em 1925 e autor de uma obra extensa e coerente quanto ao estilo e \u00e0 tem\u00e1tica, a fim de encontrar, por meio da an\u00e1lise estil\u00edstica, o princ\u00edpio unificador da cont\u00edstica de Rubem Fonseca, o qual estabelece a constru\u00e7\u00e3o das personagens masculinas. Pretendemos investigar as rela\u00e7\u00f5es sociais que encontramos na cont\u00edstica fonsequiana, ou seja, a proposta deste estudo se intenta em analisar o g\u00eanero masculino, nos contos de Rubem Fonseca, n\u00e3o exclusivamente como diferen\u00e7a sexual, biol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m como &#8220;representa\u00e7\u00e3o de cada indiv\u00edduo em termos de uma rela\u00e7\u00e3o social&#8221; (ZANFORLIN apud LAURETIS, 1994.p. 221) que se modifica de acordo com cada \u00e9poca e a cada posi\u00e7\u00e3o social que os personagens ocupam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Deste modo, temos como objetivo geral refletir sobre as ocorr\u00eancias lingu\u00edstico-estil\u00edsticas na cont\u00edstica de Rubem Fonseca de maneira a estabelecermos o sentido desse estilo nas representa\u00e7\u00f5es de discursos masculinos, para entendermos como se constr\u00f3i as identidades dos sujeitos masculinos na obra do escritor mineiro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As nossas an\u00e1lises dos contos selecionados ter\u00e1 como base os estudos de g\u00eanero e sexualidades, no tocante as masculinidades. A partir dos resultados obtidos, esta pesquisa pretende contribuir para a compreens\u00e3o da prosa fonsequiana como efeito de pr\u00e1ticas culturais dos personagens ali retratados, al\u00e9m de compreendermos como a narrativa de Rubem Fonseca transporta a constru\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias, sobretudo de g\u00eanero, etnia e classe social desses mesmos personagens masculinos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nossos aportes te\u00f3rico-cr\u00edticos principais \u2013 mas n\u00e3o os \u00fanicos \u2013 na pesquisa se dar\u00e3o por meio de autores que possam auxiliar na an\u00e1lise e interpreta\u00e7\u00e3o dos contos, al\u00e9m de apropriar-nos de conceitos chaves para o desenvolvimento da pesquisa, a exemplo da cr\u00edtica estil\u00edstica que, apesar de voltar-se quase que exclusivamente \u00e0 poesia, est\u00e1 presente e deve ser estuda na prosa, observando, sobretudo o que nos apresenta os seus precursores: L\u00e9o Spitzer (1949) e Damaso Alonso; al\u00e9m das teorias de Silveira Bueno (1964) e Jos\u00e9 Lemos Monteiro (2014), respectivamente. Para nossa reflex\u00e3o te\u00f3rica acerca das an\u00e1lises de constru\u00e7\u00f5es e identidades masculinas, utilizaremos as concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e as discuss\u00f5es sobre a masculinidade de S\u00f3crates Nolasco (1993). Utilizaremos ainda das ideias\/teorias de Bourdieu (1998), as quais fazem crer que as influ\u00eancias de um mundo cosmopolita, violento e brutal tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis pela constitui\u00e7\u00e3o do sujeito masculino.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nossa pesquisa, no momento, est\u00e1 no est\u00e1gio de leituras e releituras da obra selecionada com o intuito de obtermos uma vis\u00e3o cr\u00edtica e reflexiva dos contos e compreendermos o universo das personagens. Isto em concomit\u00e2ncia ao cumprimento de cr\u00e9ditos correspondentes \u00e0s disciplinas obrigat\u00f3rias e optativas do programa. \u00a0Est\u00e1 sendo feito tamb\u00e9m um levantamento de refer\u00eancias te\u00f3ricas e cr\u00edticas a fim de que possamos concluir o primeiro cap\u00edtulo (te\u00f3rico) da disserta\u00e7\u00e3o ao final do semestre 2018.2 para avalia\u00e7\u00e3o, revis\u00e3o e reescritas. Pretendemos concluir a disserta\u00e7\u00e3o no segundo per\u00edodo de 2019, com tr\u00eas cap\u00edtulos, sendo que os dois \u00faltimos ser\u00e3o ainda discutidos de que maneira poderemos estrutur\u00e1-los. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BUENO, Silveira. <\/span><b>Estil\u00edstica Brasileira<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: O estilo e sua t\u00e9cnica. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 1964. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NOLASCO, S\u00f3crates. <\/span><b>O mito da masculinidade<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Rocco , 1993. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">PIERRE, Bourdie. <\/span><b>A domina\u00e7\u00e3o masculina<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,2010. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SILVA, Deon\u00edsio. <\/span><b>Rubem Fonseca<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: proibido e consagrado. Rio de Janeiro: Relume Dumar\u00e1, 1996. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ZANFORLIN, Sofia. <\/span><b>Rupturas poss\u00edveis<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: representa\u00e7\u00e3o e cotidiano na s\u00e9rie os assumidos (queer as folk). S\u00e3o Paulo: Annablume, 2005. <\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle] <strong>Leiliane Tha\u00eds Pereira de Lima<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><strong>A SIMBOLOGIA DO JASMINEIRO EM NARRATIVAS CONDEANAS: OS EFEITOS<\/strong><br \/>\n<strong>SINEST\u00c9SICOS<\/strong><\/p>\n<p><strong>LIMA, Leiliane Tha\u00eds Pereira de Lima\u00b9; JUSTINO, Luciano Barbosa\u00b2<\/strong><br \/>\n1 Discente do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Literatura e Interculturalidade, na Universidade Estadual da Para\u00edba;<br \/>\n2 Docente do Programa de P\u00f3s Gradua\u00e7\u00e3o em Literatura e Interculturalidade, na Universidade Estadual da Para\u00edba.<\/p>\n<p><strong>RESUMO<\/strong><br \/>\nEste trabalho tem como objetivo analisar a constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do jasmineiro, e seus efeitos sinest\u00e9sicos, nas narrativas<br \/>\nde Terra de Caruaru (2011) e Santa Rita (1977), de Jos\u00e9 Cond\u00e9. De car\u00e1ter bibliogr\u00e1fico e qualitativo, esta pesquisa<br \/>\nbusca realizar um levantamento te\u00f3rico das fun\u00e7\u00f5es exercidas pelo elemento jasmineiro nas obras condeanas citadas<br \/>\nacima, para compreender sua constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica dentro das narrativas deste autor em espec\u00edfico, tendo em vista sua<br \/>\nrela\u00e7\u00e3o pessoal com a presen\u00e7a desta planta em sua inf\u00e2ncia e a ressignifica\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 dada em suas narrativas.<br \/>\nDesde a escolha da palavra, at\u00e9 a rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que se estabelece, a escrita condeana se mostra atenta \u00e0 presen\u00e7a<br \/>\ndo jasmim, como se seu cheiro fosse um sin\u00f4nimo de tantas emo\u00e7\u00f5es, que acabam por se reconfigurar nas obras em<br \/>\nestudo como um novo s\u00edmbolo, que se comunica com o mundo real, mas dele j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 parte unicamente representativa.<br \/>\nSua interpreta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 un\u00edvoca. As rela\u00e7\u00f5es estabelecidas nas narrativas em an\u00e1lise s\u00e3o variadas e isso<br \/>\ninterfere na sua constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, tornando-a complexa, ampla. Para compreender essa rela\u00e7\u00e3o nos ancoramos em Mois\u00e9s (1984), Hertel (2005), Barthes (1972), entre outros.<br \/>\n<strong>PALAVRAS-CHAVE:<\/strong> Jasmineiro; simb\u00f3lico, sinest\u00e9sico, Cond\u00e9.<\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><br \/>\nO ser humano vivencia sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es o tempo todo. A arte explora essas sensa\u00e7\u00f5es,<br \/>\nbuscando ativ\u00e1-las por meio de suas representa\u00e7\u00f5es, como forma de alcan\u00e7ar a subjetividade do seu receptor<br \/>\ne atingi-lo de modo pessoal e particular. Quanto mais sensa\u00e7\u00f5es uma express\u00e3o art\u00edstica provoca, mais<br \/>\npr\u00f3xima da subjetividade humana ela pode ficar. E se essas sensa\u00e7\u00f5es ocorrem sinestesicamente, mais<br \/>\nintensa \u00e9 a experi\u00eancia e mais \u00edntima \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o que o indiv\u00edduo estabelece com a express\u00e3o art\u00edstica.<br \/>\nA narrativa liter\u00e1ria \u00e9 uma das artes que utiliza abundantemente esse recurso. A sinestesia,<br \/>\ncapacidade estil\u00edstica de combinar a ativa\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos sentidos por um mesmo elemento instigador, \u00e9 uma<br \/>\nestrat\u00e9gia lingu\u00edstica que busca gerar no leitor a sensa\u00e7\u00e3o f\u00edsica da confus\u00e3o dos sentidos atrav\u00e9s do texto.<br \/>\nO estudo das narrativas condeanas, no tocante aos efeitos sinest\u00e9sicos, volta-se para a figura do<br \/>\njasmineiro. Planta com flores extremamente arom\u00e1ticas, o jasmineiro est\u00e1 presente nas narrativas desde o<br \/>\nmuro dos suntuosos sobrados at\u00e9 a janela das casas da parte mais pobre da cidade. Seu cheiro percorre e<br \/>\nenvolve o espa\u00e7o das hist\u00f3rias contadas, adentra as narinas e a mem\u00f3ria dos personagens e ativa sensa\u00e7\u00f5es<br \/>\ne emo\u00e7\u00f5es que se refletem, tamb\u00e9m, no leitor.<br \/>\nA recorr\u00eancia do elemento jasmineiro na obra do escritor caruaruense Jos\u00e9 Cond\u00e9 \u00e9 algo intrigante,<br \/>\nestando presente em ao menos oito de suas doze publica\u00e7\u00f5es. Segundo Oliveira (2012), a pr\u00f3pria casa de<br \/>\nCond\u00e9, na \u00e9poca de sua inf\u00e2ncia em Caruaru, possu\u00eda um muro coberto por jasmineiros que incendiavam os<br \/>\nc\u00f4modos com o aroma marcante nos fins de tarde. Essa planta, seu cheiro e sua imagem se perpetuaram no<br \/>\nimagin\u00e1rio do menino Cond\u00e9 ao ponto de passar a habitar tamb\u00e9m seus escritos. A presen\u00e7a e representa\u00e7\u00e3o<br \/>\nestil\u00edstica do jasmineiro, bem como a funcionalidade que exerce no plano de fundo das narrativas, al\u00e9m de<br \/>\nsua profunda rela\u00e7\u00e3o com a mem\u00f3ria afetiva e olfativa do autor, o constituem como um elemento simb\u00f3lico<br \/>\nda escrita condeana.<br \/>\nComo Hertel (2005, p.129) afirma, \u201ccheiros nunca s\u00e3o meramente cheiros [\u2026] trazem consigo<br \/>\nsignificados simb\u00f3licos\u201d. A figura do jasmineiro, sua presen\u00e7a constante, seu cheiro e suas fun\u00e7\u00f5es dentro<br \/>\ndas narrativas n\u00e3o o limitam \u00e0 uma marca da escrita saudosa, meio sonhada e meio vivida, do autor, mas o<br \/>\ndesvincula, em certa medida, dessa exist\u00eancia primeira e emp\u00edrica e denota nova forma, desta vez simb\u00f3lica,<br \/>\nsinest\u00e9sica e liter\u00e1ria, permitindo a constru\u00e7\u00e3o de uma nova figura, agora agindo como elemento estil\u00edstico na<br \/>\nescrita deste sujeito autor.<br \/>\nEste trabalho tem como objetivo geral demonstrar os efeitos sinest\u00e9sicos e simb\u00f3licos da presen\u00e7a<br \/>\ndo jasmineiro nas narrativas de Terra de Caruaru (2011) e Santa Rita (1977), de Jos\u00e9 Cond\u00e9. Atrav\u00e9s dos<br \/>\nobjetivos espec\u00edficos buscamos: discutir a constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do elemento jasmineiro no desenvolvimento<br \/>\ndas narrativas condeanas; expor os efeitos sinest\u00e9sicos gerados pela imagem do jasmineiro atrelada \u00e0<br \/>\nmem\u00f3ria olfativa do autor, j\u00e1 constru\u00edda, e do leitor, que se constr\u00f3i em fun\u00e7\u00e3o de sua rela\u00e7\u00e3o com a obra; e<br \/>\nagregar a perspectiva da discuss\u00e3o simb\u00f3lica e sinest\u00e9sica do jasmineiro \u00e0 fortuna cr\u00edtica do autor Jos\u00e9<br \/>\nCond\u00e9.<\/p>\n<p><strong>METODOLOGIA<\/strong><\/p>\n<p>De car\u00e1ter bibliogr\u00e1fico, esta pesquisa busca realizar um levantamento te\u00f3rico das fun\u00e7\u00f5es exercidas<br \/>\npelo elemento jasmineiro nas obras Terra de Caruaru (2011) e Santa Rita (1977), de Jos\u00e9 Cond\u00e9, no intuito<br \/>\nde compreender sua constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica dentro das narrativas do autor, e os efeitos sinest\u00e9sicos de sua<br \/>\npresen\u00e7a e utiliza\u00e7\u00e3o estil\u00edstica. N\u00e3o buscamos, prioritariamente, quantificar a utiliza\u00e7\u00e3o desse elemento, mas<br \/>\nsim analisar sua consequ\u00eancia e influ\u00eancia num dado recorte da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria do autor caruaruense,<br \/>\nsituado numa ordem hist\u00f3rica, pessoal, temporal e social, tornando esta pesquisa de car\u00e1ter tamb\u00e9m<br \/>\nqualitativo.<br \/>\nPara realiza\u00e7\u00e3o deste trabalho, analisamos, num primeiro momento, as obras liter\u00e1rias, para obter a<br \/>\nprimeira impress\u00e3o sinest\u00e9sica da presen\u00e7a do jasmineiro, observando e atribuindo sentidos \u00e0 sua simbologia.<br \/>\nProcederemos, pois, a um levantamento do aporte te\u00f3rico das discuss\u00f5es e conceitos simb\u00f3licos e<br \/>\nsinest\u00e9sicos na literatura e nas artes, analisando a constru\u00e7\u00e3o de novos s\u00edmbolos e seu processo de<br \/>\nressignifica\u00e7\u00e3o, bem como os efeitos da utiliza\u00e7\u00e3o da sinestesia na constru\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o de intimidade<br \/>\ncom, e influ\u00eancia sobre, o leitor. A partir de ent\u00e3o, revisitaremos as obras condeanas \u00e0 luz dessa nova teoria,<br \/>\nconstruindo uma an\u00e1lise e discuss\u00e3o que espera-se partir da sensa\u00e7\u00e3o primeira, nua e crua, advinda da leitura<br \/>\ninicial, portanto mais subjetiva e ligada ao sinest\u00e9sico em si, \u00e0 uma an\u00e1lise mais sistem\u00e1tica da constru\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesses efeitos e da simbologia que se constr\u00f3i para o elemento jasmineiro, na obra de Jos\u00e9 Cond\u00e9 em<br \/>\nespec\u00edfico. Essas an\u00e1lises ser\u00e3o realizadas a partir da leitura individual dos textos, e discuss\u00e3o das<br \/>\ninterpreta\u00e7\u00f5es e conclus\u00f5es, juntamente com a professora orientadora.<br \/>\nOs efeitos sinest\u00e9sicos despertados pelo jasmineiro, nas obras em an\u00e1lise, parecem exercer certa<br \/>\ninflu\u00eancia sobre a rela\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia \u2013 quando n\u00e3o de recorr\u00eancia \u2013 dessa planta, de seu cheiro e<br \/>\nimagem, no pano de fundo da a\u00e7\u00e3o narrativa. Logo, efeitos sinest\u00e9sicos e simb\u00f3licos parecem agir em<br \/>\nconson\u00e2ncia com a constru\u00e7\u00e3o da figura do jasmim, ressignificada nas narrativas, lidas separadamente ou<br \/>\ncomo conjunto de obras de um autor.<br \/>\nEsta an\u00e1lise parte do pressuposto de que os efeitos simb\u00f3licos gerados pela descri\u00e7\u00e3o desse<br \/>\nelemento, tanto imagem, quanto cheiro, partem da pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o subjetiva do autor com a mem\u00f3ria da<br \/>\ninf\u00e2ncia, que se mescla com o s\u00edmbolo de pureza e santidade que j\u00e1 perpassam a imagem simb\u00f3lica desta<br \/>\nflor, moldando-a, enquanto recurso liter\u00e1rio, e dando-lhe novas atribui\u00e7\u00f5es e sentidos, nova for\u00e7a simb\u00f3lica<br \/>\ndentro do contexto, tanto de uma obra espec\u00edfica, quanto do conjunto de escritos de Cond\u00e9. Hip\u00f3tese esta<br \/>\nque pretendemos confirmar, ou refutar, diante da an\u00e1lise realizada.<\/p>\n<p><strong>FUNDAMENTA\u00c7\u00c3O TE\u00d3RICA<\/strong><\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do efeito sinest\u00e9sico perpassa a discuss\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o significante e significado, bem<br \/>\ncomo a constru\u00e7\u00e3o de sentidos que o jasmineiro adquire em cada contexto narrativo, de sua funcionalidade<br \/>\nno espa\u00e7o, no tempo e no discurso liter\u00e1rio. Partimos, pois, de uma an\u00e1lise da palavra, perpassando suas<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es sinest\u00e9sicas, analisando a constru\u00e7\u00e3o discursiva em prol da rela\u00e7\u00e3o sensorial, os efeitos e a for\u00e7a<br \/>\ndas fun\u00e7\u00f5es exercidas pelo elemento jasmineiro em cada situa\u00e7\u00e3o narrativa, para que possamos<br \/>\ncompreender e justificar, por fim, sua constru\u00e7\u00e3o enquanto elemento simb\u00f3lico.<br \/>\nMassaud Mois\u00e9s (1984, p. 26), em sua obra A an\u00e1lise liter\u00e1ria, publicada em primeira edi\u00e7\u00e3o em 1969,<br \/>\nressalta a import\u00e2ncia da an\u00e1lise do significante para um estudo liter\u00e1rio, mas alerta que o estudo desse<br \/>\nsignificante \u00e9 in\u00fatil se n\u00e3o levar o estudioso a uma reflex\u00e3o sobre o seu significado. Desse modo, a an\u00e1lise<br \/>\nn\u00e3o deve ser da palavra pela palavra, mas da palavra como intermedi\u00e1rio entre o leitor e um conte\u00fado de<br \/>\nideias, sentimentos e emo\u00e7\u00f5es que nela se coagulam. Ou, melhor seria dizer, a an\u00e1lise da palavra como<br \/>\nve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o, transposi\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o entre o escritor e o p\u00fablico.<br \/>\nAssim entendida, a palavra surge como um \u00edcone, isto \u00e9, como objeto gr\u00e1fico pleno de sentidos,<br \/>\nvari\u00e1vel dentro de uma escala complexa de valor. E \u00e9 enquanto \u00edcone, enquanto express\u00e3o de significados<br \/>\nv\u00e1rios, que a palavra deve ser analisada. Sendo assim, essa discuss\u00e3o deve buscar se basear em uma<br \/>\ncompreens\u00e3o maior de seu significado, bem como de sua rela\u00e7\u00e3o com as demais palavras do discurso e de<br \/>\nsua influ\u00eancia no dito. Seria poss\u00edvel supor que o estudioso voltasse a sua an\u00e1lise apenas para as palavras<br \/>\nde significa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, mas tratando-se de um texto liter\u00e1rio, palavras de rela\u00e7\u00e3o podem ter mais import\u00e2ncia<br \/>\nque as palavras de significa\u00e7\u00e3o, dependendo de como o autor as utiliza como artif\u00edcio estil\u00edstico e daquilo que<br \/>\no texto exige como leitura. Por ser um elemento que desperta, primeiro, a sensa\u00e7\u00e3o olfativa, e por ser o cheiro<br \/>\nmuitas vezes descrito a partir de compara\u00e7\u00f5es, palavras de rela\u00e7\u00e3o podem ter uma grande carga significativa<br \/>\npara esta an\u00e1lise.<br \/>\nA palavra tem suma import\u00e2ncia na constru\u00e7\u00e3o dos efeitos sinest\u00e9sicos na literatura, tendo em vista que \u00e9 o<br \/>\nprimeiro est\u00edmulo sensorial \u2013 atrav\u00e9s da vis\u00e3o da grafia \u2013 que desperta a imagem \u2013 referencial de mundo \u2013<br \/>\ndo leitor. Atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica realizada em torno dessa palavra\/imagem \u00e9 que se permite ativar<br \/>\noutros sentidos \u2013 audi\u00e7\u00e3o, tato, paladar e\/ou olfato \u2013 causando o efeito sinest\u00e9sico, a mistura e confus\u00e3o de<br \/>\nsensa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nPara a constru\u00e7\u00e3o de um efeito sinest\u00e9sico, no caso do jasmineiro em espec\u00edfico, \u00e9 preciso ligar imagem<br \/>\nvisual do grafema ao seu cheiro, gerando o efeito desse cheiro sobre a personagem e o leitor. Na literatura<br \/>\ncondeana percebemos que a imagem do jasmineiro est\u00e1 intimamente atrelada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de inf\u00e2ncia, de<br \/>\nseguran\u00e7a do lar paterno, da sua terra natal. \u00c9 uma imagem e um cheiro de saudade. Essa rela\u00e7\u00e3o \u00edntima do<br \/>\nautor com a imagem simb\u00f3lica do elemento \u00e9 o que vai contribuir de forma particular \u2013 por meio da recorr\u00eancia<br \/>\ne das rela\u00e7\u00f5es estabelecidas com o jasmineiro dentro das narrativas, de suas fun\u00e7\u00f5es e dos efeitos sobre ele<br \/>\ncriados \u2013 para a constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e a for\u00e7a das sensa\u00e7\u00f5es sinest\u00e9sicas desse recurso.<br \/>\nDiscutindo sobre O efeito do real (1972, p. 37), Roland Barthes chama a aten\u00e7\u00e3o do leitor para os detalhes<br \/>\nin\u00fateis da narrativa, destacando que, por vezes pequenos detalhes descritos ao acaso s\u00e3o na verdade,<br \/>\npreditivos, pois o sintagma \u00e9 sempre referencial. \u00c9 essa refer\u00eancia que corrobora para a constru\u00e7\u00e3o de um<br \/>\nefeito veross\u00edmil, gerando a identifica\u00e7\u00e3o do leitor com o ambiente, personagens ou narrador. Para que a<br \/>\nconstru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de um elemento funcione literariamente \u00e9 necess\u00e1rio que o leitor partilhe ou adquira,<br \/>\natrav\u00e9s da leitura, a imagem po\u00e9tica ou imagem simb\u00f3lica deste elemento, seja ele visual, olfativo ou de<br \/>\nqualquer outro valor sensorial.<br \/>\nEssa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 constru\u00edda \u00e0 medida que o jasmineiro passa a integrar o pano de fundo da a\u00e7\u00e3o nas narrativas<br \/>\nanalisadas neste trabalho. Ele est\u00e1 sempre presente no ambiente em que as cenas principais se desenvolvem<br \/>\ne sua presen\u00e7a \u00e9 sentida, sinestesicamente, pelo leitor. A medida em que a leitura ocorre, e o leitor adentra<br \/>\no ambiente narrativo, ele adentra tamb\u00e9m nessa rela\u00e7\u00e3o com o jasmineiro, rela\u00e7\u00e3o essa estabelecida, em<br \/>\nprimeiro momento, pelo pr\u00f3prio autor, que acaba por transformar esse elemento em um s\u00edmbolo, dando-lhe<br \/>\num significado al\u00e9m do que \u00e9 vis\u00edvel \u00e0 margem de uma interpreta\u00e7\u00e3o rasa de sua presen\u00e7a.<br \/>\nCompreender como a constru\u00e7\u00e3o do jasmineiro afeta a narrativa, interfere na escrita do autor e na rela\u00e7\u00e3o do<br \/>\nleitor com tais obras, nos permite considerar e avaliar a escrita liter\u00e1ria como um campo de afeta\u00e7\u00f5es e<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es. O autor, que consciente ou inconscientemente, utiliza de forma recorrente um elemento de t\u00e3o forte<br \/>\npoder sinest\u00e9sico, acaba criando em sua pr\u00f3pria escrita uma marca que funciona quase como uma assinatura<br \/>\npessoal, um s\u00edmbolo que s\u00f3 adquire esse sentido espec\u00edfico dentro do contexto de sua obra em particular.<br \/>\nEssa rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica intratextual afeta, necessariamente, a rela\u00e7\u00e3o extratextual de seus leitores. Uma<br \/>\nimagem real, especialmente se dotada de carga simb\u00f3lica, \u00e9 sempre modificada pelas rela\u00e7\u00f5es que<br \/>\nestabelecemos ao longo do tempo com o objeto, pelo modo como ele nos afeta, liter\u00e1ria ou empiricamente,<br \/>\npelas mudan\u00e7as de sentido que o mundo real infringe a este objeto. Os jasmineiros foram para Cond\u00e9 uma<br \/>\nforte recorda\u00e7\u00e3o de Caruaru, da casa 300 na Rua da Matriz, um cheiro de saudade da inf\u00e2ncia e dos cachorros<br \/>\nque possu\u00eda, os \u00fanicos amigos de um menino solit\u00e1rio. Para os seus leitores, os jasmineiros se tornaram um<br \/>\nsin\u00f4nimo de saudosismo e afei\u00e7\u00e3o, uma recorda\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia, que n\u00e3o \u00e9 mais a de Cond\u00e9, mas a deles<br \/>\nmesmos. E o s\u00edmbolo segue sendo ressignificado.<\/p>\n<p><strong>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/strong><\/p>\n<p>As reflex\u00f5es obtidas com esse projeto trazem ao centro das discuss\u00f5es te\u00f3rico-acad\u00eamicas novas<br \/>\nconsidera\u00e7\u00f5es sobre a sinestesia e a simbologia vistas \u00e0 luz do texto liter\u00e1rio de um autor que, a destarte da<br \/>\nqualidade de sua obra, foi mantido na penumbra do c\u00e2none liter\u00e1rio brasileiro.<br \/>\nDesde a escolha da palavra, at\u00e9 a rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que se estabelece, a escrita condeana se mostra atenta<br \/>\n\u00e0 presen\u00e7a do jasmim, como se seu cheiro fosse um sin\u00f4nimo de tantas emo\u00e7\u00f5es, que acabam por se<br \/>\nreconfigurar nas obras em estudo como um novo s\u00edmbolo, que se comunica com o mundo real, mas dele j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 parte unicamente representativa. Sua interpreta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 un\u00edvoca. As rela\u00e7\u00f5es estabelecidas<br \/>\nnas narrativas em an\u00e1lise s\u00e3o variadas e isso interfere na sua constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, tornando-a complexa,<br \/>\nampla.<br \/>\nA relev\u00e2ncia de se discutir os efeitos simb\u00f3licos e sinest\u00e9sicos na contemporaneidade se d\u00e1 na perspectiva<br \/>\nde salientar a ampla rede de conex\u00f5es que envolvem a rela\u00e7\u00e3o auto-texto-leitor, que parte desde a constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma hist\u00f3ria veross\u00edmil, perpassando sinestesia, simbolismo e tantos outros recursos e campos do<br \/>\nimagin\u00e1rio, at\u00e9 chegar a uma conex\u00e3o quase materializada. A imagem do jasmineiro passa a ser<br \/>\nressignificada tamb\u00e9m na vida do leitor que percebe essa rela\u00e7\u00e3o vivenciada na(s) obra(s).<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>BARTHES, Roland. <strong>O efeito do real.<\/strong> In: GENETTE, G\u00e9rard; et all. Literatura e Semiologia: Pesquisas<br \/>\nSemiol\u00f3gicas, Petr\u00f3polis: Editora Vozes Ltda, 1972. p. 35-44.<br \/>\nCOND\u00c9, Jos\u00e9. <strong>Terra de Caruaru.<\/strong> 6. ed. Posf\u00e1cio de Edson Tavares. Caruaru-PE: W. D. Porto da Silva, 2011.<br \/>\nCOND\u00c9, Jos\u00e9. <strong>Santa Rita:<\/strong> Hist\u00f3rias da cidade morta e Os dias antigos. 3. ed. Rio de Janeiro \/ Bras\u00edlia:<br \/>\nCiviliza\u00e7\u00e3o Brasileira \/ INL, 1977.<br \/>\nHERTEL, Ralf. <strong>Making sense: sense perception in the British Novel of the 1980s and 1990s.<\/strong> Amsterdam:<br \/>\nEditions Rodopi B.V, 2005.<br \/>\nOLIVEIRA, Maria Juliana de. <strong>Terra de Caruaru no imagin\u00e1rio de Jos\u00e9 Cond\u00e9.<\/strong> Caruaru, 2012. Dispon\u00edvel<br \/>\nem: http:\/\/www.fundaj.gov.br\/images\/stories\/epepe\/IV_EPEPE\/t2\/C2-06.pdf Acesso em: 10\/06\/018.<br \/>\nMOIS\u00c9S, Massaud.<strong> A an\u00e1lise liter\u00e1ria.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Cultrix, 7\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 1984. [\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[\/wptabs]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Resumos Doutorado<\/p>\n<p>[wptabs mode=&#8221;horizontal&#8221; type=&#8221;accordion&#8221;]<br \/>\n[wptabtitle] Andr\u00e9 Caldas Cervinskis [\/wptabtitle]<\/p>\n<p>[wptabcontent]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>MITOPO\u00c9TICA DE LUCILA NOGUEIRA<\/strong><\/p>\n<p>DOUTORANDO: Andr\u00e9 Caldas Cervinskis<\/p>\n<p>ORIENTADOR: Luciano Barbosa Justino<\/p>\n<p>TEORIA<\/p>\n<p>Segundo Durand (<em>apud<\/em> Turchi 2001, p. 260), em sua obra <em>As Estruturas Antropol\u00f3gicas do Imagin\u00e1rio,<\/em> prop\u00f5e para o imagin\u00e1rio, <em>uma divis\u00e3o bipartida em dois regimes: o diurno o noturno. <\/em>Os dois regimes, provenientes das tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es <strong><em>reflexol\u00f3gicas<\/em><\/strong><em>,<\/em> produzem, por sua vez, <em>tr\u00eas estruturas que podem ser consideradas uma verdadeira fisiologia das fun\u00e7\u00f5es do imagin\u00e1rio, pois tais estruturas \u00a0fixam, em outras palavras, os princ\u00edpios gerais, estabelecendo os fundamentos para a identifica\u00e7\u00e3o de cada regime. <\/em>Para o regime noturno, as estruturas esquizomorfas ou her\u00f3icas; para o noturno, sint\u00e9ticas ou dram\u00e1ticas, e m\u00edsticas ou antifr\u00e1sicas. Diante da an\u00e1lise exposta acima, pode-se afirmar que <em>Estocolmo<\/em> \u00e9 predominantemente sint\u00e9tico. <em>A estrutura sint\u00e9tica define-se pela tend\u00eancia \u00e0 dial\u00e9tica, \u00e0 concord\u00e2ncia e \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o, tendo como princ\u00edpios fundamentais a causalidade e, por s\u00edmbolos, a \u00e1rvore e a moeda, que sugerem crescimento, movimento, destino, eterno recome\u00e7o e dramatiza\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua, o que leva ao g\u00eanero dram\u00e1tico <\/em>(TURCHI, 1998, p. 261). <em>O destino n\u00e3o \u00e9 mais uma fatalidade, mas consequ\u00eancias dos atos dos homens para assegurar o ciclo da vida, por\u00e9m, s\u00e3o necess\u00e1rios rituais e sacrif\u00edcios<\/em> (PITTA, 1995, p. 30). A teoria defendida por Durand \u00e9 que toda obra de arte apresenta da bacia sem\u00e2ntica de seu tempo, cumprindo um trajeto antropol\u00f3gico que nos permite determinar os mitos dominantes de um determinado per\u00edodo. A Mitocr\u00edtica seria ent\u00e3o um diagn\u00f3stico de um determinado tempo, por base nos mitos dominantes em dada cultura, o que determinaria as estruturas de imagens que esse autor classifica como sendo do regime noturno (aconchego, acolhimento, feminino) e diurno (heroico, masculino, batalha). A cada regime correspondem as estruturas m\u00edstica e sint\u00e9tica (noturno) e heroica (diurno). A mitocr\u00edtica, portato, se constutiu da an\u00e1lise da parte (obra de arte) para se delimitar o todo (cultura), que corresponderia o m\u00e9todo da Mitan\u00e1lise, mais complexa. Segundo Durand (2002, p. 20), <em>a consci\u00eancia m\u00edtica n\u00e3o parte do jogo ling\u00fc\u00edstico, mas sim dos estados de fato \u2013 naturais ou sociais \u2013 cujo sentido \u00e9 necess\u00e1rio integrar, assimilar ainda mais e elucidar por repetida ilumina\u00e7\u00e3o. Pode-se afirmar que a mat\u00e9ria-prima do mito \u00e9 existencial: \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e do seu grupo no mundo que o mito tende a refor\u00e7ar, ou seja, a legitimar. O mito \u00e9, simultaneamente, modo de conhecimentos e modo de informa\u00e7\u00e3o<\/em>. Nosso objetivo \u00e9 realizar a Mitocr\u00edtica de Ilaiana (1997) e Imilce (2000), que, por sua vez, fazem parte da TETRALOGIA IB\u00c9RICA, assim denominado pela autora. Escolhemos, por\u00e9m, os livros citados por representarem, para n\u00f3s, os mais significativos livros da autora na perspectiva da Teoria do Imagin\u00e1rio (Mitocr\u00edtica).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>HIP\u00d3TESE<\/p>\n<p>No caso dessas obras, ent\u00e3o,\u00a0 o mito seria o de IMILCE, personagem mim\u00e9tica criada por Lucila Nogueira para dar voz \u00e0s mulheres da Antiguidade. Ela seria a esposa abandonada pelo general cartagin\u00eas AN\u00cdBAL BARCA. O poema IMILCE \u00e9 desenvolvido atrav\u00e9s de mimese l\u00edrica\u00a0 por meio das vozes de IMILCE, AN\u00cdBAL BARCA, O FILHO DE AN\u00cdBAL E A M\u00c3E DE AN\u00cdBAL. Desse modo, h\u00e1 uma subvers\u00e3o da autora Lucila, que cria e d\u00e1 voz \u00e1 personagem IMILCE, n\u00e3o registrada na Hist\u00f3ria e que dialoga com o mito do general cartagin\u00eas AN\u00cdBAL BARCA. Preliminarmente, que as obras IMILCE e ILAIANA apresentam caracter\u00edsticas da estrutura\u00a0 sint\u00e9tica, por reunir tra\u00e7os de estruturas m\u00edsticas e heroicas. Consolo, aconchego e agonia da m\u00e3e-amante Imilce (representado pela figura da m\u00e3e Imilce, da Grande M\u00e3e &#8211; Gaia, \u00cdsis e Astarte); postura heroica no sentido de Imilce se colocar contra o Imp\u00e9rio Romano e as Guerras P\u00fanicas, ousando dar voz \u00e0 sua loucura e reivindica\u00e7\u00f5es da espessa e m\u00e3e abandonada (representada pelas refer\u00eancias ao gl\u00e1dio, ao sol, ao fogo). H\u00e1 tamb\u00e9m aspectos semelhantes nas vozes do filho de An\u00edbal e da sua m\u00e3e; em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ILAIANA, percebemos diversas refer\u00eancias diretas \u00e0 personagem hist\u00f3rica de AN\u00cdBAL BARCA, como tamb\u00e9m ao mito da Grande m\u00e3e (Gaia), nas figuras de Isis, Astarte e Virgem Maria, imiscu\u00eddas na pr\u00f3pria DAMA DE ELCHE (mito da regi\u00e3o de ALICANTE, Espanha), retrabalhada pela autora especialmente em ILAIANA.<\/p>\n<p>Assim, o livro\u00a0<strong>Imilce<\/strong>\u00a0(2000), na verdade um poema em 4 vozes, \u00e9 um canto de tristeza e desencontro das mulheres e filhos dos soldados que v\u00e3o \u00e0s guerras, em todas as \u00e9pocas. Fala tamb\u00e9m dos conflitos pol\u00edticos que encadeiam trag\u00e9dias humanas, como em todas as guerras. As personagens s\u00e3o o pr\u00f3prio An\u00edbal, a sua m\u00e3e, seu filho e Imilce, esposa dele. Interessante que somente os amantes t\u00eam seus nomes revelados. Como se a autora quisesse destacar mesmo a dor e o dilema das mulheres que amam e esperam a volta dos amados. As estrofes simetrizadas em torno do eixo vertical possibilitam ao leitor uma leitura dupla, pois h\u00e1 a possibilidade de lerem-se os versos por inteiro, como normalmente se procede, ou primeiro a sua metade esquerda e depois a metade direita.<\/p>\n<p>Todo o texto, segundo Durand (1989, p. 148), cont\u00e9m de forma subjacente, um mito.\u00a0<em>Imilce<\/em>\u00a0n\u00e3o possui nem de forma subjacente, mas de forma emergente. Percebemos a refer\u00eancias \u00e0s mitologias judaico-crist\u00e3 (<em>ao p\u00e9 do L\u00edbano\/ os homens de p\u00farpura\/ sid\u00f4nios do deserto\/ Cana\u00e3\/ muros de Jeric\u00f3<\/em>) e greco-romana (<em>cabeleira de\u00a0<strong>V\u00eanus<\/strong>\u00a0e Verbena\u00a0<\/em>&#8211; p. 48); mas h\u00e1 refer\u00eancias a outras espec\u00edficas, como a ib\u00e9rica, dos ciganos mesmo de \u00e9pocas espec\u00edficas, como a inquisi\u00e7\u00e3o e as cruzadas:\u00a0<em>minha m\u00e3e viu fogueiras no caminho (\u2026) e disse na loucura: inquisidores; viu soldados diferentes (\u2026) lutando\/ contra os mouros do oriente\/ e disse na loucura:\/ s\u00e3o cruzadas\u00a0<\/em>(NOGUEIRA, 2000). \u00a0<strong>Imilce<\/strong>\u00a0\u00e9, ent\u00e3o,\u00a0 poesia de fogo e de luz. V\u00e1rias s\u00e3o as passagens em que h\u00e1 uma refer\u00eancia impl\u00edcita ou expl\u00edcita ao fogo, ao sol, \u00e0 luz:\u00a0<em>(voz de Imilce): o amor me seca os l\u00e1bios: tudo ferve (p.13); meu corpo \u00e9 um\u00a0<strong>braseir<\/strong>o de perfumes, meus l\u00e1bios\u00a0<strong>o Etna e o Ves\u00favio<\/strong>; vem ver-me andar no\u00a0<strong>fogo<\/strong>\u00a0sobre as \u00e1guas; eu desejava o mundo como\u00a0<strong>um c\u00edrio ardendo<\/strong>);<\/em>\u00a0(voz do filho de An\u00edbal):\u00a0<em>os filhos s\u00e3o as\u00a0<strong>cinzas<\/strong>\u00a0de um naufr\u00e1gio [&#8230;]; e os altares acesos na com\u00e9dia dos deuses; levando em cada m\u00e3o um\u00a0<strong>candelabro [<\/strong>&#8230;] era dia e era noite\/ e\u00a0<strong>a chama acesa<\/strong>; minha m\u00e3e\/ viu\u00a0<strong>fogueiras<\/strong>\u00a0nos caminhos\u2026 ;\u2026 n\u00e3o vive sem azeite tanto fogo;\u2026 que minha m\u00e3e jogou dentro do\u00a0<strong>fogo<\/strong>\u2026\u00a0<\/em>(NOGUEIRA, 2000). O fogo de Prometeu que iluminou Atenas, n\u00e3o obstante a ira dos deuses do Olimpo. Na mitologia judaico-crist\u00e3, mais pr\u00f3xima de nossos dias, o fogo \u00e9 usado para rituais de purifica\u00e7\u00e3o:\u00a0<em>eles sucumbir\u00e3o\/ depois de Cristo\/ hebreu\/ crucificado num calv\u00e1rio); [..].cavalguei\/ minha fantasia hebraica\/na l\u00edngua cananeia\/ de meus pais [&#8230;]; le\u00f5es crucificados de\u00a0<\/em>Cartago (NOGUEIRA, 2000).<\/p>\n<p>Desse modo, afirmamos que <strong>Imilce (2003)<\/strong> tem carater\u00edsticas narrativas (portanto, tamb\u00e9m exercendo a m\u00edmesis ou verossimilhan\u00e7a) por contar uma hist\u00f3ria em versos. Narrativa e lirismo juntos. Nesse poema, destaca-se a sina da mulher do general cartagin\u00eas An\u00edbal Barca, dando tamb\u00e9m voz \u00e0 sua m\u00e3e e ao seu filho. Fala do sofrimento das guerras, d\u00e1 voz aos esquecidos da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>DURAND, Gilbert. <strong>As Estruturas Antropol\u00f3gicas do Imagin\u00e1rio<\/strong> (trad. H\u00e9lder Goginho). S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2002.<\/p>\n<p>NOGUEIRA, Lucila.\u00a0<strong>Ilaiana<\/strong>. Recife: Cia. Pac\u00edfica, 1997.<br \/>\n_____. I<strong>milce<\/strong>. Recife: Cia Pac\u00edfica, 2000.<br \/>\nTURCHI. Maria Zilda. <strong>Literatura e antropologia do imagin\u00e1rio<\/strong>. Bras\u00edlia: UnB, 2003.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle] Antonio Almeida Rodrigues da Silva [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><strong>O ENCONTRO COM O OUTRO EM ANG\u00daSTIA, DE GRACILIANO RAMOS<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Antonio Almeida Rodrigues da Silva (Doutorando)<\/p>\n<p>Antonio Carlos de Melo Magalh\u00e3es (Orientador)<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>RESUMO <\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 existe um consenso na Academia sobre a interface entre literatura e filosofia. N\u00e3o sem Raz\u00e3o, Jacques Derrida (2014, p. 72) assinalou que a literatura est\u00e1 sempre aberta para outros discursos. No conte\u00fado dos textos liter\u00e1rios, h\u00e1 sempre teses filos\u00f3ficas. De modo correspondente, dizia Heidegger (2008, p.4), a filosofia como tal pode permanecer velada ou manifestar-se no mito, na poesia\/literatura, nas ci\u00eancias, sem que seja reconhecida como filosofia. Dominique Maingueneau (2006), por sua vez, percebe que os discursos constituintes est\u00e3o inseridos em zonas de fala em meio a outras falas. A literatura, enquanto discurso constituinte, atravessa e \u00e9 atravessada pela filosofia, isto \u00e9, a literatura sempre guarda o outro e, claro, o outro sempre guarda a literatura. Existe, ent\u00e3o, como diria Leopoldo e Silva (2004, p. 12), uma \u201cvizinhan\u00e7a comunicante\u201d entre literatura e filosofia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A presente pesquisa tem como objeto de estudo o romance <em>Ang\u00fastia, <\/em>de Graciliano Ramos, publicado em 1936. O conceito de ang\u00fastia, muito caro \u00e0s filosofias da exist\u00eancia, est\u00e1 posto na obra. Lu\u00eds da Silva, em um dos momentos angustiantes do existir, diz:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A r\u00e9stia descia a parede, viajava em cima da cama, saltava no tijolo \u2013 e era por a\u00ed que se via que o tempo passava. Mas no tempo n\u00e3o havia horas. O rel\u00f3gio da sala de jantar tinha parado. Certamente fazia semanas que eu me estirava no colch\u00e3o duro, longe de tudo&#8230; E o dia estava dividido em quatro partes desiguais: uma parede, uma cama estreita, alguns metros de tijolo, outra parede. Depois, a escurid\u00e3o cheia de pancadas, que \u00e0s vezes n\u00e3o se podiam contar porque batiam v\u00e1rios rel\u00f3gios simultaneamente&#8230; Eu escorregava nesses sil\u00eancios, boiava nesses sil\u00eancios como numa \u00e1gua pesada. Mergulhava neles, subia, descia ao fundo, voltava \u00e0 superf\u00edcie, tentava segurar-me a um galho. Estava um galho por cima de mim, e era-me imposs\u00edvel alcan\u00e7\u00e1-lo. Ia mergulhar outra vez, mergulhar para sempre, fugir das bocas da treva que me queriam morder, dos bra\u00e7os da treva que me queriam agarrar (A, p. 272-273).<\/p>\n<p>A cita\u00e7\u00e3o mostra todo o car\u00e1ter, transit\u00f3rio, dram\u00e1tico e contingente da exist\u00eancia humana. \u00c9 um n\u00e3o pertencer a lugar algum. \u201cNa ang\u00fastia, se est\u00e1 estranho\u201d, assinalava Martin Heidegger (2004). Estranheza significa \u201cn\u00e3o se sentir em casa\u201d, n\u00e3o estar familiarizado com nada. O n\u00e3o se sentir em casa, portanto, lan\u00e7a o ser humano num mundo totalmente desordenado, ca\u00f3tico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Parto da hip\u00f3tese de que todo o drama vivido por Lu\u00eds da Silva est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 exist\u00eancia do outro. \u00c9 pelo olhar do outro que Lu\u00eds da Silva descobre, de s\u00fabito, sua condi\u00e7\u00e3o de um ser angustiado, gerando vergonha, desejo, aliena\u00e7\u00e3o, timidez. E \u00e9 atrav\u00e9s desse olhar que ele busca um reconhecimento que, em grade medida, \u00e9 quase sempre negado, pois seus poss\u00edveis passam pelo outro, o que o leva a assassinar seu rival, Juli\u00e3o Tavares, como uma forma de suprimir sua condi\u00e7\u00e3o de alienado. A ang\u00fastia de Lu\u00eds da Silva, portanto, \u00e9 a pr\u00f3pria presen\u00e7a do outro, isto \u00e9, a ang\u00fastia de existir pelos olhos dos outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O primeiro cap\u00edtulo, \u201c<em>Ang\u00fastia<\/em> e os caminhos da cr\u00edtica\u201d<em>, <\/em>est\u00e1 dividido em cinco t\u00f3picos. 1. Notas em torno do romance de 30; 2. Caminho Sociol\u00f3gico; 3. Caminho Biogr\u00e1fico; 4. Caminho Psicol\u00f3gico; 5. Notas Cr\u00edticas. Nas \u201cnotas cr\u00edticas\u201d aponto para a necessidade de se pensar <em>Ang\u00fastia<\/em> para al\u00e9m dos chav\u00f5es consagrados e repetidos pela critica. De acordo com Rui Mour\u00e3o (1971), a obra romanesca de Graciliano Ramos permanece intocada \u201cdiante de uma cr\u00edtica que a si mesmo se limita, ao eleger \u00e2ngulos de interesses comprometidamente parciais, quando n\u00e3o se mostra de todo insuficiente, por uma desatualizada imposta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica\u201d. Diante dos limites da cr\u00edtica, a singularidade da pesquisa configura-se num estudo de interface entre literatura e filosofia. O di\u00e1logo com um referencial te\u00f3rico filos\u00f3fico permitir\u00e1, n\u00e3o somente dar um salto nos estudos sobre <em>Ang\u00fastia, <\/em>mas tamb\u00e9m dar o devido valor a um conceito central das filosofias da exist\u00eancia, a saber, o fen\u00f4meno da ang\u00fastia. Em <em>Ang\u00fastia <\/em>a alteridade se imp\u00f5e. A presen\u00e7a do outro \u00e9 o condicionante da ang\u00fastia. Lu\u00eds da Silva distingue perfeitamente a crian\u00e7a, o oper\u00e1rio faminto, os namorados que desejam deitar-se e, conclui, \u201celes me invadiram por assim dizer violentamente\u201d (A, p. 185). \u201cDiante do meu rival\u201d, referindo-se a Juli\u00e3o Tavares, \u201csentia-me est\u00fapido. sorria, esfregava as m\u00e3os com essa covardia que a vida \u00e1spera me deu e n\u00e3o encontrava uma palavra para dizer. A minha linguagem \u00e9 baixa, acanalhada. \u00c0s vezes sapeco palavr\u00f5es obscenos\u201d (A, p. 59). O <em>Dasein,<\/em> para usar um conceito heideggeriano, \u00e9 o ser lan\u00e7ado, jogado&#8230;, diante do outro. O com qu\u00ea a ang\u00fastia se angustia j\u00e1 est\u00e1 \u201cpresente\u201d, \u00e9 a pr\u00f3pria presen\u00e7a (2004, p. 141).<\/p>\n<p>Qual minha perspectiva te\u00f3rica? Parafraseando Otto Carpeaux (1978), vou construir uma teoria para pegar a minha v\u00edtima; vou edific\u00e1-la com peda\u00e7os de outras cria\u00e7\u00f5es alheias; vou colher esses fragmentos, \u201centregando-me ao jogo livre das associa\u00e7\u00f5es\u201d. Como dito, <em>Ang\u00fastia <\/em>se constitui a partir da rela\u00e7\u00e3o com o outro o que, de certa forma, produz todo o clima angustiante da obra. Sendo assim, encontrei na teoria do olhar, de Jean-Paul Sartre, sistematizada na obra <em>O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenol\u00f3gica, <\/em>uma possibilidade te\u00f3rica interessante para dialogar com a obra em estudo. O ser-visto, conforme o fil\u00f3sofo franc\u00eas, constitui-me como um ser sem defesa para uma liberdade que n\u00e3o \u00e9 minha liberdade. Ocorre que, de s\u00fabito, vivo uma aliena\u00e7\u00e3o sutil de todas as minhas possibilidades. \u201cSentidos dessas rea\u00e7\u00f5es subjetivas ao olhar do outro: o medo &#8211; sentimento de estar em perigo frente \u00e0 liberdade do outro -, o orgulho ou a vergonha &#8211; sentimento de ser finalmente o que sou, mas em outra parte, estando-a\u00ed para o outro -, o reconhecimento de minha escravid\u00e3o &#8211; sentimento de aliena\u00e7\u00e3o de todas as minhas possibilidades\u201d (SARTRE, 2008, p. 344). A vergonha \u00e9, por natureza, reconhecimento, isto \u00e9, reconhe\u00e7o o que sou como o outro me v\u00ea. Nesse sentido, Leopoldo e Silva (2004, p. 188) faz um questionamento interessante: \u201calgu\u00e9m se sentiria corajoso e mesquinho, generoso ou mesquinho, se existisse s\u00f3 no mundo? N\u00e3o \u00e9 o ju\u00edzo dos outros, maneira como eles me veem, que reflui sobre mim e interfere na minha maneira de ser e de apreender o que sou?\u201d<\/p>\n<p>O segundo cap\u00edtulo, \u201cVeem-me, logo existo\u201d, ainda em desenvolvimento, est\u00e1 dividido em quatro t\u00f3picos. 1. O outro enquanto constitui\u00e7\u00e3o do eu. 2. Os olhos fosforescentes; 3. A luta por reconhecimento; 4. A vergonha diante do outro.<\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[wptabtitle]Clara Mayara de Almeida Vasconcelos[\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><strong><em>O CORA\u00c7\u00c3O DAS TREVAS <\/em><\/strong><strong>E <em>O MUNDO SE DESPEDA\u00c7A<\/em>: ART\u00c9RIAS DENUNCIATIVAS DO COLONIALISMO<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Clara Mayara de Almeida Vasconcelos (Doutoranda\/PPGLI)<\/p>\n<p>Prof\u00aa. Dr\u00aa. Sueli Meira Liebig (ORIENTADORA)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>RESUMO<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XIX, com o mercado mundial dominado pelo Capitalismo Industrial associado \u00e0 corrida imperialista que se caracterizava pela maior quantidade de dom\u00ednios que os pa\u00edses podiam ter, surge a necessidade de \u201ccivilizar\u201d. A no\u00e7\u00e3o sobre a a\u00e7\u00e3o de civilizar estava atrelada, dessa vez, \u00e0 necessidade de consumo. Com a industrializa\u00e7\u00e3o, a necessidade civilizar \u2013 tornar cidad\u00e3o \u2013 aproximava os grupos \u00e9tnicos que n\u00e3o estavam inseridos nesse contexto \u00e0 l\u00f3gica da economia-mundo a qual determinava o ritmo de desenvolvimento do mundo moderno sob um mesmo regime, o que propiciou uma fonte inexaur\u00edvel de mat\u00e9ria-prima e m\u00e3o-de-obra barata. A partir disso, foi constru\u00eddo um discurso de acordo com o sistema social de representa\u00e7\u00f5es europeu em que a coloniza\u00e7\u00e3o do nativo n\u00e3o bastava se pautar apenas em fazer com que o nativo trabalhasse para o colonizador, mas sim que o colonizado acreditasse em sua inferioridade em rela\u00e7\u00e3o ao colonizador. Este discurso foi constru\u00eddo com base nas concep\u00e7\u00f5es de darwinismo social, em que pensadores utilizaram a teoria de Darwin no \u00e2mbito social com uma proposta distinta da inicial, para justificar a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade em camadas hier\u00e1rquicas de poder pol\u00edtico e socioecon\u00f4mico cujo mentor foi Herbert Spencer. Dessa forma, o discurso de sele\u00e7\u00e3o biossociol\u00f3gica das elites foi aplicado \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o belga no Congo e justificou os atos brutais cometidos por eles em rela\u00e7\u00e3o aos nativos. Podemos observar, a partir disso, que, por meio das teorias e cr\u00edticas p\u00f3s-coloniais, podemos estudar os discursos presentes nos textos liter\u00e1rios sob o olhar de uma nova est\u00e9tica que compreende os aspectos pol\u00edticos presentes na constru\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre o poder e o discurso, e a dimens\u00e3o da linguagem que envolve o contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico, a cultura, os interlocutores e os objetivos de determinado texto. Nesse ambiente de di\u00e1logo entre a l\u00edngua e um contexto particular da hist\u00f3ria da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, dispomo-nos a analisar a representa\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-hist\u00f3rica-cultural desse pa\u00eds por meio da cr\u00edtica que Joseph Conrad fez sobre o processo de coloniza\u00e7\u00e3o do congo pela B\u00e9lgica em sua novela intitulada <em>O cora\u00e7\u00e3o das trevas <\/em>(The Heart of Darkness), publicado em 1902, e a obra de Chinua Achebe <em>O mundo se despeda\u00e7a <\/em>(Things Fall Apart) de 1958, o qual \u00e9 um romance-resposta \u00e0 obra de Conrad sobre a coloniza\u00e7\u00e3o belga no Congo. Partindo das considera\u00e7\u00f5es de Achebe sobre a novela de Conrad, notamos que a sua cr\u00edtica est\u00e1 fundamentada em sua vis\u00e3o sobre <em>O cora\u00e7\u00e3o das trevas<\/em> como uma representa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o est\u00e1 em conformidade com o que de fato \u00e9 o africano e a \u00c1frica pela nega\u00e7\u00e3o de sua identidade cultural e de sua humanidade por meio de uma reprodu\u00e7\u00e3o que escarnece o colonizado diante do colonizador. Achebe possui forte influ\u00eancia no \u00e2mbito dos estudos p\u00f3s-coloniais e partilha do mesmo pensamento que Ngugi w\u0103 Thiong\u2019o, que busca afastar do eixo imperialista as representa\u00e7\u00f5es socioculturais ao promover um ponto de vista cr\u00edtico \u00e0 luz do colonizado. Achebe denuncia que a obra de Conrad \u00e9 preconceituosa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma como o nativo \u00e9 representado sem voz e visto sempre em meio \u00e0s trevas e, quando tenta se comunicar, produz sons inintelig\u00edveis, a partir da interpreta\u00e7\u00e3o que faz acerca do <em>Cora\u00e7\u00e3o das trevas<\/em> sob a sua \u00f3tica de escritor africano. A rela\u00e7\u00e3o entre escritor, texto e interlocutor, a interpreta\u00e7\u00e3o que se faz depender\u00e1 do local em que os sistemas sociais organizam a cultura. Dessa forma foi constru\u00edda a cr\u00edtica de Achebe em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 novela de Conrad, entretanto \u00e9 necess\u00e1rio lembrarmos que a representa\u00e7\u00e3o feita em o <em>Cora\u00e7\u00e3o das trevas<\/em> mostra a vis\u00e3o do narrador \u2013 Marlow \u2013 que \u00e9 um marinheiro ingl\u00eas sobre o \u201cnovo\u201d que ele encontra no Congo. Ele faz uma den\u00fancia dos atos dos colonizadores em rela\u00e7\u00e3o aos colonizados em que o leitor se sensibiliza com a situa\u00e7\u00e3o \u00e0 qual o escravo africano estava sujeito e que os adjetivos utilizados pelo escritor para denomin\u00e1-los hoje nos fa\u00e7a perceber que se subestima a sua figura, \u00e9 importante compreendermos que as caracter\u00edsticas etnoc\u00eantricas regem modelos da cultura inglesa no s\u00e9culo XIX e que n\u00e3o escapa \u00e0 literatura. Entretanto, ao mesmo tempo em que Achebe critica essa postura de Conrad em sua obra, ele tamb\u00e9m cai na mesma armadilha \u00e0s quais o discurso est\u00e1 sujeito: o seu contexto. Primeiro, Achebe escreve em ingl\u00eas para que a sua obra possa ser melhor aceita em termos mercadol\u00f3gicos, ou seja, escreve na l\u00edngua da pot\u00eancia europeia no per\u00edodo industrial; segundo, o seu principal personagem despreza um dos preceitos de sua religi\u00e3o ao espancar uma de suas mulheres na semana sagrada; em terceiro, em vez de Achebe promover a descentraliza\u00e7\u00e3o da cultura, permitindo ao colonizado mostrar o seu ponto de vista sobre a sua situa\u00e7\u00e3o, ocorre o processo contr\u00e1rio por meio da representa\u00e7\u00e3o de Okwonkwo ao ser afastado do centro da trama de forma gradativa, ao passo que d\u00e1 mais visibilidade aos costumes ocidentais do que aos africanos. Dessa forma nos propomos a produzir uma pesquisa que vise analisar a constru\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo do colonizado em seu momento s\u00f3cio-hist\u00f3rico-cultural a partir da an\u00e1lise comparatista entre <em>O cora\u00e7\u00e3o das trevas <\/em>e <em>O mundo se despeda\u00e7a <\/em>a partir de uma pesquisa descritivo-explicativa de cunho comparativo, o que nos levar\u00e1 a procedimentos t\u00e9cnicos de cunho bibliogr\u00e1fico e documental direcionados pelas contribui\u00e7\u00f5es de autores tais como Bonnici (2009), D\u2019Onofrio (2002), Hall (2006), Hobsbawn (1998), L\u00eanin (2011), Memmi (2007), Ngugi (1986), Njeng (2008), Orlandi (2012), Said (1990; 2011) e Spivak (1995).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> Imperialismo. P\u00f3s-colonialismo. Den\u00fancia social.<\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]Cristina Kelly da Silva Pereira[\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><strong>DE IRM\u00c3OS RIVAIS \u00c0S M\u00daLTIPLAS RIVALIDADES: UMA AN\u00c1LISE DA OBRA <em>DOIS IRM\u00c3OS<\/em>, DE MILTON HATOUM<\/strong><\/p>\n<p>Cristina Kelly da Silva Pereira (doutoranda PPGLI\/UEPB)<\/p>\n<p>Dr. Ant\u00f4nio de Mello Magalh\u00e3es (orientador)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cProust diz: os belos livros s\u00e3o escritos em uma esp\u00e9cie de l\u00edngua estrangeira [&#8230;]\u201d<\/p>\n<p>(DELEUZE &amp; PARNET, DI\u00c1LOGOS, 1998)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o ficcional de Milton Hatoum vem despertando interesse da academia, n\u00e3o s\u00f3 por sua riqueza liter\u00e1ria incontest\u00e1vel, mas, sobretudo, porque suas obras carregam a singularidade de transformar a Amaz\u00f4nia num espa\u00e7o liter\u00e1rio, pois \u00e9 o que vemos acontecer nos seus tr\u00eas primeiros romances: <em>Relato de um Certo Oriente<\/em> (1989), <em>Dois Irm\u00e3os<\/em> (2000) <em>e\u00a0 Cinzas do Norte<\/em> (2005). Manaus \u00e9 tanto cen\u00e1rio como personagem na fic\u00e7\u00e3o de Hatoum. Essa ambienta\u00e7\u00e3o \u00e9, no dizer de Leyla Perrone-Mois\u00e9s (2007), sua maior qualidade. \u201cA cidade flutuante, bairro de palafitas cuja destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 narrada no fim do romance, poderia ser uma met\u00e1fora dessa cidade suspensa na mem\u00f3ria do romancista, cidade cujas mis\u00e9rias ele desejaria esquecer, e de cujos encantos ele se mant\u00e9m cativo\u201d. As personagens est\u00e3o todas presas a essa realidade amaz\u00f4nica. \u201cO \u2018habitat\u2019 em que todos se movem, em gozo e sofrimento, \u00e9 esse lugar de calor e chuva, de \u00e1guas caudalosas, de frutas, p\u00e1ssaros e peixes nativos, cunhant\u00e3s e curumins\u201d. Esse \u00e9 o pr\u00f3prio universo do romancista \u201cque n\u00e3o pode ser rotulado de ex\u00f3tico porque s\u00f3 o \u00e9 para um olhar de fora, e n\u00e3o para quem, sendo parte dele, o v\u00ea sem idealiza\u00e7\u00e3o, com melanc\u00f3lica lucidez\u201d (PERRONE-MOIS\u00c9S, 2007, p. 284).<\/p>\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o nos leva a pensar no car\u00e1ter rizom\u00e1tico da fic\u00e7\u00e3o hatouniana, que \u00e9 aberta para as m\u00faltiplas possibilidades de entrada na obra. Essa m\u00e1quina liter\u00e1ria apresenta, ao mesmo tempo, pontos de conex\u00f5es e heterogeneidade. Se o rizoma \u00e9 lugar dos encontros imprevis\u00edveis (a via), ele acaba sendo o oposto da estrutura f\u00edsica de uma \u00e1rvore enraizada, pois se constitui a partir do m\u00faltiplo processo de trocas. Para Deleuze h\u00e1 uma boa maneira de ler, mas essa boa maneira n\u00e3o consiste em interpreta\u00e7\u00f5es que fecham a obra, mas pelo contr\u00e1rio, multiplicam seu uso, criam uma l\u00edngua no interior de sua l\u00edngua. \u201cO princ\u00edpio das entradas m\u00faltiplas s\u00f3 impede a entrada do inimigo, o Significante, e as tentativas de abertura para interpretar uma obra que, de fato, s\u00f3 prop\u00f5e a experimenta\u00e7\u00e3o\u201d (DELEUZE &amp; GUATTARI, 2014, p. 19).<\/p>\n<p>Propomos como corpus anal\u00edtico da pesquisa, a obra <em>Dois irm\u00e3os. <\/em>Por meio da rivalidade dos irm\u00e3os g\u00eameos, Yaqub e Omar, o texto traz a tona, de modo muito evidente, a tem\u00e1tica da rivalidade que se mostra em m\u00faltiplas faces: intrafamiliar, geogr\u00e1fica, pol\u00edtica, social, cultural, etc. Hatoum consegue, a partir do contexto amaz\u00f4nico, tratar de quest\u00f5es pouco abordadas na literatura brasileira como, por exemplo, os impactos da ditadura militar no Norte do pa\u00eds. Consideramos ainda, que o tema da rivalidade por ser transversal, \u00e0 medida que corta todo o enredo, pode ser uma importante chave de leitura da obra.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter palimps\u00e9stico de <em>Dois irm\u00e3os<\/em> j\u00e1 foi sinalizado pela cr\u00edtica como bem fez Benedito Nunes (2007), ao defender que o romance<em> Dois Irm\u00e3os<\/em> possui uma tr\u00edplice origem: etnogr\u00e1fica, b\u00edblica e liter\u00e1ria, remontando \u201cpor um lado, a uma das mais primitivas representa\u00e7\u00f5es grupais, por outro, \u00e0 hist\u00f3ria verotestament\u00e1ria de Esa\u00fa e Jac\u00f3, e finalmente, ao romance machadiano de t\u00edtulo hom\u00f4nimo\u201d (NUNES, 2007, p.216). Nunes nos indica que a obra de Hatoum n\u00e3o gera um mito novo, mas busca na narrativa b\u00edblica e liter\u00e1ria figuras m\u00edticas j\u00e1 existentes, que s\u00e3o reformuladas e moldadas pelo autor.<\/p>\n<p>Partindo desse lugar singular (Norte), propomos a seguinte quest\u00e3o: De que maneira (ou maneiras) os jogos rivais, no interior da obra, geram personagens que no seu fazer cotidiano revelam resist\u00eancia?<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese central \u00e9 que ao analisar as personagens ficcionais (Zana, Domingas, Halim, Nael, Yaqub, Omar e R\u00e2nia), encontramos, de forma quase invis\u00edvel, desvios e balbucios que sinalizam manifesta\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia e protesto. Dito de outro modo, \u00e9 no <em>fazer cotidiano<\/em> das personagens, que nascem os <em>desvios<\/em> sinalizando resist\u00eancia dos <em>fracos<\/em> da narrativa. S\u00e3o personagens de caracter\u00edsticas h\u00edbridas, ou como diria Silviano Santiago (2000), personagens que ocupam o entre-lugar, no sentido da produ\u00e7\u00e3o de identidade; pois s\u00e3o imigrantes, descendentes de imigrantes, ind\u00edgenas, descendente de ind\u00edgenas, e as duas coisas ao mesmo tempo, como no caso de Nael, um ser que se constr\u00f3i a partir dessa mistura.<\/p>\n<p>Para pensar nesses desvios advindos do cotidiano, dois personagens podem ser destacados como exemplo: Nael, o bastardo \u2018filho de ningu\u00e9m\u2019, e Domingas, a \u00edndia domesticada; ambos servi\u00e7ais da fam\u00edlia libanesa. Em suas pr\u00e1ticas banais do dia-a-dia, aparentemente passivas e d\u00f3ceis, percebemos <em>t\u00e1ticas<\/em> que subvertem a ideia de passividade, pois se mostram resistentes e transgressoras, contrariando as <em>estrat\u00e9gias institucionais <\/em>(familiar e s\u00f3cio-pol\u00edtica)<em>, <\/em>que geralmente, s\u00e3o autorit\u00e1rias e impostas em forma de favor, submiss\u00e3o e tutela. A ast\u00facia se encontra justamente nas t\u00e1ticas criadas por eles compondo uma rede que Michel de Certeau chama de antidisciplina. S\u00e3o essas <em>opera\u00e7\u00f5es<\/em> do cotidiano que se caracterizam como forma de apropria\u00e7\u00e3o e consumo indicativo de intelig\u00eancia e criatividade.<\/p>\n<p>A teimosia de Nael pode ser percebida de duas formas: sua insist\u00eancia em estudar e se formar, apesar de toda a adversidade e, na produ\u00e7\u00e3o de um engenhoso texto que conta a hist\u00f3ria da fam\u00edlia libanesa sob sua perspectiva. De igual modo, Domingas, silenciosamente, demonstra resist\u00eancia; Sua insistente presen\u00e7a, por si s\u00f3, emana potencia &#8211; \u00e9 Domingas que organiza e limpa a casa; \u00e9 ela que alimenta a fam\u00edlia, compra comida e at\u00e9 negocia com vendedores; assume a fun\u00e7\u00e3o de atender sexualmente os filhos de Zana e Halim; \u00e9 a companheira de Zana nas ora\u00e7\u00f5es e afli\u00e7\u00f5es causadas pelo Ca\u00e7ula; \u00e9 quem cura a gonorreia de Omar com sua sabedoria ind\u00edgena; \u00e9 quem primeiro desconfia das inten\u00e7\u00f5es do indiano Rochiram; por fim, \u00e9 Domingas a \u00fanica que d\u00e1 a Halim um neto, permitindo a continuidade da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O narrador\/personagem n\u00e3o poder ser analisado conforme a l\u00f3gica binaria, pois Nael \u00e9, e n\u00e3o \u00e9, liban\u00eas e ind\u00edgena, ao mesmo tempo, possui uma identidade limiar. Desse modo, a obra hatouniana atrapalha a ideia de identidade como categoria monol\u00edtica e fixa. O mesmo pode ser dito em rela\u00e7\u00e3o a Domingas. Numa leitura apressada ela pode ser percebida como uma ind\u00edgena domesticada de comportamento passivo e silencioso, mas a sua presen\u00e7a \u00e9 marcante e determinante, j\u00e1 que \u201cas refei\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia e o brilho da casa dependiam dela\u201d (HATOUM, 2006, p.18). \u00c9, portanto, um sil\u00eancio que fala, pois a narrativa depende dela, do seu olhar, diz o narrador: \u201ca minha hist\u00f3ria tamb\u00e9m depende dela, Domingas\u201d (HATOUM, 2006, p.18). Em outras palavras, o sil\u00eancio de Domingas n\u00e3o significa mudez, mas \u00e9 poss\u00edvel que sua maneira de falar seja pouco compreendida, isto \u00e9, um \u201cbalbucio\u201d, para usar a express\u00e3o de Hugo Achugar. Balbuciar \u00e9 uma maneira singular, diferenciada de a periferia falar. O fato da personagem n\u00e3o falar, n\u00e3o significa que seja muda. \u00c9 a autoridade (os que ocupam a hegemonia lingu\u00edstica, econ\u00f4mica, pol\u00edtica e cultural) que determina que esse \u201csem boca\u201d n\u00e3o tem nada a dizer, ou quando ele fala, n\u00e3o h\u00e1 mecanismos de compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Nosso referencial te\u00f3rico se dividir\u00e1 em tr\u00eas momentos: Como aporte para a leitura da fic\u00e7\u00e3o hatouniana, que fala desse lugar esquecido pela literatura brasileira e coloca em evid\u00eancia personagens que normalmente s\u00e3o marginalizados, iremos trabalhar com o conceito de <em>literatura menor<\/em> de Deleuze-Guattari. Ao transformar a cidade de Manaus em cen\u00e1rio e personagem de sua fic\u00e7\u00e3o, Hatoum acaba fazendo com que a literatura se aposse desse lugar &#8220;menor&#8221; para ser narrativa da e na vida, se aproximando da teoria guattaro-deleuziana de <em>literatura menor.<\/em> \u201cUma literatura menor n\u00e3o pertence a uma l\u00edngua menor, mas, antes, \u00e0 l\u00edngua que uma minoria constr\u00f3i numa l\u00edngua maior. E a primeira caracter\u00edstica \u00e9 que a l\u00edngua, de qualquer modo, \u00e9 afetada por um forte coeficiente de desterritorializa\u00e7\u00e3o\u201d (DELEUZE &amp; GUATTARI, 2014, p. 38). A literatura menor se deixa contaminar pelo pol\u00edtico fazendo com que todas as quest\u00f5es individuais estejam ligadas \u00e0 pol\u00edtica, ou seja, \u201ca quest\u00e3o individual, ampliada ao microsc\u00f3pio, torna-se muito mais necess\u00e1ria, indispens\u00e1vel, porque uma outra hist\u00f3ria se agita no seu interior. \u00c9 neste sentido que o tri\u00e2ngulo familiar se conecta com outros tri\u00e2ngulos, comerciais, econ\u00f3micos, burocr\u00e1ticos, jur\u00eddicos, que lhes determinam os valores\u201d\u00a0(DELEUZE &amp; GUATTARI, 2014, p. 39).<\/p>\n<p>Utilizando os conceitos de \u2018balbucio\u2019 e \u2018planeta sem boca\u2019 de Hugo Achugar, queremos pensar sobre a singularidade da produ\u00e7\u00e3o latino-americana contempor\u00e2nea, seu lugar de enuncia\u00e7\u00e3o e seu modo pr\u00f3prio de falar; Pensar sobre essa literatura que cada vez mais tem se engajado com personagens e tramas advindos de lugares silenciados e esquecidos. O uruguaio Hugo Achugar problematiza a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento vinda de outro lugar que n\u00e3o do \u2018centro\u2019, da periferia; tratando periferia e marginalidade como sin\u00f4nimas, o autor entende que o sujeito perif\u00e9rico e marginalizado que quase n\u00e3o fala ou \u2018balbucia\u2019, pertence ao lugar de minoria subjugada e subvertida. Por isso, ele afirma que \u00e9 necess\u00e1rio compreender o lugar de onde se fala. Balbuciar \u00e9 uma maneira singular, diferenciada de a periferia falar. Nesse caso, a aus\u00eancia de fala n\u00e3o significa mudez. \u00c9 necess\u00e1rio reivindicar o balbucio para que ele seja ouvido, percebido\u00a0(ACHUGAR, 2006, p. 20).<\/p>\n<p>No que se refere ao enfrentamento das culturas e a analise detalhada das pr\u00e1ticas cotidianas dos personagens, lan\u00e7aremos m\u00e3o da teoria das pr\u00e1ticas cotidianas e suas \u2018t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias, desenvolvida por Michel de Certeau, em sua abordagem sobre a arte do fazer, quando analisa as narrativas de pr\u00e1ticas comuns: o cotidiano da cultura popular\/marginal.\u00a0 \u201cPara ler e escrever a cultura ordin\u00e1ria, \u00e9 mister reaprender opera\u00e7\u00f5es comuns e fazer da an\u00e1lise uma variante do seu objeto\u201d\u00a0(CERTEAU, 1998, p. 35). Partiremos da teoria das pr\u00e1ticas cotidianas que tem a inten\u00e7\u00e3o de \u201cextrair do seu ru\u00eddo as maneiras de \u2018fazer\u2019 que, majorit\u00e1rias na vida social, n\u00e3o aparecem muitas vezes sen\u00e3o a t\u00edtulo de resist\u00eancias ou de in\u00e9rcias em rela\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento da produ\u00e7\u00e3o \u2018socio-cultural\u2019\u201d\u00a0(CERTEAU, 1998, p. 17). Ao indagar sobre as opera\u00e7\u00f5es dos usu\u00e1rios supostamente entregues \u00e0 passividade e \u00e0 disciplina, Certeau descobre que existe uma fabrica\u00e7\u00e3o que se camufla no sistema de produ\u00e7\u00e3o (que pode ser liter\u00e1rio, televisivo, comercial, familiar, etc.) e isso acontece \u201cporque a extens\u00e3o sempre mais totalit\u00e1ria desses sistemas n\u00e3o deixa aos \u2018consumidores\u2019 um lugar onde possam marcar o que <em>fazem<\/em> com os produtos\u201d. As \u2018t\u00e1ticas\u2019, observadas por Certeau, v\u00eam de uma massa marginalizada que acabou se tornando uma maioria silenciosa\u00a0(CERTEAU, 1998, p. 44). As t\u00e1ticas aparecem nas pr\u00e1ticas banais do dia-a-dia como falar, andar, fazer compras cozinhar, ler, etc. Os fracos que v\u00e3o tirando partido dos fortes acabam por combinar no momento oportuno elementos heterog\u00eaneos\u00a0(CERTEAU, 1998, p. 45). As t\u00e1ticas remontam a um passado imemorial de intelig\u00eancia com ast\u00facia como as camuflagens de plantas e animais\u00a0(CERTEAU, 1998, p. 47).<\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]Etiene Mendes Rodrigues [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><strong>UMA PROSA CURTA NUM FIO:\u00a0 VIOL\u00caNCIA E O FEMININO NA CONT\u00cdSTICA DE MIA COUTO<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Etiene Mendes Rodrigues<\/strong> (Doutoranda \/UEPB \/PPGLI)<\/p>\n<p><strong>Profa. Dra. Rosilda Alves Bezerra<\/strong> (Orientadora \/ UEPB \/ PPGLI)<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O: <\/strong>H\u00e1 alguns anos lendo e estudando a obra de Mia Couto, bem como levando para sala de aula sobretudo sua produ\u00e7\u00e3o em contos, sentimos a necessidade de aprofundar algumas percep\u00e7\u00f5es, intui\u00e7\u00f5es e dados que foram sendo observados no decorrer das leituras. Dentre o labor formal da obra do escritor mo\u00e7ambicano, destacamos o modo como s\u00e3o constru\u00eddas as personagens femininas, sua rela\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o e o contexto social. Nesse sentido, um dos aspectos que nos instigou, nos contos de Mia Couto, foi o modo como o espa\u00e7o parece ter uma fun\u00e7\u00e3o central na constru\u00e7\u00e3o das personagens, sobretudo as femininas. Espa\u00e7o e personagem, portanto, assumem uma significa\u00e7\u00e3o diferenciada, que convida a uma leitura mais detida. Como <em>corpus<\/em> de estudo, elegemos narrativas curtas dos seis livros que comp\u00f5em a produ\u00e7\u00e3o do autor: \u201cA fogueira\u201d; \u201cAfinal, Carlota Gentina n\u00e3o chegou a voar?\u201d; \u201cSa\u00edde, o lata de \u00e1gua\u201d; \u201cA menina de futuro torcido\u201d; \u201cPatanhoca, o cobreiro apaixonado\u201d; \u201cAs l\u00e1grimas de Diamantina\u201d; \u201cAmor \u00e0 \u00faltima vista\u201d; \u201cNa terceira pessoa\u201d; \u201cA confiss\u00e3o de T\u00e3obela\u201d; \u201cFosforesc\u00eancias\u201d; \u201cOs negros olhos de Vivalma\u201d; \u201cRosalinda, a nenhuma\u201d; \u201cA princesa russa\u201d; \u201cO perfume\u201d; \u201cO calcanhar de Virig\u00edlio\u201d; \u201cAs tr\u00eas irm\u00e3s\u201d; \u201cO cesto\u201d; \u201cA saia almarrotada\u201d; \u201cMeia culpa, meia pr\u00f3pria culpa\u201d; \u201cNa tal noite\u201d; \u201cA despedideira\u201d; \u201cMana Celulina, a esferogr\u00e1vida\u201d; \u201cO nome gordo de Isidorangela\u201d; e \u201cOs olhos dos mortos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>JUSTIFICATIVA: <\/strong>Este trabalho justifica-se, primeiramente, por atentar para algumas quest\u00f5es que julgamos pertinentes: a produ\u00e7\u00e3o de Mia Couto tem-se revelado de grande valor est\u00e9tico no que diz respeito \u00e0 sua elabora\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s de um amplo trabalho com a linguagem, o leitor \u00e9 colocado diante de situa\u00e7\u00f5es humanas e sociais as mais diversas. Al\u00e9m disso, as narrativas de Mia Couto expressam, numa perspectiva liter\u00e1ria, um testemunho da condi\u00e7\u00e3o feminina, marginal e discriminada, assinalando, assim, a exclus\u00e3o dessas personagens em rela\u00e7\u00e3o ao grupo social a que pertencem, de tal forma que seu discurso [das personagens] se constitui numa den\u00fancia do silenciamento e da domina\u00e7\u00e3o da figura feminina por parte dos homens. O escopo deste trabalho \u00e9 analisar a viol\u00eancia (tanto f\u00edsica quanto simb\u00f3lica) sofrida pela mulher, que figura nos contos, significa observar e refletir sobre os processos de domina\u00e7\u00e3o a que as mulheres s\u00e3o sujeitadas, tal como postulam os te\u00f3ricos dos estudos p\u00f3s-coloniais e da cr\u00edtica feminista. Enveredar por essas correntes de an\u00e1lise faz-se relevante porque contribui para repensar as estruturas de poder e analisar, dentre outras, a quest\u00e3o opressor\/oprimido, na tentativa de \u201cintegrar a mulher \u00e0 sociedade\u201d, possibilitada atrav\u00e9s dos usos da linguagem e da experimenta\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica. (BONNICI, 2009, p. 266-267). A ampla recorr\u00eancia de personagens femininas que vivem situa\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o merece uma an\u00e1lise mais apurada. Desde as primeiras publica\u00e7\u00f5es de Mia Couto, percebe-se que as rela\u00e7\u00f5es homem\/mulher s\u00e3o marcadas por desencontros de natureza v\u00e1ria: casamentos desgastados pela rotina, ci\u00fames, viol\u00eancia dom\u00e9stica as mais variadas. Esses conflitos s\u00e3o colocados com mais \u00eanfase, a nosso ver, em narrativas curtas, de modo que as formas de viol\u00eancia tomam outras fei\u00e7\u00f5es, outras intensidades e acarretam consequ\u00eancias mais dr\u00e1sticas. Se as personagens femininas vivem, cotidianamente, situa\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o, esse fato \u00e9 favorecido pelos espa\u00e7os em que elas est\u00e3o inseridas, habitados, tamb\u00e9m, por aqueles que s\u00e3o seus opressores: maridos, pais e irm\u00e3os. Curiosamente, esses mesmos espa\u00e7os que oprimem s\u00e3o tamb\u00e9m os que impulsionam as personagens para uma mudan\u00e7a no estilo de vida, que nasce, primeiro, de um forte desejo de vingan\u00e7a. Neste sentido, a abordagem do espa\u00e7o em que as personagens se movem se faz essencial nesta pesquisa. Al\u00e9m das quest\u00f5es elencadas anteriormente, outro aspecto que justifica nossa pesquisa \u00e9 o fato de que os estudos sobre a cont\u00edstica de Mia Couto mostram-se ainda muito t\u00edmidos. Nota-se, com rela\u00e7\u00e3o aos romances um maior interesse por parte da cr\u00edtica especializada. Tamb\u00e9m n\u00e3o localizamos estudos que tenham como foco a an\u00e1lise de <em>espa\u00e7o<\/em> e <em>personagem<\/em>, aliados a quest\u00f5es de viol\u00eancia de g\u00eanero. Noutras palavras, intencionamos um estudo que articule a tr\u00edade personagem, espa\u00e7o e g\u00eanero. Com esta aproxima\u00e7\u00e3o, pretendemos realizar uma investiga\u00e7\u00e3o que estabele\u00e7a uma abordagem pautada na an\u00e1lise das personagens e espa\u00e7o, aos caminhos da pesquisa mais contempor\u00e2nea, como os estudos de g\u00eanero, mais especificamente ao modo de representa\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o feminina. Nesta conjuga\u00e7\u00e3o evitamos uma abordagem meramente tem\u00e1tica ou demasiadamente formal dos contos a serem escolhidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>OBJETIVOS: <\/strong>Os objetivos de nossa pesquisa s\u00e3o os seguintes: GERAL \u2013 Estudar os modos de articula\u00e7\u00e3o entre espa\u00e7o e personagens em contos que integram a cont\u00edstica de Mia Couto e observar como esta articula\u00e7\u00e3o revela as condi\u00e7\u00f5es sociais de opress\u00e3o e viol\u00eancia vividas por mulheres, bem como os modos de resist\u00eancia a esta opress\u00e3o. ESPEC\u00cdFICOS: 1) Analisar de que modo os <em>espa\u00e7os<\/em> s\u00e3o constru\u00eddos e como eles interferem na constru\u00e7\u00e3o das personagens; 2) Analisar as situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia (f\u00edsica e simb\u00f3lica) em que as personagens femininas est\u00e3o representadas; 3) Observar e refletir sobre as formas de resist\u00eancia das mulheres perante as diferentes situa\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o; e 4) Apontar, no emaranhado das narrativas, a\u00e7\u00f5es que revelam a busca da constru\u00e7\u00e3o de novas identidades femininas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>METODOLOGIA: <\/strong>Para o desenvolvimento da pesquisa, adotaremos o seguinte percurso metodol\u00f3gico: inicialmente, ser\u00e1 feito um levantamento acerca das personagens femininas na cont\u00edstica de Mia Couto, visando a delimitar um corpus para an\u00e1lise mais detida. Posteriormente, ser\u00e3o arrolados estudos que j\u00e1 foram produzidos sobre a obra do autor mo\u00e7ambicano, para que tenhamos uma vis\u00e3o mais precisa de sua fortuna cr\u00edtica. Num terceiro momento, observaremos os conflitos e situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia vividos por essas personagens, os espa\u00e7os em que eles se configuram e quais as estrat\u00e9gias adotadas para uma poss\u00edvel liberta\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 observada, sobretudo, a viol\u00eancia de que s\u00e3o v\u00edtimas no contexto social em que se encontram. Tamb\u00e9m recorreremos a elementos da teoria da narrativa, dando \u00eanfase especial para as categorias <em>espa\u00e7o <\/em>e <em>personagem<\/em>. O passo seguinte, e central, ser\u00e1 a an\u00e1lise detida dos contos selecionados, procurando observar a constru\u00e7\u00e3o das personagens femininas, os espa\u00e7os que elas ocupam e os poss\u00edveis sentidos que assumem na narrativa. Busca-se, com a metodologia adotada, aliar a tradi\u00e7\u00e3o dos estudos liter\u00e1rios voltados para a constru\u00e7\u00e3o da narrativa (formas, procedimentos e respectivos efeitos) \u00e0 abordagem mais tem\u00e1tica, que se fortaleceu notadamente com o aparecimento dos Estudos Culturais. A jun\u00e7\u00e3o destas duas perspectivas pode contribuir para uma abordagem propositiva no \u00e2mbito das an\u00e1lises em torno do autor. Acreditamos que, atrav\u00e9s da an\u00e1lise de personagens e espa\u00e7o, chegaremos \u00e0 compreens\u00e3o e uma explicita\u00e7\u00e3o mais precisa da condi\u00e7\u00e3o feminina bem como sobre o modo como as mulheres v\u00e3o construindo suas identidades em meio a um contexto ainda predominantemente sexista, machista e violento. Como embasamento te\u00f3rico, que fundamentar\u00e1 a pesquisa, recorreremos \u00e0s reflex\u00f5es de Bourdieu (2011), Xavier (2007), Perrot (2013), Bachelard (2003), Bonnici (2009), Zolin (2009), Girard (2011), Laranjeira (2001), Chau\u00ed (2000), Candido (2007), Fonseca &amp; Cury (2008), Borges Filho (2009), Lyra (1980), Saffioti (2004), entre outros estudiosos, sobretudo, \u00e0queles que discutem quest\u00f5es de g\u00eanero e feminismo negro, tais como Gayle Rubin, Susan Sontag, Julia Kristeva, Simone de Beauvoir, Helene Cixous, bell hooks, Angela Davis, Gayatri Spivak.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS: <\/strong>Em \u201cApresenta\u00e7\u00e3o\u201d a uma importante obra que tematiza a viol\u00eancia na literatura, Pedro Lyra (1980) afirma que \u201cA literatura brasileira recente \u00e9, em suas manifesta\u00e7\u00f5es mais representativas, uma literatura voltada contra a viol\u00eancia que sofremos hoje (&#8230;) Uma literatura violenta, de condena\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia.\u201d (p. 06) Esta, por sua vez, de acordo com o cr\u00edtico, ocorre de diversas maneiras: no \u201cdesnudamento da linguagem\u201d, na \u201cdesintegra\u00e7\u00e3o da forma\u201d, no \u201crompimento do discurso\u201d, e na \u201cexacerba\u00e7\u00e3o dos temas\u201d. Para ele, trata-se de uma literatura empenhada em \u201cproduzir conhecimento para a a\u00e7\u00e3o do leitor\u201d. Ou seja, \u00e9 uma literatura que, ao inv\u00e9s de provocar frui\u00e7\u00e3o, \u201cpretende\u201d levar o leitor a pensar a realidade e agir sobre ela, de modo a modific\u00e1-la. O texto de Lyra fora escrito h\u00e1 quase quatro d\u00e9cadas e, em princ\u00edpio, dizia respeito \u00e0 literatura brasileira de ent\u00e3o. No entanto, percebe-se que as reflex\u00f5es do autor podem ser estendidas a outras literaturas \u2013 prova \u00e9 que, os artigos que comp\u00f5em a colet\u00e2nea abrangem textos gregos, por exemplo. No que se refere \u00e0s literaturas africanas de l\u00edngua portuguesa, Moreira (2015) atesta que uma de suas marcas est\u00e1 relacionada \u00e0 viol\u00eancia, notadamente, relacionada \u00e0quela advinda dos conflitos de guerra e p\u00f3s-guerra. Autores como Pepetela, Luandino Vieira, Mia Couto, Ondjaki, Paulina Chiziane, Chimamanda N. Adiche entre outros, s\u00e3o exemplos de como a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de seus respectivos pa\u00edses est\u00e1 permeada pela viol\u00eancia. Isto ocorre porque, segundo a estudiosa, \u201co desenvolvimento da literatura nesses pa\u00edses acontece concomitantemente \u00e0s lutas pela independ\u00eancia e pela constru\u00e7\u00e3o da nacionalidade, em plena segunda metade do s\u00e9culo XX\u201d. (MOREIRA, 2015, p. 01). Especificamente sobre a produ\u00e7\u00e3o de Mia Couto, percebe-se que, al\u00e9m da viol\u00eancia provocada pelas guerras, existe outra de cunho mais cultural. Trata-se da viol\u00eancia contra a mulher, a qual ganha respaldo e se \u201cnaturaliza\u201d nas sociedades patriarcais. No entanto, nem sempre as mulheres se comportam como v\u00edtimas. A partir dos contos que vimos lendo e analisando, observamos que, apesar de, em determinados lugares, as mulheres virem travando lutas contra a ordem patriarcal, nas narrativas de Mia Couto, as personagens lutam sozinhas \u2013 n\u00e3o tendo o respaldo de um grupo, de um movimento social que busque conscientizar e lutar pelos direitos das mulheres, elas criam formas de reagir \u00e0 viol\u00eancia. Da\u00ed, talvez, o desejo de vingan\u00e7a, a tentativa de resolver a quest\u00e3o a partir de uma perspectiva pessoal. Nesse sentido, a luta e a resist\u00eancia assumem formas tr\u00e1gicas, muitas vezes. Mas, trata-se sempre de uma rea\u00e7\u00e3o que revela uma tomada de consci\u00eancia ou, no m\u00ednimo, uma crise das personagens femininas ante toda a condi\u00e7\u00e3o de oprimida e desvalorizada como pessoa, como individualidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>BONNICI, Thomas. \u201cTeoria e cr\u00edtica p\u00f3s-colonialistas\u201d. In: BONNICI, Thomas &amp; ZOLIN, L\u00facia Osana (orgs). <em>Teoria da literatura<\/em>: abordagens hist\u00f3ricas e tend\u00eancias contempor\u00e2neas. 3.ed. Maring\u00e1: EDUEM, 2009.<\/p>\n<p>COUTO, Mia. <em>O fio das missangas<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2009.<\/p>\n<p>____. <em>Na berma de nenhuma estrada e outros contos<\/em>. Lisboa: Editorial Caminho, 2001.<\/p>\n<p>____. <em>Est\u00f3rias abensonhadas<\/em> \u2013 contos. 8.ed. Lisboa: Editorial Caminho, 2008.<\/p>\n<p>____. <em>Contos do nascer da terra<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cia. das Letras, 2014.<\/p>\n<p>____. <em>Vozes anoitecidas &#8211; <\/em>contos. S\u00e3o Paulo: Cia. das Letras, 2013.<\/p>\n<p>____. <em>Cada homem \u00e9 uma ra\u00e7a <\/em>\u2013 est\u00f3rias. 10.ed. Lisboa: Editorial Caminho, 2002.<\/p>\n<p>GIRARD, Ren\u00e9. \u201cViol\u00eancia e reciprocidade\u201d. IN: ______. <em>Aquele por quem o esc\u00e2ndalo vem<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Nougu\u00e9. S\u00e3o Paulo: Realiza\u00e7\u00f5es Editora, 2011.<\/p>\n<p>LYRA, Pedro. \u201cApresenta\u00e7\u00e3o\u201d. <em>Revista Tempo Brasileiro \u2013 A viol\u00eancia na literatura<\/em>. Rio de Janeiro: Folha Carioca, 1980.<\/p>\n<p>MOREIRA, Terezinha Taborda. \u201cHist\u00f3ria, viol\u00eancia e trauma na escrita liter\u00e1ria angolana e mo\u00e7ambicana\u201d \u2013 Texto de apresenta\u00e7\u00e3o. IN: <em>Cadernos CESPUC<\/em>, n. 27. Belo Horizonte, 2015.<\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<strong>Fernanda Medeiros de Figueir\u00eado <\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A CONSTRU\u00c7\u00c3O DO PERSONAGEM LITER\u00c1RIO \u201cDEUS\u201d NA OBRA DE JORGE LUIS BORGES<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Fernanda Medeiros de Figueir\u00eado (PPGLI\/UEPB)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Orientador: Prof. Dr. Ant\u00f4nio Carlos de Melo Magalh\u00e3es<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>RESUMO EXPANDIDO<\/b><span style=\"font-weight: 400\">:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao longo dos primeiros estudos desta pesquisa, que corresponde a uma tese de doutorado na \u00e1rea de Literatura e Hermen\u00eautica com o objetivo de abordar e analisar as caracter\u00edsticas liter\u00e1rias do personagem deus na obra do escritor argentino Jorge Luis Borges, notamos que uma forte caracter\u00edstica desse autor \u00e9 que seus contos se interligam \u2013 espa\u00e7o, tempo e personagens ressurgem constantemente por meio de temas que se repetem e possuem uma simbologia pr\u00f3pria. Por isso, voltamos in\u00fameras vezes \u00e0 leitura de todos os contos para verificar em quais nuances deus se apresenta, como o personagem surge nas sutilezas de cada narrativa e com quais correntes e autores essa g\u00eanese dialoga. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os contos de Borges que consideramos basilares para esta an\u00e1lise, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Los Teologos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">La escritura del dios<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, apesar de repletos de erudi\u00e7\u00e3o e retomadas de simbolismos diversos, s\u00e3o contos que, como afirma Mendon\u00e7a (2015, p.11), abra\u00e7am a oralidade de tal forma que o leitor sente-se parte daquele universo. Borges facilmente torna o leitor uma parte do todo dentro do Aleph que ele define como um pequeno ponto de vis\u00e3o capaz de abarcar um espa\u00e7o c\u00f3smico de onde se pode enxergar qualquer ponto do universo em qualquer tempo. Esse aleph podendo representar a pr\u00f3pria ess\u00eancia de sua escrita e de sua linguagem como n\u00e3o-lugar. De repente, todos os mist\u00e9rios caem por terra. E at\u00e9 a falta de compreens\u00e3o torna-se agente de um espet\u00e1culo maior situado, por alguns estudiosos, no espa\u00e7o fant\u00e1stico da literatura, ou como apontam outros, pertencente ao que se convencionou chamar de m\u00e1gico\/maravilhoso. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Entre as pesquisas analisadas como fortuna cr\u00edtica a direcionar nosso estudo est\u00e3o a disserta\u00e7\u00e3o de Mendon\u00e7a (2015), apontando para as narrativas fant\u00e1sticas e objetos simb\u00f3licos, a de Costa (2014) sobre tempo e devir tamb\u00e9m nesse tipo de narrativa, a abordagem da intertextualidade b\u00edblica nos contos borgeanos, por Gadotti (2012), al\u00e9m de autores j\u00e1 consagrados pela cr\u00edtica para compreens\u00e3o de conceitos como simbologia, e neste ponto destacam-se Northrop Frye com o livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Anatomia da Cr\u00edtica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Carlos G. Jung em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O homem e seus s\u00edmbolos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Jean Chevalier e Alain Gheerbrant \u00a0em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Dicion\u00e1rio de S\u00edmbolos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, e at\u00e9 autores como Jack Miles, para pautar nossa investiga\u00e7\u00e3o sobre Deus.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apesar de autores como Tzvetan Todorov, David Roas, Remo Ceserani, Filipi Furtado e Bella Jozef realmente ajudarem no entendimento do fant\u00e1stico diante de tudo que foi debatido at\u00e9 aqui sobre essa perspectiva e o autor em quest\u00e3o, n\u00e3o se faz necess\u00e1rio um aprofundamento sobre esse tipo de literatura que \u201cpostula a exist\u00eancia do real, do natural, do normal, para poder em seguida atac\u00e1-lo violentamente\u201d (TODOROV, 2012, p. 31). A quest\u00e3o norteadora n\u00e3o \u00e9 a desconstru\u00e7\u00e3o do real, e sim como o personagem deus \u00e9 visto nos contos analisados, como esse personagem se constr\u00f3i atrav\u00e9s da ironia e do sarcasmo de um escritor que passeia por temas como o juda\u00edsmo, a cabala, o budismo e a filosofia. Deus, o personagem. Inclusive Miles (1997) j\u00e1 considera que o deus enquanto personagem, mesmo na b\u00edblia, n\u00e3o vai contra o sarcasmo e a ironia que encontramos na obra de Borges. Ent\u00e3o esse deus que \u00e9 o cerne de toda a pesquisa, enquanto cria\u00e7\u00e3o de Jorge Luis Borges, tamb\u00e9m reafirma um car\u00e1ter jocoso desse personagem nos textos b\u00edblicos, fato que hav\u00edamos constatado anteriormente na disserta\u00e7\u00e3o de mestrado intitulada \u201cDialogismo e ironia na obra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A mulher que escreveu a B\u00edblia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de Moacyr Scliar\u201d. O fato aqui a ser ressaltado \u00e9 que o personagem borgeano n\u00e3o \u00e9 um contr\u00e1rio do personagem b\u00edblico, mas sim uma exacerba\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas que este \u00faltimo apresenta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ali\u00e1s, h\u00e1 uma quest\u00e3o fundamental na concep\u00e7\u00e3o de linguagem em Borges, que \u00e9 a da infinitude da linguagem. N\u00e3o h\u00e1 fronteiras r\u00edgidas, e a separa\u00e7\u00e3o entre \u201crealidade\u201d e \u201cimagina\u00e7\u00e3o ou fic\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 algo sem import\u00e2ncia para o escritor. Assim sendo, parte dos personagens, cidades e lugares que ele cita s\u00e3o imagin\u00e1rios, um aspecto fundamental em sua literatura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dessa maneira, a raz\u00e3o da escolha pelo personagem deus na prosa de Borges se deve ao fato de que as produ\u00e7\u00f5es do poeta estabelecem uma conex\u00e3o estreita com a religi\u00e3o hebraica e o misticismo judaico, suscitando interliga\u00e7\u00f5es entre a literatura e o sagrado, e estabelecendo uma linguagem simb\u00f3lica perpassada por diferentes mitos e quest\u00f5es filos\u00f3ficas e religiosas que merecem ser exploradas. No entanto, Borges vai al\u00e9m da miscel\u00e2nea de mist\u00e9rios que um leitor desavisado possa pensar que \u00e9 a sua obra. Atrav\u00e9s de uma pitada de sarcasmo e duas de ironia, ele carnavaliza a imagem intoc\u00e1vel do memor\u00e1vel personagem t\u00e3o revisitado anteriormente por diferentes culturas e o transforma em uma figura debochada que pouco se importa com os dilemas humanos e terrestres, dilemas estes que em sua maioria envolvem quest\u00f5es que culminam em posicionamentos e defesas que o deus personagem n\u00e3o se interessa. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outra quest\u00e3o que n\u00e3o pode ser esquecida ao se levantar as hip\u00f3teses norteadoras desta pesquisa \u00e9 que al\u00e9m de utilizar diretamente o termo \u201cDeus\u201d na maioria de seus contos, Borges cita ainda \u201co Senhor\u201d e \u201cJesus\u201d em alguns deles, a exemplo do conto <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">deutsches requiem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, no qual ele apresenta o juda\u00edsmo como uma servil timidez crist\u00e3. Ou seja, h\u00e1 apenas uma mudan\u00e7a de nomenclatura para representar o mesmo personagem que abordamos ao longo desse trabalho, at\u00e9 porque deus nestes cen\u00e1rios \u00e9 uma ideia e n\u00e3o o nome em si. \u201cElohim\u201d tamb\u00e9m \u00e9 outra defini\u00e7\u00e3o para este personagem que ele registra no texto <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">De algu\u00e9m para ningu\u00e9m<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Outras inquisi\u00e7\u00f5es), no qual especifica ser este o primeiro nome divino de muitos escritos na B\u00edblia. Assim, existem diversas aclama\u00e7\u00f5es recorrentes e termos hebraicos a esse simb\u00f3lico personagem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"> Outra considera\u00e7\u00e3o importante \u00e9 que os reflexos de deus n\u00e3o recaem sobre o homem, figura que na maioria das tramas assume um espelho caracter\u00edstico do ser humano enquanto esp\u00e9cie, como se todos os homens fossem muito iguais para merecer qualquer tipo de import\u00e2ncia por parte da divindade.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Partindo dessas alus\u00f5es ao sagrado, o personagem deus na obra do autor n\u00e3o \u00e9 fruto de cren\u00e7as pessoais, muito pelo contr\u00e1rio, apesar de Borges ser um escritor que sempre admitiu aos leitores e curiosos que as circunst\u00e2ncias de sua vida influenciaram seus textos, este deus representado concomitantemente ao duplo, ao fant\u00e1stico e outras nuances atrav\u00e9s das quais este deus surge, \u00e9 sim, um personagem sarc\u00e1stico que mostra a face do desd\u00e9m frente a criaturas inferiores, embora muito interessantes em suas peculiaridades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Longe de qualquer doutrina, esse deus aparentemente silencioso folcloriza as religi\u00f5es inclusive nessa circunst\u00e2ncia, pois a falta de di\u00e1logo no texto demonstra o distanciamento que essa figura tem de qualquer ser, inclusive do narrador onisciente que descreve, muitas vezes, o que ele \u201cacha\u201d estar pensando a divindade a respeito dos embates travados na terra por homens que brigam entre si em busca de alguma verdade que ao nosso personagem n\u00e3o importa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O que se apresenta diante dos nossos olhos \u00e9 um personagem criado com o intuito de descortinar m\u00e1scaras religiosas, aludindo, inclusive, \u00e0 cultura popular como ela foi abordada por Bakhtin (2013a) em sua obra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A cultura popular na idade m\u00e9dia e no renascimento<\/span><\/i><b>: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">o contexto de Fran\u00e7ois Rabelais, que ressalta a m\u00e1scara enquanto express\u00e3o da festa p\u00fablica, simbolizando uma altern\u00e2ncia de tempos (o oficial e o carnavalesco) que resultava em algum tipo de renova\u00e7\u00e3o social a longo prazo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim, at\u00e9 o momento nosso trabalho est\u00e1 estruturado da seguinte forma: um primeiro cap\u00edtulo intitulado \u201cTeorizando Borges\u201d, no qual trazemos ao debate a fortuna cr\u00edtica sobre o autor e peculiaridades como a autorrepresenta\u00e7\u00e3o, que detona a semelhan\u00e7a das caracter\u00edsticas de personagens fict\u00edcios com as do autor real, e tamb\u00e9m uma abordagem da personagem de fic\u00e7\u00e3o, pautados nas ideias de Antonio C\u00e2ndido e Anatol Rosenfeld, al\u00e9m de Bakthin sobre a polifonia, para a partir da\u00ed construirmos o que chamamos de g\u00eanese do personagem Deus em Borges, suscitando a forma como chegamos \u00e0 an\u00e1lise desse deus. Pensamos ainda em utilizarmos a teoria de Leonor Arfuch (2010) sobre o espa\u00e7o biogr\u00e1fico para melhor nos posicionarmos frente \u00e0 tend\u00eancia borgeana de se autorrepresentar em narrativas que demarcam di\u00e1logos diversos com outras obras, outras culturas, em um espa\u00e7o de n\u00e3o-lugar da linguagem onde tudo \u00e9 poss\u00edvel, inclusive ao deus borgeano e \u00e0 sua fic\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na linguagem, e pela linguagem, Borges constr\u00f3i um deus sarc\u00e1stico, mais literariamente evolu\u00eddo do que o deus doutrin\u00e1rio, sendo este capaz de deter todos os saberes vislumbrados dentro de um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">aleph<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> visto a partir da bagagem instrucional e ficcional do autor, que se baseia em preocupa\u00e7\u00f5es de fato intelectuais e filos\u00f3ficas (WILLLIAMSON, 2011). Essa constru\u00e7\u00e3o vamos analisar no segundo cap\u00edtulo a priori intitulado de \u201cA g\u00eanese do deus borgeano\u201d, no qual j\u00e1 fizemos men\u00e7\u00e3o a contos como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Los Teologos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O milagre secreto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O jardim de veredas que se bifurcam<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A busca de averr\u00f3is<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, que nos mostram como deus \u00e9 o senhor de todas as varia\u00e7\u00f5es de tempo existente na obra de Borges. Outra peculiaridade ressaltada nesse cap\u00edtulo \u00e9 o que chamamos de \u201cdivino descaso\u201d, uma avalia\u00e7\u00e3o do pouco que deus se importa com as quest\u00f5es terrenas descritas nas tramas que vimos at\u00e9 aqui.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por fim, em um terceiro cap\u00edtulo ainda pouco desenvolvido, esperamos discorrer sobre nuances percebidas no conto <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">La escritura del dios<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, como simbolismos e associa\u00e7\u00f5es entre a escrita de Borges e a cultura judaica, assim como da cabala e outras retomadas ideol\u00f3gicas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>PALAVRAS-CHAVE: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Deus. Personagem liter\u00e1rio. Borges. <\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle] <strong>Franksnilson Ramos Santana<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><strong>CONTOS E MICROCONTOS QUE N\u00c3O CONTAM: A N\u00c3O NARRATIVIDADE NO DOM\u00cdNIO TEXTUAL E A NARRATIVIDADE SOB ALCANCE DO LEITOR<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Franksnilson Ramos SANTANA &#8211; Doutorando<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Orientador: Dr. Antonio de P\u00e1dua Dias da SILVA<\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es em torno das obras liter\u00e1rias que adentram em uma categoria designada \u201cLiteratura Contempor\u00e2nea\u201d se multiplicam, e atrav\u00e9s de m\u00faltiplos caminhos te\u00f3ricos suscet\u00edveis sempre \u00e0 diverg\u00eancia, sobretudo pelo motivo de a pr\u00f3pria \u201cliteratura\u201d desprover de um conceito inviol\u00e1vel sobre si. A Tese a ser desenvolvida se desprende, como todas as demais que se erguem sobre o eixo da Teoria Liter\u00e1ria, a problematizar as certezas e incertezas que se afirmam acerca do liter\u00e1rio, ou dos seus componentes, por assim dizer, seus g\u00eaneros, formas, tipos, categorias. A escrita desse trabalho, no entanto, compreende especificamente como objeto de estudo, obras de extens\u00e3o curta, m\u00ednima, micro, que s\u00e3o apresentadas ao p\u00fablico leitor com identifica\u00e7\u00f5es que as fa\u00e7am ser assimiladas enquanto pertencentes ao g\u00eanero \u201cnarrativa\u201d: os contos, microcontos, minicontos, minist\u00f3rias, microfic\u00e7\u00f5es, minific\u00e7\u00f5es, os <em>microrrelatos<\/em>, <em>microcuentos<\/em>, <em>minicuentos<\/em>,<em> microficciones<\/em>,<em> minificciones<\/em>, em espanhol, as<em> flash fictions<\/em>, em ingl\u00eas, as<em> micronouvelles<\/em>, em franc\u00eas, micro-escritas que embora sejam entendidas como narrativas, s\u00e3o, em contrapartida, a recusa das pr\u00f3prias, de forma que sua leitura n\u00e3o \u00e9 possibilitada atrav\u00e9s dos mesmos meios t\u00e9cnicos utilizados para a interpreta\u00e7\u00e3o de obras irrefutavelmente representantes de um determinado g\u00eanero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na pesquisa, portanto, direcionamos nosso olhar a obras desse tipo escritas n\u00e3o apenas no Brasil, sen\u00e3o em toda a Am\u00e9rica, na Europa, considerando tamb\u00e9m os demais continentes. E embora n\u00e3o haja dado hist\u00f3rico seguro que denuncie o lugar ou uma data em que essas obras se originaram, uma parte consider\u00e1vel da cr\u00edtica liter\u00e1ria sustenta que esse g\u00eanero, conhecido curiosamente por uma pluralidade de termos, nasceu com o escritor guatemalteco Augusto Monterroso, precisamente em 1959, quem, entre dezenas de narrativas curtas que comp\u00f5em o livro <em>Obras Completas (y otros cuentos)<\/em>, inseriu uma escrita de extens\u00e3o hiperbreve, o famoso \u201cEl dinosaurio\u201d, com o seguinte conte\u00fado: \u201cCuando despert\u00f3, el dinosaurio todav\u00eda estaba all\u00ed.\u201d. A popularidade do \u201cprimeiro microconto\u201d inspirou a centenas de escritores posteriores que t\u00eam at\u00e9 o presente s\u00e9culo se comprometido na produ\u00e7\u00e3o de muitos outros com o mesmo estilo e tamanho, conseguindo, por conseguinte, que esse tipo de escrita fosse mundialmente interpretado como \u201cg\u00eanero liter\u00e1rio\u201d, \u201cg\u00eanero narrativo\u201d, conduzindo os que o recepcionam a se esquivar de quest\u00f5es que indaguem o que essas escritas micro t\u00eam para oferecer enquanto literatura, enquanto narrativas, por mais que sejam difundidas comercialmente mediante termos liter\u00e1rios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Obras que v\u00e3o do curto ao min\u00fasculo, e que chegam \u00e0s m\u00e3os dos leitores afirmando-se <em>narrativas<\/em>, n\u00e3o havendo nelas, por\u00e9m, narratividade. Esse seria o problema central que nos encaminhou para a escrita da Tese. Declaram-se narrativas atrav\u00e9s de lexemas como <em>conto<\/em> e <em>relato<\/em>, principalmente, que s\u00e3o subg\u00eaneros do g\u00eanero narrativa. Conto e relato n\u00e3o realizam outra atividade sen\u00e3o narrar. A narra\u00e7\u00e3o em atividade, quer dizer, a narratividade, far\u00e1 aparecer no plano escrito uma hist\u00f3ria ao leitor, de modo que, fatalmente, apenas hist\u00f3ria \u00e9 contada, relatada, enfim, narrada. N\u00e3o propomos embasar uma teoria liter\u00e1ria sobre as hist\u00f3rias poss\u00edveis ou ocultas dos microcontos. Lan\u00e7amos um olhar, antes de tudo, ao plano escrito, ao registro m\u00ednimo do autor, e a partir da\u00ed n\u00e3o tomar como verdade irrefut\u00e1vel o que ele pr\u00f3prio, o criador da obra, ou qualquer participante da recep\u00e7\u00e3o ou comercializa\u00e7\u00e3o assegurar quanto \u00e0 concep\u00e7\u00e3o dela. N\u00e3o almejamos, com isso, compreender a n\u00e3o-narratividade de muitos chamados microcontos como perda de valor liter\u00e1rio. Seu diferencial est\u00e1, justamente, na narratividade inf\u00e9rtil, na recusa da representa\u00e7\u00e3o de determinado subg\u00eanero narrativo, capaz de promover leituras especiais, que p\u00f5em em risco o pr\u00f3prio sentido etimol\u00f3gico do termo \u201cleitura\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando se aceita o \u201cmicroconto\u201d como narrativa, por mais que ele em seu plano escrito n\u00e3o entregue uma hist\u00f3ria, toda leitura se far\u00e1 para que essa designa\u00e7\u00e3o seja no fim das contas coerente, e n\u00e3o receba refuta\u00e7\u00e3o. Por outro lado, defendemos que os \u201cmicrocontos\u201d tomados para an\u00e1lise n\u00e3o conseguem ser lidos com o mesmo rigor com que se l\u00ea muitos contos. Todo conto que possui unidade dram\u00e1tica, partes do enredo, personagens, narrador, n\u00e3o exige uma leitura primeira do leitor que n\u00e3o seja para sua interpreta\u00e7\u00e3o, hermen\u00eautica. J\u00e1 o leitor dessa escrita micro que viola as limita\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, em um primeiro momento, por n\u00e3o conseguir contemplar uma hist\u00f3ria \u00e0 sua frente, deixa a fun\u00e7\u00e3o tradicional de explorar sentidos de uma obra irrepreensivelmente pertencente ao g\u00eanero <em>x<\/em>, para evocar estruturantes de uma hist\u00f3ria que julga estarem ocultos no plano escrito. Escritas que fogem da representa\u00e7\u00e3o de um g\u00eanero sob o olhar de um leitor contempor\u00e2neo educado, muito mais do que s\u00e9culos atr\u00e1s, a manusear as ferramentas do pr\u00f3prio escritor. No fim, os v\u00e1rios g\u00eaneros sempre percorrer\u00e3o a mente dos leitores, ainda que a micro-escrita escape deles. Objetivamos, com a Tese, compreender por que raz\u00f5es os \u201cmicrocontos\u201d aos quais nos referiremos carecem de narratividade para que possam ser divulgados como \u201cnarrativas\u201d, ao passo que promovem uma recep\u00e7\u00e3o peculiar, na qual a narratividade s\u00f3 \u00e9 evocada e trabalhada fora da escrita, isto \u00e9, na mente do leitor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Discutiremos no curso do trabalho sobretudo os conceitos de conto, relato, hist\u00f3ria, fic\u00e7\u00e3o, literatura, leitura, interpreta\u00e7\u00e3o, hermen\u00eautica, texto e micro\/mini-conto\/relato\/fic\u00e7\u00e3o\/hist\u00f3ria. Antes disso, n\u00e3o esqueceremos de discutir a categoria \u201cLiteratura Contempor\u00e2nea\u201d, momento em que recordaremos o curto, o breve, o m\u00ednimo,\u00a0 como formas e estilo poderoso para este\/neste mil\u00eanio, como anteviram primeiramente \u00cdtalo Calvino (1990), depois S\u00f4nia M\u00aa van Dijck Lima (2008). Ser\u00e1 necess\u00e1rio, contudo, considerar um cen\u00e1rio liter\u00e1rio p\u00f3s-aut\u00f4nomo que se constr\u00f3i passadas as vanguardas no Ocidente, de acordo com Josefina Ludmer (2007), no qual contracenam obras que se\u00a0exaurem da pr\u00f3pria literatura, para o alcance de efeitos para fora dela mesma, pensamento compartilhado e problematizado por Luciano Barbosa Justino (2014) e Ant\u00f4nio de P\u00e1dua Dias da Silva (2016). J\u00e1 no que se refere diretamente \u00e0s micro-escritas, chamadas\u00a0<em>microrrelatos<\/em>, Irene Andres-Su\u00e1rez (2010) nos auxiliar\u00e1 com o seu conceito de \u201cnatureza el\u00edptica\u201d em escritas hiperbreves, ainda que o utilizemos aqui com outra perspectiva. Para\u00a0apoio de nossa ideia sobre o conto enquanto narrativa, entrar\u00e3o, entre outros, Walnice Nogueira Galv\u00e3o (1983), Massaud Mois\u00e9s (2006) e Ricardo Piglia (2004). Discutiremos ainda os conceitos de narrativa hipercurta segundo a \u00f3ptica de Marcelo Spalding (2008) (2012), Pedro Gonzaga (2007), David Lagmanovich (2009), Dar\u00edo Hern\u00e1ndez Hern\u00e1ndez (2012), Lauro Zavala (2004), Juan Armando Epple (1990), Luciene Lemos de Campos (2011) e Cristina \u00c1lvares (2012), para citar alguns. S\u00e3o, no entanto, Graciela Tomassini &amp; Stella Maris Colombo (1996), as pesquisadoras que, ao diferenciarem <em>microrrelato<\/em> de <em>minificci\u00f3n<\/em>, apresentam uma express\u00e3o importante, a \u201ccategoria transgen\u00e9rica\u201d que dir\u00e1 respeito \u00e0 minific\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, quando uma escrita liter\u00e1ria tem a sua extens\u00e3o diminu\u00edda e se afasta da estrutura convencional de uma narrativa, do conto, neste caso, n\u00e3o pode ser assimilada como um conto hipercurto, sen\u00e3o como uma fic\u00e7\u00e3o hipercurta, <em>minificci\u00f3n<\/em>, a qual alude a um n\u00famero plural de g\u00eaneros, dependendo de sua apar\u00eancia escrita ou do parecer particular do leitor. Doutro modo, sustentaremos que, se houver de fato \u201ctransgenericidade\u201d, ela ser\u00e1 exterior \u00e0 escrita. N\u00e3o \u00e9 que muitos g\u00eaneros se re\u00fanem nos microcontos, micro-relatos, microfic\u00e7\u00f5es. Os muitos g\u00eaneros se re\u00fanem na mente do leitor, na medida em que essas escritas tendem em maior grau ao anti-g\u00eanero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Far\u00e3o parte de nosso corpus de an\u00e1lise um conjunto de micro-escritas, que t\u00eam ido ao com\u00e9rcio como <em>contos<\/em>, o que se percebe na descri\u00e7\u00e3o da ficha catalogr\u00e1fica dos respectivos livros que comp\u00f5em, as mesmas que t\u00eam sido nomeadas pela cr\u00edtica liter\u00e1ria com os termos mini\/micro-contos, minist\u00f3rias, micro-relatos, mini\/microfic\u00e7\u00f5es. Algumas dessas obras s\u00e3o conhecidas, como <em>Os cem menores contos brasileiros do<\/em> <em>s\u00e9culo<\/em>, organizado por Marcelino Freire (2004), ou<em> Ah, \u00e9?<\/em>, de Dalton Trevisan (1994); outras menos populares ou mais recentes: <em>Pr\u00e1ticas proibidas<\/em>, de Edilberto Coutinho (1989); <em>Minicontos e muito menos<\/em>, um livro bipartido, de Marcelo Spalding e La\u00eds Chaffe (2009); <em>Minicontando<\/em>, de Ana Mello (2009); <em>Canoas Cult: poemas e microcontos<\/em>, de Joana Ester Bonorino (2009); <em>Retalhos: contos e microcontos<\/em>, organizado por Edson Rossatto (2007), o mesmo organizador de <em>Hist\u00f3rias liliputianas: antologia de<\/em> <em>microcontos <\/em>(2010), e<em> Entrelinhas: antologia de contos e microcontos <\/em>(2008). S\u00e3o obras brasileiras entre outras, impressas, al\u00e9m das digitais publicadas em formato ebook, ou livremente por meio de sites, e das estrangeiras. Em algumas poderemos lan\u00e7ar nossa cr\u00edtica a todas as micro-escritas inscritas, em outras obras deveremos selecionar as que contribuem para sustenta\u00e7\u00e3o da Tese.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Neste momento, j\u00e1 temos um cap\u00edtulo elaborado que passa por uma revis\u00e3o, e o segundo cap\u00edtulo vem sendo projetado. No cap\u00edtulo primeiro, realizamos um percurso te\u00f3rico que explora todos os conceitos que nos interessam dentro da literatura, citados acima, partindo do conto para chegar nesse modelo de micro-escrita, ainda comercialmente difundido pelo termo \u201cconto\u201d, desprovido de narratividade, e que ensaia lan\u00e7ar essa narratividade ao dom\u00ednio da recep\u00e7\u00e3o. Por meio da discuss\u00e3o em torno das escritas curtas e micro, buscaremos que a literatura contempor\u00e2nea elaste\u00e7a sua concep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em cap\u00edtulos posteriores trataremos de apresentar muitos \u201ccontos\u201d e \u201cmicrocontos\u201d, com o objetivo de analis\u00e1-los para esclarecer sua n\u00e3o-narratividade e discutir sobre uma narratividade que \u00e9 evocada pelo leitor. Procuraremos defender o termo \u201cmicro-escrita\u201d para refer\u00eancia dessas obras, vez que seu plano escrito consegue denunciar apenas o tamanho (micro) e modo de elabora\u00e7\u00e3o (escrita). Em um primeiro momento, argumentaremos que essas obras aludir\u00e3o muito mais a uma f\u00f4rma, a um algo significativo que se escreveu em poucas palavras, que ensaia ser narrativa, poema, relato, mas n\u00e3o consegue imediatamente por aus\u00eancia de estruturantes de g\u00eanero, que n\u00e3o est\u00e3o em outro lugar sen\u00e3o na leitura. Em um momento final, maturaremos a ideia do \u201ctrans-g\u00eanero\u201d ou \u201cpoli-g\u00eanero\u201d como algo imaginado por um leitor contempor\u00e2neo de fun\u00e7\u00e3o ressignificada. O autor do \u201cmicro-conto\u201d trabalha em face desses leitores cientes dos estruturantes dos g\u00eaneros tradicionais, educados a escreverem suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias, seus pr\u00f3prios versos. No m\u00e1ximo, na segunda metade de 2020 desejamos concluir a Tese e defend\u00ea-la.<\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0Gabriela da Paz Ara\u00fajo [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><strong>(N\u00c3O) PERTENCIMENTO: TERRITORIALIDADES E DESTERRITORIALIZA\u00c7\u00c3O EM FRONTEIRAS PERDIDAS E PASSAGEIROS EM TR\u00c2NSITO DE JOS\u00c9 EDUARDO AGUALUSA<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Gabriela da Paz Ara\u00fajo<\/p>\n<p>Orientadora: Prof\u00aa Dr\u00aa Rosilda Alves Bezerra<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Linha de pesquisa: Literatura Comparada e Intermidialidade<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>RESUMO:<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esta proposta de pesquisa busca examinar os contextos hist\u00f3ricos, pol\u00edticos e liter\u00e1rios que envolvem a constru\u00e7\u00e3o das obras <em>Fronteiras perdidas<\/em> e <em>Passageiros em tr\u00e2nsito <\/em>de Jos\u00e9 Eduardo Agualusa. As narrativas que constituem as obras s\u00e3o hist\u00f3rias espaciais de deslocamento, num universo ficcional globalizado e globalizante, ultrapassando fronteiras geogr\u00e1ficas e discursivas. Esta literatura, em tr\u00e2nsito, reflete o espa\u00e7o al\u00e9m das fronteiras do p\u00f3s-colonialismo, espa\u00e7o global que vem suplantar o espa\u00e7o do Estado-Na\u00e7\u00e3o colonial. As fronteiras perdidas do tempo\/espa\u00e7o, da realidade\/fic\u00e7\u00e3o apontam para uma interse\u00e7\u00e3o do aqui\/agora e do al\u00e9m\/enquanto isso, onde se ambientam essas viagens liter\u00e1rias num universo de realidade paralela ao mundo global do p\u00f3s-colonialismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Palavras-Chave: Pertencimento, Territ\u00f3rio, Identidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As discuss\u00f5es que se estabelecem sobre a identidade s\u00e3o fundamentadas a partir das constantes mudan\u00e7as que o campo identit\u00e1rio sofre, sendo levadas a produzir uma crise de identidade. O mundo \u00e9 formado por fronteiras difusas possibilitando o cruzamento de diferentes culturas, tornando question\u00e1vel a preserva\u00e7\u00e3o da identidade cultural como algo imut\u00e1vel. Portanto, a identidade cultural se encontra em constante transforma\u00e7\u00e3o, tornando-se algo inacabado, enquanto as constantes modifica\u00e7\u00f5es que ocorrem pela incorpora\u00e7\u00e3o de novos elementos possibilitam o desenvolvimento de um processo de nova estrutura\u00e7\u00e3o cultural. Os contos narrados nas colet\u00e2neas <em>Fronteiras perdidas<\/em> e <em>Passageiros em tr\u00e2nsito<\/em> apresentam personagens de identidades amb\u00edguas, duplos reflexos da realidade angolana e mundial, al\u00e9m de suas ambiguidades abarcarem ambival\u00eancias tanto no aspecto racial quanto no aspecto social. S\u00e3o alguns exemplos dessas ambival\u00eancias, respectivamente, <em>Dos perigos do riso; N\u00e3o h\u00e1 mais lugar de origem<\/em> e <em>O homem a quem chamavam Falc\u00e3o; O contrabaixo<\/em>, entre outros. As quest\u00f5es que envolvem os debates sobre espa\u00e7o e territ\u00f3rio suscitam a ideia de que os processos que os envolvem est\u00e3o continuamente em transforma\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, analisaremos as obras <em>Fronteiras perdidas e Passageiros em tr\u00e2nsito<\/em> de Jos\u00e9 Eduardo Agualusa com objetivo de destacar a ideia de desterritorializa\u00e7\u00e3o, processo realizado a partir da mobilidade e de territ\u00f3rio como espa\u00e7o geogr\u00e1fico natural, delimitado por fronteiras bem definidas. Nesse sentido, o termo territ\u00f3rio, ser\u00e1 analisado por meio de uma concep\u00e7\u00e3o mais integralizadora, considerado como um espa\u00e7o relacional de confronto, al\u00e9m de seus elementos serem considerados como constituintes desse processo, atrav\u00e9s \u00a0das m\u00faltiplas dimens\u00f5es hist\u00f3ricas culturais, temporais e sociais.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>JUSTIFICATIVA<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Esta pesquisa se justifica, ao compreender que a mobilidade de pessoas, ideias, produtos e a reafirma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria s\u00e3o elementos integrantes de um panorama cultural que precisa ser mais bem entendido. Nessa perspectiva, nos voltamos ao estudo da literatura africana, com vistas \u00e0 an\u00e1lise de obras que tratam de pa\u00edses onde ocorreu a coloniza\u00e7\u00e3o. Dessa forma, objetivamos fazer a distin\u00e7\u00e3o entre espa\u00e7o e territ\u00f3rio, para o entendimento do processo de desterritorializa\u00e7\u00e3o por qual passam as personagens, al\u00e9m de destacar suas dificuldades durante o per\u00edodo p\u00f3s-colonial e as caracter\u00edsticas de (n\u00e3o)pertencimento que marcam suas identidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FUNDAMENTA\u00c7\u00c3O TE\u00d3RICA<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Viajar possibilita ao indiv\u00edduo conhecer novas sensa\u00e7\u00f5es que lhe permitem \u201cesquecer\u201d, de certa forma, o vivido, e embarcar em um novo mundo, repleto de significa\u00e7\u00f5es e possibilidades. Ao viajante \u00e9 permitido conhecer o novo e ir se reconhecendo atrav\u00e9s do percurso que realiza em diferentes espa\u00e7os e tempos. Com base nessa ideia, o indiv\u00edduo viajante \u00e9 envolvido por elementos diferenciados, que se unem ou n\u00e3o, para as novas concep\u00e7\u00f5es de identidade, tendo em vista que a viagem \u00e9 um elemento propulsor que possibilita a (re) significa\u00e7\u00e3o da identidade, isto \u00e9, o \u201ceu\u201d se percebe em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s travessias que realiza, em intera\u00e7\u00e3o entre espa\u00e7os, tempos, al\u00e9m do contato com diferenciados \u201ceus\u201d que encontra pelo caminho percorrido. A ideia de territ\u00f3rio, de uma identidade pela regi\u00e3o, iniciou-se com o surgimento do Estado-Na\u00e7\u00e3o Ocidental, passando pela Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. No entanto, essa vis\u00e3o identit\u00e1ria foi fundamentada por meio de dois pilares: a domina\u00e7\u00e3o estatal e a auto-identifica\u00e7\u00e3o dos sujeitos. Vivemos uma realidade na qual tais tipos de conceitos precisam ser urgentemente revistos. A mobilidade de pessoas, ideias, produtos e a reafirma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria s\u00e3o elementos integrantes de um panorama cultural que precisa ser mais bem entendido. Nos pa\u00edses onde ocorreu a coloniza\u00e7\u00e3o, esse panorama cultural se faz mais complexo, principalmente na \u00c1frica p\u00f3s-colonial. Identificar-se em um territ\u00f3rio, entre fronteiras, abarca a problem\u00e1tica identit\u00e1ria, que compreende \u201caquelas forma\u00e7\u00f5es de identidades que atravessam e intersectam as fronteiras naturais, compostas por pessoas dispersadas para sempre de sua terra natal\u201d (HALL, 2011, p.88-89). Nesse sentido, esse espa\u00e7o t\u00eanue entre dois lugares \u00e9 denominado de \u201centrelugar<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u201d. O sujeito que se localiza, ou tenta localizar-se, em meio as fronteiras culturais difusas n\u00e3o possuem uma unidade cultural por estar instaurado na estreiteza da fronteira com um apanhado de elementos em constante movimento, que gera a consci\u00eancia de um n\u00e3o pertencimento. O sujeito deste \u201centrelugar\u201d \u00e9 tomado pela falta de defini\u00e7\u00e3o de qual \u00e9, afinal, sua identidade. A ideia de territ\u00f3rio perpassa o que se estabelece sobre o mesmo, como simples constituinte do estado, assumindo a configura\u00e7\u00e3o do processo de territorializa\u00e7\u00e3o. Territ\u00f3rio \u00e9, portanto, entendido aqui, como um elemento fruto das rela\u00e7\u00f5es de poder e sentido, se constituindo, respectivamente, por meio da domina\u00e7\u00e3o e por meio de algum tipo de apropria\u00e7\u00e3o que pode ocorrer tanto de forma individual como de forma coletiva. A palavra <em>territ\u00f3rio<\/em>, etimologicamente, vem do latim <em>territorium <\/em>que significa peda\u00e7o de terra apropriado. O voc\u00e1bulo latino <em>terra<\/em> est\u00e1 associado ao significado da palavra territ\u00f3rio, pois estreita sua liga\u00e7\u00e3o com a terra, seja por uma concep\u00e7\u00e3o materialista ou idealista (Cf. CRESPO, 2010). Para o entendimento do que propomos, \u00e9 necess\u00e1ria a distin\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 espa\u00e7o e territ\u00f3rio. Para Milton Santos, \u201co espa\u00e7o \u00e9 um verdadeiro campo de for\u00e7as cuja forma\u00e7\u00e3o \u00e9 desigual. Eis a raz\u00e3o pela qual a evolu\u00e7\u00e3o espacial n\u00e3o se apresenta de igual forma em todos os lugares\u201d (1978, p.122). Nesse contexto, o conceito de espa\u00e7o \u00e9 compreendido como um conjunto de formas representativas que englobam as rela\u00e7\u00f5es sociais do passado e do presente. Al\u00e9m de dar \u00eanfase \u00e0s estruturas que compreendem as rela\u00e7\u00f5es presentes na contemporaneidade, manifesta-se por meio de diferentes processos e fun\u00e7\u00f5es. Milton Santos defende a ideia de que o espa\u00e7o organizado pelo homem \u00e9 uma estrutura subordinada\/subordinante, como de um resto todas as estruturas sociais. Desse modo, o termo <em>espa\u00e7o<\/em> \u00e9 evidenciado n\u00e3o apenas como um reflexo social, mas como um fator social. O espa\u00e7o \u00e9, portanto, fruto dos processos sociais. Para ele o importante \u00e9 considerar o espa\u00e7o como uma totalidade, formado a partir de diversos processos que englobam o passado e o presente das rela\u00e7\u00f5es realizadas atrav\u00e9s de fun\u00e7\u00f5es e formas. Al\u00e9m da esfera social, o espa\u00e7o compreende a est\u00e2ncia humana. Nesse contexto, o espa\u00e7o social compreende o espa\u00e7o humano, lugar de vida e trabalho. \u201cA utiliza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio pelo povo cria o espa\u00e7o\u201d (SANTOS,1978, p.145). Esse pensamento representa um dado fixo, no qual o territ\u00f3rio \u00e9 considerado imut\u00e1vel em seus limites. Para a constitui\u00e7\u00e3o deste trabalho, entendemos o territ\u00f3rio como um elemento constru\u00eddo e desconstru\u00eddo por diferentes rela\u00e7\u00f5es de poder e atores envolvidos, no processo de identifica\u00e7\u00e3o ou nega\u00e7\u00e3o de suas identidades.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>METODOLOGIA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A pesquisa \u00e9 eminentemente bibliogr\u00e1fica, baseada nos pressupostos te\u00f3ricos da teoria liter\u00e1ria, das Ci\u00eancias Sociais e dos Estudos Culturais. A percep\u00e7\u00e3o sobre espa\u00e7o e territ\u00f3rio ser\u00e1 um recurso utilizado para a compreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de pertencimento ou de nega\u00e7\u00e3o quanto a um territ\u00f3rio, por meio das ideias desenvolvidas por Haesbaert e Milton Santos, al\u00e9m das refer\u00eancias sobre quest\u00f5es de identidades e alteridades. Ap\u00f3s a leitura do <em>corpus<\/em> da pesquisa, ser\u00e3o destacados os fragmentos das narrativas, que fazem alus\u00e3o \u00e0 multiplicidade cultural e aos conflitos estabelecidos entre a hist\u00f3ria e a pol\u00edtica de um continente explorado pelo processo de coloniza\u00e7\u00e3o e de guerras que provocaram a desorganiza\u00e7\u00e3o de estruturas sociais tradicionais. Depois de selecionados e fichados os estudos de base te\u00f3rica, que nortear\u00e3o a pesquisa, ser\u00e1 realizada uma an\u00e1lise interdisciplinar das narrativas, destacando o contexto dos sistemas de representa\u00e7\u00f5es culturais construtores de pr\u00e1ticas discursivas que envolvem os pa\u00edses nos quais discorrem as narrativas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O sujeito na fronteira do p\u00f3s-colonial da \u201cmodernidade tardia\u201d tende a ser um sujeito em busca de identidades. Por se encontrar em um espa\u00e7o cultural e temporal de transi\u00e7\u00e3o, o indiv\u00edduo, em especial o sujeito angolano abordado nas narrativas em estudo, \u00e9 percebido em constante crise, por n\u00e3o identifica-se com si mesmo durante e depois da ebuli\u00e7\u00e3o da utopia independentista. As incertezas podem ser constatadas, n\u00e3o s\u00f3 na constitui\u00e7\u00e3o das identidades, mas tamb\u00e9m na no\u00e7\u00e3o de pertencimento e de lar, que antes supostamente confort\u00e1vel, se dilu\u00ed em detrimento as novas condi\u00e7\u00f5es sociais do per\u00edodo vivenciado. Esse momento fronteiri\u00e7o de transi\u00e7\u00e3o se configura na ruptura da fronteira entre colonizador e colonizado, culminando com a forma\u00e7\u00e3o da fronteira de classes e interesses entre os cidad\u00e3os. Tal momento resultou em uma sociedade composta por indiv\u00edduos de identidades d\u00edspares e estranhos para si e para os outros. A literatura globalizante de Jos\u00e9 Eduardo Agualusa ultrapassa fronteiras geogr\u00e1ficas, seus personagens se constituem entre o real e o fict\u00edcio, abarcando vers\u00f5es da hist\u00f3ria a partir de diversos personagens que constituem o movimento de desterritorializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>AGUALUSA, Jos\u00e9 Eduardo. <em>Fronteiras perdidas<\/em>. Lisboa: D. Quixote, 1999.<\/p>\n<p>______. Passageiros em tr\u00e2nsito. Lisboa: D. Quixote, 2009.<\/p>\n<p>BHABHA, Homi. <em>O local da cultura<\/em>. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2013.<\/p>\n<p>CANCLINI, N\u00e9stor Garc\u00eda. <em>Culturas H\u00edbridas: estrat\u00e9gias para entrar e sair da modernidade. <\/em>S\u00e3o Paulo: EDUSP, 2003.<\/p>\n<p>CHAVES, Rita (2006). <em>Angola E Mo\u00e7ambique: Experi\u00eancia Colonial E Territ\u00f3rios Liter\u00e1rios<\/em>. Dispon\u00edvel em: http:\/\/bit.ly\/MlkV95. Acesso em 20 de julho de 2018.<\/p>\n<p>CHIAPPINI, L\u00edgia. <em>Multiculturalismo e identidade nacional<\/em>. S\u00e3o Paulo: Revista de Literatura, CULT\/46, 2001.\u00a0 <em>da Modernidade<\/em>. S\u00e3o Paulo: EDUSP, 2003. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.celpcyro.org.br\/joomla\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;Itemid=0&amp;id=754. Acesso em 14\/01\/20018.<\/p>\n<p>CRESPO, Matheus Pepe. \u00a0<em>Um estudo sobre o conceito de territ\u00f3rio na an\u00e1lise geogr\u00e1fica. <\/em>Anais: ISSN 2179-3263. III encontro de Geografia e VI semana de ci\u00eancias humanas, Campos dos Goytacazes \u2013 R J, IFF, 2010. Dispon\u00edvel em:\u00a0 http:\/\/essentiaeditora.iff.edu.br\/index.php\/ENGEO\/article\/viewFile\/1680\/863. Acesso em 20 de Julho de 2018.<\/p>\n<p>FIGUEIREDO, Eur\u00eddice. <em>Conceitos de Literatura e Cultura. <\/em>Niter\u00f3i: EdUFF; Juiz de Fora: EdUFJF, 2012.<\/p>\n<p>GILROY, Paul. <em>O atl\u00e2ntico negro.<\/em> S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2001.<\/p>\n<p>GLISSANT, \u00c9douard. <em>Introdu\u00e7\u00e3o a uma po\u00e9tica da diversidade.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o de Enilce do Carmo Albergaria Rocha. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.<\/p>\n<p>HAESBAERT, Rog\u00e9rio; ARAUJO, F. G. B. (Orgs.). <em>Identidades e Territ\u00f3rios: <\/em>Quest\u00f5es e Olhares Contempor\u00e2neos<em>. <\/em>1. ed. Rio de Janeiro: Access, 2007. v. 1.<\/p>\n<p>______. <em>O mito da desterritorializa\u00e7\u00e3o: <\/em>do \u201cfim dos territ\u00f3rios\u201d \u00e0 multiterritorialidade. 2 ed. rev. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.<\/p>\n<p>HALL, Stuart. <em>A identidade cultural na p\u00f3s-modernidade<\/em>. Trad. Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&amp;A, 2011.<\/p>\n<p>HUTCHEON, Linda. <em>Teoria e politica da Ironia.<\/em> Belo Horizonte: ed. UFMG, 2000.<\/p>\n<p>MATA, Inoc\u00eancia. A cr\u00edtica liter\u00e1ria africana e a teoria p\u00f3s-colonial: um modismo ou uma exig\u00eancia? In: <em>Revista de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Literatura Portuguesa (2007). <\/em>Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.omarrare.uerj.br\/numero8\/inocencia.htm. Acesso em 20 de Julho de 2015.<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>SANTOS, Elo\u00edna dos. P\u00f3s-colonialismo e p\u00f3s-colonialidade. In: FIGUEREDO, Eur\u00eddice. Conceitos de literatura e cultura. Juiz de Fora: UFJF; Niter\u00f3i: EDUFF, 2005.<\/p>\n<p>SANTOS, Milton. <em>Por Uma Nova Geografia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Hucitec, 1978.<\/p>\n<p>WALTER, ROLAND. Fronteira e Espa\u00e7os Fronteiri\u00e7os Interamericanos. Dispon\u00edvel em &lt;http:\/\/www.er.uqam.ca\/nobel\/gricis\/actes\/utopie\/Walter.pdf&gt;. Acesso em: 09\/09\/2017.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[1] Com base na leitura do que diz Silviano Santiago em seu texto <em>Literatura nos tr\u00f3picos<\/em> (2000), entendemos o entrelugar como uma estrat\u00e9gia que possibilita a intera\u00e7\u00e3o de temas consider\u00e1veis, ou at\u00e9 mesmo a introdu\u00e7\u00e3o de um mesmo tema em conjunto, perspectivas ou situa\u00e7\u00f5es diferentes.<\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<strong>Jos\u00e9 Aldo Ribeiro da Silva<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>&#8220;Enraizerr\u00e2ncias&#8221;: Processos de identifica\u00e7\u00e3o cultural em Abdulai Sila<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Jos\u00e9 Aldo Ribeiro da Silva<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Abdulai Sila, primeiro romancista da Guin\u00e9-Bissau<\/span><span style=\"font-weight: 400\">, \u00e9 um escritor cujo recente legado dialoga intensamente com a hist\u00f3ria de seu pa\u00eds. Seus escritos, seguindo uma tend\u00eancia liter\u00e1ria que vem ganhando for\u00e7a nas \u00faltimas d\u00e9cadas, revisitam marcos hist\u00f3ricos determinantes na trajet\u00f3ria de seu povo, colocando, insistentemente, no centro do territ\u00f3rio ficcional, as experi\u00eancias de grupos humanos para os quais as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e poder circunscreveram as margens da sociedade. Em virtude disso, suas narrativas possibilitam incurs\u00f5es pelas viv\u00eancias pret\u00e9ritas de seu pa\u00eds norteadas por \u00f3ticas diferentes das que, por muito tempo, predominaram em meio aos discursos oficiais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O territ\u00f3rio da Guin\u00e9-Bissau, como ressalta Moema Augel (2007: 53), foi inicialmente aproveitado pelos portugueses como um emp\u00f3rio comercial e n\u00e3o como uma col\u00f4nia de assentamento, como foram Angola e Mo\u00e7ambique . Essa situa\u00e7\u00e3o inicial foi determinante para a aus\u00eancia de investimentos, por parte do colonizador, no pa\u00eds, que hoje se apresenta como um dos mais pobres do mundo. A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Guin\u00e9, para al\u00e9m das instabilidades pol\u00edticas que at\u00e9 hoje a atormentam, conduziu muitos intelectuais ao degredo e fez com que tem\u00e1ticas como migra\u00e7\u00e3o, ex\u00edlio, apropria\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas de valores \u00e9tnicos e negocia\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias ocupassem lugares proeminentes nas obras que comp\u00f5em sua literatura. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A obra de Abdulai Sila, composta at\u00e9 o presente momento por tr\u00eas romances \u2013 a saber: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Eterna Paix\u00e3o <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1994), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A \u00daltima Trag\u00e9dia <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1995) e<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Mistida<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1997) \u2013 e um texto teatral \u2013 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">As Ora\u00e7\u00f5es de Mansata <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(2007) \u2013, emerge nesse contexto como uma das mais intensas reflex\u00f5es sobre as quest\u00f5es identit\u00e1rias que fazem parte da hist\u00f3ria bissau-guineense. Promovendo reflex\u00f5es sobre conflitos, tens\u00f5es, rela\u00e7\u00f5es de poder e estrat\u00e9gias de resist\u00eancia, os universos ficcionais engendrados pelo autor visibilizam os \u201cenraizamentos din\u00e2micos\u201d, ou \u201cenraizerr\u00e2ncias\u201d (termos defendidos por Bernd (2011) na esteira de Michel Maffesoli), que tornam poss\u00edveis os processos de identifica\u00e7\u00e3o cultural em contextos nos quais a domina\u00e7\u00e3o colonial forjou a imposi\u00e7\u00e3o violenta de uma cultura sobre outras. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O autor surge no panorama das literaturas de l\u00edngua portuguesa como um escritor comprometido com a revis\u00e3o de um passado crivado pelas a\u00e7\u00f5es do colonialismo portugu\u00eas. Suas narrativas convidam \u00e0 reflex\u00e3o sobre a trajet\u00f3ria de guineenses obrigados a se distanciar de suas supostas \u201cra\u00edzes\u201d e d\u00e3o conta das err\u00e2ncias de seres que se colocam na posi\u00e7\u00e3o de migrantes em meio \u00e0s estruturas forjadas pelo colonialismo. O romance <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A \u00daltima Trag\u00e9dia <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1995) \u00e9, nesse sentido, um texto elucidativo no conjunto da obra do mencionado intelectual por iluminar transi\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias inevit\u00e1veis em sociedades em que cren\u00e7as distintas disputam e dividem espa\u00e7o. Mediante o exposto, \u00e9 poss\u00edvel concluir que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A \u00daltima Trag\u00e9dia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> apresenta-se como texto privilegiado para a an\u00e1lise de mov\u00eancias identit\u00e1rias. Migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, adapta\u00e7\u00f5es inevit\u00e1veis e necessidades de negocia\u00e7\u00f5es de sentidos entre cren\u00e7as dos povos colonizador e colonizado s\u00e3o alguns dos elementos visibilizados pela narrativa em quest\u00e3o. Ambientados em leg\u00edtimas \u201czonas de contato\u201d \u2013 isto \u00e9, \u201cespa\u00e7os de encontros coloniais nos quais pessoas geogr\u00e1fica e historicamente separadas entram em contato e estabelecem rela\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas, geralmente associadas a circunst\u00e2ncias de coer\u00e7\u00e3o, desigualdade radical e obstinada\u201d (PRATT, 1999: 31) \u2013, os acontecimentos narrados, por um lado, revelam marcas das fraturas, negocia\u00e7\u00f5es, adapta\u00e7\u00f5es e ren\u00fancias que assinalam as experi\u00eancias transculturais, por outro, registram movimentos de busca identit\u00e1ria inevit\u00e1veis em momentos de crise, conforme assinala Bernd (2011: 17). Sila coloca em cena personagens obrigadas a reformular violentamente seus &#8220;territ\u00f3rios&#8221; interiores e exteriores, haja vista a premente negocia\u00e7\u00e3o entre o antigo que n\u00e3o se pode esquecer e o novo que inevitavelmente se apresenta, imposta a todo colonizado. \u00a0Diante disso, o objetivo central desta pesquisa \u00e9 verificar como a escrita de Abdulai Sila representa os processos de identifica\u00e7\u00e3o em e entre diversos locais, tendo em vista os di\u00e1logos interculturais suscitados pelo tr\u00e2nsito de pessoas, ideias e cren\u00e7as, intensificados em seu pa\u00eds por demandas e conflitos relacionados \u00e0s interven\u00e7\u00f5es do europeu colonizador.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Capaz de recompor, atrav\u00e9s dos \u201catos de recorda\u00e7\u00e3o\u201d (ASSMANN, 2011) entretecidos em suas est\u00f3rias, uma hist\u00f3ria que repensa as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e as rupturas e enraizamentos respons\u00e1veis pelas diversidades presentes em seu pa\u00eds, o autor reavalia as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e evidencia os conflitos enfrentados pelos homens que foram degredados pelas desterritorializa\u00e7\u00f5es decorrentes da domina\u00e7\u00e3o colonial portuguesa. Sua fic\u00e7\u00e3o, nesse sentido, desenvolve revis\u00f5es cr\u00edticas do passado, por revisitar marcos hist\u00f3ricos de seu pa\u00eds, e, conseguintemente, proje\u00e7\u00f5es de futuro, por apontar para as incertezas maculadoras da travessia existencial humana e, com isso, apresentar o car\u00e1ter humano como uma inst\u00e2ncia sempre em devir. Apresenta-se, pois, como, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">transescrita<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (WALTER, 2009: 24, 25, 26, 40, 256), por se mover em espa\u00e7os fronteiri\u00e7os, atravessando contextos e experi\u00eancias culturais desenvolvidas em zonas de contato promotoras de trocas transculturais marcadas por movimentos de apropria\u00e7\u00e3o, reapropria\u00e7\u00e3o, articula\u00e7\u00e3o e rearticula\u00e7\u00e3o, vis\u00e3o e revis\u00e3o (WALTER, 2009: 24- 25). Os gestos mnem\u00f4nicos encenados em sua narrativa potencializam, assim, uma redefini\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o do sujeito, mediante uma afirma\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a atrav\u00e9s da qual, como sublinha Roland Walter, \u201caliena\u00e7\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">desterritorializa\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">)\u201d se traduzem em \u201cdiversidade cultural em processo (reterritorializa\u00e7\u00e3o)\u201d, estilha\u00e7ando, desse modo, \u201co sentido est\u00e1vel e unit\u00e1rio do eu\u201d (WALTER, 2009: 24- 25).<\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]<strong>\u00a0Jos\u00e9 Ant\u00f4nio de Souza J\u00fanior<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>VOZES NO EX\u00cdLIO: UMA ABORDAGEM SOBRE NARRADORES E PERSONAGENS EXILADOS NOS ROMANCES DE JOS\u00c9 EDUARDO AGUALUSA<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Jos\u00e9 Ant\u00f4nio de Souza J\u00fanior (doutorando UEPB \u2013 PPGLI)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Prof\u00aa. Dr\u00aa Francisca Zuleide Duarte de Souza (orientadora UEPB \u2013 PPGLI)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A descoloniza\u00e7\u00e3o de alguns pa\u00edses africanos, que estiveram sob o dom\u00ednio do imp\u00e9rio portugu\u00eas, acarretou uma s\u00e9rie de desdobramentos, dentre os quais podemos citar o nacionalismo liter\u00e1rio. Neste per\u00edodo p\u00f3s-independ\u00eancia, a literatura esteve em sintonia com alguns movimentos pol\u00edticos e sociais, pois assim como estes se prop\u00f4s a resgatar as ra\u00edzes culturais apagadas ou silenciadas durante o per\u00edodo colonial. Nesse sentido, os textos liter\u00e1rios nacionalistas, foram utilizados com o objetivo definir uma identidade pr\u00f3pria de cada na\u00e7\u00e3o africana, em oposi\u00e7\u00e3o ao colonizador portugu\u00eas. No entanto, percebendo a inviabilidade desse projeto identit\u00e1rio essencialista, alguns escritores desenvolveram uma obra liter\u00e1ria direcionada a demonstrar o processo hist\u00f3rico e ficcional de constru\u00e7\u00e3o da identidade cultural de raiz m\u00faltipla dos povos africanos. Dentre esses escritores, destacamos Jos\u00e9 Eduardo Agualusa.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Nascido na cidade de Huambo, Angola, em 1960, o escritor \u00e9 de fam\u00edlia brasileira por parte da m\u00e3e e portuguesa por parte do pai. Adquiriu, a partir de suas refer\u00eancias culturais, um senso de pertencimento \u00e0s tr\u00eas Na\u00e7\u00f5es: Angola, Brasil e Portugal. Essas na\u00e7\u00f5es comp\u00f5em um mosaico cultural sobre o qual o escritor se sente motivado a escrever. A interliga\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses forma uma imagem transnacional, que se encontra vinculada ao percurso liter\u00e1rio do autor, sendo poss\u00edvel percebermos que a biografia de Agualusa est\u00e1 diretamente relacionada ao seu projeto liter\u00e1rio. Come\u00e7ou a publicar no final dos anos oitenta, explorando enredos hist\u00f3ricos e de situa\u00e7\u00f5es de conflitos do per\u00edodo colonial. Surgiu para o grande p\u00fablico, sobretudo, na d\u00e9cada de 1990, como um dos nomes de destaque da nova literatura africana em L\u00edngua Portuguesa. A sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria ganhou destaque, principalmente, a partir de seus romances hist\u00f3ricos que abordam a vida angolana (pr\u00e9-) e (p\u00f3s-) colonial.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Diante de uma conceituada cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, destaca-se, na produ\u00e7\u00e3o \u00a0desse escritor angolano o romance, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O vendedor de passados, (2004) <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">obra agraciada, em 2007, com o Pr\u00eamio de Fic\u00e7\u00e3o Estrangeira concedido anualmente pelo jornal ingl\u00eas &#8220;The Independent&#8221;. Al\u00e9m dessa importante obra n\u00e3o se pode deixar de enfatizar outros romances de grande relev\u00e2ncia: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Conjura<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, (1989); <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Esta\u00e7\u00e3o das Chuvas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, (1996); <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Na\u00e7\u00e3o Crioula: correspond\u00eancia secreta de Fradique Mendes, (<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">1997); <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Um Estranho em Goa,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2000); <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O Ano em que Zumbi Tomou o Rio,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2002); <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">As Mulheres do Meu Pai,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2007); <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Barroco Tropical,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2009); <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Milagr\u00e1rio Pessoal,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2010); <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Teoria geral do Esquecimento, (<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">2012); <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A educa\u00e7\u00e3o sentimental dos p\u00e1ssaros,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2012); <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A vida no c\u00e9u,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2013); <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Rainha Ginga: e de como os africanos inventaram o mundo,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2014) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Sociedade dos Sonhadores Involunt\u00e1rios,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2017). <\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Neste conjunto de obras liter\u00e1rias, observamos que Jos\u00e9 Eduardo Agualusa apresenta um projeto liter\u00e1rio voltado \u00e0 interculturalidade, na medida em que personagens e alguns narradores de seus romances s\u00e3o agenciadores de diversas conex\u00f5es culturais. Isso ocorre devido ao autor estabelecer rela\u00e7\u00f5es rizom\u00e1ticas em seus textos, de tal modo que para compreender seu projeto liter\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio acompanhar a ordem cronol\u00f3gica de suas publica\u00e7\u00f5es, pois cada obra liter\u00e1ria pode ser uma porta de acesso ao universo intercultural do autor.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Os seus romances, al\u00e9m de proporcionarem uma liga\u00e7\u00e3o entre Angola- Brasil-Portugal, estabelecem uma rela\u00e7\u00e3o entre si, como se cada texto compusesse uma grande narrativa lus\u00f3fona. Essa peculiaridade, todavia, somente \u00e9 poss\u00edvel se levarmos em considera\u00e7\u00e3o a presen\u00e7a de narradores e personagens exilados, pois estes se constituem em agenciadores do tr\u00e2nsito cultural. <\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Assim, para o desenvolvimento da discuss\u00e3o, a abordagem da seguinte problem\u00e1tica ser\u00e1 considerada priorit\u00e1ria: de que forma narradores e personagens exilados agenciam os tr\u00e2nsitos culturais nos romances de Jos\u00e9 Eduardo Agualusa?<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Com o intuito de responder a essa problem\u00e1tica, precisamos selecionar alguns romances do autor, para tanto acreditamos que<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Na\u00e7\u00e3o Crioula: correspond\u00eancia secreta de Fradique Mendes e A Rainha Ginga: e de como os africanos inventaram o mundo <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">ser\u00e3o essenciais<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">a essa abordagem.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Nessas obras em foco, Agualusa estabelece uma conex\u00e3o entre realidade e fic\u00e7\u00e3o, ou seja, ele cria um novo sentido para a hist\u00f3ria de seu pa\u00eds e as rela\u00e7\u00f5es dessa na\u00e7\u00e3o com Portugal e com o Brasil. Nessa perspectiva, o escritor angolano realiza o que<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Linda Hutcheon denomina de &#8220;metafic\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica&#8221;, pois assim como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A rainha Ginga<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, o romance <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Na\u00e7\u00e3o Crioula <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u00e9 constru\u00eddo atrav\u00e9s do di\u00e1logo entre literatura e hist\u00f3ria. Neste romance h\u00e1 uma volta ao passado, n\u00e3o somente com o objetivo de resgate das tradi\u00e7\u00f5es silenciadas pelo processo colonial, mas principalmente para reconstruir a mem\u00f3ria do povo angolano com base no que poderia ter acontecido, sob um vi\u00e9s cr\u00edtico. Neste retorno \u00e1s origens, s\u00e3o abordadas quest\u00f5es referentes ao colonialismo portugu\u00eas em Angola, \u00e0 escravid\u00e3o no Brasil e ao tr\u00e1fico negreiro atrav\u00e9s do Atl\u00e2ntico.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Para isso ser vi\u00e1vel, o resgate de um personagem criado por E\u00e7a de Queir\u00f3s \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia. Este personagem \u00e9 Fradique Mendes, um homem movido pela busca de emo\u00e7\u00f5es e pela vontade de conhecer e entender novas culturas. Ao chegar a Luanda, o Fradique de Agualusa experimenta uma Angola repleta de misturas culturais, onde nativos africanos discutem sofisticadas teorias filos\u00f3ficas europeias e descendentes de europeus praticam \u2018feiti\u00e7arias\u2019 medicinais t\u00edpicas do \u00edndio do continente. Essa forma de caracteriza\u00e7\u00e3o da col\u00f4nia se aproxima do pensamento de Stuart Hall (2003), para quem as diferen\u00e7as entre a cultura colonizadora e colonizada s\u00e3o profundas, \u201cmas nunca operaram de forma absolutamente bin\u00e1ria\u201d (HALL, 2003, p. 108). <\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Assim, o processo colonial teria sido essencialmente \u201ctransnacional e transcultural\u201d (HALL, 2003, p. 109). O entrela\u00e7amento cultural do per\u00edodo colonial foi t\u00e3o intenso que Hall o considera inclusive irrevers\u00edvel, desmentindo ideais nacionalistas de retorno \u00e0 cultura origin\u00e1ria. Isso \u00e9 confirmado ao observarmos a primeira impress\u00e3o que Fradique Mendes tem ao desembarcar em Angola, pois fica n\u00edtida a t\u00edpica percep\u00e7\u00e3o do viajante europeu desterritorializado: um misto de estranhamento e nega\u00e7\u00e3o originados da cren\u00e7a na pr\u00f3pria superioridade.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">No entanto, essa cren\u00e7a n\u00e3o resistiu aos primeiros dias do portugu\u00eas no continente. Foi, em um primeiro momento, substitu\u00edda por certa relativiza\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de \u2018hierarquia cultural\u2019.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Essa postura de Fradique Mendes em defender os angolanos j\u00e1 revela o brotar de um sentimento de pertencimento aquele lugar que come\u00e7ava a encant\u00e1-lo. Esse pertencimento, por sua vez, significava que o personagem portugu\u00eas estava mergulhado em um processo de reterritorializa\u00e7\u00e3o. Este processo consiste em uma readapta\u00e7\u00e3o com novas ressignifica\u00e7\u00f5es e redimensionamento dos seus comportamentos, trazendo consigo novas formas, identidades e configura\u00e7\u00f5es. No entanto, segundo Haesbaert e Bruce (2002) n\u00e3o se deve confundir a reterritorializa\u00e7\u00e3o com o retorno a uma territorialidade primitiva ou mais antiga. Isso acontece quando Fradique Mendes come\u00e7a a conhecer e compreender a Angola com todas as suas peculiaridades e tradi\u00e7\u00f5es, pois ele deixa de comparar, negativamente, esse territ\u00f3rio em rela\u00e7\u00e3o a Portugal.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Diante disso, verificamos a viabilidade dessa an\u00e1lise do romance <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Na\u00e7\u00e3o crioula<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, pois nesta obra observamos que o processo de reterritorializa\u00e7\u00e3o, contribui de forma significativa para a mixagem cultural. Isso acontece porque a partir do borramento das fronteiras culturais, claramente demostrada no texto de Agualusa, h\u00e1 o entrela\u00e7amento das variadas culturas. Esse aspecto, todavia, denota uma \u00f3tica construtiva diferenciada, ao suscitar, a partir da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, a exist\u00eancia de um di\u00e1logo intercultural entre os tr\u00eas pa\u00edses: Angola, Brasil e Portugal.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Entretanto, essa caracter\u00edstica n\u00e3o se restringe a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Na\u00e7\u00e3o Crioula, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">pois em outras obras liter\u00e1ria h\u00e1 o mesmo processo de dilui\u00e7\u00e3o de fronteiras e a rela\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito cultural. \u00c9 o que verificamos em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A rainha Ginga &#8211; e de como os africanos inventaram o mundo.<\/span><\/i> <span style=\"font-weight: 400\">Nesta narrativa, Agualusa prop\u00f5e reconstruir ficcionalmente um passado hist\u00f3rico angolano. Para tanto ele destaca em seu romance os atos pol\u00eamicos e irreverentes de Ana de Sousa, a rainha Ginga. Para realizar essa abordagem, o autor escolhe em seu texto um narrador brasileiro, o padre Francisco Jos\u00e9 da Santa Cruz. Esse padre deixa Olinda-PE, sua terra natal, em um navio negreiro com destino a S\u00e3o Salvador do Congo, para ingressar como novi\u00e7o na companhia de Jesus. Ap\u00f3s aproximadamente nove meses de sua chegada ele descobre que a senhora Dona Ginga, irm\u00e3 do rei do Dongo estava precisando de um secret\u00e1rio. Decepcionado com a vida reclusa, o novi\u00e7o solicita ao bispo a permiss\u00e3o para ser o auxiliar de Ginga, que se tornaria rainha ap\u00f3s a morte de seu irm\u00e3o. A fun\u00e7\u00e3o de secret\u00e1rio deveria ser exercida principalmente para suprir uma car\u00eancia no reino Dongo, a de pessoas letradas no idioma portugu\u00eas. Isso era importante, pois para haver comunica\u00e7\u00e3o oficial com o governador portugu\u00eas, Lu\u00eds Mendes de Vasconcelos, era necess\u00e1rio ter \u201calgu\u00e9m ilustrado na ci\u00eancia de desenhar palavras\u201d (AGUALUSA, 2015, p 11). Ao se apresentar a Ginga, houve um processo de estranhamento, pois ela estava esperando uma pessoa totalmente diferente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s caracter\u00edsticas f\u00edsicas do padre. Esse estranhamento se d\u00e1 pelo fato do padre ser um mesti\u00e7o, fruto da uni\u00e3o entre uma \u00edndia da na\u00e7\u00e3o caet\u00e9 e um mulato, portanto, ele \u00e9 um t\u00edpico representante da diversidade \u00e9tnica brasileira. De modo geral o romance centra a sua trama na vida aventureira do padre exilado. <\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Inicialmente ele representa o olhar do colonizador, pois al\u00e9m de ser um estrangeiro em terras angolanas, era um representante da igreja cat\u00f3lica. Por\u00e9m, com o desenrolar da narrativa observamos que a rela\u00e7\u00e3o de Francisco Jos\u00e9 da Santa Cruz com os outros personagens e com o pr\u00f3prio espa\u00e7o geogr\u00e1fico afeta \u00a0diretamente as suas mais arraigadas certezas e verdades. Tornando-o, gradativamente, um ser desterritorializado, em rela\u00e7\u00e3o a sua terra natal e, paralelamente, um sujeito reterritorializado em Angola. Esses processos vivenciados pelo narrador, entretanto, representam a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o em que se encontrava a angola, invadida e habitada por pessoas de diversas partes do mundo.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">De modo geral, nesse romance observamos que ao reconstituir ficcionalmente as fa\u00e7anhas e atitudes da rainha Ginga, o autor refor\u00e7a mais uma vez o seu projeto liter\u00e1rio de borramento das fronteiras culturais no tocante \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre os espa\u00e7os na narrativa, denotando mais uma vez a exist\u00eancia de um di\u00e1logo intercultural entre os tr\u00eas pa\u00edses: Angola, Brasil e Portugal. A partir dessa abordagem, definimos como objetivo geral desta tese demonstrar de que forma narradores e personagens, que se encontram na condi\u00e7\u00e3o de exilados, nos romances <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Na\u00e7\u00e3o crioula<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A rainha Ginga<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de Jos\u00e9 Eduardo Agualusa, s\u00e3o agenciadores das conex\u00f5es culturais.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">A princ\u00edpio, podemos afirmar que esses narradores e esses personagens, agenciam os tr\u00e2nsitos culturais, na medida em que s\u00e3o afetados pelos processos de<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">desterritorializa\u00e7\u00e3o e reterritorializa\u00e7\u00e3o.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\"> Diante dessas reflex\u00f5es, defendemos nesta tese de doutorado que Jos\u00e9 Eduardo Agualusa desenvolve uma obra liter\u00e1ria rizom\u00e1tica, na medida em que desestabiliza o pensamento dicot\u00f4mico. Essa iniciativa do autor se justifica pelo fato dele n\u00e3o acreditar que possa existir no mundo de hoje alguma cultura pura. Por isso, ao inv\u00e9s de destacar uma cultura essecialmente livre de influ\u00eancias, ele demonstra os intensos contatos e rela\u00e7\u00f5es que afirmam o car\u00e1ter m\u00faltiplo dos territ\u00f3rios por ele frequentados. Esse intenso tr\u00e2nsito cultural, por sua vez, n\u00e3o pode ser analisado apenas como um instrumento de ruptura com o \u201cbinarismo\u201d cultural do colonizador-colonizado, mas representa tamb\u00e9m uma forma de resist\u00eancia\/reterritorializa\u00e7\u00e3o \u00e0s vezes bastante rica, recriando, pela mistura, novas formas de constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1rio-territorial.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Para fundamentar essa discuss\u00e3o s\u00e3o fundamentais as contribui\u00e7\u00f5es de: APPIAH, (1997); BHABHA, (2003); CANCLINI, (1997); CHAVES, (2005); DELEUZE, G., GUATTARI, F.; (1995); GILROY, (2008); GLISSANT, (2005); HAESBAERT, R. e BRUCE, G., (2002); HALL, (2003); HUTCHEON, (1991); MATA, (2007); PRATT, (1999); SAID, (2004), entre outros.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Esses e outros te\u00f3ricos ser\u00e3o indispens\u00e1veis \u00e0s abordagens te\u00f3ricas suscitadas ao longo dos quatros cap\u00edtulos da tese. No primeiro, apresentaremos um mapeamento sucinto dos estudos que envolvem Literatura, Hist\u00f3ria e Mem\u00f3ria. Ainda neste contexto, iremos explicitar a \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre a vida e a obra de Jos\u00e9 Eduardo Agualusa, demonstrando de que forma a sua vida n\u00f4made tem afetado a sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. No segundo iremos nos dedicar a discutir como ocorreram os processos de coloniza\u00e7\u00e3o, descoloniza\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-coloniza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio angolano e de como esses processos s\u00e3o abordados por Agualusa em sua produ\u00e7\u00e3o romanesca, sobretudo nos dois romances em estudo. J\u00e1 o terceiro cap\u00edtulo se dedicar\u00e1 a uma an\u00e1lise dos romances em destaque nesta tese, destacando nestas narrativas ficcionais a criouliza\u00e7\u00e3o, o hibridismo cultural, a mesti\u00e7agem e a antropofagia. Por fim, o quarto cap\u00edtulo se destinar\u00e1 a analisar a di\u00e1spora, o ex\u00edlio, a desterritorializa\u00e7\u00e3o e a reterritorializa\u00e7\u00e3o nos romances: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Na\u00e7\u00e3o Crioula: correspond\u00eancia secreta de Fradique Mendes e A Rainha Ginga: e de como os africanos inventaram o mundo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p><b>Palavras-chave:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Literatura angolana. Na\u00e7\u00e3o Crioula. A rainha Ginga. Jos\u00e9 Eduardo Agualusa.<\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<b>Kyssia Rafaela Almeida Pinto<\/b> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>PO\u00c9TICA DA NARRATIVA: MUITO AL\u00c9M D O G\u00caNERO PELO G\u00caNERO, UMA AN\u00c1LISE DA PRODU\u00c7\u00c3O FEMININA DE CR\u00d4NICAS<\/b><\/p>\n<p>Kyssia Rafaela Almeida Pinto &#8211; Doutoranda<\/p>\n<p>Orientador: Dr. Ant\u00f4nio de P\u00e1dua Dias da SILVA<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A literatura feminina, identificada no in\u00edcio do s\u00e9culo XX como fruto da intui\u00e7\u00e3o, do improviso e da espontaneidade estava em contraste com o engenho, a t\u00e9cnica e o talento, que seriam atributos masculinos, j\u00e1 que o espa\u00e7o privado de predom\u00ednio do afetivo estaria para o universo feminino, enquanto o p\u00fablico, no qual predominaria o intelectual, estaria relacionado a produ\u00e7\u00e3o masculina.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim, durante muito tempo a literatura feminina foi percebida e desqualificada como produto circunstancial, manifesta\u00e7\u00e3o de um capricho, esfor\u00e7o in\u00fatil ou simples perda de tempo. As condi\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-hist\u00f3ricas que produziram essa hierarquiza\u00e7\u00e3o, em que as mulheres eram reduzidas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de esposas e donas de casa, reduziram a avalia\u00e7\u00e3o de suas obras a uma perspectiva tendenciosa que desqualifica tal produ\u00e7\u00e3o, identificando como mais ligada a uma cultura popular e subalterna, em contraste com nichos de excel\u00eancia sempre ocupados por homens brancos e heterossexuais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse sentido, o objetivo dos debates, empreendidos pela Cr\u00edtica Feminista, acerca do espa\u00e7o relegado \u00e0 mulher na sociedade, bem como das consequ\u00eancias, ou dos reflexos da\u00ed advindos, para o \u00e2mbito liter\u00e1rio, s\u00e3o de grande relev\u00e2ncia para os Estudos Culturais e Liter\u00e1rios, nosso campo te\u00f3rico nesse estudo. Trata-se de tentar romper com os discursos sacralizados pela tradi\u00e7\u00e3o, nos quais a mulher ocupa, \u00e0 sua revelia, um lugar secund\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao lugar ocupado pelo homem, marcado pela marginalidade, pela submiss\u00e3o e pela resigna\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"> Tais discursos n\u00e3o s\u00f3 interferem no cotidiano feminino, mas tamb\u00e9m acabam por fundamentar os c\u00e2nones cr\u00edticos e te\u00f3ricos tradicionais e masculinos que regem o saber sobre a literatura. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As discuss\u00f5es que envolvem o tema \u201cmulher e literatura\u201d t\u00eam conseguido ocupar um espa\u00e7o bastante relevante no meio acad\u00eamico nas \u00faltimas d\u00e9cadas: muitas s\u00e3o as obras publicadas sobre o assunto, n\u00e3o apenas nos pa\u00edses considerados ber\u00e7os dos estudos feministas, como Fran\u00e7a, Inglaterra e Estados Unidos, mas tamb\u00e9m no Brasil; muitos s\u00e3o os semin\u00e1rios que re\u00fanem anualmente especialistas e simpatizantes dessa linha de pesquisa; e cada vez \u00e9 maior o n\u00famero de teses, disserta\u00e7\u00f5es, artigos e monografias que se dedicam ao tema.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tendo detectado o fato de que a mulher sempre fora produtora de uma literatura pr\u00f3pria, embora esta tenha permanecido por tanto tempo no limbo, cr\u00edticos(as) feministas, ao desempenharem a fun\u00e7\u00e3o de faz\u00ea-la emergir, reinterpretando-a e revisando os mecanismos dos pressupostos te\u00f3ricos que a marginalizaram, com o objetivo de descrev\u00ea-la, dando a conhecer suas marcas, suas peculiaridades em cada \u00e9poca espec\u00edfica. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Noutras palavras, elas constru\u00edram sua tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria (que n\u00e3o \u00e9 absolutamente inata ao sexo biol\u00f3gico) a partir das rela\u00e7\u00f5es, ainda em desenvolvimento, travadas com a sociedade maior em que se inserem. E tendo em vista todas essas nuances apresentadas at\u00e9 aqui, que questionam os ditames que regeram a produ\u00e7\u00e3o e cr\u00edtica liter\u00e1ria durante s\u00e9culos, que desejamos desenvolver o nosso estudo que visa analisar a produ\u00e7\u00e3o de cr\u00f4nicas femininas na contemporaneidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para o embasamento te\u00f3rico deste trabalho estamos realizando o aprofundamento de nossas pesquisas e leituras, mas alguns te\u00f3ricos se constituem como relevantes e vem norteando nossa discuss\u00e3o. O cen\u00e1rio liter\u00e1rio p\u00f3s-aut\u00f4nomo que se constr\u00f3i de acordo com Josefina Ludmer (2007), \u00e9 um dos elementos bases de nosso projeto que visa questionar as fronteiras impostas pelo c\u00e2none e os te\u00f3ricos liter\u00e1rios na formula\u00e7\u00e3o e classifica\u00e7\u00e3o dos g\u00eaneros liter\u00e1rios que mantiveram os estudos liter\u00e1rios \u201camarrados\u201d a padr\u00f5es e conceitos que n\u00e3o s\u00e3o capazes de definir a produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, como \u00e9 defendido por<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Luciano Barbosa Justino (2014), Ant\u00f4nio de P\u00e1dua Dias da Silva (2016) ou ainda por Marcia Abreu (2006) em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Cultura letrada: literatura e leitura.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> No que concerne aos estudos de g\u00eanero, utilizaremos inicialmente as contribui\u00e7\u00f5es de Louro (2008) e Schneider (2006).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para a discuss\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao g\u00eanero liter\u00e1rio aqui analisado e a constru\u00e7\u00e3o do c\u00e2none nos embasaremos em Harold Bloom (1995) em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Elegia para o Can\u00f4ne<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e Hermenegildo Bastos (2011); al\u00e9m de te\u00f3ricos como Coutinho (2008), Massaud Mois\u00e9s (2004) Alfredo Bosi (1994), Ant\u00f4nio Candido (2007) e Compagnon (2001). No que se refere a um estudo mais especifico do g\u00eanero cr\u00f4nica, suas caracter\u00edsticas e especificidades, utilizaremos os estudo de S\u00e1 (2001), Costa (2005) al\u00e9m de trabalhos como o de Maria Cristina Ribas em artigo publicado nos Anais do XIII ABRALIC intitulado, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Por uma revis\u00e3o conceitual do g\u00eanero cr\u00f4nica: entre a montanha e o r\u00e9s do ch\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No que concerne ao objeto de estudo do nosso trabalho, selecionamos o g\u00eanero cr\u00f4nica, por entender que este consegue representar de forma bastante simb\u00f3lica as necessidades elencadas como norteadoras deste estudo, pois valendo-nos de uma express\u00e3o de S\u00e1 (2001, p. 7), a cr\u00f4nica seria \u201co registro do circunstancial\u201d. Desse modo podemos acreditar que a cr\u00f4nica n\u00e3o se produz em uma \u00fanica dire\u00e7\u00e3o ou vertente, da\u00ed a exist\u00eancia de uma tipologia trabalhada por alguns autores e as defini\u00e7\u00f5es de cr\u00f4nica serem m\u00faltiplas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A cr\u00f4nica \u00e9, sem d\u00favida, um dos g\u00eaneros mais populares da literatura brasileira, com tradi\u00e7\u00e3o de grandes autores e, consequentemente, muitos leitores. A tentativa de compreens\u00e3o sobre este g\u00eanero passa por alguns caminhos, como a defini\u00e7\u00e3o de seus suportes, o modo diferenciado com que confronta o limite do liter\u00e1rio e o mercadol\u00f3gico, sua representa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o local do autor dentro do texto, al\u00e9m da intencionalidade clara de dialogar com um leitor que seja inteiramente inserido no tempo presente. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A inten\u00e7\u00e3o deste estudo, ent\u00e3o, \u00e9 trazer algumas hip\u00f3teses de reflex\u00e3o para a cr\u00f4nica contempor\u00e2nea brasileira, mas especificamente a cr\u00f4nica produzida por mulheres. Levando em considera\u00e7\u00e3o algumas perspectivas: a primeira, discutir\u00e1 o \u201cespa\u00e7o\u201d no qual \u00e9 produzida atualmente, tanto no suporte impresso quanto no suporte digital; muitos textos hoje \u201cnascem e morrem\u201d no ambiente virtual. A segunda, entrar\u00e1 na discuss\u00e3o da escrita feminina, quais os elementos que podem caracterizar essa produ\u00e7\u00e3o? Porque essa escrita foi silenciada durante tanto tempo? A terceira, busca analisar, partindo do pressuposto de que a cr\u00f4nica usa a quest\u00e3o do recorte local de seu autor, como uma de suas bases conceituais; quais as nuances que marcam a produ\u00e7\u00e3o de cr\u00f4nicas na contemporaneidade, ou melhor, a produ\u00e7\u00e3o de cr\u00f4nicas escritas por mulheres na atualidade. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desta forma, alguns conceitos nortear\u00e3o nosso trabalho: 1) no\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, discutidas em confronto com a no\u00e7\u00e3o de essencialidade da mulher; 2) no\u00e7\u00f5es de representa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, de autoria e de leitor\/leitora; 3) no\u00e7\u00e3o do c\u00e2none liter\u00e1rio e cr\u00edtico, discutindo a legitimidade do que \u00e9, ou n\u00e3o, considerado liter\u00e1rio e de qualidade est\u00e9tica e por fim, 4) conceito de cr\u00f4nica, continua o mesmo desde as primeiras produ\u00e7\u00f5es, existiu uma reformula\u00e7\u00e3o deste termo, ou ser\u00e1 poss\u00edvel construir um novo conceito que consiga absorver a multiplicidade da produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para que este exerc\u00edcio interpretativo se torne completo, colocaremos em pr\u00e1tica todas as discuss\u00f5es levantadas a partir da an\u00e1lise de um conjunto de cr\u00f4nicas, composto pelos tr\u00eas livros selecionados como corpus de an\u00e1lise deste trabalho. Trata-se da trilogia: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Paix\u00e3o cr\u00f4nica, Liberdade cr\u00f4nica e Felicidade cr\u00f4nica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, da autora contempor\u00e2nea Martha Medeiros, um dos nomes mais representativos do g\u00eanero na atualidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"> Portanto, a ideia principal da tese \u00e9 demonstrar que a cr\u00f4nica, representa um excelente modo de compreender, de maneira din\u00e2mica e complexa, as situa\u00e7\u00f5es e concep\u00e7\u00f5es que formam sua \u00e9poca, afinal, n\u00e3o existe g\u00eanero que se alimente mais do tempo presente do que a cr\u00f4nica, assim como evidenciar a significativa produ\u00e7\u00e3o feminina no cen\u00e1rio nacional, buscando perceber as nuances que caracterizam essa escrita.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No que concerne ao est\u00e1gio da nossa pesquisa, realizamos a escrita de um cap\u00edtulo equivalente a introdu\u00e7\u00e3o do trabalho, que j\u00e1 foi encaminhado e discutido com o orientador. No momento, estamos organizando a esquematiza\u00e7\u00e3o dos demais cap\u00edtulos com a leitura do corpus e aprofundamento da fundamenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, por meio de pesquisas bibliogr\u00e1ficas e leituras complementares.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desejamos organizar a tese da seguinte forma: a introdu\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 foi iniciada; um cap\u00edtulo te\u00f3rico, no qual revisitaremos a fortuna cr\u00edtica no que concerne a conceitua\u00e7\u00e3o do g\u00eanero cr\u00f4nica; um cap\u00edtulo de an\u00e1lise, o qual subdividiremos em tr\u00eas partes, uma para cada obra estudada, e o \u00faltimo de conclus\u00e3o do trabalho. No momento, estamos debru\u00e7ados na constru\u00e7\u00e3o do cap\u00edtulo te\u00f3rico que dever\u00e1 ser entregue at\u00e9 o in\u00edcio do pr\u00f3ximo ano ao orientador. Enquanto o cap\u00edtulo de an\u00e1lise ser\u00e1 produzido em meados de 2019, momento no qual, desejamos nos preparar para a qualifica\u00e7\u00e3o e conclus\u00e3o da escrita da tese at\u00e9 o t\u00e9rmino deste mesmo ano, para que no ano seguinte, 2020, realizemos a defesa final da tese.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De qualquer modo, seja representando a mulher como seres oprimidos, atados \u00e0s amarras de ideologias, como a patriarcal, que subjugam o sexo feminino, seja a representando como figuras engajadas no processo de transforma\u00e7\u00e3o social, reivindicando o direito de preserva\u00e7\u00e3o da identidade, seja, enfim, representando mulheres liberadas, capazes de decidir o rumo que desejam imprimir \u00e0 pr\u00f3pria hist\u00f3ria, o fato \u00e9 que a tradi\u00e7\u00e3o da literatura de autoria feminina vem se consolidando no Brasil. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Gra\u00e7as aos estudos de g\u00eanero, de modo especial, \u00e0 critica liter\u00e1ria feminista, os posicionamentos cr\u00edticos tradicionais que costumavam rotular os textos de autoria feminina como sendo \u201ccoisas de mulher\u201d, \u201cfutilidades\u201d, \u201camenidades\u201d, ou coisa assim, perderam credibilidade. A mulher escritora tem, finalmente, seu trabalho reconhecido no meio acad\u00eamico, hoje, consciente de que o valor est\u00e9tico da literatura can\u00f4nica n\u00e3o reside apenas no pr\u00f3prio texto, mas em fatores marcados por preconceitos de cor, de ra\u00e7a, de classe social e de sexo, constru\u00eddos em conson\u00e2ncia com os valores da ideologia patriarcal que ainda regem a nossa cultura.<\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<b>Maria Aparecida Nascimento de Almeida<\/b> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>NTRE SONHO E REALIDADE: A MULTIPLICIDADE DE PERFIS DA MULHER SUBALTERNIZADA NA OBRA DE L\u00cdLIA MOMPL\u00c9<\/b><\/p>\n<p>Maria Aparecida Nascimento de Almeida<span style=\"font-weight: 400\"> (Doutoranda \/ UEPB \/ PPGLI)<\/span><\/p>\n<p>Prof\u00aa Dr\u00aa Rosilda Bezerra Alves<span style=\"font-weight: 400\"> (Orientadora \/ UEPB \/ PPGLI)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>RESUMO<\/b><\/p>\n<p><b>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> &#8211; A partir da segunda metade do s\u00e9culo XX movimentos de cunho feminista fizeram emergir, no mundo ocidental, o interesse pelos estudos relacionados a misoginia como um conceito constru\u00eddo por mecanismos socioculturais. Assim como outras \u00e1reas do conhecimento a literatura n\u00e3o ficou alheia as discuss\u00f5es. De forma que a subalterniza\u00e7\u00e3o feminina se tornou foco de pesquisas, cujos objetivos s\u00e3o investigar as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero em diversos contextos hist\u00f3rico-sociais por meio da fic\u00e7\u00e3o. Contudo, F\u00e1bio Mario da Silva, ao apresentar a obra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O Feminino nas Literaturas Africanas em L\u00edngua Portuguesa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, adverte, apesar do crescente debate o tema deve ser abordado, no que toca a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria em \u00c1frica, sob uma \u00f3tica diferenciada a fim de evitar incongru\u00eancia, uma vez que \u201c[&#8230;] a rela\u00e7\u00e3o do corpo com as mulheres, no contexto africano, teria uma outra din\u00e2mica\u201d. (SILVA, 2014, n.p.) A incompatibilidade entre conceitos e teorias euroc\u00eantricas e os estudos liter\u00e1rios africanos \u00e9 constantemente destacada pelos pesquisadores da \u00e1rea, por\u00e9m, a informa\u00e7\u00e3o subsequente apresenta um voc\u00e1bulo chave para compreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o que a mulher \u00e9 obrigada a estabelecer com o pr\u00f3prio corpo, no continente. Trata-se da palavra din\u00e2mica, a qual pode sugerir conformidade com preceitos culturais ou ainda remeter a movimento e for\u00e7as. Para fins deste estudo relacionamos a din\u00e2mica, destacada por Silva (2014, n.p.), a situa\u00e7\u00e3o dos \u201ccorpos femininos\u201d postos em movimento por influ\u00eancia de for\u00e7as hostis que impulsionam ou modificam suas a\u00e7\u00f5es, impedindo \u00e0s mulheres de procederem segundo as pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es, vetando as subjetividades e mecanizando seus comportamentos. Neste contexto atos e palavras tendem a ser controlados, mas, se h\u00e1 personagens que experimentam um profundo des\u00e2nimo, registra-se a postura dos seres ficcionais que se permitem sonhar. Na fic\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel verificar essa proposi\u00e7\u00e3o por meio da diverg\u00eancia entre pensamentos, palavras e atos de personagens femininas que figuram na literatura africana de l\u00edngua portuguesa. No entanto, a reflex\u00e3o acerca da persist\u00eancia feminina pressup\u00f5e um recorte tem\u00e1tico, pois ampliar as discuss\u00f5es as na\u00e7\u00f5es lus\u00f3fonas al\u00e9m de pretens\u00e3o seria desconsiderar as peculiaridades de cada pa\u00eds. Assim prop\u00f5e-se, na tese, reflex\u00f5es acerca da literatura mo\u00e7ambicana, de forma espec\u00edfica, das obras de L\u00edlia Mompl\u00e9: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ningu\u00e9m matou Suhura, Os olhos da cobra verde e Neighbours,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> nas quais verifica-se a subordina\u00e7\u00e3o de personagens femininas, sejam protagonistas ou secund\u00e1rias. A minuciosa descri\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica permite analisar a subjetividade, constatando as agruras do \u201cser\u201d feminino em diferentes \u00e9pocas, bem como oportuniza sondar as perspectivas futuras em meio \u00e0s adversidades. <\/span><\/p>\n<p><b>OBJETIVOS &#8211;<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Pretende-se, assim, apresentar os perfis das mulheres subalternizadas tra\u00e7ados em uma escrita que n\u00e3o se pretende feminina nem feminista, como afirma a autora \u201c[&#8230;] a minha escrita n\u00e3o \u00e9 conscienciosamente feminina [&#8230;] Deve ter havido qualquer mecanismo inconsciente que favoreceu a mulher naquilo que escrevo\u201d. (MOMPL\u00c9, 2012, p. 13). Nega-se, portanto, uma perspectiva reivindicativa, apesar de L\u00edlia Mompl\u00e9 afirmar ter a escrita um papel social e assumir que todas as suas obras foram escritas n\u00e3o apenas pelo prazer, constituindo-se a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria uma forma libert\u00e1ria de cargas emocionais negativas. <\/span><\/p>\n<p><b>JUSTIFICATIVA<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> &#8211; A contradi\u00e7\u00e3o apontada levanta o questionamento estaria a hesita\u00e7\u00e3o, da escritora, em definir os perfis de suas personagens femininas, relacionada a situa\u00e7\u00e3o da mulher, na atual configura\u00e7\u00e3o social mo\u00e7ambicana? Na esteira dessa indaga\u00e7\u00e3o expomos aspectos a serem investigados ao longo da escrita da tese defendida, dentre eles: por que L\u00edlia Mompl\u00e9 afirma n\u00e3o ser do tipo de mulher reivindicativa ou feminista, apesar de confessar ser a sua obra baseada na realidade da mulher mo\u00e7ambicana e reconhecer que esta \u00e9 sofrida? Como \u00e0s personagens femininas interpretam o \u201cser\u201d e \u201cestar\u201d mulher em Mo\u00e7ambique? Podem estas personagens influenciar a constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria das mulheres mo\u00e7ambicanas? Quais mecanismos favorecem \u201co ser\u201d feminino na escrita de L\u00edlia Mompl\u00e9? Como portam-se protagonistas e personagens secund\u00e1rias ao longo das d\u00e9cadas ficcionalizadas por L\u00edlia Mompl\u00e9? Houve transforma\u00e7\u00e3o no que toca a situa\u00e7\u00e3o da mulher no per\u00edodo colonial, destacado na antologia <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">N\u00edngu\u00e9m matou Suhura<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">; p\u00f3s-colonial, evidenciado por meio dos contos que comp\u00f5em a colet\u00e2nea de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Os olhos da cobra verde<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, e neocolonial, enfatizado na novela <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Neighbours<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">? A qual retrata a asfixiante interven\u00e7\u00e3o sul-africana em Mo\u00e7ambique no per\u00edodo do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">apartheid<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. <\/span><\/p>\n<p><b>FUNDAMENTA\u00c7\u00c3O TE\u00d3RICA<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> &#8211; Esses questionamentos despertaram o interesse em produzir um trabalho que revele n\u00e3o apenas as humilha\u00e7\u00f5es impostas \u00e0s personagens femininas, mas tamb\u00e9m a coragem e poder de supera\u00e7\u00e3o daquelas que optaram por se rebelar em prol de um ideal, ousando sonhar em meio caos instaurado em uma sociedade, onde a mulher \u00e9 multiplamente subjugada por quest\u00f5es raciais, sociais, culturais, educacionais e sexuais, conforme observado ao longo da obra de L\u00edlia Mompl\u00e9. A problem\u00e1tica apresentada tamb\u00e9m visibiliza a mulher escritora, cuja voz permanece \u00e0 margem de sistemas liter\u00e1rios que privilegiam a publica\u00e7\u00e3o de obras escritas por homens. Embora haja hesita\u00e7\u00e3o da autora em definir seus textos como \u201carte de protesto\u201d, tal constata\u00e7\u00e3o denota a legitimidade de reivindicar a igualdade de direitos seja no plano real ou ficcional. Que as personagens mulheres de L\u00edlia Mompl\u00e9 s\u00e3o sofridas \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o, evidenciada pela pr\u00f3pria escritora em entrevista concedida a Revista Literatas (2012, p. 13). Embora evite refletir, criticamente, sobre a sua obra a autora corroborou uma tese defendida a esse respeito e acrescentou \u201c[&#8230;] Toda a minha obra \u00e9 baseada na realidade, e a mulher mo\u00e7ambicana \u00e9 sofrida, \u00e9 natural que ela apare\u00e7a como sofrida. Gostaria que apare\u00e7am mais mulheres a escrever o outro lado.\u201d No entanto, observamos ao longo da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de L\u00edlia Mompl\u00e9 a abordagem deste \u201coutro lado\u201d. \u00c9 bem verdade que as personagens femininas que habitam as obras de L\u00edlia Mompl\u00e9 s\u00e3o, em sua maioria, marginalizadas, por\u00e9m a mera inten\u00e7\u00e3o de ascender socialmente ou dispor de condi\u00e7\u00f5es igualit\u00e1rias \u00e9 o suficiente para persegui\u00e7\u00e3o e demonstra\u00e7\u00e3o do autoritarismo patriarcal que gere a inst\u00e2ncia cultural no pa\u00eds. Tais informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o pertinentes a abordagem proposta por ilustrar o contexto de subalterniza\u00e7\u00e3o da mulher. De forma que Afonso (2004), Caba\u00e7o (2009), Al\u00f3s (2011-2013), Capela (2010), Duarte (2005-2012) Carvalho (2009), Fleck (2010), Ferreira (2000), Fanon (1968), Gobbi (2011), Hamilton (1999), Hernandez (2008), Leite (2012-2013), Mata (1994-2007-2009), Martinez (2008), Padilha (2007-2011), Newitt (1997), Thomaz (2005), Visentini (2014) e Zamparoni (2004-2006) s\u00e3o fundamentais a compreens\u00e3o da conjuntura de Mo\u00e7ambique durante a coloniza\u00e7\u00e3o e descoloniza\u00e7\u00e3o. Acrescente-se ao referencial supracitado as pesquisas acerca do \u201cser\u201d feminino em \u00c1frica, das personagens-mulheres de L\u00edlia Mompl\u00e9 e da literatura mo\u00e7ambicana, dentre as quais destacamos \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es de Abdala Jr. (2010), Almeida (2002), Badinter (2005), Bonnici (2011), Butler (2008); Fonseca (2008-2012), Hall (2003-2006), Bhabha (1998), Appiah (1997), Le\u00e3o (2003), Macedo (2003), Martinho (1999), Pereira (2010), Salgado (2010), Secco (2010-2012), Silva (2014), Sohat e Stam (2006), Tutikian (2006) e Spivak (2010).<\/span><\/p>\n<p><b>METODOLOGIA<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> &#8211; A descri\u00e7\u00e3o das etapas ressalta a configura\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica e anal\u00edtica da tese. De sorte que livros, peri\u00f3dicos cient\u00edficos, impressos ou online, entrevistas, monografias, disserta\u00e7\u00f5es e teses podem constituir-se suporte de investiga\u00e7\u00e3o, desde que apresentem abordagens significativas para a pesquisa que se desenvolve a partir do levantamento completo e leitura da bibliografia: \u00a0espec\u00edfica do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">corpus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e te\u00f3rica, com vistas a defini\u00e7\u00e3o do referencial epistemol\u00f3gico. A revis\u00e3o de literatura sobre a tem\u00e1tica e an\u00e1lise das obras constituem a pr\u00f3xima etapa. Por fim, articular-se-\u00e1 os contos e a novela com a teoria e cr\u00edtica liter\u00e1rias, registrando \u00e0s conclus\u00f5es que resultar\u00e3o na tese.<\/span><\/p>\n<p><b>CONCLUS\u00c3O<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> &#8211; Em meio a diversas formas de subordina\u00e7\u00e3o, impostas ao \u201cser\u201d feminino, emerge o direito de sonhar como fuga da realidade e incentivo \u00e0 luta, pois \u00e0s personagens precisam enfrentar for\u00e7as opressoras com caracter\u00edsticas distintas. Em um primeiro momento tornam-se alvo de um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">poder intercontinental<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, representado pelos colonizadores portugueses, na sequ\u00eancia da independ\u00eancia s\u00e3o afetadas pela tirania de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">poderes opostos nacionais<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, e novamente atingidas por pr\u00e1ticas degradantes exercidas pelo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">poder continental<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> dos sul-africanos. No contexto descrito torna-se oportuno o ret\u00f3rico questionamento de Spiwak (2010) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Pode o subalterno falar?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Verificamos que \u00e0s dificuldades s\u00e3o ampliadas se a indaga\u00e7\u00e3o for \u201cPodem \u00e0s mulheres subalternizadas falar?\u201d Dois fatores merecem destaque nas constru\u00e7\u00f5es interrogativas, subalterniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o, mas, imposi\u00e7\u00e3o; quanto ao direito de express\u00e3o observa-se no decorrer da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de L\u00edlia Mompl\u00e9 momentos de silenciamento, resigna\u00e7\u00e3o e contesta\u00e7\u00e3o por pensamento, palavras e atos. \u00c0s vozes narrativas oniscientes permitem conhecer os sofrimentos passados, verificar a presente realidade e sondar os desejos para o futuro. O foco anal\u00edtico proposto situa-se entre a subalterniza\u00e7\u00e3o e a supera\u00e7\u00e3o. De forma que \u00e9 pertinente interpelar \u201cPodem \u00e0s mulheres subalternizadas sonhar?\u201d H\u00e1 perfis femininos nas obras de L\u00edlia Mompl\u00e9 que sinalizam para uma resposta positiva, por\u00e9m, resultados contundentes ser\u00e3o apresentados apenas na conclus\u00e3o da pesquisa, a qual evidenciar\u00e1 o percurso trilhando pelas personagens mulheres da realidade ao sonho.<\/span><\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">AFONSO, Maria Fernanda. <\/span><b>O conto mo\u00e7ambicano<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: escritas p\u00f3s-coloniais<\/span><b>.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Lisboa: \u00a0Caminho, 2004.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BADINTER, Elizabeth. <\/span><b>Rumo equivocado \u2013 o feminismo e alguns destinos<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2005.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BUTLER, Judith P. <\/span><b>Problemas de g\u00eanero: feminismo e subvers\u00e3o da identidade<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2008<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CABA\u00c7O, Jos\u00e9 Lu\u00eds. <\/span><b>Mo\u00e7ambique<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: identidade, colonialismo e liberta\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: UNESP, 2009.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MARTINHO, Ana Maria M\u00e3o-de-Ferro (Org.). <\/span><b>A Mulher Escritora em \u00c1frica e na Am\u00e9rica Latina<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. \u00c9vora: NUM, 1999.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MATA, Inoc\u00eancia. <\/span><b>As vozes femininas na literatura africana: passado e presente \u2013 Representa\u00e7\u00f5es da mulher na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de mulheres<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Anais do Congresso O rosto feminino da expans\u00e3o portuguesa. Lisboa, 1994.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MATA, Inoc\u00eancia. PADILHA, Laura Cavalcante. <\/span><b>A mulher em \u00c1frica: Vozes de uma margem sempre presente<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Lisboa: Colibri\/Centro de Estudos Africanos, FLUL, 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MOMPL\u00c9, Lilia. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Entrevista<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. In: <\/span><b>Literatas<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> \u2013 Revista de Literatura Mo\u00e7ambicana e Lus\u00f3fona, ago. 2012. Dispon\u00edvel em: &lt;<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">http:\/\/revistaliteratas.blogspot.com.br&gt; Acesso em: 17 fev. 2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MOMPL\u00c9, L\u00edlia. <\/span><b>Ningu\u00e9m matou Suhura<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: est\u00f3rias que ilustram a hist\u00f3ria. Maputo: AEMO, 2009.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MOMPL\u00c9, L\u00edlia. <\/span><b>Os olhos da cobra verde<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Maputo: AEMO, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MOMPL\u00c9, L\u00edlia. <\/span><b>Neighbours<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Porto: Porto Editora, 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SILVA, Fabio Mario da (Org.). <\/span><b>O Feminino nas Literaturas Africanas em L\u00edngua Portuguesa<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 1. ed. Lisboa: CLEPUL &#8211; Centro de Literaturas e Culturas Lus\u00f3fonas e Europeias, Faculdade de Letras de Lisboa. 2014.v.1. 247p. e-book. <\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<strong>Maria Rennally Soares da Silva<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>A CONSTRU\u00c7\u00c3O IDENTIT\u00c1RIA DE ASSIA DJEBAR NO ENTRELUGAR <\/b><\/p>\n<p><b>LITER\u00c1RIO FRANCO-\u00c1RABE, EM QUATRO ROMANCES<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Doutoranda: Maria Rennally Soares da Silva<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Orientadora: Francisca Zuleide Duarte de Souza<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na contemporaneidade, as literaturas p\u00f3s-coloniais consistem em formas de superar as subordina\u00e7\u00f5es pela qual os povos culturalmente h\u00edbridos passaram (PEREIRA; SOUZA, 2016), narrando hist\u00f3rias diferentes das que s\u00e3o contadas pelo dom\u00ednio imperialista, em busca de resistir, preservar e resguardar os valores culturais de origem. Al\u00e9m disso, \u00e9 comum encontrarmos nas literaturas p\u00f3s-coloniais de express\u00e3o francesa, obras autobiogr\u00e1ficas narrando hist\u00f3rias de personagens que trazem as caracter\u00edsticas culturais de duplicidade e de ambiguidade que revelam o hibridismo identit\u00e1rio de que fala Homi Bhabha (2005) em seus estudos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No contexto da coloniza\u00e7\u00e3o de pa\u00edses africanos temos a Arg\u00e9lia, cujo povo foi massacrado e explorado pela Fran\u00e7a. O povo argelino, que havia sido derrotado pelo seu colonizador, encontrou, na express\u00e3o liter\u00e1ria, uma forma de n\u00e3o silenciar diante da subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 qual foi submetido. Neste \u00e2mbito liter\u00e1rio magrebino, vimos h\u00e1 alguns anos, lendo e estudando a obra da escritora argelina Fatima Zohra Imalay\u00e8ne (1936-2015) que, tendo adotado o pseud\u00f4nimo de Assia Djebar, realizou uma vasta obra que compreende desde romances, novelas, poemas, ensaios at\u00e9 pe\u00e7as de teatro e cinema, adotando como tema central de suas produ\u00e7\u00f5es a emancipa\u00e7\u00e3o feminina e a situa\u00e7\u00e3o conflituosa da Arg\u00e9lia \u00e0 \u00e9poca da coloniza\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim, nesta pesquisa, temos como objetivo geral: identificar como se revela a constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria franco-\u00e1rabe da escritora argelina Assia Djebar em sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, atrav\u00e9s da an\u00e1lise de quatro de suas obras, a saber: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">La so\u00eff <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1957)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">, L\u2019amour, la Fantasia <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1985), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ces voix qui m\u2019assi\u00e8gent <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1999)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">e<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Nulle part dans la maison de mon p\u00e8re <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(2007). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim, a percep\u00e7\u00e3o da problem\u00e1tica de uma dicotomia identit\u00e1ria franco-\u00e1rabe na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de Assia Djebar nos levou a nos indagar: como esta dupla identidade cultural se revela em sua obra e, de modo particular, nos romances supramencionados? A nossa hip\u00f3tese, para responder a esse questionamento e a alguns outros, \u00e9 a de que as rupturas causadas pelo processo de coloniza\u00e7\u00e3o fragmentaram a identidade cultural da escritora Assia Djebar em duas partes. Assim, levantamos a tese de que tais rupturas a colocaram no entrelugar liter\u00e1rio franco-\u00e1rabe e a levaram a utilizar a l\u00edngua do colonizador para fazer ouvir a si mesma e, consequentemente, a sua na\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A respeito da metodologia adotada, classificamos esta pesquisa como uma investiga\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica, visto que buscamos compreender como a dupla identidade cultural da escritora argelina Assia Djebar se revela em sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Temos como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">corpus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> a ser analisado \u00e0 luz dos fundamentos te\u00f3rico-metodol\u00f3gicos, excertos de quatro obras da referida escritora, a saber: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">La so\u00eff <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1957)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">, L\u2019amour, la Fantasia <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1985), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ces voix qui m\u2019assi\u00e8gent <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1999)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">e<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Nulle part dans la maison de mon p\u00e8re <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(2007). Para o desenvolvimento desta pesquisa, em um primeiro momento estamos realizando releituras das obras em an\u00e1lise e tra\u00e7ando um perfil da escritora Assia Djebar a partir dos elementos autobiogr\u00e1ficos encontrados nos romances supracitados. Posteriormente selecionaremos os excertos a serem analisados e buscaremos alcan\u00e7ar os objetivos pretendidos (geral e espec\u00edficos). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sobre essa autora, destacamos que a maior parte dos seus romances s\u00e3o de cunho autobiogr\u00e1fico (SOARES, 1990) e que Assia Djebar \u00e9 tida como uma das mais influentes personalidades da literatura feminina do Magrebe, uma verdadeira porta-voz da mulher diante do sil\u00eancio ao qual foi condicionada a mulher magrebina atrav\u00e9s da literatura. Exilada na Fran\u00e7a durante alguns anos e, posteriormente, transitando entre Paris e a Arg\u00e9lia, atrav\u00e9s da literatura, Assia Djebar narra a si mesma e \u00e0 sua na\u00e7\u00e3o de forma dicot\u00f4mica, ao tempo em que n\u00e3o consegue expressar as suas mais afetivas lembran\u00e7as em l\u00edngua francesa, pois esta \u00e9 a l\u00edngua do colonizador, Djebar precisa desta l\u00edngua para contar a sua hist\u00f3ria e a do seu pa\u00eds, removendo tanto a mulher \u00e1rabe, quando a Arg\u00e9lia, do lugar de silenciamento ao qual ambas foram condicionadas (SILVA, 2017).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Este projeto, temos como fundamentos te\u00f3ricos algumas reflex\u00f5es acerca da literatura enquanto um espa\u00e7o de afirma\u00e7\u00e3o e de reconstru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria no contexto magrebino (COMBE, 2010), tendo as literaturas p\u00f3s-coloniais de determinados autores como o ber\u00e7o deste processo. Logo, temos como apoio te\u00f3rico as reflex\u00f5es de Edward Said (2007) no que concerne aos estudos p\u00f3s-coloniais, bem como aos estudos de Frantz Fanon (2008), a respeito das formas de explora\u00e7\u00e3o e de subalterniza\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tamb\u00e9m temos como base te\u00f3rica Stuart Hall (2003), no que se refere \u00e0s quest\u00f5es do hibridismo identit\u00e1rio cultural das personagens e da autora em estudo e Hommi Bhabha (2005) com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hibridiza\u00e7\u00e3o cultural pela qual passou Assia Djebar. A partir de tais reflex\u00f5es, situaremos a escritora argelina Assia Djebar, cuja obra liter\u00e1ria se constitui no objeto de estudo de nossa pesquisa, apontando-a como uma escritora que permanece no entrelugar liter\u00e1rio franco-\u00e1rabe, situada no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">locus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">desex\u00edlio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> apontado por Benedetti (1999), utilizando-se da l\u00edngua francesa para narrar a si mesma e \u00e0 sua na\u00e7\u00e3o (BHABHA, 2005). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Temos como resultados parciais desta pesquisa (ainda inicial), ind\u00edcios de que a escritora argelina Assia Djebar, desde crian\u00e7a, teve a sua subjetividade marcada por uma dicotomia cultural que dividia a sua identidade em duas partes. Essa cis\u00e3o identit\u00e1ria manifestou-se em toda a sua obra e a levou a viver entre os universos franc\u00eas e \u00e1rabe. Exilada na Fran\u00e7a durante alguns anos e, depois, entre idas e vindas entre a Fran\u00e7a e a Arg\u00e9lia, Assia Djebar narrou a si mesma e, consequentemente a sua na\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da vasta obra liter\u00e1ria que produziu, residindo no entrelugar franco-\u00e1rabe onde estava condicionada a estar, a partir da identidade cultural que construiu ao longo da sua trajet\u00f3ria. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS <\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BHABHA, H. K. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O local da cultura. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">COMBE, D. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Les litt\u00e9ratures francophones <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">&#8211; questions, d\u00e9bats, polemiques. Presses Universitaires de France. Paris, 2010. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DJEBAR, A. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">La Soif. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Paris: Julliard, 1957.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">____ . <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ces voix qui m\u2019assi\u00e8gent\u2026 en marge de ma francophonie.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Paris\u00a0: Albin Michel, 1999.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">____ . <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">L\u2019amour, la Fantasia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Paris\u00a0: Albin Michel, 1985.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">____ . <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Nulle part dans la maison de mon p\u00e8re<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Paris: Fayard, 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">FANON, F. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Pele negra, m\u00e1scaras brancas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Trad. de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">HALL, S. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A identidade cultural na p\u00f3s-modernidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. 7.ed. Rio de janeiro: Dp&amp;Z, 2003.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">PEREIRA, K. R. W.; SOUZA, F. Z. D. Di\u00e1spora, ex\u00edlio e mem\u00f3ria nas literaturas africanas em L\u00edngua Portuguesa. Assis: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revista Miscel\u00e2nea<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, 2016. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RAMALHO, Y. A. O ex\u00edlio no romance \u2018<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Primavera con una esquina rota de Mario Benedetti<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u2019. 2013. 72 p. Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado \u2013 Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em estudos da linguagem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SAID, EDWARD W. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Orientalismo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: o Oriente como inven\u00e7\u00e3o do Ocidente. S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SILVA, M. R. S. \u2018<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">L\u2019amour, la Fantasia\u2019, de Assia Djebar: a literatura em aula de FLE como lugar de resist\u00eancia feminina<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. 2017. 200 f. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Linguagem e Ensino) \u2013 Universidade Federal de Campina Grande \u2013 UFCG. Campina Grande. 2017. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SOARES, V. L. A situa\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica e a literatura de express\u00e3o francesa no Maghreb. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revista Fragmentos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Florian\u00f3polis: UFSC, 1990. <\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<strong>Mylena Queiroz<\/strong>\u00a0[\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>AS NUAN\u00c7AS DO MAL NA OBRA DE GUIMAR\u00c3ES ROSA<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mylena Queiroz (PPGLI-UEPB) <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">(Orientador: Ant\u00f4nio Carlos de Melo Magalh\u00e3es) <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A pesquisa a que nos propomos intenta mostrar como a literatura reflete, refrata e problematiza as nuan\u00e7as do mal: que aqui ser\u00e1 analisado a partir da produ\u00e7\u00e3o cont\u00edstica e cron\u00edstica de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, escritor mineiro autor de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1956), e se desenvolver\u00e1 em torno das obras <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Primeiras Est\u00f3rias<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1962), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tutameia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1967) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ave, Palavra <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1970), sendo esta \u00faltima uma miscel\u00e2nea que re\u00fane narrativas como as publicadas inicialmente no Correio da Manh\u00e3, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O mau humor de Wotan <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1948) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A senhora dos segredos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1952); e no jornal O globo, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A velha<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1961). Nas chamadas cr\u00f4nicas de guerra do autor, narrativas que integram obra que ainda aguarda maior aten\u00e7\u00e3o, o cen\u00e1rio comum do per\u00edodo de dom\u00ednio de Hitler se faz evidente. Na pesquisa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A imagem da Alemanha em Guimar\u00e3es Rosa como retrato auto-ir\u00f4nico<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, o autor Paulo Astor Soethe sugere que alus\u00f5es \u00e0 pr\u00f3pria bibliografia de Guimar\u00e3es integram as produ\u00e7\u00f5es, sendo esta uma chave de interpreta\u00e7\u00e3o para tais narrativas, bem como para a apresenta\u00e7\u00e3o do posicionamento do escritor frente ao contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico tanto brasileiro como alem\u00e3o na \u00e9poca da Segunda Guerra Mundial. A atua\u00e7\u00e3o de Guimar\u00e3es Rosa enquanto vice-c\u00f4nsul da embaixada brasileira na Alemanha (1938-1942) se deu justamente no per\u00edodo em que o Estado Nazista come\u00e7ava a perder espa\u00e7o e for\u00e7a, cabendo, para Soethe, uma interpreta\u00e7\u00e3o de que os contos apresentam o desencanto do diplomata brasileiro, desde cedo encantado com a l\u00edngua e com as obras alem\u00e3s, ao se deparar com a realidade pol\u00edtica do pa\u00eds de Goethe e de Thomas Mann (SOETHE, 2005, p. 294). No que diz respeito \u00e0 quest\u00e3o do mal, na contemporaneidade, fil\u00f3sofos como Paul Ricoeur, que se dedicou a compreender e explicitar as simbologias do mal, trazem o tema \u00e0 discuss\u00e3o, alertando-nos que \u201cTodo mal \u00e9 mal moral, todo mal \u00e9 mal cometido. N\u00e3o se trata mais de discutir <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">de onde vem o mal?,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> mas de esclarecer <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">por que fazemos o mal?\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (RICOEUR, 1988, p. 9). O questionamento, de certo modo, pressup\u00f5e busca de compreens\u00f5es outras. Em entrevista sobre a Literatura e o Mal, em 1958, Georges Bataille remete \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre tais elementos, em especial por podermos ser apresentados a quest\u00f5es existenciais mais violentamente em obras liter\u00e1rias. Desse modo, evidencia-se o quanto o tema pode ser identificado em narrativas, ao longo da hist\u00f3ria da literatura, seja em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ant\u00edgona<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Medeia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, trag\u00e9dias gregas, ou mesmo em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A divina com\u00e9dia humana<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, poema de cunho \u00e9pico. Ainda em pe\u00e7as de teatro, como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Macbeth<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e em romances, tais quais<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Frankestein<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Em busca do tempo perdido<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, apontado o potencial da literatura no que diz respeito \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o das tend\u00eancias humanas ao mal. Esse projeto, portanto, levar\u00e1 a uma reflex\u00e3o contundente sobre como a obra de Guimar\u00e3es Rosa, assim como uma s\u00e9rie de obras liter\u00e1rias de \u00e9pocas e lugares distintos da hist\u00f3ria, possibilitando estudar o tema do mal, em suas v\u00e1rias facetas, nessa busca \u00e0 pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o do homem e aos caminhos tomados. Seja ocultando ou exibindo, sem pudor, \u00e9 evidente que o mal se torna protagonista em certas obras liter\u00e1rias que seguiram at\u00e9 o nosso s\u00e9culo. Buscaremos contribuir para a fortuna cr\u00edtica de Guimar\u00e3es Rosa, especialmente de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Primeiras Est\u00f3rias<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1962), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tutameia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1967) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ave, Palavra <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1970)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> problematizando as figura\u00e7\u00f5es do mal no que diz respeito a perspectivas tanto filos\u00f3ficas quando sociopol\u00edticas, analisando as implica\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas e tem\u00e1ticas. Um olhar pouco anal\u00edtico pode compreender certa relativiza\u00e7\u00e3o moral no que se refere a essa possibilidade interpretativa, posto o cen\u00e1rio que se apresenta em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O mau Humor de Wotan<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A senhora dos segredos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A velha<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: n\u00e3o apenas o da Segunda Guerra Mundial, como o da ascens\u00e3o do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Nazionalsocialismus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de Hitler. N\u00e3o \u00e9 isto, por\u00e9m, que se pretende, ainda que busquemos em Ricoeur certa base a qual nos direciona \u00e0 reflex\u00e3o de que \u201cem qualquer hip\u00f3tese, a humanidade do homem \u00e9 o espa\u00e7o em que se manifesta o mal\u201d (1982, p. 18). Parte do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">corpus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> at\u00e9 ent\u00e3o selecionado nos leva \u00e0 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">hitlerocidade, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">para destacar o neologismo de Rosa, \u201cproblematizando, na verdade, quest\u00f5es da sociedade e contexto pol\u00edtico em que vivia\u201d (SOETHE, 2005, p. 297), como em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O mau humor de Wotan<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, conto no qual o personagem que havia prestado servi\u00e7o militar, Hans-Helmut Heubel, em conversa sobre a guerra se faz indiferente e \u00e9 delatado por amigos, retornando ao front e falecendo. Pacifista, quando comparado aos entusiastas do partido, ainda que lido que ele &#8220;Formara-se o menos belicoso dos homens&#8221; (ROSA, 1985, p. 917), Heubel fora soldado nazista. Dessa maneira, defendemos que na obra de Guimar\u00e3es perpassam nuan\u00e7as diversas do mal, em um imbricado que se revela para al\u00e9m de uma vis\u00e3o metaf\u00edsica do mundo, mas que se v\u00ea em quest\u00f5es sociopol\u00edticas &#8211; sempre pressupondo uma aten\u00e7\u00e3o maior no que diz respeito \u00e0 compreens\u00e3o do que rege cada a\u00e7\u00e3o e cada posicionamento dos personagens rosianos, expondo sua curiosidade por desvendar a condi\u00e7\u00e3o humana. Quando pensamos o mal mais precisamente relacionado ao vi\u00e9s da literatura, tal categoria, como qualquer outra, toma as mais diversas possibilidades. Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A literatura e o mal, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">o cr\u00edtico liter\u00e1rio Georges Bataille reflete acerca disso, dessa fluidez \u00e0s peculiaridades a dependerem de cada autor e de cada mundo da obra. Cabe pensar, portanto, que cada mundo de cada obra pode oferecer sua pr\u00f3pria manifesta\u00e7\u00e3o do mal, que pode se referir \u00e0 perspectiva de um narrador ou de um personagem em particular, com sua \u201ccarga\u201d em torno de quest\u00f5es sociais, morais e de suas delimita\u00e7\u00f5es sobre o que seria o mal e, portanto, o que n\u00e3o seria. Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O mal: um desafio \u00e0 filosofia \u00e0 teologia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, obra que se trata de uma confer\u00eancia proferida na Faculdade de Teologia da Universidade de Lausanneem, em 1985, o fil\u00f3sofo se prop\u00f5e a \u201cjuntar o trabalho do pensar suscitado pelo enigma do mal \u00e0s respostas da a\u00e7\u00e3o e do sentimento\u201d (RICOEUR, 1988, p. 22). Trazendo o humano ao centro das quest\u00f5es em torno da pr\u00f3pria busca de sentido quanto ao mal, j\u00e1 em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Finitude e culpabilidade: O homem fal\u00edvel<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Paul Ricoeur trata da conceitua\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de \u201cfalibilidade\u201d, apontando a possibilidade de \u201cque o homem \u00e9 constitucionalmente fr\u00e1gil, de que pode cair\u201d, como uma ideia \u201ctotalmente acess\u00edvel \u00e0 reflex\u00e3o pura e assinala uma caracter\u00edstica do ser humano\u201d (RICOEUR, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">apud<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> COSTA, 2008, p. 25) posto em cheque por uma s\u00e9rie de entraves e desvios inerentes \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o \u2013 v\u00ea-se como caracter\u00edstico do ser a pr\u00f3pria possibilidade da queda, como se relacionando \u00e0 an\u00e1lise de Suzi Sperber sobre as narrativas em torno dos pactos. Essa fragilidade constituinte parece-nos se tratar de embasamento fundamental para investigar a categoria do mal. No que diz respeito \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de obedi\u00eancias enquanto personagens que representam a supremacia da fun\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9tica, como no caso dos delatores do soldado de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O mau humor de Wotan, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">talvez caiba uma an\u00e1lise do mal a luz da l\u00f3gica da burocracia versada no pol\u00eamico <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Eichmann em Jerusal\u00e9m: um relato sobre a banalidade do mal, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">da fil\u00f3sofa Hannah Arendt,<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">em uma articula\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o do protagonista \u2013 de soldado nazista a \u201cinimigo objetivo\u201d, passando pela dela\u00e7\u00e3o ao alto escal\u00e3o, que s\u00f3 nas entrelinhas \u00e9 percebido, o que acontece com certa similaridade nos contos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A senhora<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400\">dos segredos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A velha<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Essa perspectiva se aproxima das leituras de M\u00e1rcio Seligmann-Silva, professor de cr\u00edtica liter\u00e1ria da UNICAMP, agora sobre <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, vendo o testemunho por parte do narrador ao senhor que ouve a narrativa \u201cQuase di\u00e1logo e quase mon\u00f3logo\u201d (SANTIAGO, 2017, p. 63). Nesse sentido, analisar o mal em suas nuan\u00e7as tem como prerrogativa compreender a perspectiva de quem aponta ou n\u00e3o algo como mal, tais autores ser\u00e3o importantes para elaborarmos essa pesquisa. Com a finalidade de identificarmos e estudarmos a fundo certas estruturas, tanto em rela\u00e7\u00e3o ao posicionamento pol\u00edtico quanto \u00e0s quest\u00f5es teol\u00f3gico-filos\u00f3ficas, nos textos que aqui temos pontuado, ser\u00e1 fundamental empreender uma pesquisa, como j\u00e1 expresso, com base em alguns pressupostos filos\u00f3ficos e critico-liter\u00e1rios os quais nos permitam perceber quest\u00f5es imprescind\u00edveis sobre o mal. Para tal, ser\u00e1 necess\u00e1rio recorrer a textos como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Representa\u00e7\u00f5es do bem e do mal em perspectiva teol\u00f3gico-liter\u00e1ria: Reflex\u00f5es a partir de di\u00e1logo com Grande Sert\u00e3o: Veredas de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> do professor Antonio Carlos Melo Magalh\u00e3es (2003) e, como dito, \u00e9 preciso recorrer a textos considerados fundamentais no que diz respeito \u00e0 categoria, como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sobre o mal<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de Santo Tom\u00e1s de Aquino e tamb\u00e9m a obras contempor\u00e2neas como as de Paul Ricoeur; al\u00e9m de in\u00fameros trabalhos no campo da cr\u00edtica liter\u00e1ria que se voltam para a quest\u00e3o, destacando aqui o de Georges Bataille, com <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A literatura e o mal<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, dentre outras produ\u00e7\u00f5es que se puseram a investigar este problema que circunda o pensamento humano desde a mais tenra idade da humanidade. Em outras palavras, foi e \u00e9 longo o caminho quando se pensa em uma an\u00e1lise que se relacione ao mal. Nota-se, assim, que existe uma variedade de fontes ligadas \u00e0s problem\u00e1ticas lan\u00e7adas por esta proposta de pesquisa e tamb\u00e9m de possibilidades de analisar a perspectiva de figura\u00e7\u00f5es do mal, partindo de personagens na obra de Guimar\u00e3es Rosa que \u2018margeiam\u2019 o mal, presumindo que iremos nos deparar com um mosaico complexo no que respeita \u00e0 tradicional bifurca\u00e7\u00e3o anton\u00edmia. Dessa forma, visto que o foco principal ser\u00e1 o de analisar quest\u00f5es, j\u00e1 citadas, \u00a0na cont\u00edstica e na cron\u00edstica de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, buscaremos dialogar, ao longo da constru\u00e7\u00e3o da pesquisa, no que diz respeito ao estudo acerca do mal, com os estudos de Bataille (1989), S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino (2005), Hannah Arendt (1999), Ricoeur (1988), e no que diz respeito aos estudos acerca dos conceitos que se relacionam \u00e0s leituras de obras de Guimar\u00e3es, enfatizando, claro, nosso objeto de estudo, cabe dialogar com a produ\u00e7\u00e3o de Magalh\u00e3es (2003), Soethe (2005), Jaime Ginzburg (2006), Seligmann-Silva (2009) e Silviano Santiago (2017), al\u00e9m de ficar em aberto a possibilidade de serem encontrados e problematizados outros trabalhos acad\u00eamicos relevantes sobre a obra de Guimar\u00e3es Rosa, bem como novas fundamenta\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas encontradas ao caminhar da pesquisa. Para realizar um estudo liter\u00e1rio desse porte, que estabele\u00e7a uma rela\u00e7\u00e3o bastante prof\u00edcua com discuss\u00f5es levadas a cabo pela cr\u00edtica e pela teoria liter\u00e1rias, ser\u00e1 importante levar em conta que qualquer pesquisador, diante de uma fonte t\u00e3o rica como a escrita de Guimar\u00e3es Rosa, geralmente constr\u00f3i sua metodologia quando, ap\u00f3s releituras e entrecruzamento das obras liter\u00e1rias, h\u00e1 um aprofundamento na busca pelas poss\u00edveis conex\u00f5es e dissens\u00f5es a respeito da tradi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e de seus contrapontos poss\u00edveis e at\u00e9 necess\u00e1rios. Assim, prezarei sempre por desvelar as rela\u00e7\u00f5es entre as figura\u00e7\u00f5es do mal, e mesmo do maligno, considerando a proposta de multiplicidade que se revela na obra de Rosa. Al\u00e9m disso, linha do projeto baseia-se nos estudos da hermen\u00eautica e da cr\u00edtica liter\u00e1ria, o que significa que, para a realiza\u00e7\u00e3o de nossa pesquisa<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Nuan\u00e7as do mal na obra de Guimar\u00e3es Rosa <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">ser\u00e1 necess\u00e1rio pensar, desde j\u00e1, uma escrita que privilegie a an\u00e1lise cr\u00edtica. <\/span><br \/>\n[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle] <strong>Patr\u00edcia Val\u00e9ria Vieira da Costa<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><strong>NARRATIVAS DA CRISE DO PATRIARCADO: QUANDO A EXPRESS\u00c3O REGIONAL IMPULSIONA O TR\u00c1GICO <\/strong><\/p>\n<p>Patr\u00edcia Val\u00e9ria Vieira da Costa<\/p>\n<p>Doutoranda em Literatura e Interculturalidade (UEPB)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Resumo: <\/strong><\/p>\n<p>O presente estudo, pertencente \u00e0 linha de pesquisa Literatura e Hermen\u00eautica do curso de Doutorado do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Literatura e Interculturalidade- Universidade estadual da Para\u00edba, se prop\u00f5e a defender a tese de que as narrativas da Literatura Brasileira contempor\u00e2nea produzidas no Nordeste, ao recriarem o patriarcado em crise, problematizam a regi\u00e3o enquanto impulso para o tr\u00e1gico. Acreditamos que as narrativas escolhidas s\u00e3o capazes de recriar simbolicamente o espa\u00e7o ficcional como um motivador direto da condi\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica das mulheres nelas representadas, manifestas por meio de mecanismos como a loucura, ensimesmamento, solid\u00e3o e morte. Os romances escolhidos como corpus desse estudo foram selecionados pelo crit\u00e9rio da presen\u00e7a tem\u00e1tica, compat\u00edvel e percept\u00edvel em ambas as narrativas selecionadas, o que justifica a necessidade de problematiza\u00e7\u00e3o em compreender a reincid\u00eancia dessa em ambos. Em <strong>O Anjo do Quarto Dia<\/strong> (2013), uma das personagens femininas de mais evid\u00eancia na narrativa, Ana, tem sua perspectiva de futuro completamente ceifada pela impossibilidade de manter seu relacionamento amoroso, j\u00e1 que seu autorit\u00e1rio pai impede o relacionamento assassinando Z\u00e9 Moleque, o \u201cnegrinho boiadeiro\u201d que engravidara a filha, assim como o beb\u00ea, fruto da rela\u00e7\u00e3o. Como consequ\u00eancia, Ana se exila, levando uma vida solit\u00e1ria e reclusa que se quer tr\u00e1gica. Em <strong>Cartilha do Sil\u00eancio<\/strong> (1997), a personagem Dona Senhora tem sua exist\u00eancia marcada tragicamente pela loucura. Ap\u00f3s a morte do marido, em conson\u00e2ncia com a impossibilidade de levar adiante os neg\u00f3cios da fam\u00edlia, reflexo da falta de oportunidade para apreender tais manejos, essa personagem enlouquece, sendo levada para um hosp\u00edcio recifense.\u00a0 No romance <strong>Liturgia do Fim <\/strong>(2016), a loucura volta \u00e0 tona, agora redesenhada pela Tia Florinda que, tendo vivenciado um relacionamento incestuoso com seu irm\u00e3o, enlouquece, enquanto esse continua sendo o patriarca respeitado e temido pela fam\u00edlia. J\u00e1 em <strong>Faca<\/strong> (2009), no conto Mentira de amor, por exemplo, a personagem Delmira vivia acostumada \u00e0 sua pris\u00e3o domiciliar, at\u00e9 assassinar seu marido e, por isso, tornar-se uma criminosa, em uma esp\u00e9cie de continuidade de sua \u201cmorte social\u201d. Em <strong>Vasto Mundo <\/strong>(2015), por fim, encontramos a personagem Dona Eul\u00e1lia, que experencia a liberdade dos mandos e desmandos de sua vida enquanto seu marido est\u00e1 fora, sendo completamente reprimida e ainda mais silenciada quando esse retorna ao seio familiar. Essas narrativas apontam, cada qual \u00e0 sua maneira, reincid\u00eancias tem\u00e1ticas. Todas elas fazem parte das narrativas contempor\u00e2neas ambientadas em solo rural que recriam o que aqui chamamos de \u201cpatriarcado em crise\u201d, uma fase hist\u00f3rico-social em que esse sistema entra em decad\u00eancia, e as oportunidades da perspectiva de vida moderna come\u00e7am a entrar em vigor, motivando mudan\u00e7as tanto comportamentais, quanto subjetivas. Nesse contexto, as narrativas acima citadas recriam mulheres enquanto sujeitos que, no ritmo das mudan\u00e7as, tende a acompanh\u00e1-las, mas s\u00e3o conseguem, impossibilitadas ainda pela opress\u00e3o do sistema patriarcal no qual est\u00e3o inseridas.\u00a0 Essa impossibilidade, al\u00e9m de evidenciar a opress\u00e3o direcionada a essas, funciona como uma esp\u00e9cie de castigo, j\u00e1 que sua realidade negativa \u00e9 aprimorada pela loucura, como em <strong>Cartilha do Sil\u00eancio <\/strong>(1997) e <strong>Liturgia do fim <\/strong>(2016); reclus\u00e3o e ensimesmamento, como em <strong>O anjo do quarto dia<\/strong> (2013); Crime, como em <strong>Faca<\/strong> (2009); e silenciamento, como em <strong>Vasto Mundo <\/strong>(2015), condi\u00e7\u00f5es tr\u00e1gicas completamente correlacionadas ao contexto s\u00f3cio hist\u00f3rico e cultural no qual essas mulheres est\u00e3o inseridas. Para Willians (2002) o tr\u00e1gico, enquanto tema, \u00e9 recriado na atualidade como express\u00e3o do homem na sua dor e viol\u00eancia, e segue o fluxo das mudan\u00e7as hist\u00f3ricas. Nesse sentido, o contexto do tr\u00e1gico passa a ser cultural, e seu funcionamento interligado aos contextos hist\u00f3ricos culturais. Nesse contexto, a perspectiva dada pelo te\u00f3rico acima nos auxilia na poss\u00edvel intepreta\u00e7\u00e3o de que as diversas formas de sofrimento pelas quais as personagens das narrativas acima sofrem refletem o tr\u00e1gico de suas exist\u00eancias, completamente motivado pela regi\u00e3o (enquanto espa\u00e7o e tempo social), a qual pertencem. O trabalho se faz pertinente, portanto, j\u00e1 que possibilita pensar, na an\u00e1lise interdiscursiva entre as personagens e na persist\u00eancia tem\u00e1tica ampla, a quest\u00e3o da regi\u00e3o enquanto impulso para o tr\u00e1gico. Como hip\u00f3tese central, consideramos que a Literatura brasileira contempor\u00e2nea produzida no Nordeste, dentre outras tem\u00e1ticas, ainda d\u00e1 margem para recria\u00e7\u00e3o de narrativas ambientadas em solo rural com \u00eanfase no sistema patriarcal em crise e seus decorrentes mecanismos de opress\u00e3o, j\u00e1 que as obras est\u00e3o locadas em um tempo social em que a tradi\u00e7\u00e3o e a modernidade est\u00e3o em embate: o novo solicitando espa\u00e7o, enquanto que a tradi\u00e7\u00e3o luta para permanecer em seu lugar outrora demarcado. Nesse sentido, essas obras problematizam a quest\u00e3o da regionalidade na perspectiva proposta por Chiappinni (2013), j\u00e1 que possibilitam pensar a regi\u00e3o em sua amplitude simb\u00f3lica.\u00a0 Por dar \u00eanfase \u00e0 quest\u00e3o da cultura e forma\u00e7\u00e3o de identidades, a hip\u00f3tese central acabar por desdobrar-se em outras: A do tr\u00e1gico enquanto mecanismo impulsionado pela regi\u00e3o, em uma perspectiva que se aproxima do que Willians (2002) coloca como tr\u00e1gico social, j\u00e1 que est\u00e1 relacionado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida em sociedade e suas consequ\u00eancias subjetivas no constructo do homem; Considerando o corpus escolhido, h\u00e1 a hip\u00f3tese de que a mulher representada nessas literaturas, ao tentarem romper com as estruturas de seu contexto social, s\u00e3o violentadas, inseridas em um meio que se quer tr\u00e1gico se\u00a0 consideradas suas diversas nuances, como o silenciamento, solid\u00e3o, morte, ina\u00e7\u00e3o, etc. Essa hip\u00f3tese ganha for\u00e7a ao consideramos a reflex\u00e3o proposta por Sarrazac (2007), ao considerar como condi\u00e7\u00f5es tr\u00e1gicas mais prop\u00edcias para a manifesta\u00e7\u00e3o do tr\u00e1gico moderno os sofrimentos do homem comum, distante dos grandes her\u00f3is da trag\u00e9dia de outrora, e mais pr\u00f3ximo dos \u201cher\u00f3is\u201d das narrativas contempor\u00e2neas. Esse estudo se faz pertinente j\u00e1 que abre possibilidades tanto pora ampliar a fortuna cr\u00edtica de autores relevantes, por\u00e9m ainda n\u00e3o muito pesquisados, quanto por enriquecer os estudos na \u00e1rea da Literatura e Interculturalidade, j\u00e1 que propomos uma an\u00e1lise interdiscursiva entre um leque de autores contempor\u00e2neos do Nordeste. Ademais, nossa pesquisa torna-se original por propor um estudo tem\u00e1tico que possibilita uma vis\u00e3o ampla de um contexto de produ\u00e7\u00e3o, tornando-se relevante por contribuir para a compreens\u00e3o do funcionamento e da multiplicidade de produ\u00e7\u00f5es no contexto da Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea. Por fim, como pressupostos te\u00f3ricos basilares referenciamos Willlians (2002), Sarrazac (2007) e Chiappinni (2013).<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Crise do patriarcado. Express\u00e3o regional. Tr\u00e1gico.<\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle] Silvanna Kelly Gomes de Oliveira [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>O TRABALHO IMATERIAL DOS PERSONAGENS SECUND\u00c1RIOS NA OBRA DE MARIA JOS\u00c9 SILVEIRA<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Autora: Silvanna Kelly Gomes de Oliveira<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Orientador: Prof. Dr. Luciano Barbosa Justino<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>RESUMO EXPANDIDO<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para al\u00e9m da problem\u00e1tica sobre o lugar que o campo liter\u00e1rio ocupa no cen\u00e1rio contempor\u00e2neo, \u00e9 necess\u00e1rio aludir de antem\u00e3o ao contexto biopol\u00edtico<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> pensado atrav\u00e9s da crise do capitalismo mundial engendrada desde a d\u00e9cada de 1970. \u00c9 sabido que seu ponto de culmin\u00e2ncia resultou em v\u00e1rias transforma\u00e7\u00f5es na sociedade, dentre elas a ressignifica\u00e7\u00e3o do sujeito individual, o qual n\u00e3o p\u00f4de mais se ver dissociado dos processos materiais produzidos pela grande m\u00e1quina do Estado. Desse modo, o indiv\u00edduo passou a se sentir parte do maquin\u00e1rio capitalista, atribuindo a si mesmo a responsabilidade pelo fracasso pol\u00edtico, econ\u00f4mico e social da na\u00e7\u00e3o, gerando, tamb\u00e9m, uma crise da pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de identidade. Junto a essa perspectiva de \u201cdepress\u00e3o social\u201d, surge o trabalho intelectual atrelado a essas transforma\u00e7\u00f5es, borrando, em contrapartida, a cis\u00e3o estabelecida entre trabalho material e imaterial.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O trabalho imaterial, por sua vez, pode ser referenciado como \u201cprodu\u00e7\u00e3o de subjetividade\u201d, o que inclui as artes, dentre elas a literatura. Diante da crise supracitada, n\u00e3o h\u00e1 diferencia\u00e7\u00e3o entre essa nova produ\u00e7\u00e3o e a economia e pol\u00edtica, j\u00e1 que aquela ocupa lugar central no funcionamento do capitalismo. Com o trabalho intelectual, existe tanto a constru\u00e7\u00e3o de sujeitos individuados que se fixam em uma identidade \u2013 corpo, g\u00eanero etc \u2013, o que no neoliberalismo \u00e9 assumido por express\u00f5es como \u201ccapital humano\u201d e \u201cempres\u00e1rio de si\u201d; quanto existe o desmonte do sujeito individuado e suas representa\u00e7\u00f5es, correspondendo, logo, a um processo de dessubjetiva\u00e7\u00e3o no qual m\u00e1quina e homem constituem engrenagens intercambi\u00e1veis de uma estrutura produtiva. Para o primeiro d\u00e1-se o nome de \u201csujei\u00e7\u00e3o social\u201d, e para o segundo, \u201cservid\u00e3o maqu\u00ednica\u201d, como aborda Lazzarato (2014).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao tratarmos do trabalho imaterial como ponto de partida para os estudos liter\u00e1rios, nos referimos tamb\u00e9m \u00e0 conquista da autonomia desses estudos, momento em que o termo \u201cliteratura\u201d, vinculado \u00e0s teorias e cr\u00edticas das obras liter\u00e1rias, ganha vigor, h\u00e1 cerca de dois s\u00e9culos, com o advento do Romantismo. Essa autonomia liter\u00e1ria traz para o cerne da discuss\u00e3o conceitos como \u201cunidade\u201d e \u201cidentidade\u201d, os quais perpassam desde o plano pol\u00edtico da consolida\u00e7\u00e3o do Estado-na\u00e7\u00e3o no capitalismo at\u00e9 o plano da constru\u00e7\u00e3o da individualidade do sujeito (LAZZARATO, 2014). Dessa maneira, s\u00e3o conceitos pol\u00edticos que n\u00e3o se dissociam da leitura imanente da obra, explicando o fato de a literatura ser uma arte abrangente e extremamente pol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sob esta perspectiva, \u00e9 comum encontrar modos tautol\u00f3gicos de ler as obras, isto \u00e9, repetitivos e alheios \u00e0s novas demandas da literatura contempor\u00e2nea, exercendo a domestica\u00e7\u00e3o das \u201cmultid\u00f5es\u201d presentes nessas narrativas e vertendo pela unicidade narc\u00edsica. Por essa raz\u00e3o, as singularidades presentes nos encontros m\u00faltiplos dos personagens, de uma narrativa passam ao largo dessa cr\u00edtica identit\u00e1ria, cuja sujei\u00e7\u00e3o social e servid\u00e3o maqu\u00ednica direcionam seus m\u00e9todos de an\u00e1lise. O resultado disso consiste no apagamento dos personagens secund\u00e1rios, repletos de trabalho imaterial, entretanto, invisibilizados pelas pesquisas e leituras. N\u00e3o \u00e9 por acaso que comumente encontramos nessas pesquisas uma for\u00e7a centr\u00edpeta ao protagonismo, uma centralidade no narrador, uma leitura estigmatizante dos subalternos e at\u00e9 uma focaliza\u00e7\u00e3o no trabalho material que tipificam os secund\u00e1rios nas obras (JUSTINO, 2017). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A produ\u00e7\u00e3o de linguagem n\u00e3o deve, portanto, ser entregue \u00e0 \u201csedu\u00e7\u00e3o\u201d de estar em um segundo plano, pois ela \u00e9 potente, tendo em vista que tamb\u00e9m \u00e9 trabalho produtivo. Nesse sentido, precisamos voltar \u00e0s obras com um olhar mais alargado, no que concerne \u00e0 desobstru\u00e7\u00e3o dos caminhos que pr\u00e9-determinam um tipo de leitura dominante. O discurso liter\u00e1rio atua como uma semi\u00f3tica linguageira, na medida em que perpassa os mais diversos discursos, podendo ser o \u00fanico capaz de abranger os poss\u00edveis encontros \u2013 materiais e imateriais \u2013 em um mesmo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ethos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> significante. J\u00e1 as semi\u00f3ticas simb\u00f3licas podem ser tidas como pr\u00e9-significantes, gestuais, rituais, produtivas, corporais, musicais etc, tra\u00e7ando um racioc\u00ednio oriundo das considera\u00e7\u00f5es de Guatarri (2000). As rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, de classe, g\u00eanero, de etnia devem ser problematizadas, desse modo, a partir dessa \u201cnova economia do saber\u201d que tamb\u00e9m \u00e9 produ\u00e7\u00e3o de riqueza.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para tanto, cabe a n\u00f3s turbilhonarmos o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">status quo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: sabendo que a obra liter\u00e1ria pode quebrar as produ\u00e7\u00f5es de subjetividades dominantes ao se posicionar diante da modeliza\u00e7\u00e3o dos sujeitos por um dispositivo maior que \u00e9 a servid\u00e3o maqu\u00ednica, de que forma a produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de Maria Jos\u00e9 Silveira semiotizada pela multid\u00e3o e seus devires da diferen\u00e7a serve para desestabilizar um modo de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade facilmente apreens\u00edvel pela servid\u00e3o, a qual faz o uso do sistema significante, dificilmente questionado? Sendo a cr\u00edtica tautol\u00f3gica a mais comum nos estudos liter\u00e1rios, como inverter os caminhos para novos questionamentos que v\u00e3o para al\u00e9m dos crit\u00e9rios est\u00e9ticos \u2013 presos \u00e0 linguagem \u2013 e dos matizes humanistas, enfrentando as novas condi\u00e7\u00f5es de subjetiva\u00e7\u00e3o e rompendo com a servid\u00e3o maqu\u00ednica e sujei\u00e7\u00e3o social do capitalismo contempor\u00e2neo, como aponta Lazzarato (2014)? <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Partindo destas quest\u00f5es centrais, nos deparamos com outras quest\u00f5es mais espec\u00edficas: Primeiro, aquilo que chamamos de trabalho imaterial na obra de Maria Jos\u00e9 Silveira pode ser observado \u00e0 revelia do sujeito individuado \u2013 protagonismo\/ narrador como centro \u2013 e estudado sob a abordagem de seus muitos, em uma \u201cbabel\u201d de possibilidades suscitadas personagens secund\u00e1rios? Segundo, o aparecimento de personagens transg\u00eaneros, ind\u00edgenas, militantes, prostitutas, motoboys, nordestinos servem para refor\u00e7ar os estigmas promovidos pela servid\u00e3o maqu\u00ednica ou para quebr\u00e1-los atrav\u00e9s de suas singularidades potentes, ressurgindo como sujeitos que ocupam lugares al\u00e9m da mera \u201csombra\u201d dos protagonistas e das fun\u00e7\u00f5es que remetem for\u00e7a corporal? Terceiro, havendo uma cr\u00edtica tradicional e, sobretudo, contempor\u00e2nea que comumente refor\u00e7a identidades dos personagens \u201csem mobilidade\u201d, o que corrobora estigmas, esse fato poderia explicar o efeito excludente de apagamento dos sujeitos ficcionais secundarizados, bem como a escassez de pesquisas que abordem os interst\u00edcios das obras e a horizontalidade de seus personagens? <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No intuito de corporificar a pesquisa, elegemos como objeto de an\u00e1lise as obras: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Pauliceia de mil dentes<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, publicada pela editora Prumo no ano de 2012, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Guerra no cora\u00e7\u00e3o cerrado<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, publicada pela Editora Record no ano de 2006 e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O fantasma de Luis Bu\u00f1uel<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, publicada pela editora Francis no ano de 2004, todas elas pertencentes a escritora goiana Maria Jos\u00e9 Silveira. A escolha desses textos se deu em raz\u00e3o de nosso intento em tra\u00e7ar um panorama mais alargado no que tange \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de um trabalho imaterial produzido ricamente pelo consider\u00e1vel n\u00famero de personagens secund\u00e1rios nos tr\u00eas volumes. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim, o objetivo geral da tese \u00e9 apontar o trabalho imaterial dos personagens secund\u00e1rios da obra de Maria Jos\u00e9 Silveira como forma de propor um m\u00e9todo mais alargado de abordagem cr\u00edtica. Quanto aos objetivos espec\u00edficos, pretende-se lan\u00e7ar uma metacr\u00edtica que problematize tanto a tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria quanto a cr\u00edtica contempor\u00e2nea no que concerne ao tratamento do trabalho imaterial; apresentar como a sujei\u00e7\u00e3o individual e a servid\u00e3o maqu\u00ednica podem direcionar de modo predominante a leitura das obras liter\u00e1rias; identificar nas obras liter\u00e1rias selecionadas de Maria Jos\u00e9 Silveira a produ\u00e7\u00e3o de trabalho imaterial como rasura na cr\u00edtica liter\u00e1ria; analisar, no plano do significante, como a constru\u00e7\u00e3o dieg\u00e9tica da autora abre margem para a quebra dos estigmas identit\u00e1rios dos personagens secund\u00e1rios; sugerir um novo estatuto da cr\u00edtica, lan\u00e7ando m\u00e3o das pot\u00eancias dos personagens secund\u00e1rios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De modo mais espec\u00edfico, recorreremos a uma abordagem interpretativa com foco em tr\u00eas procedimentos metodol\u00f3gicos: 1) levantamento dos textos de cr\u00edtica liter\u00e1ria que apresentem lacunas para as potencialidades inerentes \u00e0s produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias; 2) problematiza\u00e7\u00e3o e efeitos da sujei\u00e7\u00e3o social e servid\u00e3o maqu\u00ednica nas abordagens, levando em considera\u00e7\u00e3o a contram\u00e3o da obra de Maria Jos\u00e9 Silveira e seus personagens secund\u00e1rios, for\u00e7a-motriz; 3) sugest\u00e3o de um novo m\u00e9todo de abordagem liter\u00e1ria, a partir da produ\u00e7\u00e3o de subjetividade dos coadjuvantes expressa nas tr\u00eas obras de Maria Jos\u00e9 Silveira: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Pauliceia de mil dentes<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Guerra no cora\u00e7\u00e3o do cerrado<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O fantasma de Luis Bu\u00f1uel<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse sentido, a originalidade deste estudo reside na proposta de se estudar esta autora em uma maior amplitude, partindo para uma leitura ainda mais verticalizada do que foi proposto para a disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, tamb\u00e9m sobre ela, e argumentando-se que em sua obra \u00e9 apresentada uma narrativa de muitos agenciamentos poss\u00edveis, o que ressalta o movimento que se pretende na tese. O intuito, por fim, \u00e9 vislumbrar as aus\u00eancias no arcabou\u00e7o cr\u00edtico que n\u00e3o contemplam os interst\u00edcios de sua diegese, a partir dos \u201cpequenos encontros\u201d dotados ou n\u00e3o de sil\u00eancio e das potencialidades dos personagens secund\u00e1rios, que fazem parte de uma grande rede de possibilidades. Atente-se para o fato de que estes aspectos supracitados, comum nas tr\u00eas narrativas postas para an\u00e1lise, nunca foram estudados, o que refor\u00e7a a originalidade da tem\u00e1tica que se pretende aqui investigar.<\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]<strong>\u00a0S\u00edlvia Jussara Barbosa dos Santos Domingos<\/strong><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span>[\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>Voz e Sil\u00eancio: os gritos dos subalternos no testemunho de Nava em Galo das Trevas<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Doutoranda: S\u00edlvia Jussara Barbosa dos Santos Domingos<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Orientadora: Profa. Dra. Geralda Medeiros N\u00f3brega<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Campina Grande \u2013 2018<\/span><\/p>\n<p><b>RESUMO<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Pedro Nava \u00e9 um autor da contemporaneidade que se especializou no texto autobiogr\u00e1fico. M\u00e9dico de profiss\u00e3o escreveu suas lembran\u00e7as no g\u00eanero memorial\u00edstico como um escape terap\u00eautico: \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">escrever mem\u00f3rias \u00e9 libertar-se, \u00e9 fugir. Temos dois terrores, a lembran\u00e7a do passado e o medo do futuro. Pelo menos um, a lembran\u00e7a do passado, \u00e9 anulado pela catarse de pass\u00e1-la para o papel<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d. (NAVA, 2012, p. 7. <\/span><b>Ba\u00fa de Ossos<\/b><span style=\"font-weight: 400\">). Nava come\u00e7ou a escrever suas mem\u00f3rias perto dos 65 anos, quando estava quase se aposentando da medicina, o reumatologista de sucesso come\u00e7ou a escrever no dia 1\u00ba de fevereiro de 1968 at\u00e9 o seu suic\u00eddio, em 13 de maio de 1984, aos 81 anos de idade. Pedro Nava nasceu em Juiz de Fora em 1903 e obteve reconhecimento liter\u00e1rio a partir de 1972, com o in\u00edcio da publica\u00e7\u00e3o de suas mem\u00f3rias, pelas quais recebeu diversos pr\u00eamios. Publicou, em sequ\u00eancia, os volumes Ba\u00fa de Ossos; Bal\u00e3o Cativo; Ch\u00e3o de Ferro; Beira-Mar; Galo das Trevas e C\u00edrio Perfeito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Propomos investigar, sob a \u00f3tica da teoria da literatura de testemunho, em que medida o testemunho de Pedro Nava, relatado pelas mem\u00f3rias do narrador Egon, durante os acontecimentos da Revolu\u00e7\u00e3o de 30 traduzem, apresentam e representam as vozes sociais dos esquecidos, silenciados, v\u00edtimas e sobreviventes dessa cena traum\u00e1tica. A escolha da obra, Galo das Trevas, se justifica por trazer, entre tantas, umas das cenas revolucion\u00e1rias da nossa hist\u00f3ria, a Revolu\u00e7\u00e3o de 30, que deixou marcas \u201cindel\u00e9veis\u201d em sua gera\u00e7\u00e3o, principalmente na sociedade do campo, onde Nava exercia a medicina.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Baseamo-nos nas seguintes hip\u00f3teses para desenvolvermos a investiga\u00e7\u00e3o acerca da tem\u00e1tica:<\/span><\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Acreditamos que o n\u00facleo do narr\u00e1vel, nas mem\u00f3rias, equivale \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, da\u00ed que o autor Nava e o narrador alter ego Egon, em Galo das trevas, problematizam a no\u00e7\u00e3o de identidade da pr\u00f3pria voz narrativa;<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Segundo Diane Klinger, a autobiografia \u00e9 uma \u201cfic\u00e7\u00e3o de si\u201d. Pressupomos que Nava, ao mudar o foco narrativo na segunda parte da obra cria um romance da sua vida;<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Atrav\u00e9s da evoca\u00e7\u00e3o de suas mem\u00f3rias, o autor d\u00e1 voz \u00e0 multid\u00e3o silenciada e esquecida do passado, mas tamb\u00e9m assume a sua pr\u00f3pria voz;<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Ao assumir sua voz assume tamb\u00e9m o testemunho, aquilo que presenciou e que trouxe um dano a si e aos outros. Esse testemunho \u00e9 evocado, na obra, como uma forma de indeniza\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas e sobreviventes, mas \u00e9, tamb\u00e9m, uma reflex\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o da identidade dos grupos sociais envolvidos e do pr\u00f3prio narrador; \u00a0<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Em toda obra autobiogr\u00e1fica, conforme alguns estudos atuais que tratam da \u201cvolta do autor\u201d, o narrador pretende falar de fatos ocorridos consigo e n\u00e3o escapa de sugerir, ao leitor, uma imagem de si, imagem que \u00e9 constru\u00edda no ato mesmo de se relatar as mem\u00f3rias. Sendo assim, na primeira parte da obra em que o autor se faz narrador personagem, h\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o de um ethos que corrobora para a identidade desse narrador;<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">A evoca\u00e7\u00e3o memorial\u00edstica e testemunhal dos acontecimentos durante a Revolu\u00e7\u00e3o de 30 poder\u00e1 explicitar em que medida tal fato marcou a vida do autor e de outros sobreviventes relembrados na obra;<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">A autobiografia, especificamente as Mem\u00f3rias, como espa\u00e7o liter\u00e1rio para a evoca\u00e7\u00e3o de eventos do passado, quando posto sob a \u00f3tica da teoria da Literatura de Testemunho pode se constituir num campo de subjetividade tamb\u00e9m, n\u00e3o de uma subjetividade individual da viv\u00eancia, mas do \u201ceu\u201d coletivo da testemunha. Nava n\u00e3o fala s\u00f3, n\u00e3o relata s\u00f3, na voz do autor h\u00e1 a uni\u00e3o de outras vozes que testemunham e que tamb\u00e9m vivenciaram o evento, a cena.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nossa tese \u00e9 que as mem\u00f3rias de Pedro Nava, em Galo das Trevas, traduzem, apresentam e representam, de forma testemunhal, as vozes sociais dos esquecidos e silenciados, bem como a dele mesmo, como maneira de requerimento indenit\u00e1rio e de constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria desses vitimados e sobreviventes da Revolu\u00e7\u00e3o de 30. Ao se utilizar do alter ego Jos\u00e9 Egon, como narrador da segunda parte da obra, o autor cria uma problem\u00e1tica que traduz o seguinte: \u00e9 Egon as vozes un\u00edssonas dos sobreviventes \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o e marcados por ela, e, ao mesmo tempo, \u00e9 a voz do pr\u00f3prio Nava como a voz-testemunhal que denuncia os efeitos do evento e conta uma parte da hist\u00f3ria do Brasil. Ambas se unem para trazer de volta o sil\u00eancio dos corpos marcados pela Revolu\u00e7\u00e3o e que agora gritam sua dor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim, tra\u00e7amos o seguinte objetivo geral: investigar na obra Galo das Trevas, quinto volume das autobiografias de Pedro Nava, como mem\u00f3rias e testemunhos podem trazer para o presente as vozes sociais, antes silenciadas e esquecidas, para denunciar os traumas vivenciados durante a Revolu\u00e7\u00e3o de 30, no Brasil pr\u00e9-ditadura militar, e requererem indeniza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do texto liter\u00e1rio, assim como reconstru\u00edrem sua identidade burlada. Deste, extra\u00edmos os seguintes espec\u00edficos:<\/span><\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Discorrer sobre alguns aspectos do g\u00eanero memorial\u00edstico, a teoria da literatura de testemunho, e a concep\u00e7\u00e3o de arte enquanto partilha da \u00e9tica e da est\u00e9tica;<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Analisar como se apresentam as vozes coletivas e a voz do pr\u00f3prio autor para testemunhar situa\u00e7\u00f5es do passado que eventuaram traumas;<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Apresentar de que forma as mem\u00f3rias e o teor testemunhal, na obra, produzem meios de requerimento indenit\u00e1rios aos sobreviventes de um evento traum\u00e1tico do passado;<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Comprovar que atrav\u00e9s da escrita de si e dos outros, o narrador assume o que fala, d\u00e1 voz ao silenciado e, assim, constr\u00f3i, de maneira <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">subjetivamente <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">coletiva, a identidade sua e a dos outros;<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Postular que as mem\u00f3rias de Nava e o teor testemunhal na obra Galo das Trevas, entre tantos aspectos, realizam no autor e no leitor uma catarse e uma mudan\u00e7a interior para uma nova leitura acerca da Revolu\u00e7\u00e3o de 30.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Fundamentamos, inicialmente, o trabalho de pesquisa nos autores dispostos nos cap\u00edtulos a seguir, de maneira provisoriamente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">INTRODU\u00c7\u00c3O<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CAP\u00cdTULO 1- As Mem\u00f3rias Liter\u00e1rias como aporte para as escritas de si e do outro<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">1.1 Contextualiza\u00e7\u00e3o dos sete volumes de mem\u00f3rias de Pedro Nava<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">1.2 \u00a0As escritas de si e as mem\u00f3rias como o grande espet\u00e1culo de si (Paula Sibilia, Diane Klinger, Guy Debord, entre outros)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">1.3 \u2013 O narrar-se a si mesmo como lugar de transgress\u00e3o<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">1.4 A geograficidade como constitui\u00e7\u00e3o do eu nas mem\u00f3rias de Nava (Marandola e Grat\u00e3o \u2013 Geografia e Literatura, Deleuze e Guattari \u2013 Mil Plat\u00f4s, entre outros)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CAP\u00cdTULO 2 \u2013 O Teor Testemunhal em Egon: o narrador que presenciou a cena do trauma<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">2.1 \u2013 A constitui\u00e7\u00e3o do narrador memorial\u00edstico de voz terceira (Maria L\u00facia Dal Farra)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">2.2 \u2013 O Eu-Outro que se desterritorializa<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">2.3 \u2013 Literatura de testemunho e mem\u00f3rias que testemunham (Seligmann-Silva e Maur\u00edcio Halbwachs)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">2.4 \u2013 Hist\u00f3ria e Revolu\u00e7\u00e3o nas mem\u00f3rias de Galo das Trevas e O C\u00edrio Perfeito (Decca e outros)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CAP\u00cdTULO 3 \u2013 Vozes que gritam un\u00edssonas: Nava e os silenciados<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">3.1 &#8211; \u00a0Ditos e n\u00e3o-ditos, sil\u00eancio e discursos polif\u00f4nicos ( Bakhtin, Walter Benjamin, Paul Ricoeur)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CAP\u00cdTULO 4 \u2013 Identidades Burladas que se (re)constituem<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">4.1 As vozes dos subalternos na obra e seu duelo com a voz de Nava<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Metodologicamente, este trabalho prop\u00f5e uma investiga\u00e7\u00e3o, antes bibliogr\u00e1fica, para a constata\u00e7\u00e3o e confronto do que se tem percebido nos estudos anteriores acerca das Escritas de si \u2013 mem\u00f3rias, di\u00e1rios, autobiografias, etc \u2013 e da Literatura de Testemunho como teoria de base para a pesquisa. Pretendemos analisar o que, teoricamente, j\u00e1 se tem postulado. Contudo, propomos, a partir do que observarmos, um caminho pr\u00f3prio para a constru\u00e7\u00e3o e defesa da tese em Galo das Trevas, de Pedro Nava. Esta investiga\u00e7\u00e3o pretende-se, ent\u00e3o, a uma pesquisa qualitativa e bibliogr\u00e1fica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Usaremos, nesta atividade investigativa, os pressupostos te\u00f3ricos das Escritas de si e da Literatura de Testemunho. A abordagem se dar\u00e1 no cruzamento entre o g\u00eanero Mem\u00f3rias e o Testemunho. O <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">corpus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> se configura no g\u00eanero autobiogr\u00e1fico, quinto volume das mem\u00f3rias de Pedro Nava, Galo das Trevas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Provemo-nos das hip\u00f3teses citadas no in\u00edcio deste projeto e que devam contribuir como categorias para a averigua\u00e7\u00e3o da tem\u00e1tica na obra. <\/span><\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ADORNO, Theodor W. <\/span><b>Notas de Literatura I<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2003<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BENJAMIM, Walter. <\/span><b>Discursos Interrompidos I<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Madrid: Taurus Ediciones, 1982<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CYTRYNOWICZ, Roney. <\/span><b>O Sil\u00eancio do sobrevivente<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: di\u00e1logos e rupturas entre mem\u00f3ria e hist\u00f3ria do Holocausto. In: Hist\u00f3ria, Mem\u00f3ria, Literatura: o testemunho na era das cat\u00e1strofes. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">COMPAGNON, Antoine. <\/span><b>O dem\u00f4nio da teoria<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: literatura e senso comum. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DECCA, Edgar de. <\/span><b>1930 \u2013 O sil\u00eancio dos vencidos<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: mem\u00f3ria, hist\u00f3ria e revolu\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Editora Brasiliense, 1994<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DELEUZE, Gilles. <\/span><b>Cr\u00edtica e Cl\u00ednica<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 1997<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DISCINI, Norma. <\/span><b>Ethos e Estilo<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. In: MOTA, Ana Raquel e SALGADO, Luciana (org.). <\/span><b>Ethos Discursivo<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Editora Contexto, 2011<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">GINZBURG, Jaime. <\/span><b>Linguagem e trauma na escrita do testemunho<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. In: SALGUEIRO, Wilberth (org.). O Testemunho na literatura \u2013 representa\u00e7\u00f5es de genoc\u00eddios, ditadura e outras viol\u00eancias. Vit\u00f3ria: Edufes, 2011<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">HALBWACHS, Maurice. <\/span><b>A mem\u00f3ria coletiva<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Centauro, 2006<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">KLINGER, Diana Irene. <\/span><b>Escritas de si, Escritas do outro<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: o retorno do autor e a virada etnogr\u00e1fica. Rio de Janeiro: 7letras, 2007<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MAINGUENEAU, Dominique. <\/span><b>Discurso Liter\u00e1rio<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Trad. Adail Sobral.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">S\u00e3o Paulo: Contexto, 2009.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NAVA, Pedro. <\/span><b>Galo das Trevas<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: as doze velas imperfeitas. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2014<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ROSSI, Paolo. <\/span><b>O passado, a mem\u00f3ria, os esquecimento<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: seis ensaios da hist\u00f3ria das ideias. S\u00e3o Paulo: Unesp, 2010<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SARTRE, Jean-Paul. <\/span><b>Que \u00e9 Literatura<\/b><span style=\"font-weight: 400\">? S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 2004<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SELIGMANN-SILVA, M\u00e1rcio. <\/span><b>O local da diferen\u00e7a:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> ensaios sobre mem\u00f3ria, arte, literatura e tradu\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Ed. 34, 2005<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______. <\/span><b>Reflex\u00f5es sobre a mem\u00f3ria, a hist\u00f3ria e o esquecimento<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. In: Hist\u00f3ria, Mem\u00f3ria, Literatura: o testemunho na era das cat\u00e1strofes. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______. <\/span><b>O Testemunho: entre a fic\u00e7\u00e3o e o \u201cReal\u201d.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> In: Hist\u00f3ria, Mem\u00f3ria, Literatura: o testemunho na era das cat\u00e1strofes. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SIBILIA, Paula. <\/span><b>O show do eu<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: a intimidade como espet\u00e1culo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008<\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<strong>Val\u00e9cio Irineu Barros<\/strong> [\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b>PADR\u00d5ES DE AGENCIAMENTOS SUBJETIVOS <\/b><b>NOS ROMANCES DA ESCRITORA NIGERIANA\u00a0<\/b><b>CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Val\u00e9cio Irineu Barros<\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2217<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dra. Francisca Zuleide Duarte de Souza (orientadora)<\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2217\u2217<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">PALAVRAS-CHAVE: P\u00f3s-Colonial. Adichie. Identidade. Agenciamento Subjetivo. <\/span><\/p>\n<p><b>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Inserida no campo dos Estudos Culturais e P\u00f3s-Coloniais sobre a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria africana, particularmente a angl\u00f3fona, esta pesquisa busca refletir sobre processos de representa\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria e agenciamentos subjetivos na obra de Chimamanda Ngozi Adichie, escritora que retrata a luta e a resist\u00eancia contra a heran\u00e7a colonial numa ex-col\u00f4nia de ocupa\u00e7\u00e3o\/invas\u00e3o da \u00c1frica Ocidental, a Nig\u00e9ria, convulsionada por revolu\u00e7\u00f5es, conflitos \u00e9tnicos e por uma malfadada guerra de secess\u00e3o (a Guerra de Biafra).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com base em um recorte nos Estudos de Constru\u00e7\u00e3o da Identidade\/Subjetividade, a partir de uma experi\u00eancia de ex\u00edlio dom\u00e9stico e\/ou exterior, ser\u00e3o analisados os romances:\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Purple Hibiscus \/ Hibisco Roxo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2003), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Half of a Yellow Sun \/ Meio Sol Amarelo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2006) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Americanah<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2013), com foco no papel da viv\u00eancia em n\u00facleos da fam\u00edlia extensa ou outros tipos de configura\u00e7\u00e3o familiar como etapa fundamental no processo de constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria\/agenciamento subjetivo de personagens que transitam da \u00a0familiar nuclear para uma integra\u00e7\u00e3o na comunidade cultural e nacional.<\/span><\/p>\n<p><b>OBJETIVO<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A pesquisa defende a tese de que nos romances que constituem seu corpus de an\u00e1lise, a constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria das personagens costuma se dar atrav\u00e9s de um processo de afastamento progressivo do c\u00edrculo familiar, inicialmente para um n\u00facleo da fam\u00edlia extensa e\/ou outro tipo de configura\u00e7\u00e3o familiar e, finalmente, rumo a uma (re)integra\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade nacional (nigeriana).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse sentido, seu objetivo principal\u00a0\u00e9 rastrear os padr\u00f5es deste percurso,\u00a0\u00a0de modo a responder \u00e0 seguinte pergunta: como se d\u00e1 o processo de constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria\/agenciamento subjetivo nos romances da escritora Chimamanda Ngozi Adichie?<\/span><\/p>\n<p><b>METODOLOGIA<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A fim de identificar as etapas do processo supracitado, esta pesquisa parte de um enfoque p\u00f3s-colonial e utiliza o m\u00e9todo bibliogr\u00e1fico, al\u00e9m de lan\u00e7ar m\u00e3o de conceitos como literatura menor, desterritorializa\u00e7\u00e3o, devir e agenciamento subjetivo (Deleuze &amp; Guattari); deslocamento cultural e movimenta\u00e7\u00e3o diasp\u00f3rica (Bhabha); comunidades imaginadas (Anderson); cultura (Eagleton; Bauman) e identidade (Hall; Bauman). <\/span><\/p>\n<p><b>AN\u00c1LISE E DISCUSS\u00c3O DOS RESULTADOS<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Embora se encontre numa fase preliminar, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel identificar alguns movimentos de constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria\/agenciamento subjetivo nas obras estudadas, a saber:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No romance inaugural de Chimanda Ngozi Adichie, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Purple Hibiscus \/ O Hibisco Roxo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u2013 a protagonista (Kambili Achike) encontra em um n\u00facleo de sua fam\u00edlia extensa (a casa de sua tia Ifeoma), a base para sua constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria antes de se (re)integrar em sua comunidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um processo semelhante se d\u00e1 em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Half of a Yellow Sun \/ Meio Sol Amarelo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u2014 romance que constitui o principal objeto de an\u00e1lise dessa pesquisa \u2014 uma vez que tanto Ugwu, quanto Olana vivenciam etapas em outros n\u00facleos fora da fam\u00edlia original, antes de se integrar a um projeto comunit\u00e1rio maior (A Rep\u00fablica de Biafra). Olana quando vive com os tios no norte do pa\u00eds e, posteriormente, com Odenigbo e Baby. Ugwu, quando passa a viver em Nsukka como criado de Odenigbo e, posteriormente, de Olana e Baby.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Finalmente, em seu \u00faltimo romance, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Americanah<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Ifemelu e Obinze passam por comunidades diferentes: ela, quando vai morar com a tia e depois sozinha, nos Estados Unidos; ele passa va viver e trabalhar na Inglaterra como clandestino. S\u00f3 depois de experimentarem essas viv\u00eancias e reconfigurar suas subjetividades, estas personagens se (re)integram \u00e0 comunidade nacional nigeriana.<\/span><\/p>\n<p><b>CONCLUS\u00d5ES PROVIS\u00d3RIAS<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A obra de Chimamanda Ngozi Adichie se insere claramente no que Deleuze &amp; Guattari (2014) classificam como literatura menor, que n\u00e3o deve ser entendida no sentido pejorativo de literatura produzida em uma \u201cl\u00edngua menor\u201d ou \u201cmenos favorecida\u201d, mas antes como \u201co que uma minoria faz em uma l\u00edngua maior\u201d (p. 35), no caso espec\u00edfico de Chimamanda Ngozi Adichie, o que uma escritora africana faz dentro de uma tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria angl\u00f3fona, a partir de uma comunidade perif\u00e9rica e p\u00f3s-colonial, a Nig\u00e9ria. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A an\u00e1lise, em fase preliminar, aponta na dire\u00e7\u00e3o da tese proposta pela pesquisa, uma vez que as personagens, atrav\u00e9s de v\u00e1rios processos de desterritorializa\u00e7\u00e3o e reterritorializa\u00e7\u00e3o, v\u00e3o reconfigurando suas identidades\/subjetividades. Entretanto, a confirma\u00e7\u00e3o da hip\u00f3tese central, depender\u00e1 de um estudo mais aprofundado e sistem\u00e1tico, a ser desenvolvido nos pr\u00f3ximos dois anos.<\/span><\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ACHEBE, Chinua. <\/span><b><i>Things Fall Apart<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. New York: Penguin, 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_____________. <\/span><b><i>There was a country: a memoir<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. New York: Penguin, 2013.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ADICHIE, Chimamanda Ngozi. <\/span><b><i>Half of a Yellow Sun<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. New York: Anchor Books, 2006.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">__________ <\/span><b><i>Meio Sol Amarelo<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. (Trad.) Beth Vieira. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">__________ <\/span><b><i>Purple Hibiscus<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Chapel Hill, North Carolina: Algonquin Books, 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">__________ <\/span><b><i>Hibisco Roxo.<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\"> (Trad.) Julia Romeu. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">__________ <\/span><b><i>Americanah<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. New York: Anchor Books, 2014.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">__________ <\/span><b><i>Americanah<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. (Trad.) Julia Romeu. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">__________ <\/span><b><i>The Thing Around Your Neck<\/i><\/b><b>.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> New York: Anchor Books, 2009.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">__________ <\/span><b>African \u201cAuthenticity\u201d and the Biafran\u00a0Experience<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Transitions, n\u00b0 99, pp. 42-53, 2008.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">__________ <\/span><b><i>We Should All Be Feminists<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. New York: Anchor Book, 2014.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">__________ <\/span><b><i>Sejamos Todos Feministas<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. \u00a0(Trad.) Christina Baum. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2015.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">AKUBUIRO, Henry. <\/span><b>Digging\u00a0into the palimpsest: Chimamanda Ngozi Adichie\u00a0and the Nigerian tradition in literature<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Dispon\u00edvel \u00a0em:\u00a0<\/span><a href=\"http:\/\/www.igbofocus.co.uk\/Chimamanda_Ngozi_Adichie\/chimamanda_ngozi_a\"><span style=\"font-weight: 400\">http:\/\/www.igbofocus.co.uk\/Chimamanda_Ngozi_Adichie\/chimamanda_ngozi_a<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">dichie.html#Digging-into-the-Palimpsest . Acesso em 07\/07\/2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">AMADIUME, Ifi. <\/span><b><i>Male daughters, female husbands: gender and sex in African\u00a0Society<\/i><\/b><i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> London and New Jersey: Zed Books, 1998.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ANDERSON, Benedict. <\/span><b><i>Comunidades imaginadas: reflex\u00f5es sobre a origem e a difus\u00e3o do nacionalismo<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. (Trad.) Denise Bottman. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ANDRADE, Susan Z. \u201c<\/span><b>Adichie\u2019s Genealogies: \u00a0National and Feminine novels<\/b><span style=\"font-weight: 400\">.\u201d In: \u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Research in African Studies<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Vol. 42, N. 2, pp. 91-101, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ANYOKWU, Cristopher. \u00a0<\/span><b>\u201cIgbo rhetoric \u00a0and \u00a0new \u00a0Nigerian \u00a0novel: \u00a0Chimamanda \u00a0Ngozi\u00a0Adichie\u2019s <\/b><b><i>Purple Hibiscus<\/i><\/b><b>.\u201d <\/b><span style=\"font-weight: 400\">In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The African Symposium<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. v. 11, n. 1, June 2011. \u00a0Dispon\u00edvel em: &lt;<\/span><a href=\"http:\/\/www.l3.ulg.ac.be\/adichie\/cnasecond.html\"><span style=\"font-weight: 400\">http:\/\/www.l3.ulg.ac.be\/adichie\/cnasecond.html<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">&gt;.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">APPIAH, Kwame Anthony. <\/span><b><i>Na Casa de Meu Pai<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">: <\/span><b><i>A \u00c1frica na filosofia da cultura<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. (Trad.) Vera Ribeiro. (Rev. e Trad.) Fernando Rosa Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ASHCROFT, Bill; GRIFFITHS, Gareth &amp; TIFFIN, Helen.\u00a0<\/span><b><i>The Empire writes back:\u00a0theory and practice of post-colonial literatures<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 2<\/span><span style=\"font-weight: 400\">nd<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> ed.\u00a0New York: Routledge, 2002.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">__________. <\/span><b><i>Post-Colonial Studies: the key concepts<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. London and New York: Routledge, 2004.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">__________ . (eds.)<\/span><b><i>The Post-Colonial Studies Reader<\/i><\/b><b>.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> London and New York: Routledge, 2005.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BHABHA, Homi. <\/span><b><i>O Bazar Global e o Clube dos Cavalheiros Ingleses \u2013 textos seletos<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. (Org.) Eduardo F. Coutinho. (Trad.) Teresa Dias Carneiro. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">____________. <\/span><b><i>O Local da Cultura<\/i><\/b><b>.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> (Trads.) Myriam \u00c1vila et al. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BOAHEN, Albert Adu (Orgs.).\u00a0<\/span><b><i>Hist\u00f3ria geral da \u00c1frica, VII<\/i><\/b><b>: \u00c1frica sob domina\u00e7\u00e3o colonial, 1880-1935<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Bras\u00edlia: UNESCO, 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BONNICI, Thomas. \u00a0<\/span><b>\u201cP\u00f3s-colonialismo \u00a0e \u00a0representa\u00e7\u00e3o \u00a0feminina \u00a0na \u00a0literatura\u00a0<\/b><b><br \/>\n<\/b><b>p\u00f3s-colonial em ingl\u00eas\u201d.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> In: Revista Maring\u00e1, v. 28, n.1, pp.13-25, 2006.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_______________. <\/span><b>\u201cAvan\u00e7os e ambiguidades do p\u00f3s-colonialismo no s\u00e9culo 21\u201d.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">L\u00e9gua &amp; Meia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: revista de literatura e diversidade cultural, v. 4, n. 3, pp. 186-202, 2005. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CANCLINI, Nestor Garc\u00eda. <\/span><b><i>Culturas h\u00edbridas<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">: <\/span><b><i>estrat\u00e9gias para entrar e sair da modernidade<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 4\u00aa ed. (Trad.) Ana Regina Lessa e Helo\u00edsa Pezza Cintr\u00e3o. (Trad. da Introd.) G\u00eanese Andrade. S\u00e3o Paulo: Edusp, 2015.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">__________ <\/span><b><i>Latino-americanos \u00e0 procura de um lugar neste s\u00e9culo<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. (Trad.) S\u00e9rgio Molina. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DELEUSE, Gilles. <\/span><b><i>Conversa\u00e7\u00f5es<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 3\u00aa ed. (Trad.) Peter P\u00e1l Pelbart. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2013.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DELEUSE, Gilles \u00a0&amp; GUATTARI, F\u00e9lix. <\/span><b><i>O Anti-\u00c9dipo<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">: Capitalismo e esquizofrenia 1. 2\u00aa ed. (Trad.) Luiz B. L. Orlandi. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">___________. <\/span><b><i>Mil Plat\u00f4s: Capitalismo e esquizofrenia 2. Vol. 1<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 2\u00aa ed. (Trad.) Ana L\u00facia de Oliveira, Aur\u00e9lio Guerra Neto e Celia Pinto Costa. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">___________. <\/span><b><i>Mil Plat\u00f4s: Capitalismo e esquizofrenia 2. Vol. 2<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 2\u00aa ed. (Trad.) Ana L\u00facia de Oliveira e L\u00facia Cl\u00e1udia Le\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">___________. <\/span><b><i>Mil Plat\u00f4s: Capitalismo e esquizofrenia 2. Vol. 3<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 2\u00aa ed. (Trad.) Aur\u00e9lio Guerra Neto, Ana L\u00facia de Oliveira, L\u00facia Cl\u00e1udia Le\u00e3o e Suely Rolnik. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">___________. <\/span><b><i>Mil Plat\u00f4s: Capitalismo e esquizofrenia 2. Vol. 4<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 2\u00aa ed. (Trad.) Suely Rolnik. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">___________. <\/span><b><i>Mil Plat\u00f4s: Capitalismo e esquizofrenia 2. Vol. 5<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 2\u00aa ed. (Trad.) Peter P\u00e1l Pelbart e Janice Caiafa. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">___________. <\/span><b><i>Kafka: por uma literatura menor<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. (Trad.) J\u00falio Casta\u00f1on Guimar\u00e3es. Rio de Janeiro: Imago, 1977.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">EAGLETON, Terry. <\/span><b><i>A ideia de cultura<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 2\u00aa ed. (Trad.) Sandra Castello Branco. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">EZEIGBO, Theodora Akachi. \u201c<\/span><b>Traditional Women\u2019s \u00a0Institutions \u00a0in \u00a0Igbo Society<\/b><span style=\"font-weight: 400\">.\u201d In: African Languages and Cultures. Vol. 3, N\u00b0 2, p. 149-165, 1990. Dispon\u00edvel\u00a0em: http:\/\/\u00a0<\/span><a href=\"http:\/\/www.jstor.org\/stable\/1771719\"><span style=\"font-weight: 400\">www.jstor.org\/stable\/1771719<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. Acesso<\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0em 21\/03\/2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">FERRO, Marc. <\/span><b><i>Hist\u00f3ria das coloniza\u00e7\u00f5es: das conquistas \u00e0s\u00a0independ\u00eancias,\u00a0s\u00e9culos XIII a\u00a0XX<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Trad. Rosa Freire d\u2019Aguiar. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1996.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">GARCIA, Fl\u00e1vio &amp; MATA, Inoc\u00eancia (Orgs.) <\/span><b><i>P\u00f3s-colonial e p\u00f3s-colonialismo: propriedades e apropria\u00e7\u00f5es de sentido<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Dialogarts Publica\u00e7\u00f5es, 2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">GILROY, Paul. <\/span><b><i>O Atl\u00e2ntico negro: modernidade e dupla consci\u00eancia<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. (Trad.) Cid Knipel Moreira. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">GUATTARI, F\u00e9lix. <\/span><b><i>Caosmose: um novo paradigma est\u00e9tico<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 2\u00aa ed. (Trad.) Ana L\u00facia de Oliveira e L\u00facia Cl\u00e1udia Le\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">HALL, Stuart. \u00a0<\/span><b><i>Da di\u00e1spora: identidades e \u00a0media\u00e7\u00f5es \u00a0culturais<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0Belo Horizonte: Editora, UFMG, 2009.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________ <\/span><b>A identidade cultural na p\u00f3s-modernidade<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. (Trad.) Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 12<\/span><span style=\"font-weight: 400\">a<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2015.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">HAWLEY, John C. \u201c<\/span><b>Biafra as Heritage and Symbol: Adichie, Mbachu and Iweala<\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u201d.\u00a0In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Research in African Literatures<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, v. 39, n 2, p. 15- 26, 2008.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">HOOKS, Bell. <\/span><b><i>Feminist Theory: from Margin to Center<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. London: Pluto Press, 2000.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">HUTCHEON, Linda. <\/span><b><i>Narcissistic narrative<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">: the metafictional paradox. Walterloo, Ontario: Wilfrid Laurier University Press, 2013.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">__________ <\/span><b><i>A poetics of postmodernism<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">: history, theory, fiction. New York: Routledge, 2005.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">__________ <\/span><b><i>A politics of postmodernism<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. New York: Routledge, 2002.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">KRISHNAN, Madhu. <\/span><b>\u201cBiafra and the aesthetics of closure in the third generation\u00a0nigerian \u00a0novel.\u201d<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> \u00a0Rupkatha \u00a0Journal \u00a0on \u00a0Interdisciplinary \u00a0Studies \u00a0in\u00a0 Humanities, \u00a0v. \u00a02, \u00a0n. \u00a02, \u00a0p. \u00a0185-195, \u00a02010. \u00a0Dispon\u00edvel \u00a0em:\u00a0&lt;<\/span><span style=\"font-weight: 400\">http:\/\/rupkatha.com\/V2\/n2\/BiafraandNigerianNovel.pdf<\/span><span style=\"font-weight: 400\">&gt;. \u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400\">Acesso \u00a0em:\u00a015\/07\/2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">LEITE, \u00a0Ana \u00a0Mafalda. \u00a0<\/span><b><i>Literaturas \u00a0africanas \u00a0e \u00a0formula\u00e7\u00f5es \u00a0p\u00f3s-coloniais<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0Lisboa: Colibri, 2003.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MARIANO, H\u00e9lvio Alexandre. \u201c<\/span><b>Reflex\u00f5es acerca do ex\u00edlio, resist\u00eancia e cultura na obra de Edward Said\u201d<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Projeto Hist\u00f3ria<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, revista do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da PUC de S\u00e3o Paulo, n. 50, Dez. 2014, pp. 99-118. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MARTINS, Anderson Bastos. \u201c<\/span><b>Interl\u00fadio: Duas mulheres nigerianas, uma experi\u00eancia privada\u201d<\/b><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revista Olho D\u2019\u00e1gua<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MATTELART, Armand &amp; NEVEU, \u00c9rik. <\/span><b><i>Introdu\u00e7\u00e3o aos Estudos Culturais<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. (Trad.) Marcos Marcionilo. S\u00e3o Paulo: Par\u00e1bola Editoral, 2004.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MIGNOLLO, Walter. <\/span><b><i>Local histories\/Global Designs: coloniality, subaltern knowledges, and border thinking<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Princeton, NJ\u00a0: Princeton University Press, 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_____________. \u00a0<\/span><b><i>Hist\u00f3rias locais\/projetos globais \u00a0\u2013 \u00a0Colonialidade,\u00a0saberes subalternos \u00a0e \u00a0pensamento \u00a0liminar.<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\"> \u00a0Belo Horizonte: \u00a0Editora \u00a0UFMG,\u00a02003.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0NIXON, Charles \u00a0R. \u201c<\/span><b>Self-Determination: \u00a0The \u00a0Nigeria\/Biafra \u00a0Case.\u201d<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> \u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400\">In: \u00a0World\u00a0Politics, \u00a0Vol. 24, N.4, \u00a0pp. 473-497, \u00a01972. \u00a0Dispon\u00edvel \u00a0em:\u00a0http:\/<\/span><span style=\"font-weight: 400\">www.jstor.org\/stable\/2010453<\/span><span style=\"font-weight: 400\">. Acesso em 21\/03\/2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NORRIDGE, \u00a0Zoe. \u00a0<\/span><b>\u201cSex \u00a0as \u00a0Synecdoche: \u00a0intimal \u00a0Languages \u00a0of \u00a0violence \u00a0in\u00a0Chimamanda Ngozi Adichie\u2019s <\/b><b><i>Half \u00a0of \u00a0a \u00a0yellow \u00a0sun<\/i><\/b><b> \u00a0and \u00a0Aminatta \u00a0Forna\u2019s \u00a0<\/b><b><i>The\u00a0Memory of love<\/i><\/b><b>\u201d<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Research in African Literatures<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, v. 43, n. 2, p. 18-39, 2012.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NOVAK, Amy. <\/span><b>\u201cWho Speaks? Who \u00a0Listens?: \u00a0The \u00a0problem \u00a0of Address \u00a0in \u00a0Two\u00a0Nigerian Trauma Novels.\u201d<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> \u00a0In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Studies in the Novel<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, vol.40, N. 1&amp;2, p. 31-51, 2008. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">OGWUDE \u00a0Sophia. \u00a0<\/span><b>\u201cHistory \u00a0and \u00a0ideology \u00a0in \u00a0Chimamanda \u00a0Adichie\u2019s \u00a0fiction.\u201d<\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400\">In: Tydskrifvir Letterkunde, V. 41, N. 1, p. 110-123, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">OKUYADE, \u00a0Ogaga. <\/span><b>\u201cWeaving memories \u00a0of \u00a0childhood: \u00a0the \u00a0new \u00a0Nigerial \u00a0novel\u00a0and \u00a0the \u00a0genre \u00a0of \u00a0the \u00a0Bildugsroman.\u201d<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> \u00a0In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ariel<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, \u00a0v. \u00a041.3, \u00a0n. \u00a04, \u00a0p. \u00a0137-152, \u00a0outubro,\u00a02010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O\u2019REILLY, Christopher. <\/span><b><i>Post-Colonial Literature<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2001.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ROSEVICS, Larissa. <\/span><b>\u201cDo p\u00f3s-colonial \u00e0 decolonialidade\u201d.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> In: Di\u00e1logos Internacionais [Blog]. 28 de novembro de 2014. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.dialogosinternacionais.com.br\/2014\/11\/do-pos-colonial-decolonialidade.html&gt; Acesso em 20 de setembro de 2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SAID, Edward W. <\/span><b><i>Cultura e Imperialismo<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. (Trad.) Denise Bottmann. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">___________. <\/span><b><i>Culture and Imperialism<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. New York: Vintage Books, 1994.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">___________. <\/span><b><i>Orientalism<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. London: Penguin, 2003.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">____________. <\/span><b><i>Orientalismo<\/i><\/b><b>: <\/b><b><i>O Oriente como inven\u00e7\u00e3o do Ocidente<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. (Trad.) Rosaura Eichenberg. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">____________. <\/span><b><i>Reflex\u00f5es sobre o ex\u00edlio e outros ensaios<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2003.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SANTOS, Jo\u00e3o B\u00f4sco Cabral dos. (Org.) <\/span><b><i>Sujeito e subjetividade<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">: <\/span><b><i>discursividades contempor\u00e2neas<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Uberl\u00e2ndia, MG: EDUFU, 2009.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SCHIMDT, Rita Tereza. <\/span><b>\u201cMulheres reescrevendo a na\u00e7\u00e3o\u201d.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Estudos feministas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Ano 8. 2000,\u00a0p. 84-97.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SHOHAT, Ella; STAM, Robert.\u00a0<\/span><b><i>Cr\u00edtica da imagem euroc\u00eantrica<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2006.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SHOWALTER, Elaine (ed.) <\/span><b><i>Speaking of Gender<\/i><\/b><b>.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> London and New York: Routledge, 1989.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SILVA, Tomaz Tadeu da. (Org.) <\/span><b><i>Identidade e diferen\u00e7a: a perspectiva dos Estudos Culturais<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. 15<\/span><span style=\"font-weight: 400\">a<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> ed. Petr\u00f3polis, RJ: Vozez, 2014.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SPIVAK, Gayatri. <\/span><b><i>Pode o Subalterno Falar?<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\"> (Trads.) Sandra Regina Goulart, Marcos Pereira Feitosa e Andr\u00e9 Pereira Feitosa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______________. <\/span><b>\u201cQuem reivindica alteridade?\u201d<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de.\u00a0<\/span><b><i>Tend\u00eancias e impasses: o feminismo como cr\u00edtica da cultura<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: s.n. 1994. pp. 187-205.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______________.\u00a0<\/span><b><i>Cr\u00edtica de la raz\u00f3n poscolonial<\/i><\/b><b>: hacia una historia del presente evanescente.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Madrid: Akal, 1999.<\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[wptabtitle]\u00a0<strong>Yolanda Maria da Silva<\/strong>[\/wptabtitle]<br \/>\n[wptabcontent]<\/p>\n<p><b>IMAGINA\u00c7\u00c3O CRIATIVA EM <\/b><b><i>MACUNA\u00cdMA<\/i><\/b><b>, DE M\u00c1RIO DE ANDRADE: AN\u00c1LISE MITOCR\u00cdTICA <\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Yolanda Maria da Silva<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">yolandamariadasilva@yahoo.com.br<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O projeto de doutorado \u201cImagina\u00e7\u00e3o Criativa em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Macuna\u00edma<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de M\u00e1rio de Andrade: an\u00e1lise mitocr\u00edtica\u201d \u00e9 uma proposta de desdobramento da pesquisa de mestrado, intitulada \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Macuna\u00edma<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: uma an\u00e1lise mitocr\u00edtica\u201d (2012), orientada pelo Prof. Dr. S\u00e9bastien Joachim, no Programa de P\u00f3s- Gradua\u00e7\u00e3o em Literatura e Interculturalidade \u2013 PPGLI. O objetivo deste trabalho de desdobramento \u00e9 saber se na obra de M\u00e1rio de Andrade h\u00e1 uma redund\u00e2ncia sem\u00e2ntica de mitos que cerceiam objetivamente o Regime Noturno da imagem na <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">estrutura sint\u00e9tica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, que demonstrar\u00e1 a forma simb\u00f3lica como a personagem Macuna\u00edma toma os m\u00faltiplos s\u00edmbolos para dar sentido \u00e0 sua exist\u00eancia diante da passagem do tempo e da morte. A forma simb\u00f3lica representada na personagem Macuna\u00edma aponta para a cultura brasileira \u2013 no contexto de M\u00e1rio de Andrade \u2013 e, tamb\u00e9m, reverbera no caos-mundo proferido pela imbrica\u00e7\u00e3o cultural contempor\u00e2nea.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tomamos como base anal\u00edtica a hermen\u00eautica simb\u00f3lica, no texto liter\u00e1rio e nas artes, aplicando a mitocr\u00edtica e a mitan\u00e1lise apresentadas por Gilbert Durand (1988). Ensejamos, tamb\u00e9m, compreender o processo de imagina\u00e7\u00e3o e remitologiza\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio de Andrade na constru\u00e7\u00e3o po\u00e9tica da personagem Macuna\u00edma, pertencente a primeira fase do Modernismo, que tinha como principal projeto est\u00e9tico encontrar o lugar da cultura brasileira diante dos diversos imagin\u00e1rios culturais que se constelaram neste per\u00edodo de \u00e9poca liter\u00e1ria. \u201cNeste sentido, \u00e9 importante enfatizar que \u00e9 atrav\u00e9s da cultura que o imagin\u00e1rio aparece plenamente \u2013 a g\u00eanese do s\u00edmbolo est\u00e1 nas constru\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias culturais\u201d (TURCHI, 2003, p. 31). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Diante desses resultados da pesquisa de mestrado, em que percebemos que a obra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Macuna\u00edma<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> desemboca na Estrutura Antropol\u00f3gica do Regime Noturna da Imagem, h\u00e1 uma imagina\u00e7\u00e3o criativa pautada nos m\u00faltiplos imagin\u00e1rios, evidenciando a necessidade de investigar o seguinte problema: Como se d\u00e1 o processo de imagina\u00e7\u00e3o criativa da personagem Macuna\u00edma para resignificar sua exist\u00eancia diante dos m\u00faltiplos imagin\u00e1rios, da passagem do tempo e da vig\u00eancia da morte? <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para tra\u00e7armos esse questionamento norteador, partimos das hip\u00f3teses de que: a) o Trajeto Antropol\u00f3gico do Regime Noturno da imagem, percebido na pesquisa de mestrado, em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Macuna\u00edma<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, representada o her\u00f3i noturno, libidinal, nefasto, que sucumbe ao niilista; b) esse processo da Imagina\u00e7\u00e3o Criativa que converge na <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">estrutura sint\u00e9tica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> do Regime Noturno da imagem se configura na identidade m\u00faltipla da personagem Macuna\u00edma; c) o processo de Imagina\u00e7\u00e3o Criativa de M\u00e1rio de Andrade \u00e9 precursora da escrita P\u00f3s-Moderna, representando o homem fragmentado, envolto por v\u00e1rios imagin\u00e1rios culturais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nessa perspectiva, nosso projeto defende a tese de que M\u00e1rio de Andrade usa a imagina\u00e7\u00e3o ativa para criar uma narrativa que situa o indiv\u00edduo brasileiro nesse conglomerado de imagin\u00e1rios que converge justamente no Regime Noturno da imagem, na estrutura simb\u00f3lica <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">sint\u00e9tica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, expressando uma narrativa c\u00edclica singular que, de acordo com os estudos defendidos por Gilbert Durand (2002), t\u00eam o objetivo de dar sentido de pertencimento ao ser no mundo que est\u00e1 envolto pelo \u201cnada\u201d e o caos, representando o devir do homem crioulo, utilizando o conceito de \u00c9douard Glissant, ou rizom\u00e1tico, utilizando o conceito de Deleuze e Guattarri, que representa o ser multifacetado do caos-mundo. Diante da fragmenta\u00e7\u00e3o e da aglutina\u00e7\u00e3o desses diversos imagin\u00e1rios, a cultura em que Macuna\u00edma est\u00e1 inserido n\u00e3o consegue ter uma \u201craiz mitol\u00f3gica\u201d hegem\u00f4nica em seu cerne cultural e as imagens s\u00e3o multifacetadas. Desse modo, a raps\u00f3dia representa uma cultura heterog\u00eanea. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sendo assim, nortearemos a tese seguindo os objetivos expostos abaixo: Pesquisar a Imagina\u00e7\u00e3o Criativa e o Trajeto Antropol\u00f3gico na obra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Macuna\u00edma<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: o her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter (1981; 2013), de M\u00e1rio de Andrade, para comprovar que a imbrica\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos imagin\u00e1rios, imagens simb\u00f3licas, lendas, mitos e mitemas fomentaram na personagem Macuna\u00edma uma postura cultural crioula e rizom\u00e1tica, representando o homem que n\u00e3o segue uma cultura \u00fanica como fuga simb\u00f3lica, mas segue o caos-mundo cultural que lhe cerca: imagin\u00e1rio africano, imagin\u00e1rio ind\u00edgena e imagin\u00e1rio europeu, que se constelam na narrativa. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para isso, nos pautamos nos objetivos espec\u00edficos que consistem em: compreender as imagens simb\u00f3licas na obra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Macuna\u00edma<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de M\u00e1rio de Andrade, catalogadas como concernentes ao Regime Noturno da imagem para compreender o Trajeto Antropol\u00f3gico do Imagin\u00e1rio da personagem; delinear uma leitura fenomenol\u00f3gica e hermen\u00eautica das imagens encontradas em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Macuna\u00edma<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">; relacionar as imagens com os mitos e lendas das culturas ind\u00edgena, africana e europeia; identificar qual\/quais mitos se insurge(m) e configuram o caos heterog\u00eaneo das mitologias africana, europeia e ind\u00edgena que delineiam o devir liter\u00e1rio ca\u00f3tico brasileiro; refletir sobre o aspecto da Imagina\u00e7\u00e3o Criativa e remitologiza\u00e7\u00e3o na escritura e na representa\u00e7\u00e3o da personagem Macuna\u00edma, que j\u00e1 aponta, hipoteticamente, para a interculturalidade ou a fragmenta\u00e7\u00e3o do sujeito presente na p\u00f3s-modernidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para a realiza\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise mitodol\u00f3gica do presente projeto, seguiremos uma pesquisa bibliogr\u00e1fica de cunho anal\u00edtico fenomenol\u00f3gico e hermen\u00eautico, tendo como base te\u00f3rica Gilbert Durand (2002; 2001; 1996; 1982). A abordagem metodol\u00f3gica\/mitodol\u00f3gica \u00e9 subdividida em an\u00e1lise <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">mitocr\u00edtica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">mitan\u00e1lise<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: a primeira \u201ccorresponde ao olhar que busca o denotativo; trabalha, portanto, no n\u00edvel do sintagma. A segunda, ao olhar que pesquisa o conotativo; explorando, assim, o paradigma\u201d (STR\u00d4NGOLI, 2003, p.120). Em outras palavras, de forma sincr\u00f4nica, aplicamos a mitocr\u00edtica ao texto liter\u00e1rio, observando seus mitemas e imagens simb\u00f3licas que constituem o paradigma de um mito, para, em seguida, observar diacronicamente a obra em seu contexto hist\u00f3rico, social e cultual, que \u00e9 o m\u00e9todo da mitan\u00e1lise.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Seguindo essas etapas, conhecemos o Trajeto Antropol\u00f3gico da escritura do autor e da cultura pesquisada, que mostram a constela\u00e7\u00e3o de imagens que giram em torno do grande tema universal da natureza humana: o combate simb\u00f3lico contra a passagem do tempo e a morte. Uma vez apreendendo o Trajeto Antropol\u00f3gico do escritor, podemos saber se ele segue o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Regime Diurno<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> ou <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Regime Noturno<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> da imagem, informando significativamente a forma como a cultura ou o indiv\u00edduo encara a vida e suas conting\u00eancias. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse breve percurso e pesquisa, podemos dizer que o autor engajado M\u00e1rio de Andrade, no fervilhar do Modernismo, n\u00e3o representou uma narrativa com cultura hegem\u00f4nica para caracterizar a cultura brasileira, mas buscou agregar elementos de v\u00e1rias culturas, transfigurando os pr\u00f3prios mitos e formas de linguagens vigentes para buscar a experi\u00eancia de uma nova forma de linguagem e imagens simb\u00f3licas que se mostraram totalmente heterog\u00eaneas e ca\u00f3ticas. M\u00e1rio n\u00e3o se prendia a verdades absolutas para delinear sua obra, seu trabalho era de experimenta\u00e7\u00e3o e pesquisa, como afirma: \u201cMinhas reivindica\u00e7\u00f5es? Liberdade. Uso dela; n\u00e3o abuso. Sei embrid\u00e1-las nas minhas verdades filos\u00f3ficas e religiosas (&#8230;) N\u00e3o pretendo obrigar ningu\u00e9m a seguir-me. Costumo andar sozinho\u201d (ANDRADE, 2013, p. 67).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Macuna\u00edma<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, podemos dizer que M\u00e1rio de Andrade criou uma narrativa seguindo a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">estrutura sint\u00e9tica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> do Regime Noturno da imagem, porque buscou transformar a hist\u00f3ria do her\u00f3i da tribo Tapanhumas em uma narrativa m\u00edtica que representasse a identidade do brasileiro. Por meio da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">estrutura<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400\">sint\u00e9tica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, a narrativa se torna um s\u00edmbolo c\u00edclico do indiv\u00edduo que vive o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ethos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> da cultura plural, uma vez que as aventuras do her\u00f3i representam, em suas ambival\u00eancias ben\u00e9ficas e tr\u00e1gicas, o homem inserido na heterogeneidade da cultura brasileira. Ao mostrar isto, M\u00e1rio de Andrade representa, em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Macuna\u00edma<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, a possibilidade de vencer a ang\u00fastia diante dessa situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica e, tamb\u00e9m, a finitude. Sobre esse aspecto, afirma o autor: \u201c- Veja que contradi\u00e7\u00e3o: O homem s\u00f3 vive para morrer. Cria para enfrentar a morte. Diz para mascarar a morte\u201d (ANDRADE <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">apud<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> H\u00dcHNE, 2002, p.86). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na escritura da obra de M\u00e1rio de Andrade, percebe-se uma constela\u00e7\u00e3o de imagens que formam um pante\u00e3o mitol\u00f3gico das culturas ind\u00edgena, africana e europeia que fica dif\u00edcil definir qual o mito regente de nossa cultura ou se h\u00e1 a heterogeneidade mitol\u00f3gica por meio do processo da imagina\u00e7\u00e3o criativa e remitologiza\u00e7\u00e3o dos mitos das diversas culturas que se aglomeraram na po\u00e9tica do Modernismo e propiciaram a M\u00e1rio de Andrade a possibilidade de criar e recriar narrativas para representar a cultura brasileira. Assim, torna-se relevante a contribui\u00e7\u00e3o desta pesquisa, porque almeja propiciar uma possibilidade de leitura da Estrutura Antropol\u00f3gica do Imagin\u00e1rio e da fun\u00e7\u00e3o da Imagina\u00e7\u00e3o Criativa representada da raps\u00f3dia de M\u00e1rio de Andrade, mas primordialmente, na constru\u00e7\u00e3o da personagem de car\u00e1ter singular, ou melhor, sem nenhum car\u00e1ter. <\/span><\/p>\n<p><b>Palavras\u2013Chave: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Imagina\u00e7\u00e3o Criativa; Imagin\u00e1rio; Mitocr\u00edtica; Macuna\u00edma.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ANDRADE, M\u00e1rio de. <\/span><b>Macuna\u00edma<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: o her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter. 18. ed. S\u00e3o Paulo: Marins; Belo Horizonte: Itatiaia; 1981.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______. <\/span><b>Macuna\u00edma<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: o her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DURAND, Gilbert. <\/span><b>As estruturas antropol\u00f3gicas do imagin\u00e1rio<\/b><i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Tradu\u00e7\u00e3o de Helder Godinho. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2002.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">H\u00dcHNE, Leda Miranda. <\/span><b>A est\u00e9tica aberta de M\u00e1rio de Andrade<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: UAP\u00ca, 2002. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">STR\u00d4NGOLI, Maria Thereza. O discurso liter\u00e1rio, o m\u00edtico e o multiculturalismo. In: SANTOS, Dulce O. Amarante dos.; TURCHI, Maria Zaira. <\/span><b>Encruzilhadas do<\/b> <b>imagin\u00e1rio<\/b><span style=\"font-weight: 400\">: ensaios de literatura e hist\u00f3ria. Goi\u00e2nia: C\u00e2none, 2003. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">TURCHI, Maria Zaira. <\/span><b>Literatura e antropologia do imagin\u00e1rio<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Bras\u00edlia: Editora Universit\u00e1ria de Bras\u00edlia, 2003. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">WUNENBURGUER, Jean-Jacques. <\/span><b>O imagin\u00e1rio<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Maur\u00edcio B. Leal e revis\u00e3o de Iranildo B. Lopes. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2017. <\/span><\/p>\n<p>[\/wptabcontent]<\/p>\n<p>[\/wptabs]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resumos Mestrado [wptabs mode=&#8221;horizontal&#8221; type=&#8221;accordion&#8221;] [wptabtitle] Alexis Ouellet-Simard [\/wptabtitle] [wptabcontent] Uma interpreta\u00e7\u00e3o do Mito de S\u00edsifo \u00e0 luz do Bhagavad-G\u012bt\u0101 Mestrando:\u00a0Alexis Ouellet-Simard Orientador: Professor Dr. Eli Brand\u00e3o da Silva Introdu\u00e7\u00e3o No presente projeto de mestrado, partimos de algumas pesquisas que revelam uma liga\u00e7\u00e3o entre a filosofia de Albert Camus e o tratado teol\u00f3gico-filos\u00f3fico hindu Bhagavad-G\u012bt\u0101 <a class=\"leiamais\" href=\"https:\/\/pos-graduacao.uepb.edu.br\/ppgli\/seminario-discente-2018\/\">Leia Mais&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-2446","page","type-page","status-publish","hentry"],"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pos-graduacao.uepb.edu.br\/ppgli\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2446","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pos-graduacao.uepb.edu.br\/ppgli\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/pos-graduacao.uepb.edu.br\/ppgli\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pos-graduacao.uepb.edu.br\/ppgli\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pos-graduacao.uepb.edu.br\/ppgli\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2446"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/pos-graduacao.uepb.edu.br\/ppgli\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2446\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2480,"href":"https:\/\/pos-graduacao.uepb.edu.br\/ppgli\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2446\/revisions\/2480"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pos-graduacao.uepb.edu.br\/ppgli\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2446"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}